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Analysis of a single detector: FID837

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4.4 Analysis of a single detector: FID837

Tillich desenvolve sua busca pelo conceito de religião trilhando um quádruplo caminho, ou seja, ele apresenta quatro obstáculos que se apresentam quando se propõe definir o conceito de religião. São reduções impostas à religião pelo próprio conceito da religião, às quais a religião resiste por não se submeter a ser tratada como um mero objeto pela filosofia da religião. Sobre este conflito entre a religião e a filosofia da religião falaremos mais adiante. São eles: 1) Fazer

com que a certeza de Deus seja relativa à certeza do eu; 2) Fazer com que Deus seja relativo ao mundo; 3) Fazer com que a religião seja relativa à cultura; e 4) Fazer com que a revelação seja relativa à história da religião. A seguir, comentaremos o pensamento tillichiano sobre cada uma dessas concepções redutoras.

Quando o pensamento está determinado a buscar um conceito de religião, logo se apresenta uma realidade que se faz mais fundamental do que a realidade do Incondicional. Essa realidade é a certeza do eu, de si mesmo. A auto certeza do eu se torna prioritária em relação à certeza de Deus64. Isto se faz independente de todas as formas possíveis de se conceber Deus. E esta auto certeza do eu não é uma base apropriada para captar o Incondicional, pois a certeza do Incondicional é incondicionada e a auto certeza do eu é condicionada. Quando a auto certeza do eu sobrepuja a certeza do Incondicional, este se torna objeto e, portanto, condicionado. Nas palavras de Tillich: “quando o mundo objetivo ao qual [a auto certeza do eu] está ligada se

dissolve em aparências, a auto certeza do eu assume o caráter quase translúcido de um sonho. O sujeito cai ao cair o objeto.”65. Em outras palavras, quando a certeza do eu supera a certeza do

Incondicional, deixando-o em segundo plano e tornando-o condicionado ao eu, ele deixa de reconhecer o Incondicional como condição para o acesso ao eu e, assim, o próprio eu sucumbe, tornando-se em aparências e em algo semelhante a um sonho. O Incondicional é aquilo que está para além do sujeito e do objeto. Como esclarece F. P. Pieper:

Cabe ressaltar que o Incondicional não é nenhum tipo de objeto. Antes, é espécie de horizonte que se coloca antes do sujeito e do objeto, fundamento sobre o qual se assentam todos os juízos teóricos. Em termos mais filosóficos, o incondicionado é a condição de possibilidade para o sujeito e objeto, bem como possibilita o encontro entre eles.66

Mas como evitar que ocorra a superação do Incondicional pela certeza do eu? Tillich esclarece que somente quando o eu é entendido como um meio para a auto-captação do Incondicional é que ele participa da certeza do Incondicional. Assim, o Incondicional será mantido como fundamento e o eu apenas como um meio para se chegar a este fundamento e se

64 Percebe-se aqui que Tillich ora usa o termo Deus, ora usa o termo Incondicional. Os dois termos são aplicados no mesmo sentido.

65 TILLICH, Paul. A superação do conceito de religião na filosofia da religião. In: Filosofía de la religión. Buenos Aires: Asociación Editorial La Aurora, 1973, p. 121.

66 PIEPER, Frederico. P. A Filosofia de religião e seu objeto: um debate com Paul Tillich e Jean-Luc Marion. Texto de sua palestra proferida na ANPOF, em 2012.

tornar fundamentado. O eu, portanto, não deve ser fundamento, e sim fundamentado no verdadeiro fundamento que é Deus. “Quando não sucede assim, e o eu se torna independente, a

religião aparece – pois ao perder a Deus o eu, ultimamente, se perde a si mesmo.”67 conclui Tillich.

Em segundo lugar, a partir do momento que se perde a certeza do Incondicional, o Incondicional perde simultaneamente a sua realidade. Se se perde a certeza do Incondicional, ele não faz mais parte da realidade incondicionada e, portanto, se torna condicionado. A religião então se torna uma função condicionada no mundo condicionado. Uma função ao lado das outras funções do espírito. E, para alcançar o Incondicional, ela parte de sua própria realidade condicionada. Ela perde a sua característica peculiar que está na sua relação com o Incondicional e destrói a si mesma. Dessa forma, Deus se converte em correlato ao mundo, ou seja, Deus passa a ser parte do mundo condicionado. Ora, se o Incondicional está para além de tudo que é condicionado, temos então um Deus abaixo de Deus - o Deus do Deísmo. A alternativa possível é considerar que o mundo seja completo e não necessite de nenhum tipo de acabamento e que Deus seja idêntico ao mundo, isto é, conceber Deus como sendo a totalidade e a síntese de todas as formas finitas, de todo o universo condicionado. Para Tillich, esse Deus não é outro senão o Deus do Panteísmo. Pois se este Deus é o somatório de tudo que é condicionado, então ele já perdeu a sua relação com o Incondicional. Se o mundo é completo em si mesmo, sem Deus, Deus então se converte em um nome vazio que é pronunciado apenas por motivações religiosas.

Em terceiro lugar, assim reduzida a uma função do espírito ao lado das outras, a religião se transforma em um artefato cultural e se converte em uma mera esfera de ação social ao lado das outras. O conceito de religião destrói não apenas a certeza e a realidade de Deus, como também a própria religião, pois ele transforma a religião numa criação humana, destituindo-a de seu caráter divino. Como consequência disso, a religião é colocada lado a lado com as outras funções do espírito se tornando em algo condicionado e perdendo, consequentemente, seu caráter incondicionado. Assim concebida, a religião busca sua realização em outras funções do espírito visando sua completude. Entre estas funções, Tillich cita a práxis, a ética, o sentimento, um a

priori. Nesta busca de suporte em outras funções, a religião acaba por se confundir com elas,

67 TILLICH, Paul. A superação do conceito de religião na filosofia da religião. In: Filosofía de la religión. Buenos Aires: Asociación Editorial La Aurora, 1973, p. 122.

tendo em vista o fato de se colocar ao lado delas, de forma condicionada e desprezando, assim, o aspecto essencial de sua incondicionalidade. Essas funções acabam por assimilar a religião e por subordiná-la aos seus âmbitos. Com isso, a religião perde sua identidade própria, sobretudo seu vínculo com o Incondicional. Portanto, assim como toda pessoa é um sujeito com ações práticas, científicas, estéticas ou políticas, ela passa a ser também religiosa. Vê-se, então, claramente o Incondicionado se perdendo, isto é, se convertendo em algo condicionado ao ser colocado lado a lado com a cultura e, nesse momento, a religião é destruída pelo seu conceito. A religião não tolera sua equiparação às outras funções nem mesmo de forma hierarquizada, ainda que seja colocada no ápice das demais funções do espírito ou como um a priori religioso. A religião “é,

pelo contrário, um fogo consumidor contra toda função autônoma do espírito humano. A pretensão de buscar um a priori religioso deve ter clara consciência de que todos os demais a

priori se afundam, incluindo o a priori religioso, em um abismo.”68, rebate Tillich.

Por fim, do mesmo modo que o conceito de religião dissolve a incondicionalidade da fé na cultura, ela também dissolve a revelação no processo evolutivo da história das religiões e da própria cultura. A revelação se torna relativa à história e se confunde com as contínuas alterações que se realizam ao longo do tempo. Cria-se então uma “religião” ao lado da religião absoluta. “Religião”, em termo geral, não tem relação com as pretensões revelatórias das religiões em particular. Nesse ponto, Tillich ressalta que o Cristianismo não pode se converter em uma religião, pois se assim o fizer, ele perde seu caráter absoluto. Ele esclarece:

Em suma, a fé concede o predicado de ‘religião’ àquela religião que não produz a salvação, à religião falsa. ‘Religião’ é um termo pejorativo, que indica aquela qualidade inferior, dentro do âmbito do religioso, que consiste em não conseguir ir mais além do sujeito, nesse caso, não consiste em nada mais que uma intenção orientada para Deus que não possui a Deus, porque Deus não se tem manifestado nela. E o conteúdo desse termo pejorativo, então, se converte no fundamento sobre o qual se supõe que a revelação se consolidará – mas não pode. Porque se for assim, a revelação se converte, seja em uma transmissão de conhecimentos que o espírito autônomo de todas as maneiras seria descoberto, mais cedo ou mais tarde, e, portanto, se deteriora convertendo-se em um racionalismo que de vez em quando é complementado pelo sobrenatural ou na história cultural e se

68 TILLICH, Paul. A superação do conceito de religião na filosofia da religião. In: Filosofía de la religión. Buenos Aires: Asociación Editorial La Aurora, 1973, p. 123.

dissolve nas contingências do processo cultural. Se ‘revelação’ é um conceito religioso, não é um conceito.69

Quando a revelação é concebida sob a ótica de uma abordagem histórica generalizante e percebida como parte de um processo de desenvolvimento humano, ela perde seu caráter singular, absoluto e auto-suficiente. Ela é tirada de seu âmbito divino para ser inserida na história. A filosofia exerce este papel. Ou seja, ela tem por característica atuar por meio das categorias generalizantes destituindo o objeto de sua análise de seus aspectos particulares, para tratá-los sob o ponto de vista geral e recorrente. É neste ponto que se assenta a resistência da religião em ser conceituada pela filosofia da religião.

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