I. Rappels et Définitions :
1. Anatomie du vagin :
A leitura das cartas ao lar delineiam pouco a pouco como a comunicação epistolar de Agassiz, chegou ao universo da ciência, extrapolou as fronteiras do mundo social, neste caso representado pela família. De fato, esse foi o tom regido por Agassiz durante toda a correspondência familiar. A escrita epistolar anunciava aos correspondentes o conhecimento !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
44
Cunhado por Pierre Bourdieu, o conceito de ilusão biográfica faz uma crítica sobre a ingenuidade de se supor que a trajetória de um indivíduo é coerente e contínua, desde o nascimento à morte. Como se interpretar uma existência fosse buscar uma relação harmoniosa que ligasse cada fase da vida a um todo idealizado. Neste parágrafo, o uso da ilusão biográfica é proposital para levar o leitor a uma temporalidade do futuro, porém não premeditado por Agassiz, mas conhecido por aqueles que leem sua biografia. BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, M.; AMADO, J. (Org.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1998. Entre os anos de 1837 e 1847, a partir de observações feitas no glacial de Aar, nos alpes suíços, Agassiz desenvolveu uma teoria sobre a Idade do Gelo (Ice Age), contribuindo muito com a história da terra. Segundo a sua convicção, um manto de gelo teria coberto os Alpes e toda a Europa, em sucessivas glaciações. Esses estudos fizeram de Agassiz um reconhecido geólogo. Cf. OSBORN, Henry Fairfield. Louis Agassiz in the hall of fame. Science, v.67, n.1743, p. 523, May. 1928. Disponível em:
<http://science.sciencemag.org/content/67/1743/523.1>. Acesso em: 30 de maio de 2016. Durante os anos de 1837 a 1845, Agassiz passou tempos observando os movimentos glaciais dos Alpes Suíços, fez visitas a Inglaterra, Escócia e Alemanha para estudar a composição interna e evidências das formações glaciais. Publicou dois trabalhos a respeito: Études sur les glaciers (1840) e Système glaciaire (1847). Cf. LURIE. Louis Agassiz, a life in science, p.95. Esse recorte da vida científica de Agassiz será retomado na parte II desta tese na análise de suas cartas científicas. !
da natureza vivenciada sob o olhar orientado pelo saber científico. As cartas evocavam a natureza por aproximações e classificações que tornavam a narrativa um meio de linguagem para familiarizar os correspondentes com as vivências e aprendizados específicos da ciência da história natural. A proximidade entre os dois mundos, por um lado o científico e por outro o social, foi tão expressiva, que em certas circunstâncias sem a menor cerimônia, o naturalista envolveu os membros da família diretamente na prática da ciência. Isto fica evidenciado principalmente nas missivas em que os peixes dominaram a temática da narrativa.
Os peixes dos lagos suíços, como também os dos rios amazônicos, ganharam um espaço especial nas cartas ao lar. No caso dos irmãos – Cécile e Auguste – estes eram instruídos no mundo científico que contagiava o estudante de história natural e conduzidos a desempenharem funções da ordem de um naturalista. Via correspondência, a ligação dos irmãos Agassiz era incorporada na prática da história natural. Na carta de vinte de novembro de 1827, Agassiz atraía a atenção da irmã Cécile sobre a rotina de um aprendiz naturalista concentrando-se no objeto científico, ou seja, nos estudos dos peixes, a partir de um acontecimento do cotidiano:
Sexta-feira, aqui, é dia de mercado e eu nunca deixo de ir ver os peixes para aumentar minha coleção. Eu já obtive vários que não se encontram na Suíça; e mesmo diante da minha curta estadia, tive a sorte de descobrir novas espécies, sobre as quais fiz descrições precisas, para ser impressas em alguma revista científica de história natural. Se minha querida Cécile aqui estivesse, eu imploraria a ela para desenhá-las delicadamente para mim. Isso teria sido agradável de fato. Agora eu devo pedir a um estranho para fazê-lo e não terá de modo algum o mesmo valor sob meus olhos. vii 45 [grifos desta autora].
Educada nos bons costumes do pequeno lar burguês da Suíça, Cécile Agassiz teria um suposto domínio na arte de desenhar. O irmão relacionava sua tarefa científica de colecionar os peixes com os dotes artísticos de Cécile. Na primeira metade do século XIX, a representação iconográfica na história natural dava-se por meio de métodos manuais como desenho, pintura e gravura. A imagem científica era intensamente requisitada e indispensável no registro, na tradução e na complementação do trabalho dos naturalistas. Os ilustradores trabalhavam no sentido de objetivar a informação científica pela imagem, o ideal para as representações em história natural seria a combinação, em proporções semelhantes de ambas:
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 45
Carta de Louis Agassiz a irmã Cécile Agassiz, Munique, 20 de novembro de 1827. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.57. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.
verdade científica e sensibilidade artística. Para tanto, artista e naturalista trabalhavam em comunicação constante e o entrosamento entre eles era fundamental.46
Cécile permanecera na Suíça, enquanto Agassiz, primogênito, ganhava o mundo para se educar. No entanto, ele não subestimou a capacidade da irmã de compreender seu mundo científico e escreveu a Cécile sobre ele, com a sensibilidade de romper, ao menos sutilmente, com o horizonte doméstico e feminino que marcava a vida das mulheres daquela sociedade. Nas missivas, reforçava o talento da moça para as artes e ciências e escrevia sobre detalhes do mundo científico da mesma maneira espontânea com que lhe dirigia palavras de afeto: “minha querida Cécile”. Agassiz elaborava códigos para escrever à irmã, sem ter que excluí-la daquilo que mais o fascinava: o universo científico. O naturalista combinou nesta carta a Cécile elementos do mundo do irmão e do mundo do naturalista, ao associar a habilidade e conhecimentos artísticos femininos com a importância das imagens científicas.
Sobre essa carta, nota-se ainda como Agassiz transferiu sua prática científica aos lugares do cotidiano. Nela, o mercado foi representado como espaço privilegiado da história natural, ou melhor, como uma exposição científica rica em fonte material de espécimes para suas observações ou para compor no futuro suas coleções de ictiologia. Agassiz conta à irmã que aprendeu sobre a natureza e se exercitou ali mesmo, em um local dos mais populares: o mercado de peixes, onde tratava de negócios, porém científicos. O mercado de peixes era o único lugar de acesso ao fundo dos rios e dos mares. O desenho artístico e o mercado de peixes eram trazidos nas cartas, numa escrita permeada de contornos afetivos, permitindo aos correspondentes familiarizarem-se com a história natural e simpatizarem-se com o naturalista em formação, mas de uma maneira que ainda pudessem reconhecer nele o irmão.
Nas missivas dirigidas à Cécile, Agassiz mostrou-se competente no ato de trazer virtualmente a irmã para perto de si. Evocou sua presença ao narrar o tempo diário, ele mesmo escreveu: “Eu contarei a você como tenho passado meu tempo, assim quando pensar em mim, pode saber onde estou e o que estou fazendo.”viii 47 A estratégia de sua escrita era aproximar-se da família, portanto os detalhes dos dias de sua vida ganhavam as linhas das cartas ao lar. Na carta abaixo, Agassiz cronometrou as tarefas de manhã à noite, dando a ideia da disciplina monástica pelos estudos:
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 46
Cf. DASTON, Lorraine; GALISON, Peter. Objectivity. Cambridge, Massachusetts, and London: MIT Press, 2007.
47
Carta de Louis Agassiz a irmã Cécile Agassiz, Munique, 20 de novembro de 1827. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.55-56. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.
Pela manhã, de sete às nove estou no Hospital. De nove às onze, vou à biblioteca, onde costumo trabalhar ao invés de ir para casa. De onze até uma hora, eu tenho aulas, depois alimento, às vezes em um lugar, às vezes em outro, pois aqui todo estrangeiro faz suas refeições nos cafés, pagando pelo jantar no local, assim ele não é obrigado a ir sempre ao mesmo lugar. À tarde, eu tenho outras aulas sobre vários assuntos, de duas ou três até cinco horas dependendo do dia. Terminado isso, dou um passeio embora esteja escuro. Os arredores de Munique estão cobertos de neve, e as pessoas têm andado sobre trenós nessas últimas três semanas. Quando estou congelado, volto para casa e começo a trabalhar para rever minhas aulas do dia, escrevo e leio até oito ou nove horas. Então, vou para o café para jantar. Depois da ceia, satisfeito, retorno a casa e vou para a cama. Este é o curso de minha vida diária [...].ix48
Horários, locais e tarefas davam à Cécile uma ampla noção de como o irmão assumira seus compromissos em Munique. Ao informá-la sobre seu cotidiano, Agassiz mostrou que o laço da família permanecera bem atado no tempo epistolar que privilegiava a vida privada. A correspondência confirma o quanto foi importante para o naturalista manter-se próximo dos familiares, trazê-los de alguma maneira para vivenciar uma etapa fundamental de sua vida. A relação afetiva fluiu para dimensões mais profundas, os irmãos, leitores das cartas ganhariam demandas particulares e passariam atuar como os primeiros agentes colaboradores da própria prática científica de Agassiz.