O início da busca amorosa em um website de relacionamentos pressupõe algum entendimento sobre o que é o amor por parte dos indivíduos pesquisados. Assim, o objeto desta subseção é compreender o modo pelo qual estes/as usuários/as definem as relações amorosas e/ou a intimidade nesse contexto específico.
De modo a alcançar essa compreensão sobre os dados contidos nos perfis analisados fez-se necessário refletir a partir da seguinte indagação: o que é amar? Assim, mediante tal pergunta sobre o amor em sua forma infinitiva, permitiu-se criar um parâmetro para entender as definições encontradas do amor em ação.
Vale notar que todo o desenvolvimento dessa subseção, sobre as definições do amor estão inter-relacionadas com a noção de romantismo e de relacionamento sério que será melhor desenvolvida mais adiante. Por enquanto deve-se conceituar o amor em relação à busca empreendida pelos indivíduos e de suas expectativas. Conforme foi tratado no primeiro capítulo, o amor possui definições diversas e que mudam ao longo do tempo, por exemplo, o amor (Eros) na Antiguidade ou o amor paixão na Idade Média, desembocando no amor romântico dos séculos posteriores65.
Dentre algumas formas de expressar o que significa o relacionamento amoroso para os usuários pesquisados foram encontrados dois tipos: primeiro o que determina a importância do relacionamento como algo que deve ser considerado sério e segundo, a discussão direta sobre relacionamentos amorosos. Nesses dois aspectos é que se constroem o debate sobre o que é o amor e a intimidade nos relacionamentos.
As citações sobre relacionamento sério estão diretamente ligadas a uma visão de amor que exige sinceridade, cumplicidade amizade dentre outros significados. A importância da amizade no contexto virtual da busca amorosa é significativa diante das incertezas que são previstas.
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As formas de conceituar o amor não são estanques e muito menos ultrapassadas, ou seja, podem se combinar numa época e espaço, diferentes tipos.
Giddens (1993) destaca a busca do romance como uma característica central para entender a intimidade na contemporaneidade e na intenção manifesta de se buscar um relacionamento especial ao invés de uma pessoa especial, encontrando-se nesse a base para a noção do amor confluente. No entanto, deve-se levar em conta que um conceito desse tipo não é tão facilmente aplicado a situações específicas como as tratadas nesse trabalho, nem muito menos o seria em sua totalidade. Dessa forma, restou-se observar indicações de alguns elementos em relação ao desenvolvimento de uma noção de amor. Essa noção deve ser indiciada em sua complexidade e constatada a partir dos interesses dos indivíduos pesquisados, sendo relevante considerar a proposição do amor e dos seus modos e variações.
Na análise que se segue, o principio do amor baseado na busca e nas expectativas dos indivíduos, constituindo-se em uma forma de antecipação de possibilidades, são esboçadas nos relatos dos perfis, associando a construção de uma percepção de si e do que se considera um amor viável.
Por isso afirmar que relacionamento amoroso e amizade devem caminhar juntos, ou até mesmo ser um só pode significar uma forma de demonstrar o que está buscando no relacionamento e já se precaver – se é que é possível – de relacionamentos infrutíferos. Assim, um usuário afirma que está “procurando um relacionamento sério com amizade acima de tudo. [...] acredito muito na amizade acima de tudo” (P. H – 9).
O entendimento do amor como amizade também é expresso em termos de estar bem acompanhado para que se possa vivenciar o amor:
Gosto de estar sozinho e mais ainda de estar acompanhado, ou melhor, de estar bem acompanhado, quero que você seja meu par, quero que sejamos somente um [...] sou um homem simples, amoroso e intenso em termos de viver um grande amor... (P. H – 12)
As considerações sobre amizade nos relacionamentos amorosos são vistos por um usuário como uma forma de responsabilidade: “Sou Geminiano, desta forma a principal característica é ser muito amigo e carinhoso, minhas responsabilidades dentro de um relacionamento” (P. H – 18).
A amizade e o companheirismo também correspondem à ideia de compartilhamento, segundo uma usuária: “Quero ser feliz amar e ser amada, compartilhando com um homem que esteja afim. O que eu gosto mais em mim é a lealdade” (P. M – 23).
Para outra usuária o compartilhamento é demonstrado na vida diária, nos afazeres da vida doméstica partilhada: “[...] sou independente, mas fui criada para ser esposa, cuidar do marido, do nosso lar com muito amor. Adoro cozinhar e ficarei feliz em fazer comidinhas gostosas para nós dois” (P. M – 46).
O desejo de vivenciar uma história de amor define também a forma como os usuários entendem o amor e a intimidade de um casal, conforme afirma a seguinte usuária sobre a sua busca: “[...] alguém que me ame de verdade para ter uma linda historia de amor, andar juntos de mãos dadas, dormir abraçadinhos e espero que essa pessoa não demore gostaria que ele fosse alegre, pois eu tbm o sou” (P. M – 30).
Para outra usuária o que importa é entender como acontece o amor que, nas suas palavras, acontece por: “química, afinidades, magnetismo ou simpatia, enfim acontece” (P. M – 35).
Para definir o amor, o modo encontrado por uma usuária fica mais explícito em suas declarações sobre intimidade, do seguinte modo:
Encontre alguém que não tenha medo de admitir que sentiu sua falta. Alguém que saiba que você não é perfeita, mas mesmo assim te amará do jeito que você é. Alguém que tenha um imenso medo de te perder, Alguém que te ame VERDADEIRAMENTE. E por último, encontre alguém que não se importe em acordar com você pela manhã, e ver suas rugas ou os seus cabelos grisalhos, e que ainda se apaixonaria por você ainda mais. Relacionamento não é só prazer. Não é só festa, viagem, risada, diversão, brinde, sexo, beijo, cumplicidade. Relacionamento tem fase chata, de vez em quando tem briga, discussão, chatices, rotina, implicâncias, ciúme, bate boca. A gente tem que lidar, conviver e amar uma pessoa que veio de outra família, outro mundo, tem outra criação, outros costumes, outros pensamentos, outro jeito de viver. Você tem que aceitar aquela pessoa como ela é, e isso dá muito trabalho. O amor é lindo sim, e ele é a maior recompensa para quem não tem medo de enfrentar os próprios medos e os medos do outros. É querer estar com a pessoa independente de qualquer coisa ou situação. Pelo simples fato de estar junto. (P. M – 41).
Para a usuária o amor é uma recompensa e deve ser buscado nas alegrias e dificuldades da vida a dois. Essa forma de definir a intimidade e o relacionamento amoroso é a mais realista possível e nessa declaração se percebe novamente a importância do companheirismo que deve ser mantido através da verdade, da sinceridade e do saber lidar com os desafios. A percepção da insegurança que o amor pode trazer, de suas incertezas diárias contribui para uma noção bastante atualizada. A condição expressa pela usuária de se encontrar e dar a devida importância da companhia certa, da luta que deve ser travada diariamente, remete a um contexto social de solidão e de afastamento das pessoas.
Sobre esse ponto, outra usuária afirma em seu perfil:
Sou alegre por natureza, mas ando numa fase um tanto estranha para mim. Sinto falta de algo, talvez a teoria da incompletude humana explique isso, mas há uma certeza em mim: com amigos e, quiçá, alguém especial, todas as buscas se tornam mais agradáveis e ainda teremos com quem rir e chorar caso as coisas não saiam como sonhamos (rs). Hoje me sinto muito solitária, uma ilha, com um mar de gente me cercando e eu a me sentir só. Deve ser coisa da idade (rs)... O bom é saber que tenho o espírito jovem e que já-já essa fase horrível passa. (P. M – 38)
A definição de amor como falta e necessidade de completude é uma forma marcante e é um pressuposto adotado pela psicanálise. A solidão que se impõe aos indivíduos no mundo contemporâneo, cercados de tantos eventos, informações e tecnologias revela, como afirmado na música “quando tudo é solidão, é preciso acreditar num novo dia” que há uma busca por suprir faltas e não perder a esperança 66
. A usuária se refere a sua vida e discorre sobre suas emoções, assim é possível compreender os limites que são impostos pela vida e perceber a sua sensação de solidão, como ela afirma “uma ilha, com um mar de gente me cercando e eu a me sentir só”.
Esse pode ser um dos motivos relevantes para a utilização de websites de relacionamento amoroso, associado à comodidade de buscar alguém virtualmente. A solidão se contrapõe ao amor, e estar amando não garante por si só que se esteja
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acompanhado. Visto dessa forma o dilema continua presente, talvez, mais que em todos os tempos, e é uma característica marcante do mundo hodierno.
Marcadamente, a busca pelo amor e sua vivência são vistas como algo que deve ser experimentado por todos como uma necessidade, um elã vital.
Vejamos como outra usuária reinterpreta o significado do fenômeno amoroso:
Todo ser humano precisa ser amado! Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que se coloca a postos para ouvir suas dúvidas. Sentir-se amada é ver como ele fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. (P. M – 44)
Embora esteja empenhada em discorrer sobre a necessidade de amar e ser amada a usuária estabelece os parâmetros para o que deve ser entendido como amor verdadeiro. Por outro lado, estabelece a noção de que deve haver um entendimento mútuo, baseado na comunicação que favorece o relacionamento e evitando se basear em possíveis mágoas.
Em artigo sobre as relações amorosas na internet, Rudgger (2010) estudando sobre o website ParPerfeito afirma que, os serviços online se encaixam nas expectativas pelo aspecto da ação instrumental, mas despertam desconfiança quanto ao aspecto axiológico. Deve-se notar que o referido estudo se debruça sobre aspectos da continuação da interação amorosa, diferente do presente trabalho que evidencia a busca em seus primeiros passos, se assim puder denominar. Esse aspecto da desconfiança do que as pessoas dizem no espaço online é relevante, mas nos casos aqui estudados, a preferência dos indivíduos ocorre de forma que se possa demonstrar o quanto se é romântico e o quanto se busca uma pessoa especial que preencha a solidão que sente no dia a dia.
Desse modo, conectar a definição de amor, no momento específico da busca amorosa à amizade, à noção de compartilhamento, inclusive com a verdade que deve fazer parte do relacionamento geram elementos, juntamente com a cumplicidade, que evidenciam uma definição do objeto buscado e de sua forma. Ou seja, mesmo em meio a tais desconfianças do canal de comunicação do espaço online é necessário aos usuários/as deixar claro o que eles buscam e o que entendem por amor e amar, como uma consolidação de suas intenções.
Em suma, a busca por companheirismo é a palavra chave para o entendimento da noção de amor, sendo uma tentativa de escapar da solidão e do amor que tarda a aparecer na tela do computador.
Assim, para dar encaminhamento ao objetivo específico desta seção, buscou-se conceituar o amor, do tipo afetivo, como uma expressão dos indivíduos em seus contatos iniciais. Deve-se notar que as referências feitas ao que se imagina sobre o que é amar e, portanto, significando o que é o amor, estão relacionadas ao encontro com alguém especial para um relacionamento especial, dois objetivos que unem o amor romântico e o amor confluente em uma só moeda, como cara e coroa.
A partir desta perspectiva, a próxima subseção analisará as intenções expressas pelos indivíduos concernentes à utilização do website de relacionamentos para a busca amorosa.