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Por volta de 1737, na Ilha de Desterro (assim era chamada a ilha de Florianópolis), os portugueses desenvolveram, com grande interesse, o poderio para defesa militar e passaram a investir em atividades econômicas beneficiando os interesses da colônia. Em torno de 1778, acontece o que se chamou de repovoamento do Desterro, com o deslocamento de negros da Bahia, Rio de Janeiro e até mesmo de Angola (África). O repovoamento da Ilha cumpria os interesses de substituir o índio, praticamente exterminado na segunda metade do século XVIII, passando a mão-de-obra negra a ser sustentação do trabalho na Ilha e em toda Capitania. A comunidade Mont Serrat se formou a partir do êxodo rural, através do encontro de migrantes negros vindo dos municípios da grande Florianópolis e dos descendentes de escravos (SOUZA et al., 1992).
Ainda, segundo o mesmo autor, a comunidade do Morro da Cruz, região que está ligada ao distrito da Trindade, por volta de 1926, com a prática da tradição religiosa da Bandeira do Divino, venerada em toda a Ilha do Desterro, dá início à Irmandade de Nossa Senhora do Mont Serrat. No dia 12 de abril de 1926, é construída uma pequena capela para abrigar a imagem da santa, símbolo religioso da irmandade. A tradição, conta que a imagem de Nossa Senhora de Mont Serrat foi feita por São Lucas e trazida para a Espanha por São Pedro. A estátua é de madeira, coberta com um manto dourado, tendo o Menino Jesus nos braços. O rosto de Nossa Senhora e do Menino Jesus são de cor negra.
A religiosidade da comunidade foi determinante na definição de seu nome, hoje conhecida e respeitada como “Mont Serrat”. Diversas irmãs da congregação foram morar fora da grande casa (convento) surgindo a “Fraternidade Esperança”, cujos membros iniciaram, no Mont Serrat, trabalhos comunitários na área da saúde e educação (creche, que hoje continua a ser desenvolvida pelas irmãs da Divina Providência).
Além da tradição religiosa, o samba sempre esteve presente no sangue desta comunidade, onde foi criada a escola de samba Copa Lord.
Em 1978, a atividade comunitária foi incentivada pelo padre Agostinho, contagiando a comunidade a participar na construção e organização, criando desta forma o conselho comunitário.
Os anos 80 foram intensos e marcados por atividades que contribuíram para o desenvolvimento e crescimento da comunidade como um todo, tais como a construção da
34 igreja de Mont Serrat, o reservatório d’água, o calçamento da rua geral, o centro de saúde e a escola básica.
Através da participação e do compromisso com o coletivo, a comunidade Mont Serrat exerceu grande influência na cidade e no processo organizativo das comunidades da periferia de Florianópolis, servindo como referencial de uma nova ordem social ( Souza , et al. 1992).
O Centro de Saúde (CS) Monte Serrat, localizado no centro da cidade de Florianópolis, na encosta do Morro da Caixa, na rua General Vieira da Rosa, passou por uma reforma em 1999, e atualmente sua área física é composta por três consultórios de: Enfermagem, Medicina e Odontologia. Possui também, sala para vacina e curativo, além de dois banheiros e uma recepção que funciona como farmácia, sala de triagem e arquivo.
Para atender a demanda, o CS conta com uma equipe do Programa da Saúde da Família (PSF) composta por: médica, enfermeira, duas técnicas de Enfermagem e sete agentes comunitárias de saúde. O PSF atua organizando as ações básicas de saúde e mudando o modelo de assistência enfatizando a atenção primária.
O planejamento de todos os trabalhos do CS está voltado para a assistência primária com base na prevenção, priorizando gestantes, crianças, pacientes com agravos (hipertensão arterial, diabetes Mellitus, tuberculose, hanseníase), considerando as diretrizes preconizadas pelo Ministério da Saúde.
E mais recentemente surgem outros programas na Prefeitura Municipal de Florianópolis, como o Programa Agentes Comunitários de Saúde (PACS), constituindo um elo entre a comunidade e o CS, enfatizando as ações preventivas e promoção de saúde. O Programa Capital Criança que prioriza o atendimento à mulher enquanto gestante, puérpera e criança de zero a cinco anos de idade.
Com a implantação do PSF e destes outros programas no CS Mont Serrat, em 1999 houve cadastramento das famílias e mapeamento da comunidade do Mont Serrat realizado pelos ACS. A área de abrangência deste CS é constituída por treze micro-áreas, das quais seis micro-áreas situadas no Morro da Cruz e sete micro-áreas no Mont Serrat. Essas treze micro- áreas identificam-se entre si por apresentarem infra-estrutura e população em condições econômicas e culturais heterogêneas. Algumas micro-áreas são consideradas de risco por apresentarem precariedade de saneamento básico. A comunidade integra o mapa das regiões carentes do município.
A população da área de abrangência, ou seja, de responsabilidade do CS Mont Serrat, é de 2.800 famílias, tendo um considerável número de idosos.
O acesso ao CS é prejudicado pelo fato de ser através de uma escadaria com 67 degraus, sem corrimão. Devido a este fato, as reclamações dos usuários são freqüentes, principalmente os deficientes físicos, idosos, gestantes, puérperas, pós-cirúrgicos, cardíacos, entre outros.
Foto 2 - Acesso ao CS Mont Serrat
Por esta razão foi feito juntamente ao Conselho Local de Saúde desta comunidade, um documento solicitando à gestão administrativa de Florianópolis, para transferir o CS para um local mais apropriado, previsto nas normas preconizadas pelo Ministério da Saúde, conforme Portaria n.º 1884/94 (trata de critérios para projetos de estabelecimentos assistenciais de saúde). Este documento foi respaldado pelas normas do Programa Capital Criança; políticas governamentais: Lei Nacional do Idoso n.º 8842 de 04/01/94, Decreto n.º 1948 de 13/7/96 e Lei Municipal do Idoso de Florianópolis n.º 5371/98, que propõe o direito à população idosa de uma vida com qualidade, tendo acesso à saúde.
O grupo de idosas da comunidade de Monte Serrat formou-se há seis anos, com o objetivo de retirar as idosas de uma vida exclusivamente dentro de casa e incluí-las em um
36 universo mais abrangente, criando dessa forma vínculos mais saudáveis com a família e comunidade.
Inicialmente o grupo das mulheres idosas teve o nome de Nossa Senhora de Mont Serrat, posteriormente foi denominado de Rosário de Luz, pelo aspecto religioso e por estar associado à Ação Social Arquidiocesana. A partir de 12 de setembro de 1999 este grupo passou a ser vinculado ao Centro Cultural Escrava Anastácia da Capela Nossa Senhora do Mont Serrat.
Atualmente conta com quarenta mulheres integrantes, reunindo-se uma vez por semana, às quintas feiras, na sala de reuniões do Conselho Comunitário. As atividades que realizam são variadas: bingos, passeios e competições. Até a realização deste trabalho acadêmico a abordagem a cuidados com a saúde das idosas não estava incluída nos encontros. O processo de cuidar da AI e AE das mulheres idosas visando a promoção da QV, integrou diversas áreas, entre elas a saúde. As ações desenvolvidas foram congruentes com a cultura destas mulheres, envolvendo uma atuação da equipe da saúde interdisciplinar em conjunto com as mesmas, para atendimento das variáveis da QV por elas preconizadas.