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Embora o corpo tenha sido um dos caminhos percorridos por Foucault para elucidar as relações de poder, sua obra não buscou um enunciado específico para ele. Neste caso, justificou que sua formulação enunciativa sobre este estava sujeita aos efeitos do poder, desvinculada, no entanto, da visão seccionada presente tanto no positivismo como no catolicismo (FOUCAULT, 2013, p. 5-8).

Desse modo, defendeu que, diferentemente da escravidão contemporânea, em que se verificava a apropriação do corpo de forma violenta e onerosa, no desenvolvimento urbano-industrial capitalista ocidental (século XVIII) tem início uma nova técnica ao redor dele, pois disciplinas refinadas, que visam a torná-lo mais útil, exercendo uma coerção ininterrupta, passam a valorizar não só o resultado, como também o método exercido para seu controle. Essas formas de controle, sutis,

61 Conforme Bert (2013, p. 19), Foucault recebeu dupla influência do marxismo e da fenomenologia

Merleau-pontyana. Podemos observar alguns pontos em comum com Marx: a denúncia do corpo instrumentalizado pelo capitalismo e a proximidade metodológica evidenciada no recorte espacial e temporal a sociedade industrialista inglesa do século XVIII (FOUCAULT, 2014b). Em Merleau-Ponty, visualizamos a concepção de corpo centrada no homem, assim como a crítica ao corpo anatomizado e instrumentalizado utilizado por Descartes, que na teoria foucaultiana foi intitulado biologizado. Foi igualmente evidente o seu deslocamento do marxismo e da fenomenologia através da busca do sentido de poder (idem).

aparentemente sem importância ou neutras, visam à sujeição do indivíduo em dócil- forte, usando o corpo como instrumento para essa dominação (FOUCAULT, 2014b, p. 133-219).

Tais disciplinas receberam um investimento político forte, através do desenvolvimento de saberes detalhados acerca do corpo, referenciados e legitimados pelas normas, conforme as conveniências do controle da imensa massa crescente e diversificada, resultante do desenvolvimento urbano-industrial capitalista, este agora instituinte da nova ordem62. As normas, que pelo saber cientificizado se

transformavam em verdades, classificavam e hierarquizavam os indivíduos em saudáveis e patológicos, normais e anormais, úteis e inúteis, engendrando, com isso, processos de subjetivação que asseguram a vigilância constante da população pela comparação silenciosa, nem sempre declarada, efetivando o poder com o mínimo de rejeição63.

Ao explicitar as disciplinas que incidiam sobre o corpo, com realce das normas no processo de subjetivação para controle sutil do sujeito, Foucault detalhou a investigação do exercício do poder que, a priori, estava pautado no macro (em termos jurídicos ou em termos de aparelhos do Estado), mas que se desenvolvia em um nível micro, que chamou de microfísica do poder (FOUCAULT, 2014b, p. 39-43). Ao elucidar as especificidades dos mecanismos de dominação sobre os indivíduos, e, consequentemente, o exercício do poder por todo o corpo social, a teoria foucaultiana foi fulcral para a análise da capilaridade das relações de poder para a investigação da dominação dos trabalhadores pelo SESI-SP no plano micro, uma vez que esta instituição de ensino profissionalizante constituiu um dos espaços de dominação dos corpos para utilidade capitalista no Brasil.

Desse modo, um organismo de controle foi criado, apoiado em normas que, ao exercer o poder diretamente sobre o corpo do operariado, consolidavam seu controle

62 Foucault (2014b, p. 133-219).

comportamental por meio do estabelecimento de “verdades”, advindas, no entanto, de iniciativas aparentemente solícitas ou neutras, porém submetidas ao aparelho de produção:

O problema é, então, fixar os operários ao aparelho de produção, estabelecê- los ou deslocá-los para onde se fazem necessários, submetê-los ao ritmo desse aparelho de produção, impor-lhes a constância e a regularidade que ele requer, em suma, construí-los como força de trabalho. Daí uma legislação de novos delitos – obrigação da carteira de trabalho, leis sobre os lugares onde são vendidas e consumidas as bebidas alcoólicas, proibições de loterias; daí, toda uma série de medidas que, sem serem absolutamente coercitivas, operam uma partilha entre o bom e o mau operário, e procuram adestrar o comportamento (a caderneta de poupança, o incentivo ao casamento, mais tarde as cidades operárias); daí o aparecimento de

organismo de controle (associações filantrópicas, patronato); daí, enfim, uma imensa campanha de moralização operária. Essa campanha

define o que quer conjurar como a “dissipação”, e o que quer estabelecer como a “regularidade”: um corpo operário concentrado, aplicado,

ajustado ao tempo da produção, fornecendo exatamente a força requerida. Ela vê na delinquência a extensão inevitável da irregularidade,

dando assim, estatuto de consequência psicológica e moral ao efeito de marginalização atribuídos aos mecanismos de controle (FOUCAULT, 1997, p. 40-41, grifo nosso).

Em Foucault, contudo, identifica-se a ruptura conceitual da palavra verdade, à medida que, para ele, historicamente, ela em si não interessa, pois o que importa é seu efeito sobre a legitimação do poder (FOUCAULT, 2014a, p. 44). Essa verdade (efeito) é formada a partir de discursos científicos, produzidos e disseminados sob monitoramento, pelas instituições com fortes apelos econômicos, tornando-se instrumento de uso político64.

Logo, percebe-se que o saber não busca uma verdade, mas é afetado pela necessidade de uma validação de poder advinda dela. Para Foucault, saber e poder estão ligados de maneira estrita, sobrepostos, interdependentes, pois o poder só é aceito por causa do saber produzido, assim como o poder produz o saber65. A Ciência,

64 Ibidem, p. 52.

como acesso à verdade, é desconstruída pelo filósofo, uma vez que a comprovação dessa verdade não está relacionada a uma verdade propriamente dita, mas às condições de produção do discurso. Desse modo, torna-se fundamental, para o exercício do poder estabelecer uma ordem do discurso, controlando, organizando, selecionando, redistribuindo e silenciando a produção ou a continuidade discursiva (FOUCAULT, 2013, p. 8-9).

Por essa tríade foucaultiana - saber/poder/verdade -, que atravessa toda a sua obra, reconhece-se um viés não repressivo do exercício do poder, mas sedutor, pelos efeitos da verdade atrelados ao que ele chama de vontade de verdade. Ao elucidar o mecanismo sedutor do poder, Foucault não nega seus efeitos pela repressão. Reconhece-os/ porém, evidencia a maior fragilidade no efeito do poder pela via exclusiva da repressão, uma vez que esta gera um número maior de protestos/revoltas (FOUCAULT, 2014a, p. 44-45). Contudo, para ele, apesar da crítica, o poder apresenta um caráter positivo pela produção de conhecimento que gera66. Essa

produção é o que estrutura o conhecimento, a discursividade e as circunstâncias gerais do pensamento vinculados e validados a um período, ao que nominou de episteme (BERT, 2013, p.13).

Neste aspecto, faz-se relevante mencionar as diretrizes que fomentaram a Carta da Paz Social, embrião do SESI, que, objetivando essa orientação sedutora do exercício do poder, visualizou a fragilidade pelo caminho exclusivo da imposição- repressão, frente aos crescentes protestos trabalhistas na época do pós-guerra67.

Aprofundando alguns aspectos abordados, podemos afirmar então que Foucault não visualiza o Estado como fonte exclusiva de poder, embora o localize no exercício deste. A propósito, para um arqueologista, como se definia, o poder não possui um detentor, mas é exercido por toda uma rede estruturada (maquinaria de poder), de forma estratégica, perpassando todo o corpo social. Sobre isso, ao analisar

66 Idem.

a ramificação de poder, Umberto Eco (1984, p. 322) elucida, que esse saber produzido e difundido pela maquinaria como verdade restabelece uma rede de consensos que partem também dos dominados, expondo um outro fluxo do exercício do poder, de baixo para cima, circunstância em que assevera essa positividade do saber-poder foucaultiano mais estável que o viés único e exclusivo da força.

Com efeito, o enunciado foucaultiano de poder capilar (pouvoir capillaire) remete ao sistema circulatório, quando este autor dialoga com a área de saúde e da performatividade da linguagem, permitindo a inferência da disseminação do poder em analogia ao sistema circulatório, uma vez que essa inversão de fluxo se dá em nível capilar, expondo um fluxo de poder do macro (maquinaria) ao micro (indivíduo).

Contudo, há um outro fluxo do micro ao macro, oriundo de processos de subjetivação; ambos os fluxos são frutos do saber-poder atrelados à vontade de verdade. Assim, há no pensamento deste autor uma perspectiva de luta contrária ao fluxo do poder, o que demonstra uma interpretação não binária acerca dele, inserida nessa capilaridade (FOUCAULT, 2014a, p. 18).

Por essa continuidade e imbricação entre o micro e o macro da analítica de poder, não visualizamos uma ruptura descritiva em Foucault a conceitos elaborados anteriormente. Concordamos, dessa forma, que ele elabora um exame fisiológico deste em suas várias instâncias e inter-relações, o que esboça uma visualização mais detalhada de sua constituição.

Essa leitura fisiológica da analítica do poder feita por esse autor nos permite associá-la à interpretação do SESI como maquinaria de poder, na qual o Estado, presente e atuante, exerceu o poder, não de forma exclusiva nem originária, mas em conjunto, do ponto de vista estratégico, com o IDORT, CNI, SESI-SP, Governo de São Paulo, Imprensa, médicos, assistentes sociais e professores.

Essa maquinaria incidiu sobre o operário e seus pares, visando à fabricação do homem autômato taylorista/fordista via controle de seus corpos; este controle, por sua vez, foi alicerçado por um saber fisiológico, orgânico, que institucionalizado assumiu

status de verdade, transformando-se em instrumento de controle e produção de

maquinaria SESI (oligarquia ruralista, sindicatos) e convergentes, como também a situou no jogo de poder da época.

Outro mecanismo que, para Foucault, assegura a estabilidade dessa maquinaria saber-poder é o panoptismo. Assim, o pós-estruturalista recorreu à metáfora pelo Panóptico de Benthan68 para explicar o sofisticado método de vigilância

da sociedade capitalista pela arquitetura das instituições (escolas, fábricas, igrejas, quartéis) que segue esse modelo carcerário em sua configuração, promovendo o feixe de tecnologias a serviço do poder pelo efeito da vigilância não invasiva e constante da conduta do indivíduo, o que modifica o comportamento de sujeição (FOUCAULT, 2014a, p. 253-255).

Essas instituições panópticas atuam no controle do espaço e no tempo do sujeito, localizando seu corpo em ambientes que permitam a classificação, a seleção, o aprimoramento das aptidões, o controle do tempo no trabalho, na escola, no lazer e no descanso, assim como a detecção dos inaptos, dos anormais, conforme as conveniências do poder (FOUCAULT, 2014b, p. 196-197).

Pactuamos com o literato reportado, ao assinalar que o panoptismo surgiu como uma estratégia para a nova política, intitulada de liberalismo político (em convergência com a redemocratização brasileira pós Estado Novo). Em razão da vigilância, não houve a intervenção (explícita) sobre a população, ainda que o comportamento inadequado ao exercício do poder detectado pela vigilância tivesse sofrido intervenção pela maquinaria, com a aparência de liberdade pelo Estado Liberal

68 Modelo arquitetônico prisional “na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é

vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar. Pelo efeito de contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas nas celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível. O dispositivo panóptico organiza unidades que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra é invertido; ou antes, de suas três funções - trancar, privar de luz e esconder - só se conserva a primeira e suprimem-se as outras duas. A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é uma armadilha" (FOUCAULT, 2014b, p. 194).

(liberdade no trabalho, consumo e política) almejando o aumento na produção e se contrapondo, na forma discursiva, ao despotismo (FOUCAULT, 2008, p. 91-92).

Neste aspecto, para Foucault, a instituição de ensino está inserida no panoptismo, alavancando o exercício da disciplina de forma positiva, controlando o gesto, o espaço e o horário do corpo-máquina para uma eficiência produtiva e concentração do lucro. Essa perspectiva condiz com o realizado pelo SESI quando de sua criação, pois sendo ele uma instituição de ensino profissionalizante que, através de seus preceitos tecnicistas, vigiou o corpo do operariado, controlou, desse modo, seu espaço e tempo para a formação de um homem submisso à racionalidade pelo taylorismo/fordismo69.

Diante disso, na busca por explicar a relação poder/saber para a dominação do corpo sob a perspectiva foucaultiana, o presente trabalho, adentrou em lógicas desconstrucionistas e descategorizadas, alicerçadas na e pela teoria deste autor. Costa (2007) justifica certo tormento no trato com Foucault à medida que o trabalho com ele “[...] repercute na vida de cada pesquisador e pesquisadora, desorganizando não apenas sua atividade intelectual, mas o conjunto de convicções políticas que vêm dando sentido a suas vidas” (COSTA, 2007, p. 14). Assim, resquícios de um conservadorismo iluminista, que não reconhece a necessidade de novas teorias e metodologias para encontrar novos significados, são em sua leitura quebrados, conduzindo-nos e convidando-nos a um desconforto intelectual iminente70.

Neste aspecto, é sobretudo nas áreas de humanas e sociais que o trabalho de Michel Foucault se faz notável, em oposição ao fundacionismo moderno que apela para uma verdade absoluta. Provavelmente, sua crítica a ciência e a história, stricto

senso, favoreceu essa repercussão, ao conceber o pensamento da não linearidade e

descontinuidade histórica, assumindo mudanças bruscas, não lógicas, vinculadas a

69 Conferir o capítulo anterior, op. cit. p. 26 et seq.

relações de poder que legitimam o conjunto de proposições validadas pela ciência (FOUCAULT, 2014a, p. 38-39).

Assim é que Foucault critica a investigação histórica centrada na origem de um tratado fundacional, pois esta investigação direciona sua crença a uma razão fundadora lógica, desconsiderando os elementos históricos advindos das lutas e relações de forças de validação. Neste caso, a história para ele é mais “disparate” que continuidade71.

Sobre isso, reconhece-se que a performatividade da linguagem no jogo de poder pela ruptura ontológica do corpo em Foucault, se apoiou na leitura de Nietzsche, ao criticar os historiadores que relegaram o corpo apenas aos preceitos fisiológicos, ignorando que ele era marcado e deteriorado pela história. Por conta dessa visão, estes profissionais, para Foucault, não incluíram o corpo em suas análises, afastando- se de características essenciais, no sentido conclusivo do valor das coisas, sugerindo a criação de uma história efetiva:

A história "efetiva", em contrapartida, lança seus olhares ao que está próximo: o corpo, o sistema nervoso, os alimentos e a digestão, as energias; ela perscruta as decadências; e se afronta outras épocas é com a suspeita - não rancorosa, mas alegre - de uma agitação bárbara e inconfessável. Ela não teme olhar embaixo. Mas olha do alto, mergulhando para apreender as perspectivas, desdobrar as dispersões e as diferenças, deixar a cada coisa sua medida e sua intensidade. Seu movimento é o inverso daquele que os historiadores operam sub-repticiamente: eles fingem olhar para o mais longe de si mesmos, mas de maneira baixa, rastejando, eles se aproximam deste longínquo promete-dor (no que eles são como os metafísicos que veem, bem acima do mundo, um além apenas para prometê−lo a si mesmos a título de recompensa); a história "efetiva" olha para o mais próximo, mas para dele se separar bruscamente e se apoderar à distância (olhar semelhante ao do médico que mergulha para diagnosticar e dizer a diferença). O sentido histórico está muito mais próximo da medicina do que da filosofia. "Historicamente e fisiologicamente" costuma dizer Nietzsche. Nada espantoso, uma vez que na idiossincrasia do filósofo se encontra a negação sistemática do corpo e "a falta de sentido histórico, o ódio contra a ideia do devir, o egipcianismo", a obstinação "em colocar no começo o que vem no fim" e em "situar as coisas últimas antes das primeiras". A história tem mais

a fazer do que ser serva da filosofia e do que narrar o nascimento necessário da verdade e do valor; ela tem que ser o conhecimento diferencial das energias e desfalecimentos, das alturas e desmoronamentos, dos venenos e contravenenos. Ela tem que ser a ciência dos remédios (FOUCAULT, 2014a, p. 75-76).

Como alternativa a essa perspectiva, Foucault apresenta dois métodos investigativos para a história que negam a busca por uma origem fundadora: a arqueologia, respaldada na análise da discursividade, no ordenamento da(s) regra(s) de uma sociedade num recorte72, assim como a genealogia, que, no processo

investigativo, aprecia a constituição de saberes relacionados a condições exteriores ao próprio saber, submissas às relações de poder, privilegiando a articulação discursiva institucionalizada73. Esses métodos não se anulam entre si; pelo contrário,

visto que, enquanto a arqueologia analisa a discursividade no recorte, a genealogia parte dessa discursividade, isenta dessa sujeição “validativa” pelo poder, para a percepção do fato74.

Acreditamos ser a principal crítica à obra foucaultiana, principalmente entre os marxistas, que, embora o poder tenha atravessado todo o seu trabalho, não houve em suas investigações a ocorrência de um modelo, conjunto de ideias que apontem para a solução do problema. Embora tenha reconhecido essa ausência em seus trabalhos, como aconselhando seus adeptos a solucioná-la pela continuidade ou até mesmo pela ruptura discursiva (FOUCAULT, 1999. p. 5-6), Foucault defendeu-se, notabilizando que sua metodologia investigativa, tanto a arqueologia como a genealogia, foram eficazes, pois tolheram o saber totalitário na constituição do poder político amparado

72 Foucault (2014a, p. 11).

73 Ibidem, p. 11-12.

para a produção de lucro econômico pelos discursos tidos como verdadeiros, desobscurecendo técnicas e táticas de dominação presentes nesses discursos avalizados por instituições anteriormente sob insuspeição75.

Nesta mesma direção, congruente com a “dissecação” do objeto de pesquisa que investigamos, com relação ao valor destinado às instituições a priori consagradas, na desconstrução de seus discursos políticos e aclarando relações de poder direcionadas ao controle do corpo, aplicável diretamente à análise das instituições industrialistas consagradas, como o SESI/CNI/IDORT, situam-se a Igreja Católica, os médicos e militares no cenário urbano-industrialista dos governos de Dutra, Vargas e Café Filho no Brasil.

Foucault, ao elucidar a episteme do período de desenvolvimento urbano- industrial, suscita a percepção da ruptura ontológica do homem com o mundo, afetada pelo saber e pela ciência no sentido de construção de um novo homem como ratificação do poder que agora se institui, entre outros fatores, pela subordinação do corpo.

Para Costa (2007), dentre as evidências no processo de investigação revolucionário, Foucault, ao negar a separação entre ciência e ideologia, pelo poder- saber promove, em relação à história, uma abertura para o entendimento da disciplinarização do corpo mediante a racionalização científica do trabalho, fazendo compreender que essa racionalização é indissociável da ideologia burguesa industrialista (COSTA, 2007, p. 15).

Para este autor, é a partir do poder sobre o corpo que se concebe o saber sobre ele. Desse modo, a maquinaria incide no controle social, através de intervenções autoritárias e medidas de controle, respaldadas sobre as várias áreas do conhecimento das ciências, sob o álibi da saúde do corpo biologizado (biopolítica) (FOUCAULT, 2014a, p 143-154).

De forma semelhante, o SESI, como mecanismo de coerção circunscrito na maquinaria de poder, partilha dessa produção sobre o corpo com status científico,

arrogando o controle, seleção, classificação, disseminação e produção dos discursos sobre o corpo76 pela orientação disciplinar e biopolítica, materializados em uma gama

de aparatos: jornais, revistas, bibliotecas, programas de rádio, eventos, shows, cursos, que, embora apresentem um viés de utilidade, positividade, são tecnologias de controle do corpo que turvam as relações de poder.

Concordamos com Roland Barthes (1980), quando expôs que o poder é o parasita de um organismo trans-social, cuja expressão obrigatória ocorre pela língua, haja vista que o estratagema do poder está inserido em discursos que atravessam todo o tecido social, maquinando o defeito e culpando o receptor por isso (BARTHES, 1980, p. 9-10). Sob essa perspectiva, entendemos que os vários materiais do SESI, carregados de conceitos ideológicos77, apresentaram, em seus discursos,

estratagemas de poder que, por coerção (culpabilidade), produziram um novo homem, vinculado aos interesses da indústria.

Nesse caso, os industrialistas de São Paulo visaram à elaboração de um novo homem mecanizado, taylorizado/fordista, mas, para isso, necessitavam do corpo produtivo, docilizado em termos comportamentais e vigoroso em termos de força

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