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ANNEXE : LISTE DES DOCUMENTS UTILISÉS

Dans le document – LÉGISLATION COMPARÉE – (Page 57-62)

Facilmente compreendemos o desejo do homem, muito provavelmente desde o início de sua existência, em construir bonecos e por meio deles se expressar. Os vestígios do teatro de bonecos remontam a história das civilizações mais antigas: China, Índia, Egito; motivo pelo qual se supõe que o teatro de bonecos tenha surgido no Oriente, para depois chegar à Europa e, então, às Américas.

Talvez os registros escritos mais antigos, sobre o desejo de dar vida ao inanimado e de imitar o poder criativo de Deus, estejam, segundo Cunha (1996), no Eutífron6, um dos diálogos

de Platão7, escrito aproximadamente em 399 a.C., quando se refere às estátuas móveis de Dédalo.

São escassos os registros de bonecos na África, mas a máscara é um elemento importante de quase todas as cerimônias africanas, e é difícil traçar uma linha divisória entre o boneco e um ator mascarado. Durante muitos anos, tanto na Europa quanto no Brasil, a Igreja valeu-se do teatro de bonecos para difundir o espírito religioso, com o objetivo de atrair a atenção dos fiéis de maneira direta e objetiva, tendo esta forma de espetáculo adquirido também o nome de “Presépio”, no qual representava o nascimento de Jesus Cristo. Foi possivelmente desta forma, que o teatro de animação chegou ao Brasil. Aos poucos foram sendo introduzidos assuntos profanos e o teatro de animação passou a tratar de questões sociais e do cotidiano.

O teatro de bonecos talvez seja um dos instintos mais antigos da espécie humana. É possível que o teatro de bonecos seja a forma mais antiga de teatro, e que dele tenha surgido a arte dramática. Não se pode comprovar ou negar tal hipótese. No entanto, segundo a Cia.

6 Eutífron é um dos primeiros diálogos de Platão, datando de cerca de 399 a.C.. Trata dos conceitos de piedade e

impiedade.

7 Platão (Atenas, 428/27–347 a.C.) foi um filósofo grego; discípulo de Sócrates, fundador da Academia e Mestre

Stromboli8, “está comprovado que desde tempos muito remotos o teatro de bonecos e o teatro de atores se desenvolveram lado a lado, e que muito provavelmente um influenciou o outro”.

O conhecimento sobre a existência do teatro no antigo Egito deve-se a descobertas recentes do abade Driotton, de textos de literatura dramática. Esses textos indicam a existência de títeres usados na representação de deuses e como protagonistas da ação teatral. Supõe-se que nessas apresentações, os "atores humanos" da época estariam submetidos às prescrições divinas dos títeres. Em 2000 a.C., existiram bonecos feitos em madeira, movimentados por meio de fios. Nos túmulos do antigo Egito, foram encontrados bonecos feitos em argila e em marfim, com articulações nos membros. Esses bonecos foram provavelmente esculpidos pelos egípcios para serem utilizados em rituais, cerimônias religiosas e para o entretenimento.

Ernest Maidron (1900), em seu livro Marionnettes et Guignols9, assegura que esses bonecos possuíam articulações na cabeça e nos braços, possibilitando sua movimentação. Encontrou-se, também, no túmulo de uma bailarina chamada Jelmis, uma sacerdotisa de Osíris, ao lado de sua múmia, um pequeno barco em madeira com tripulação feita em marfim. Uma das figuras da tripulação possuía articulações e podia ser movimentada por meio de fios, podendo ser considerada como uma marionete. No centro do barco havia uma casinha com portas, também em marfim, que ao se abrirem mostrava uma cena de um teatro de títeres. Há a grande possibilidade de esta bailarina ter realizado apresentações com marionetes, a bordo de uma embarcação pelo rio Nilo.

A antiguidade do teatro de bonecos, bem como a existência de títeres ou marionetes é comprovada não somente de forma documental, por meio das obras dos autores de cada época, mas também de forma palpável, por meio de inúmeros títeres que foram encontrados. Em quase todos os museus do mundo há marionetes ou títeres e em muitas coleções particulares, também.

Uma feliz descoberta no início do século XX (1904) em Antinoé, pelo arqueólogo francês Gayet, nos mostra que marionetes articuladas já existiam no Egito.

Na coleção egípcia do Museu do Louvre, há uma boneca, em cuja cabeça encontra-se um gancho, destinado a receber o fio pelo qual seria manipulada. Esta boneca também

8 Artigo publicado pela Cia. Stromboli, criada em 1996 para estudo e desenvolvimento do teatro de animação,

disponível em: https://www.cepetin.com.br/artigos/breve-história-do-teatro-de-bonecos, acesso em 10 out 2016.

9 MAIDRON, Ernest. Marionnettes et guignols. Les poupées agissantes et parlantes à travers les âges, illust. de

comprova que a marionete é milenar, e que sua origem talvez não esteja relacionada ao brinquedo infantil. No antigo Egito, os antepassados colocavam marionetes nos túmulos. Tratava-se de figuras que representavam a imagem do morto, para eternizar sua vida e suas qualidades.

A obra Three Dancing Dwarfs, (Fig. 2, b) que se encontra no Museo do Cairo, refere- se a três bonecos esculpidos em marfim. Os bonecos se movem para a direita e para a esquerda, por meio de cordas – fios e de polias, configurando-se em bonecos manipuláveis. Esta obra comprova a ação de manipulação de bonecos, a intenção da representação do movimento e especialmente da intenção clara em dar vida aos bonecos. Os bonecos foram esculpidos em posição de movimento evidenciado por seus braços e pernas flexionados, sugerindo o movimento de dança. O formato robusto dos corpos e os pés curvados, típicos dos pigmeus da África do Sul, são bastante realistas e os distingue como representantes da arte do Reino Médio. Durante escavações em 1934, em Lisht, uma aldeia egípcia localizada ao sul do Cairo, realizadas pelo Museu Metropolitano de Arte de Nova York, esta peça foi descoberta nos alicerces de uma parede de tijolos que selava o túmulo de uma menina de nome Hapi. O Museu Metropolitano de Arte de Nova York possui em seu acervo, um quarto boneco desta peça.

O boneco egípcio (Fig. 2. a), datado de aproximadamente 2.000 a.C., feito em madeira, apresenta-se em uma interessante posição de movimento, executando a ação de sovar massa de pão. Possui articulações em seus membros, e também é movimentado por meio de uma corda ou fio. Outros bonecos construídos em argila e marfim, igualmente controlados e manipulados através de fios, foram encontrados em túmulos egípcios.

Podemos aceitar a hipótese de que os bonecos e títeres manipuláveis por fios, mais antigos de toda a nossa história, provavelmente são os bonecos encontrados do Antigo Egito e

Fig. 2. a) Boneco egípcio em madeira, datado de aproximadamente 2.000 a.C. Fonte: Observations

On The Historical Development Of Puppetry; b) Three Dancing Dwarfs. Escultura em marfim. Altura: 7,8 cm. Reino Médio, 12ª Dinastia, 1980 a.C. a 1790 a.C. Museu do Cairo.

da Índia. Resgatar a história do teatro de animação desde seus primórdios é uma tarefa difícil visto que faltam descrições detalhadas dos fantoches e marionetes da antiguidade tanto em documentos como na própria arte. Segundo Ana Maria Amaral,

As origens do teatro de bonecos da China são muito remotas e vagas. Documentos antigos provam a existência de imagens funerárias movidas por mecanismos que lhes conferiam uma perfeita ilusão de vida. (AMARAL, 1991, p. 75).

Segundo Beltrame (2012), “o teatro de sombras é uma das mais antigas manifestações teatrais do Oriente, notadamente em países como Índia, Indonésia, Tailândia, Sri Lanka e China. Certamente por isso, durante muito tempo, tanto na Europa quanto no Brasil, o Teatro de Sombras foi conhecido como Sombras Chinesas”. Há uma lenda, que conta o nascimento do teatro de sombras:

O Imperador Wu Ti, da dinastia dos Han (140-87 a.C.), teve o desgosto de perder sua dançarina predileta. Havia vinte anos que ele governava com sabedoria e juízo o Império Celeste e seu reinado era dos mais gloriosos de todos os tempos. Mas Wu Ti era muito supersticioso e acreditava nas artes mágicas. Quando a dançarina morreu, ele, no seu desespero, voltou-se para o mágico da corte, exigindo que fizesse voltar a linda defunta, do país das sombras. Ameaçado de pena de morte, o mágico não perdeu a cabeça.... Numa pele de peixe, cuidadosamente preparada para torná-la macia e transparente, recortou a silhueta da dançarina, tão linda e graciosa como ela fora. Numa varanda do palácio imperial, mandou esticar uma cortina branca em frente a um campo aberto. Com o Imperador e a corte reunida na varanda, e à luz do sol que se filtrava através da cortina, ele fez evoluir a sombra da dançarina, ao som de uma flauta e todos ficaram alucinados com a semelhança. (OBRY, 1956, p. 20)

Os registros sobre o teatro de animação como arte popular, são bastante raros até o início da era cristã. Contudo, podemos admitir que o teatro de sombras se espalhou pelos países do Leste, pelo menos a 200 a.C., provavelmente tendo sua origem na Índia. As marionetes, por sua vez, e demais bonecos manipuláveis por meio de vara ou fios, podem ter sido originadas dos bonecos autômatos e articulados, utilizados em rituais e cerimônias no Antigo Egito.

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