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As características e alterações existentes no sistema estomatognático e no controle postural humano vêm sendo estudadas por diversos pesquisadores da área da Saúde, principalmente da Odontologia (nas especialidades de Dor Orofacial e Disfunção Temporomandibular), Fisioterapia (na área das Ciências do Movimento Humano, como a linha de Biomecânica) e Medicina (ênfase no Diagnóstico e Tratamento da Dor).

De certa forma, este tema – Controle postural, dor orofacial e a influência do sistema

óptico – provoca grandes discussões e certas controvérsias entre os pesquisadores, sendo de

grande dificuldade a obtenção de um consenso. A grande maioria dos estudos tem como população indivíduos “normais” (“teoricamente saudáveis”), ou que apresentam sinais e sintomas de uma ou outra alteração, sem qualquer tipo de deficiência física. Estudos sobre postura e equilíbrio são realizados, por exemplo, com videntes de olhos abertos ou fechados (NOMURA et

al., 2009), porém são menos freqüentes os que têm sua amostra indivíduos deficientes visuais

(FJELLVANG e SOLOW, 1996; NAKATA e YABE, 2001; RAY et al., 2008). Outro fato percebido durante as buscas, é que a maior parte das pesquisas são exploratórias ou descritivas, com a intenção de explorar ou descrever parâmetros de uma única variável, a fim de se conhecer a “normalidade”, ou a maior incidência na população (SHIFFMAN e GROSS, 2001; JONH, DWORKIN e MANCL, 2005). Algumas buscam correlações entre variáveis (CIANCAGLINI e RADAELLI, 2001; VISSCHER et al., 2002; AMANTÉA et al., 2004; CATANZARITI,

DEBUSE e DUSQUENOY, 2005; IUNES et al., 2009) ou ainda designs experimentais (HOSODA et al.; RIES e BÉRZIN, 2007), porém há casos em estes últimos apresentam restrições acerca das validades interna ou externa, o que os tornam pré-experimentais ou quase- experimentais. Neste âmbito, nosso estudo procura iniciar e aprofundar alguns conhecimentos, de modo descritivo e interrelacional, sobre os três assuntos concomitantemente – controle postural, dor orofacial e deficiência visual.

Assim, há diversas incertezas, principalmente devido à sobreposição de sinais e sintomas presentes nos indivíduos com dor orofacial (especificamente as disfunções temporomandibulares) e/ou com desordens cervicais (alterações posturais). Trabalhos mencionam e confirmam que a relação músculo-esquelética e fascial realmente existe, até mesmo sobre o sistema trigeminal e o sistema motor cervical, e provoca uma grande repercussão em todas as estruturas imediatamente adjacentes ou nem tão próximas à alteração inicial. Inclusive já se demonstrou que a ação respiratória, a posição da cabeça e pescoço, e os estados de humor, especialmente a ansiedade podem modificar a postura corporal (WADA, SUNAGA e NAGAI, 2001; BOLMONT et al., 2002).

De modo global, estas modificações podem alterar o controle e o equilíbrio postural, visto que estes, do mesmo modo, dependem, segundo Frank e Earl (1990), de informações dos receptores proprioceptivos, vestibulares e visuais. Bricot (2004) propõe que o sistema tônico- postural depende, sofre e causa influências em diferentes elementos, expondo como principais “receptores” os pés, os olhos (a visão) e o sistema estomatognático (músculos mastigatórios), denominando estes três itens de “captores”. A finalidade corporal, para ele e para Souchard (2003), é manter o plano bipupilar e ótico paralelos entre si e ao chão, e para isto, o corpo se adaptará de forma compensatória. Kondo e Aoba (1999) expõem que as anormalidades da função muscular cervical causam uma posição anormal da cabeça, afetando o desenvolvimento e morfologia da coluna cervical e esqueleto maxilofacial, que poderá provocar assimetria facial e anormalidades oclusais, por alterações na fossa mandibular, côndilo, ramo da mandíbula e disco, acompanhada de desequilíbrio muscular.

Ratificando estas relações, ainda há os estudos de Evcik e Aksoy (2000) acerca da correlação entre doenças da articulação temporomandibular, dor cervical e alterações posturais. Estes autores utilizaram fotografias e radiografias cervicais, e exames de ressonância magnética das ATMs, confirmando as hipóteses de que mudanças posturais cervicais afetam a musculatura

do sistema estomatognático e aumentam a incidência de doenças temporomandibulares. Wijer et

al. (1996) e Ries e Bérzin (2007), analisam a ocorrência de sinais e sintomas das disfunções

temporomandibulares e das desordens cervicais. Os autores confirmam uma sobreposição, indicando de forma consistente que a avaliação de ambas as regiões é de fundamental importância para a diferenciação das disfunções e conseqüentemente, para obter o diagnóstico correto e atuação da equipe multidisciplinar para o tratamento, o que também é enfatizado por Amantéa et al. (2004). Catanzariti, Debuse e Duquesnoy (2005) já citam o inverso, que as alterações oclusais seriam as causadoras de desequilíbrios musculares e modificações do posicionamento da cabeça e pescoço, assim como causadoras de sintomas (dor) nesta região. Entretanto, Visscher et al. (2002) ao avaliar a ocorrência de dor orofacial e a anteriorização de cabeça por meio de exame físico e exames complementares associado à fotografia, e Duarte et al. (2006) pesquisando a influência da postura sobre a atividade eletromiográfica dos músculos temporal (parte anterior) e masseter, não encontraram evidências significativas que pudessem comprovar tais associações. Porém, neste último estudo, quando existiam alterações posturais, estas podiam influenciar a atividade eletromiográfica. Perinetti (2006) também não encontrou correlação entre as posições de descanso mandibular e a posição de máxima intercuspidação habitual e diferentes condições visuais (olhos abertos e fechados), mas os parâmetros dinâmicos da posturografia (utilizando uma plataforma de força vertical, com freqüência de aquisição de 10 Hz) foram altos para olhos abertos e fechados em ambas as posições mandibulares. Salienta-se que existe controvérsia na literatura quanto ao tempo de aquisição para avaliar o equilíbrio, pois, atualmente, considera-se que existam três fases: adaptação, estabilização e de fadiga muscular.

Conforme descrito anteriormente, tem-se em mente que a visão é o principal sistema de regulação dos movimentos do corpo e da postura, predominando sobre os demais componentes do sistema sensorial (CAMPOS e CORAUCCI NETO, 2004). O sistema visual pode ser considerado o mais importante intercessor dos comandos motores pela antecipação das atividades e das cargas articulares inesperadas, assim como fornecedor de informações sobre a posição dos segmentos corporais em relação ao ambiente, estabelecendo noções de profundidade, tipo de superfície e localização de obstáculos (BUKSMAN e VILELA, 2004). Rougier e Farenc (2000) asseguram que não há dúvidas sobre esta contribuição do sistema visual no controle postural e Bankoff et al. (2006), em seus estudos, complementam demonstrando fortes e consistentes interrelações neuromotoras entre o sistema visual e diferentes posturas corporais.

Devido a estes fatores, percebe-se a contínua necessidade e tendência de aprofundamento, descrição e avaliação das relações existentes entre os estímulos recebidos interna e externamente nos sistemas corporais (incluindo o estomatognático) e o controle postural em pessoas com e sem deficiência física, para uma melhor compreensão dos mecanismos de ajustes e manutenção do equilíbrio; assim como, realizar estudos e definir protocolos padronizados e validados para obter confirmações e permitir discussão entre diferentes pesquisadores e linhas de investigação.