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As gangues, desde o momento da sua formação, expressam um fenômeno de liderança: baseiam-se na capacidade de comando de um líder. Desse modo, uma das condições para ingressar numa gangue é exatamente possuir a qualidade de líder ou ser capaz de obedecer a um. Para tornar-se líder de uma gangue, é necessário que o jovem se notabilize pela “atitude” e coragem – “Bateu ou atirou em alguém” –, pela malandragem, e também que já

tenha demonstrado sua virilidade, dado provas de ser uma pessoa solidária, capaz de identificar, nas situações mais imprevisíveis, aquilo que representa ameaça ao grupo e garantir sua proteção, assumindo a linha de frente em situações de risco. A maioria dos informantes tende a definir o líder como uma pessoa com grande habilidade para particularmente administrar situações de brigas e discussões ou ações de assaltos e roubo.

O líder sempre procura colocar em relevo sua capacidade de ser agressivo, de não temer a morte, e é escolhido entre os que demonstram ter um histórico delitivo importante, entre os que se destacam pelas “aprontações”: “O que estiver agindo mais, é ele. Igual a jogador de seleção: se tiver igual ao Dunga, se for esforçado. O cara tem que ser muito doido, ele vai à luta”.

Kroak, líder de uma gangue de Samambaia, explica que seu papel é o de comandar o grupo, “as amizades”, organizando a participação de todos, marcando as reuniões, conseguindo armas, recolhendo fundos para a compra de spray, bebidas, drogas e outras necessidades dos membros. Convocar o grupo para brigas em situação de conflitos com grupos rivais, estar presente em todas as brigas, proteger o grupo, “levantar a moral da galera”, “não deixar a galera cair”, são também, segundo seu relato, atribuições do líder.

Na visão dos jovens integrantes de gangues, o líder é considerado um

“pai” que não deixa acontecer nada de mau e de errado com seu grupo. No caso das gangues de pichadores, por exemplo, é o líder quem escolhe e decide quais os locais viáveis e possíveis de serem pichados com segurança. O líder de uma gangue é sempre respeitado e admirado. Ele está freqüentemente acompanhado de amigos – “tu vai prum lado vai neguinho atrás” –, vive cercado de mulheres – “rola altas donas” –, como também de bajuladores, os chamados “paga-pau”.

Observa-se que o papel de liderança não é imposto: ele é obtido na rua e se inscreve num processo de reconhecimento e delegação de autoridade a quem demonstra características tradicionais de carisma14. Por outro lado, essa

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Como afirma Mauro Cerbino em seu estudo sobre as pandilhas (bandos juvenis) nas cidades de Quito, Guayaquil e Cuenca no Equador, “trata-se de algo parecido com a assunção de uma posição hegemônica que no sentido gramsciano se baseia no consenso e não na imposição. Nesse sentido, as pandillas ou as naciones diferem das formações militares nas quais a autoridade está dada pela carreira, pela automática ascensão” (Cerbino, 2006: 53).

liderança não poderia existir se de alguma forma não fosse legitimada pelos que estão fora do grupo. As demais gangues reconhecem um líder por meio da identificação dos atributos exigidos ao líder de seu próprio grupo. A experiência, a popularidade na área, a capacidade de mediação, a autonomia para escolher e tomar decisões, o poder de mobilização e aglutinação, a coragem de se expor e a disposição para a luta em defesa de interesses coletivos fazem parte desses atributos.

Contudo, possuir um alto grau de reconhecimento e de conhecimento públicos carrega implicações. A necessidade de “ter destaque”, de mobilizar olhares para si, inerente a este papel, revela duas facetas importantes e, ao mesmo tempo, paradoxais da liderança: se, por um lado, o prestígio e a fama são fundamentais e indispensáveis para o líder gozar de reputação entre os seus pares, por outro, um líder, não importa de que tipo de gangue, é sempre muito visado pelos de fora do grupo e, quanto mais famoso se torna, mais corre risco de vida porque “tão marcados”. Tephon conta que foi exatamente por esta razão que recusou a assumir a liderança de sua gangue no tempo em que ainda não era cantor de rap e participava desse tipo de agrupamento juvenil:

Quando o cara está com muito destaque a morte dele está chegando. Por isso eu não cheguei a assumir a .... É o Campo da Esperança, a cadeira de rodas ou o Papudão15.

O preço da fama

“Eu estou sofrendo agora. Quando a gente vira líder, parece que é bom, mas não é não. [Porque] fica famoso demais. Todo mundo conhece. Se um de minha gangue mexe com uma pessoa lá do outro lado, só caem em cima de mim. Não acontece nada com ele. Um dia desses uns colegas meus lá da vinte e quatro deram uns tiros, aí viram os colegas correndo e ‘Ah! Colega do Isac, vamos atrás dele’. Aí me pegaram. Só que os colegas meus ajudaram também, botamos eles pra sair do ar, aí não fizeram nada comigo. É ruim pra caramba, tá marcado, é ruim. [...] Ainda mais que eu já fiz muita coisa, todo mundo sabe. Todo mundo conhece, qualquer rua que eu passar todo mundo sabe. Se pagar um ‘mijão’ ali, todo mundo fala: ‘Isac mijou bem ali’. Se eu chegar e coçar a cabeça todo mundo fala. Já está espalhado na cidade todinha. Não pode fazer nada, nem um movimento. Vai pro baile, vai pro trio-elétrico: ‘é, ele estava lá’”.

(Trecho de entrevista com um líder de gangue da Ceilândia,19 anos ).

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Campo da Esperança é o cemitério do Plano Piloto de Brasília e a Papuda é a penitenciária do Distrito Federal.

A escolha do líder é normalmente feita de modo consensual pelo grupo, mas, na indicação de um substituto, a palavra do líder atual tem grande peso. Dificilmente ela é questionada por outro aspirante, a não ser que este possa desafiá-lo medindo-se no mesmo plano de qualidades do indicado. Neste caso, o que ocorre é um enfrentamento ritual entre os aspirantes durante certo período, até que o grupo possa decidir quem é o novo líder.

As mudanças de liderança se dão por diversas razões, mas o fato de completar 18 anos é determinante na decisão de abandonar a liderança. O indivíduo, ultrapassando esta idade, não pode contar mais com a proteção do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A partir dos 18 anos, se for denunciado e apanhado pela polícia, corre o risco de ser obrigado a responder por formação de quadrilha: “[...] aí esse que ficou de maior já não quis mais, aí foi passando até chegar em mim”; “Tem um certo tempo para ser líder, não pode ser de maior”16.

Assumindo e deixando a liderança

“O cara que fez ela [a gangue] saiu e botou outro líder no seu lugar. Aí esse outro líder, que era da gente, um dia que a gente foi curtir lá no Chaparral, os caras da [outra gangue] [...] pegou e deu um tiro nele – um centímetro da coluna. Aí, pegou e saiu, né? Aí ele falou: ‘aí, Kroak, tu vai ficar sendo líder. Toma de conta da galera que eu vou dar um tempo, eu não vou ficar aqui mais não’. Aí fez a reunião e o líder de antes foi e me elegeu. Aí eu fiquei sendo o líder. Eu era o cara que ele confiava mais. Mas é o tipo da coisa: você não pode dar de mole pra ninguém. Neguinho pega e entra numas com bicho de tua galera, tu não vai pegar e deixa o cara sozinho, tem que ir atrás do cara deles também. Rola altas ondas aí. Já tomei o quê? Tomei foi cabeçada, tapas, murros... É o tipo da coisa, tá nós aqui no frevo, há um pepino pra um, a gente não vai deixar o cara sozinho. Se for pra morrer, morre os dois de uma vez. [...] Se rola uma parada, tipo um cara da galera fala: ‘aí, tal neguinho entrou numa’, então o líder tem que ver o lado do cara, ele vai atrás. E quando uma gangue não combina com outra rola de tudo [...] O líder é assim, tipo teu pai. E um pai não vai deixar acontecer nada de errado contigo. Se acontece alguma coisa, ele vai atrás também.

[...] Agora que eu estou de maior tenho que escolher um substituto. Tenho que passar pra outro porque se você, se algum integrante da sua gangue for preso e a polícia forçar até ele te entregar, aí se você for de maior você vai preso, ele fica solto. Aí é formação de quadrilha. [...] Eu que escolho. Eu vou fazer a reunião e na hora lá eu vou decidir quem é que vai ser o líder. [...] Eu não vou sair da gangue, eu vou ficar nela, mas eu não vou pichar mais. Porque você sair da liderança pra ficar só pichando é paia, não tem como mandar em alguém. Você vai ser mandado por outro líder, você não vai gostar. Você fica como se fosse só entre amigos mesmo, tipo colega. Não é aquele negócio: saí não vou mais aparecer, não é assim. Fica sendo amigo ainda”.

(Trecho de entrevista com o líder de uma gangue de Samambaia)

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A proteção aos menores de 18 anos garantida pelo ECA e suas implicações será tema abordado no capítulo VII.

Quando se abandona a liderança – seja pela maioridade, pelo casamento, ou porque “quietou” – a pessoa permanece próxima dos antigos companheiros. Mesmo os mais velhos, casados, com filhos, continuam visitando os amigos da gangue: “curte ainda com nós”. Contudo, como menciona um líder, a aproximação

com o grupo é diferente para os que um dia chegaram a assumir sua liderança, pois dificilmente o indivíduo admite a mudança de status dentro de uma ordem hierárquica, ou seja, passar de comandante a comandado.

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