Uma das características da humanidade é a capacidade de inovar, de criar soluções criativas para responder às suas necessidades e assim, melhorar a sua qualidade de vida. Ainda que seja comumente abordada nos estudos teóricos a relação das ciências econômicas, em especial Joseph Schumpeter, com a noção de inovação, há uma corrente teórica que aponta que as primeiras concepções sobre este conceito são ideias provenientes de estudos antropológicos e sociológicos do séc. XIX (PINHEIRO et al, 2005). Tais ensaios visavam entender as características das mudanças sociais, assim como sua estreita relação com o conceito de invenção (GODIN, 2008).
Para os antropólogos e sociólogos, uma 'invenção tecnológica', que seria um primeiro termo para o conceito de inovação, era uma combinação de fatores e disciplinas: mesclava a arte, com a ciência, conhecimento e capacidade de gerenciar, com métodos; capital financeiro, com design e tecnologia; além relação com a sociedade. Os teóricos dos estudos sociais interpelam que uma inovação é resultado
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de um acúmulo de conhecimento, e por tanto, é um processo mais social e interpessoal que sujeito a uma pessoa só (GODIN, 2008).
Para Godin (2008), a grande maior parte dos teóricos das ciências humanas via a inovação como uma invenção (uma novidade) que era usada e adotada, seja ela tecnológica ou mesmo uma mudança social. Em seus estudos, evidencia que para os cientistas sociais o termo ‘inovação’ é representado como “uma atividade e/ou um processo em que tanto a produção de uma invenção, como seu uso, são discutidos ao invés de confrontados" (GODIN, 2008, tradução da autora). Essa concepção é bem distinta da visão dos cientistas econômicos, que acabou prevalecendo e hoje é aceita em várias áreas de pesquisa, inclusive nas que tem como campo de estudo o homem e a sociedade.
Dentro da economia, percebe-se uma visão ligada à indústria, (JEWKES ET AL,1958 apud GODIN, 2008) tendo sido esboçada por teóricos como Max Weber e Werner Sombart, mas propagada em particular por Joseph Schumpeter, no início do século 19 (CAJAIBA-SANTANA, 2014). Para esse teórico, existe uma ligação da inovação com mudanças e novas combinações de fatores que irrompem com o equilíbrio existente (SCHUMPETER, 1988 apud DZIOBCZENSKI et al, 2011). Isto é, a inovação é uma forma de desfazer ou modificar alguma coisa já foi estabelecida.
Esse aspecto corresponde ao conceito de ‘destruição criativa’, proposto por Schumpeter, em que ocorre a “substituição permanente por novos produtos, processos e modelos (...), cuja ação se dá por indivíduos com características empreendedoras, que são os protagonistas dessas mudanças” ( FARFUS, D; ROCHA, M; 2007). Essa percepção de Schumpeter ecoou por muito tempo, colocando-o, para a grande maioria dos pesquisadores do tema, como um dos principais teórico quando se fala sobre inovação (PINHEIRO et al, 2005).
Anos após essa definição de inovação voltada principalmente à introdução de novos produtos, de aperfeiçoamento dos bens e ampliação de mercados (o ciclo schumpeteriano de inovação tecnológica), multiplicaram-se as noções do significado de tal conceito, sendo propostos novos aspectos que caracterizariam e classificariam uma inovação (BIGNETTI, 2011).
Conforme diversos autores (FARFUS, D; ROCHA, M; 2007; DZIOBCZENSKI et al, 2011) uma das primeiras referências para construir e padronizar internacionalmente o conceito de inovação foi o Manual de Oslo, realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico nos anos ‘90, que
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pontuava aspectos da inovação. Tendo uma 1ª Edição no ano 1992 e a 2ª Edição em 1997, a priori as definições de inovação englobavam aspectos da inovação tecnológica, voltados à pesquisa e desenvolvimento de produtos e processos. Com parca experiência acerca de inovações não-tecnológicas, apenas uma pequena discussão foi contemplada e incluída nos anexos da segunda edição do Manual (OCDE, 2005).
No decorrer dos anos, outros aspectos foram considerados, tais como a inclusão do setor de serviços e de outros tipos de inovação. A fim de expandir o conceito e abranger a vários aspectos de uma nova cultura emergente, uma nova definição é assim estabelecida pela 3ª Edição do Manual de Oslo, formulado em 2005:
Uma inovação é a implementação de um produto novo ou significativamente melhorado (bem ou serviço) ou processo, um novo método de marketing ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, organização do local de trabalho ou relações externas (OCDE, 2005, p. 46)
Apesar desta forte relação entre a economia e o conceito de inovação, nos últimos anos percebe-se um discurso mais voltado a entender outros aspectos que compõem o processo de inovar. Uma outra referência no que tange à compreensão de inovação é o Green Paper of Innovation, que propõe uma outra visão mais voltada às dimensões sociais do conceito (CAJAIBA-SANTANA, 2014). Esse documento, produzido por uma comissão da União Europeia em ‘95, pretendia além de tentar identificar as características da inovação na Europa, propor novas formas de inovar nesse contexto. Em um dos tópicos, disserta sobre a relação entre sociedade e inovação, afirmando:
A inovação não é apenas um mecanismo econômico ou um processo técnico. É acima de tudo um fenômeno social. Através dele, indivíduos e sociedades expressam sua criatividade, necessidades e desejos. Por sua finalidade, seus efeitos ou seus métodos, a inovação está, portanto, intimamente envolvida nas condições sociais em que é produzida. (...) A inovação pode e deve oferecer uma resposta aos problemas cruciais do presente. Deve tornar possível uma melhoria nas condições de vida (novos meios de diagnóstico e de tratamento de doenças, segurança no transporte, comunicações mais fáceis, um ambiente mais limpo, etc.). (Green Paper of Innovation, 1995, tradução da autora).
À vista disso, percebe-se que o conceito de inovação abrangeu-se e conseguiu encontrar espaços em outras perspectivas, tornando-se um tema presente
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em várias disciplinas, adotando, inclusive, uma perspectiva mais sistêmica. Como exemplifica Bignetti (2011), até mesmo “concepções sobre a estreita vinculação entre inovação e design estratégico se tornaram evidentes e produziram resultados significativos”. Segundo o autor, é crescente as inovações em serviços, adquirindo relevância e multiplicando pesquisas nessas novas formas de inovar.
Desde então, o conceito de inovação tem sido discutido de diferentes formas, tendo sido cada vez mais presente nos estudos e pesquisas essa dimensão social (CAJAIBA-SANTANA, 2014); que retoma alguns dos pontos das teorias e pesquisas elaboradas pelos antropólogos e sociólogos do séc. XIX. Conforme citam Farfus e Rocha (2007), a sociedade tem se instigado a sair de um “estado de acomodação perante as mudanças ocorridas que trouxeram à tona ou intensificaram diversos problemas, tais como o aumento da desigualdade social, do desemprego e a exclusão social”. Segundo as autoras, é nesse contexto de insatisfação e mudanças socioculturais que surgem novas formas de “superação”, criando novos paradigmas e buscando a inclusão de todos os indivíduos.
Desse modo, percebe-se que movimentos sociais têm tentado diminuir a lacuna deixada pelos sistemas econômicos culturais vigentes. O desenvolvimento de estratégias para driblar os males da sociedade pós-moderna tem sido um tema recorrente em estudos e pesquisas das ciências sociais aplicadas. Inspirado pelo debate e pela possibilidade de promover mudanças significativas, superando os desafios da realidade, o conceito de Inovação Social vem sendo compreendido e construído como campo de estudo (FARFUS, D; ROCHA, M; 2007).
Embora não seja um fenômeno recente, esse tipo de inovação com um viés social, ao contrário da noção schumpeteriana de inovação tecnológica, não possui uma longa tradição de pesquisa nas ciências sociais. Como pondera Cajaiba-Santana (2014):
De fato, é verdade que a inovação social como fenômeno tem estado constantemente presente na evolução das sociedades humanas. A realidade social em que vivemos hoje foi construída no passado e está continuamente em fluxo. Práticas, hábitos e instituições como dinheiro, sufrágio universal, leis e o estado moderno eram todas inovações sociais em um determinado momento. No entanto, o conceito de inovação social apareceu nos discursos das ciências sociais apenas nas últimas décadas. (CAJAIBA-SANTANA, 2014, p.44, tradução da autora.)
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Assim sendo, no próximo subcapítulo discutiremos as origens desse novo tipo de inovação, que surge como “uma das formas de se buscarem alternativas viáveis para o futuro da sociedade humana” (BIGNETTI, 2011).