A laminite é uma grave consequênciaassociada ao SME. No entanto, os mecanismos pelos quais ocorrem as alterações que favorecem o seu desenvolvimento ainda não estão totalmente esclarecidos (Ertelt et al., 2014).
Uma das hipóteses propostas é a de que a laminite se desenvolve devido a um estado inflamatório ligeiro e crónico juntamente com um aumento do stress oxidativo. A NAD(P)H oxidase é um complexo enzimático das membranas celulares que produz o radical livre superóxido. O aumento da atividade deste complexo, juntamente com a diminuição da atividade de algumas das enzimas do sistema de defesa antioxidante, como a superóxido dismutase e a glutationa peroxidase, resulta num aumento da produção de radicais livres de oxigénio e, consequentemente, o aumento do stress oxidativo. Estas alterações conduzem a uma disfunção endotelial nos vasos sanguíneos do casco e consequente hipoperfusão (Roberts & Sindhu, 2009). O aumento da atividade do Toll Like Receptor 4, responsável por promover a inflamação através da produção e secreção de citocinas pró-inflamatórias e a activação das vias inflamatórias, também tem sido apontado como outro dos fatores desencadeadores de laminite. Esta alteração contribui para o estado inflamatório crónico, encontrando-se associada à diminuição da resposta à insulina pela via supressora da sinalização de citocinas 3 (SOCS3), proteínas reguladoras do sistema imunitário. As alterações induzidas nestas vias vão contribuir indiretamente para a resistência à insulina e para a ocorrência de danos no endotélio vascular (Shi et al., 2006; Mancia et al., 2007; Taleb et al., 2009). O aumento da expressão do TNFαencontrado no casco num estudo realizado em póneis vem corroborar a hipótese da presença de um estado inflamatório crónico como tendo um importante papel na fisiopatologia da laminite (Carter et al., 2009). No entanto, é necessário salientar que num outro estudo, já anteriormente referido, o TNFαmostrou ter alguma propensão para afetar um dos sexos tendo preferencialmente sido encontrado um aumento da sua expressão em fêmeas (Suagee et al., 2013).
Uma outra causa possível para o desenvolvimento de laminite pode estar relacionada com um aumento da produção de factores de coagulação pelo fígado. Este aumento poderá levar a isquemia devido a um estado de hipercoagulação (Krauss & Siri, 2004).
Uma terceira hipótese assenta na resistência à insulina e mais concretamente na hiperinsulinemia como um dos principais factores responsáveis pelo aumento da probabilidade de desenvolver laminite em cavalos e póneis (Geor & Frank, 2009). Esta hipótesetem vindo a ser comprovada por vários estudos, nomeadamente Asplin et al., 2007 e
Laat et al., 2010, que conseguiram induzir o desenvolvimento de laminite em animais clinicamente saudáveis através da exposição a uma hiperinsulinemia prolongada. A indução continua de hiperglicemia seguida de hiperinsulinemia endógena pode também ter o mesmo efeito (De Laat et al., 2012).
Histopatologicamente ocorrem inúmeras alterações antes do aparecimento dos sinais clínicos de laminite. Nos estados iniciais do desenvolvimento da laminite as lâminas epidérmicas secundárias (LES) tornam-se mais alongadas e estreitas o que pode dever-se ao aumento da proliferação das células epidérmicas e a desorganização celular que ocorre após o inicio da hiperinsulinemia. Estas alterações comprometem a suspensão da falange distal dentro do casco o que pode explicar as alterações de posicionamento que ocorrem em estados mais avançados da doença. Ainda no inicio da progressão da laminite verifica-se nas células laminares o aumento da morte celular e desorientação nuclear. O aumento da proliferação das células laminares é outra das evidências e que pode estar associada a fatores mitogénicos como a insulina e citocinas. O alongamento causado nas LES pelo aumento da densidade celular pode estar relacionado com a disfunção laminar e o aparecimento da claudicação. Foi também observado um enfraquecimento das células da membrana basal ainda que sem presença de alterações severas, o que pode ser indicativo de que a sua separação é uma lesão secundária (de Laat et al., 2013).
Dado que estão presentes na vasculatura periférica receptores de insulina, uma das hipóteses proposta como mecanismo desencadeador de laminite é que esta hormona participe na regulação da resposta da vasculatura periférica podendo causar disfunções endoteliais que deixam as lâminas mais sensíveis à ocorrência de lesões (Geor & Frank, 2009).
As lâminas do casco estão situadas numa camada dermo-epidérmica entre a taipa e a falange distal. A junção entre a derme e a epiderme ocorre através de uma membrana basal composta por uma matriz extracelular (MEC) (Jansová et al., 2015). Ao longo do tempo a
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resultados obtidos para as MMP-2, a concentração e expressão génica das MMP-9 mostrou-se aumentada no tecido laminar afectado, ainda que na forma inativa, podendo esta sim atuar na patogénese da laminite.
Sabe-se que a MMP-9 deriva principalmente dos leucócitos (Goetzl et al., 1996), e poderia ser estabelecida uma relação entre eles visto que a infiltração de leucócitos no tecido laminar aumenta. No entanto, no modelo de laminite induzida pela insulina, este aumento ocorre de forma muito moderada sendo encontrado apenas um pequeno número de leucócitos, o que juntamente com a não evidência de grandes lesões na membrana basal leva a crer que o contributo da MMP-9 na fisiopatologia da laminite induzida pela insulina é mínimo (de Laat
et al., 2013).
Por outro lado, existe um polipéptido denominado insulin-like growth factor 1 (IGF1) que tem mostrado ter também um papel na patogénese da laminite. O IGF1 atua na ativação da proliferação celular e no crescimento e reparação dos tecidos (De Laat et al., 2013). Em estudos realizados mantendo uma euglicemia e hiperinsulinemia prolongadas, durante o período de desenvolvimento e na fase aguda da laminite induzida pela insulina foram encontradas concentrações baixas do IGF 1 assim como do seu receptor, o que indica algum grau de sensibilidade à concentração de insulina. A diminuição da expressão génica para o receptor do IGF1 provocada pela hiperinsulinemia pode levar à proliferação inadequada das células da epiderme laminar e ao enfraquecimento laminar.
Podemos concluir que a patogénese do SME e o consequente desenvolvimento da laminite não devem ser vistos como consequência de apenas um factor mas sim como o resultado de um conjunto de alterações quer pro-inflamatórias, de resistência à insulina, de hipercoagulação, de hipertensão ou de lesão endotelial, que se encontram interligadas. Dada a falta de certezas acerca de todos os processos implicados, e do peso de cada um na fisiopatologia do SME, devem ser realizados mais estudos de forma a esclarecer as dúvidas que ainda existem e poderem ser desenvolvidos protocolos de atuação precoce no sentido de prevenir o desenvolvimento de laminite em animais diagnosticados com SME.