BAIXO PESO
Ao estudar as tríades participantes desta pesquisa, analiso de forma global as percepções que tive através do processo de observação, entrevistas, associações entre teoria e prática, amparada pela literatura, pela prática do MMC e guiada pelo processo cuidativo.
O modo como os pais percebiam o contato precoce com seu bebê pré-termo e/ou de baixo peso estava diretamente direcionado aos aspectos facilitadores e complicadores desta aproximação. A facilitação da permanência dos pais no ambiente neonatal, bem como a forma como foram recebidos pela equipe de saúde são fatores intervenientes e que transformaram as percepções destes pais frente às necessidades inerentes deste processo e sobre as vantagens oferecidas pelo MMC.
As mulheres-mães, principalmente, relataram como foi importante a possibilidade de serem encorajadas por outras mães que estavam vivendo o mesmo momento e estavam inseridas no MMC, ou do incentivo daquelas que já haviam experienciado a prematuridade e o Método, para aceitarem mais facilmente a situação atual e conseguirem se aproximar dos filhos, tendo aliviados os sentimentos negativos e conflituosos. Segundo Edwards (2002), neste momento de aproximação com os pais, é muito importante que os filhos se sintam acolhidos e amados, para tantoé necessário que todos os sentimentos de culpa e medo do homem e da mulher estejam amenizados. Ao ingressarem na prática do MMC os pais conseguiam perceber, sentir e compartilhar, muitas vezes, sensações bastante conflitantes. Suas preocupações acerca do fato de precisar permanecer no hospital após o nascimento pareciam desaparecer por alguns instantes, em vista da fragilidade com que ficavam diante da vinda inesperada de uma criança ainda tão imatura e débil em termos físicos, neurológicos e comportamentais. De modo geral, os pais acreditam que a aproximação precoce com
seus bebês só trará benefícios, mas como já apontei anteriormente, apresentam, quase ao mesmo tempo, sentimentos contraditórios que remetem a ações contraditórias. São duas dimensões de igual valor que geram sentimentos ambíguos, o de querer se aproximar do filho, tê-lo em seus braços o quanto antes, manter o contato pele-a-pele através da posição canguru, e o de aceitar suas diferenças físicas/comportamentais, além da incerteza quanto à sobrevivência. Powell (2002) considera difícil esta relação do querer aceitar as mudanças impostas pela vida, apresentando sentimentos positivos e ter que superar as tristezas pela perda do bebê tão idealizado.
Apesar do casal perceber e exteriorizar a importância deste contato o mais precoce possível, percebem também que tal processo exige mudanças e empenho por parte dos mesmos. Segundo Gotardo e Silva (2005), quando há necessidade de internação de uma pessoa que amamos, em especial um filho, todo o equilíbrio do sistema familiar é afetado, levando à desequilíbrios emocionais com diferentes intensidades, provocando sentimentos de impotência, culpa e desesperança.
Todos os pais e bebês inseridos neste estudo, com os quais pude compartilhar os progressos desta aproximação, transgrediram em suas ações desde o momento em que se apegaram uns aos outros. Para os pais a hospitalização ficou mais amena, o retorno ao lar mais próximo e as relações afetivas mais concretizadas após terem adotado o MMC como parte da “rotina assistencial” ao recém-nascido.
O que considero importante em todo o desenrolar do processo cuidativo é que os pais conseguiram identificar a necessidade de estarem juntos do seu bebê, praticarem o “canguru”, mas também explicitaram que, para que possam adaptarem-se progressivamente, precisam de apoio por parte da equipe interdisciplinar da unidade neonatal e especialmente, clamam pela particularização e individualização da assistência. Segundo Toma (2003), para o alcance do sucesso do MMC e conseqüentemente, das relações afetivas, é necessário não apenas vontade e iniciativa por parte dos pais, mas também do apoio seguro e compreensivo de toda equipe interdisciplinar da unidade neonatal e, em especial, da equipe de enfermagem.
No decorrer dos dois capítulos que seguem, apresento o mapa analítico sobre os aspectos facilitadores e complicadores da formação do apego durante a prática do MMC que auxiliarão na promoção de maior densidade às idéias que comecei a apontar
aqui. Acredito que o conjunto de reflexões acerca destes aspectos certamente contribuiu para impulsionar a construção do conhecimento sobre o processo de vinculação dos pais com seus filhos pré-termo e/ou de baixo peso, sob o ponto de vista da enfermagem e para além dele.
“Cante para seu nenê, embale-o, dance e converse com ele, responda aos balbucios. Ele vicejará em corpo, mente e espírito; saberá desde os primeiros dias o quanto é amado e estimado”.
(Lisa O. Engelhardt)
Apresento neste capítulo a análise global dos aspectos promotores do processo de formação do apego entre pais e filhos. Conforme apresentei no capítulo da metodologia, a interpretação e a análise continuada de todos os dados coletados levaram-me à eleição de algumas categorias e subcategorias que traduzem os aspectos promotores da formação do apego, revelando uma ampla composição, cuja compreensão nos auxilia no complexo processo de aproximação entre o casal e o recém-nascido pré-termo e/ou de baixo peso, e vice-versa.
Os aspectos facilitadores da promoção do apego englobam 5 categorias, assim distribuídas: a) a categoria 1, denominada de “Preliminares da formação do apego:
o percurso vivenciado antes de chegar à unidade neonatal”, é composta das
subcategorias: “Preparo do casal para enfrentar as mudanças de rumo na gravidez”, “Presença do acompanhante no centro obstétrico” e “Olhar, tocar, sentir o bebê no momento do nascimento: do filho idealizado ao filho real”; b) a categoria 2, denominada “Atenção e acolhimento da equipe neonatal”, é composta pelas subcategorias: “O cuidado ‘cuidadoso’ da equipe gerando segurança para os pais”, “Intercâmbio de informações entre a equipe e os pais acerca das condições clínicas do recém-nascido” e “Sempre tem um que dá mais atenção: referência profissional durante a hospitalização”; c) a categoria 3, “Participar ativamente do cotidiano da
unidade”, envolve as subcategorias: “Ter liberdade para ir e vir no ambiente neonatal”
e “Ter a possibilidade de ficar junto da criança em tempo integral ajuda a entender suas necessidades e seus progressos”; d) a categoria 4, “Trocar experiências com
outros pais que vivenciam situações similares”, e) a categoria 5, denominada “Ter a oportunidade de re(conhecer-se) no papel de mãe, de pai e de filho”, que é
“‘Colar-se’ ao filho: o contato corporal ajudando a superar a sensação de que a criança é ‘quase nada’”, “Ser chamado pelos membros da equipe de ‘mãe’ e de ‘pai’” e “O aleitamento materno como elo de aproximação mãe-pai-filho”.
6.1 PRELIMINARES DA FORMAÇÃO DO APEGO: O PERCURSO