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10 Annexes

10.3 Annexe 3 / Grille de lecture

1.1.1.1. Filosófica e Psicológica

Do ponto de vista filosófico e psicológico, imagem, imagem mental e imaginação têm sido objecto de reflexão desde os mais remotos tempos da história do homem.

Para Aristóteles, a imagem é a representação analógica que a sensação lega à alma, que persiste e pode renovar-se com uma certa liberdade mesmo após ter cessado o acto da percepção. Isto significa que as imagens resultantes da observação de objectos materiais, acabam por adquirir vida própria, podendo na mente do observador, combinar-se, associar- se e reaparecer à superfície da consciência, por força da imaginação. (Aristóteles, s/d, apud Oliveira, 1996:10)

Assim o verdadeiro conhecimento, resulta da experiência adquirida pelas sensações e consequentes lembranças, ou seja, a imagem é a própria sensação ou percepção do objecto no momento da observação e também o resultado da imaginação.

Os escolásticos incluíram a imaginação entre as faculdades sensíveis internas e definiram-na, segundo a tradição aristotélica, como a capacidade de fixar, reproduzir e combinar as imagens das coisas sensíveis.

Descartes, na Modernidade, defende que a imagem é o resultado da sensação, logo, sensação e imagem constituem aspectos distintos, uma vez que a segunda depende da primeira. A sensação é a impressão corporal resultante da observação dos objectos pelos sentidos. A imagem surge quando esta sensação se torna consciente. Contudo, Descartes refere que, diversas vezes as imagens que achegam ao cérebro carecem de rigor, pelo que se impõe a análise metódica do observado, para poder chegar ao verdadeiro conhecimento. Piaget (1969: 78-79) defende que as imagens que captamos da realidade envolvente constituem percepções da totalidade, pelo que as sensações visuais constituem elementos estruturados:

“Quando vejo uma casa não vejo primeiro a cor da telha, o tamanho da chaminé, etc., e finalmente a casa! Percebo logo a casa como "Gestalt" e só em seguida passo à análise do pormenor”.

Segundo este entendimento, os conhecimentos que adquirimos não são consequência instantânea das imagens visuais que percepcionamos, mas advêm de um todo do qual a percepção constitui apenas a função de sinalização. O conhecimento humano

resulta de duas fases importantes: a percepção dos objectos, fase primordial, e a acção que exercemos sobre as imagens percepcionadas. O conhecimento, propriamente dito, só se consolida pela complementaridade das duas acções.

Damásio (1995: 99-129) considera que, todo o pensamento humano está dependente das imagens, pois “o conhecimento factual que é necessário para o raciocínio e para a tomada de decisões chega à mente sob a forma de imagens”. Refere ainda, que as imagens podem ser de dois tipos:

a) as imagens perceptivas, que chegam ao cérebro e são portadoras de informações do mundo exterior;

b) as imagens evocadas, que ocorrem à medida que «evocamos uma recordação de coisas do passado.» As imagens evocadas podem dizer respeito tanto a factos ou processos de reconstituição de factos passados, como a factos relativos ao futuro, apresentando umas e outras as mesmas características.

Ainda segundo o mesmo autor, todo o nosso pensamento é constituído por imagens. O que importa salientar

“é que as imagens são provavelmente o principal conteúdo dos nossos pensamentos, independentemente da modalidade sensorial em que são geradas...”.

1.1.1.2. Linguística e Semiótica

Nem todas as imagens têm o mesmo nível de complexidade, sendo umas de leitura mais imediata e outras, mais complexas de leitura mais difícil. Calado, (1994: 35) acredita que “o movimento de análise científica da imagem e, da sua complexidade, é iniciado pela semiótica”. Para Oliveira (1996: 19-20) analisar a imagem do ponto de vista linguístico e semiótico constitui desde logo uma questão primordial: perceber se uma imagem, uma fotografia, uma pintura, uma qualquer representação, institui uma forma de comunicação do seu autor, com outras pessoas, analogamente à linguagem verbal.

Nesta linha de análise, o mesmo autor refere que a semiótica é a explicação rigorosa de um assunto que engloba a linguística e se apresenta como uma ciência que procura estudar sistemas de comunicação.

“a semiologia (ou semiótica) percebida como a descrição rigorosa de um conteúdo manifestado pelo recurso a outras linguagens para além das linguagens naturais, ou pela ajuda dos significantes que constituem os objectos e os próprios

comportamentos humanos (…)engloba a própria linguística (…), apresenta-se como uma ciência que procura estudar todos sistemas de comunicação” (Oliveira 1996: 20).

A semiótica caracteriza-se pela sua grande amplitude, na medida em que os seus objectivos visam o estudo de todas as formas possíveis de comunicação, entre as quais está a linguagem verbal, no entanto nenhum estudo semiótico pode ser feito sem o recurso à linguagem verbal. Desta asserção se infere que um estudo semiológico nunca poderá prescindir do apoio da linguística, constatação que levou alguns linguistas a considerar que a semiótica não é mais do que um ramo da linguística (Oliveira, 1996:20).

As mais modernas teorias de comunicação defendem que todos os comportamentos socioculturais podem ser definidos como fenómenos comunicacionais, ou seja, como sistemas estruturados de significações (Calado, 1994: 35).

Oliveira (1996) baseando-se nas ideias de Christian Metz, acrescenta que não é possível comunicar pelo uso exclusivo de imagens, desde que entre elas se estabeleçam conexões lógico-semânticas, pois os elementos que constituem as imagens são, tal como as palavras, unidades significativas susceptíveis de serem descodificadas. Se num texto as palavras estabelecem múltiplas relações de natureza sintáctica, constituindo unidades significativas, também os elementos constituintes das imagens se podem organizar em grupos carregados de significação, pelo que as imagens, de acordo com o seu grau de complexidade e com a maneira como estão organizados os seus elementos constituintes, poderão ser comparadas a textos mais ou menos complexos, susceptíveis de serem lidos e interpretados pelos receptores.

Numa fase inicial a imagem foi utilizada (e ainda hoje o continua a ser) de maneira autónoma, independentemente da linguagem verbal, a partir do momento em que o homem conseguiu criar símbolos visuais (como a própria imagem) capazes de tornar mais duradoura a linguagem verbal. Imagens e Palavras passaram a constituir duas formas de comunicação que frequentemente se complementam, sendo, na vida moderna, e em consequência do progresso tecnológico, duas formas de comunicação muitas vezes indissociáveis (Oliveira 1996: 23-25)

Imagem e Texto, enquanto formas de comunicação apresentam semelhanças que importa realçar: constituem registos fixos, não voláteis, susceptíveis de uma comunicação diferida, sem necessidade da presença física dos interlocutores, capazes de vencerem a barreira do tempo e de permitirem que a sua recepção se efectuar através da visão.

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