As características do trabalho em equipe multiporfissional em saúde, demonstradas na seção anterior deste capítulo, permitem a apreensão do trabalho em saúde como a atividade de concepção5.
Isso porque trabalhadores que atuam nesse contexto precisam elaborar planos de ação para responder os problemas de saúde de um indivíduo ou de uma população. A elaboração desses planos requer realização de diagnósticos acurados, que servirão de base
5A atividade de concepção é definida por Terssac (2008) como atividade de cunho coletivo que se constrói a
partir de uma prescrição recíproca que ao mesmo tempo ordena o trabalho dos atores do projeto e se torna o fundamento do processo cooperativo, emergido dessa atividade.
para nortear a construção de soluções pertinentes, demandando em muitos casos a integração de profissionais de diferentes especialidades.
Especificamente na Estratégia Saúde da Família, que foi o campo em que esta pesquisa se desenvolveu, o trabalho em equipe interdisciplinar é preconizado e, conforme ratifica o texto da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), essa dimensão do trabalho não se traduz na sobreposição das ações dos profissionais que integram as equipes, mas demanda interlocução entre esses atores como destacado no excerto a seguir:
A presença de diferentes formações profissionais, assim como um alto grau de articulação entre os profissionais, é essencial, de forma que não só as ações sejam compartilhadas, mas também tenha lugar um processo interdisciplinar no qual progressivamente os núcleos de competência profissionais específicos vão enriquecendo o campo comum de competências, ampliando, assim, a capacidade de cuidado de toda a equipe. Essa organização pressupõe o deslocamento do processo de trabalho centrado em procedimentos profissionais para um processo centrado no usuário, onde o cuidado do usuário é o imperativo ético-político que organiza a intervenção técnico-científica (BRASIL, 2012 p. 22).
A organização do trabalho na ESF prevê ainda que todos os integrantes das equipes de saúde da família participem de reuniões que são, por sua vez, o cerne do processo da concepção das suas práticas de cuidado. Pois, é por meio da reunião que os diferentes profissionais da ESF discutem o planejamento das ações da equipe, avaliam sistematicamente a implementação dessas ações e reorganizam o processo de trabalho mediante dados coletados no território sob sua responsabilidade (BRASIL, 2006b; BRASIL, 2012).
Destaca-se, ainda, que as equipes de saúde da Família incorporam em seu escopo de atuação elementos da história de vida e dados do contexto do individuo ou família no intuito de mapear fatores de proteção e de risco a que estão expostos; ou seja, os profissionais da ESF trabalham com problemas que estão para além da semiologia biomédica convencional (HAHN, 2015; TRIANA, 1999).
Esse aumento da abrangência tanto dos problemas quanto das soluções a serem desenvolvidas no âmbito da ESF reforça a necessidade do trabalho coletivo, já explicitado nas prescrições que orientam o trabalho nesse cenário, indo ao encontro das ideias de Béguin (2010 p. 55), que destaca a natureza coletiva de um processo de concepção tendo em vista que não importa o que será concebido: “este objeto é muito complexo para que uma pessoa sozinha disponha de uma representação de todos os problemas a serem resolvidos.”
pormenorizados no primeiro capítulo desta tese. Destarte, com base nas informações retiradas dos documentos que norteiam as práticas na ESF, o fluxo de identificação e discussão dos problemas entre os profissionais das equipes e a formulação de proposições para o seu enfrentamento encontram-se ilustrados na figura 4.
Figura 4 – Fluxo de concepção da ESF baseado nos princípios dos PTS
Fonte: Elaborado pela autora.
O quadro apresentado demonstra as semelhanças com o trabalho de concepção de um lado, por sua natureza interdisciplinar, e de outro, porque se estrutura por meio da construção de PTS nas reuniões de equipe. Ou seja, o trabalho na ESF é um trabalho coletivo que se estrutura em espaços dialógicos por meio de prescrições recíprocas.
Contudo, convém ressaltar que os projetos tradicionais têm restrições temporais e são finalizados conforme apresentado nos capítulos precedentes. Porém, os PTS apresentam características peculiares em relação à dimensão do tempo visto que os ciclos de concepção não são necessariamente encerrados. Isso ocorre por conta do atributo da longitudinalidade, que vigora na ESF e que se traduz no acompanhamento dos casos ao longo do tempo sem adoção do princípio da alta que é o marco para o fim de um tratamento em saúde nos serviços tradicionais.
A questão da fluidez na limitação temporal presente na implementação de um PTS também pode ser referida ao atributo da coordenação do cuidado, pois mesmo que o usuário seja atendido em serviços de outro nível de complexidade caberá à equipe da ESF a função de integrar as ações de cuidado que aferem dos diferentes pontos da rede.
Logo, longitudinalidade e coordenação do cuidado têm como efeito a manutenção dos PTS por longos períodos tendo em vista que um usuário será de responsabilidade de uma equipe da ESF enquanto habitar o seu território adscrito.
Desse modo, mesmo que o usuário sofra de um agravo que requeira atendimento em um serviço especializado, como o hospital, por exemplo, ele permanece vinculado à equipe de saúde da família que deverá continuar a atender demandas relativas ao escopo da APS e, ainda, articular as ações de cuidado, referente aos outros níveis de complexidade da rede de saúde, relativas ao caso em questão.
Esses apontamentos sublinham as semelhanças e diferenças que existem entre o trabalho em saúde, em especial na ESF e o trabalho em situações de concepção.
4.3 FECHAMENTO DO CAPÍTULO
Este capítulo apresentou as semelhanças existentes entre o trabalho em saúde e os processos de concepção com ênfase ao trabalho na ESF. Nesse sentido, foram observados os seguintes aspectos:
a) A diversidade de atores que compõem as equipes da ESF e a natureza interdisciplinar que orienta o trabalho nesse contexto;
b) O fluxo do processo de concepção dos PTS e as reuniões de equipe como cerne dos processos dialógicos das equipes da ESF;
c) As características do PTS que singularizam o processo de concepção no contexto da Estratégia Saúde da Família.
Destarte, foi demonstrado que o trabalho na ESF se constrói entre racionalidades heterogêneas que, por conseguinte, precisam ser integradas de modo coerente na construção e implementação dos PTS. Entretanto, faz-se necessário indicar quais são e como essas racionalidades incidem no trabalho dos ACS.
Para tanto, o capítulo seguinte apresenta as hipóteses que guiaram esta pesquisa e possibilitaram, não só apontar essas racionalidades heterogêneas, como, também, analisar a atuação dos ACS na concepção dos PTS e, ainda, produzir conhecimento relacionado ao
PARTE III – HIPÓTESES E METÓDOS, RESULTADOS E