4.4 Quantification des paramètres
4.4.1 Analyses temporelles
Apesar de estarem sendo empreendidos novos estudos, é lícito dizer - trazendo as palavras de Robert DARNTON para o contexto brasileiro – que, no Brasil, “a leitura ainda permanece um mistério, embora a façamos todos os dias”,104 principalmente na Região dos Campos das Vertentes, onde estão sendo realizados trabalhos sobre História Econômica, Política e Demográfica sendo realizados, mas poucos sobre História Cultural. Dentre os trabalhos que fazem referência à Biblioteca em questão encontram-se o de Maria Augusta do Amaral CAMPOS, que a toma como uma das instituições da Vila oitocentista de São João del- Rei responsáveis por disseminar a civilização, ao lado da tipografia, da Sociedade Protetora da Independência Nacional e das associações musicais, e o de Rosemary Tofani MOTTA, que faz um estudo sobre a inserção do fundador da Biblioteca (Baptista Caetano d’Almeida ) na Vila de São João e suas diversas iniciativas de civilizar a cidade105.
103 VIÑAO FRAGO, Antonio. op. cit., 1999. p. 66.
104 DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos - e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. 277.
105Cf.: CAMPOS, op. cit., 1998; MOTTA, Rosemary Tofani. Baptista Caetano de Almeida: um mecenas do projeto civilizatório em São João del Rei no início do século XIX - a biblioteca, a imprensa e a sociedade literária. Dissertação (Mestrado), Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal de Minas Gerais, 2000.
Nos meus contatos com a Biblioteca desde a graduação, foi se constituindo um programa de pesquisa, num percurso que agora retomo. Esse caminho foi de idas e voltas, pois às vezes procurava me distanciar dos referenciais teóricos, tentando deixar as categorias de análise emergirem das fontes e, outras vezes, distanciava-me da empiria, permitindo uma análise mais apurada e não simplesmente a descrição do que as fontes informavam. Dentre as possibilidades de pesquisa que vislumbrava com relação à Biblioteca de São João, pensei em fazer um levantamento sobre os consulentes da biblioteca, ou seja, quem eram os leitores mais assíduos, quais os livros mais retirados, mas, para minha surpresa, não existe fonte que permita esse trabalho, uma vez que os leitores dessa biblioteca são “os grandes ausentes do arquivo”.106 Não sendo possível esse tipo de trabalho, passei a me preocupar com a história da fundação da Biblioteca Municipal “Baptista Caetano d’Almeida”, apoiando-me nas cartas de seu fundador e no discurso proferido no dia da inauguração da então “Livraria Pública de São João d’El Rey” procurando uma justificativa para as atitudes de Baptista Caetano. De onde vinham suas preocupações? O que movia suas atitudes patrióticas e filantrópicas, além de sua determinação em propiciar o desenvolvimento da educação e da cultura da cidade? Em suma, o que orientava suas ações? Na tentativa de esclarecer essas questões, procurei, através da
Enciclopédia metódica, uma obra “emblemática” para Baptista Caetano, pois a única que cita
nominalmente, a chave capaz de desvendar os segredos de suas leituras. Passei a perguntar- me: por que somente ela? Teria sido essa obra a que mais o influenciou? Apesar de pretender não fazer uma história intelectual das idéias, como mencionei no início deste capítulo, eis que, paradoxalmente, assim procedia, ao tentar perceber a existência ou não de relações entre a
Enciclopédia metódica e as atitudes e opiniões de Baptista Caetano, além de suas iniciativas
de “ilustrar” a cidade com atos como o da fundação da “Livraria Pública”. Em outras palavras, tentava pelo menos me aproximar do modo como “interpunha entre ele e a página impressa o filtro que fazia enfatizar certas passagens enquanto ocultava outras, que exagerava o significado de uma palavra, isolando-a do contexto, que agia sobre a memória [...] deformando a sua leitura”107, ou seja, perceber em seus escritos como ele se apropriava do que lia, mas ao mesmo tempo insistia na hipótese de que a Enciclopédia era a obra que influenciava o leitor em questão.
106 DARTON, op. cit., 1992. p. 10. 107 GINZBURG, op. cit, 1989. p. 89.
A primeira publicação a respeito da Biblioteca Pública de São João del-Rei foi feita por E. Bradford BURNS, em seu artigo “The enlightenment in two colonial brazilian libraries”. Segundo BURNS, duas grandes doações foram feitas à Biblioteca, a primeira por Baptista Caetano e a segunda pelo Conselheiro José de Resende Costa, mas não se têm documentos comprobatórios que esclareçam a quem os livros pertenciam, nem a data em que a doação do acervo do Conselheiro foi feita. Afirma ainda que a biblioteca de Resende Costa foi constituída a partir de alguns volumes que seu pai lhe deixou de herança, tendo sido aumentada no decorrer de sua vida.108
De acordo com documentação da Câmara Municipal de São João del-Rei, o acervo doado por Resende Costa chegou à cidade em 1842, contendo muitos livros “traçados e estragados”109. O documento traz a relação, em ordem alfabética, dos livros legados pelo Conselheiro em testamento, no ano de 1841 (totalizavam 120 obras, distribuídas em 500 tomos). Quem elaborou a listagem teve a preocupação de separar as obras em bom estado de conservação das que se encontravam “traçadas e estragadas”, mas não se deu ao trabalho de anotar o nome completo das obras, nem as datas de publicação ou autores, o que pode ser indicativo de uma forma de relação com os livros110. Pretendi explorar analiticamente os escritos e tradução feitos pelo Conselheiro, considerando que, muitas vezes, a escrita torna-se um “documento” que materializa, sutil ou explicitamente, as leituras feitas pelo autor. A tradução também constitui fonte riquíssima de análises, já que todo tradutor é um intérprete, pois suas palavras podem expressar coisas distintas da obra traduzida, como opiniões, gostos e
108 BURNS, E. Bradford. The enlightenment in two colonial brazilian libraries. Journal of the history of ideas. v. 25, n. 3. 1964. Aqui uso a tradução: O Iluminismo em duas bibliotecas do Brasil colônia. Universitas, Salvador, n. 8-9, p. 05-15, jan./ago. 1971. Cf. ainda: SILVA, Mª Beatriz Nizza da. História da leitura luso-brasileira: balanços e perspectivas. In: ABREU, Márcia (org). Leitura, história e história da leitura. Campinas: Mercado das Letras: ALB: São Paulo: FAPESP, 1999 (Coleção Histórias de Leitura). p. 147-164, especialmente a p. 157, em que a autora menciona o artigo de BURNS.
109 ARQUIVO DA CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO JOÃO DEL-REI (ACMSJDR): “Ofício de Martiniano Sevéro de Barros sobre a doação, em testamento, do Conselheiro José de Resende Costa, de livros à Biblioteca Pública de São João del-Rei - 1842”.
110 José de Resende Costa nasceu no Arraial da Lage, atual cidade de Resende Costa (1765). Participou da Inconfidência Mineira, tendo sido preso e sentenciado a degredo na Ilha de Cabo Verde. De inconfidente passou a integrar a estrutura imperial, tendo exercido vários cargos administrativos da Coroa, tendo sido aposentado como Escrivão da Mesa do Tesouro Régio e recebido o título de Conselheiro do Império (1827). Foi nomeado sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e Deputado da Assembléia Constituinte em 1823, da Assembléia Legislativa nos anos de 1826 e 1829, e às Cortes em 1827. Faleceu em 1841. A biblioteca particular de Resende Costa não se constitui em objeto de análise dessa dissertação. Cf.: BLAKE, Augusto Victorino A. Sacramento. Dicionário bibliográfico brazileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1899. (vol. 5) p. 147-148; PINTO, Rosalvo Gonçalves. Os inconfidentes José de Resende Costa (pai e filho) e o Arraial da Lage. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 1992.
intenções, ao se dar ênfase a certas passagens ou ao se acrescentarem notas explicativas111, o que havia sido feito por meu protagonista. Os rascunhos e anotações à margem dos textos também poderiam ser “transformados” em “documentos”, na medida em que, através deles, é possível certificar que os livros foram lidos, além de obter indícios do que era ou não importante para o leitor, de como aceitava ou contestava as idéias contidas nos textos que leu. Para que meu projeto fosse exeqüível, era necessário que eu encontrasse, na Biblioteca Baptista Caetano d’Almeida e nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico, os livros e anotações do Conselheiro, sejam aquelas provavelmente feitas às margens dos textos, sejam as que, segundo Rosalvo Pinto, foram doadas ao Instituto por Resende Costa, na forma de brochuras.
Descobri que os documentos acerca de Resende Costa eram insuficientes, que não me permitiriam alcançar todos esses objetivos, uma vez que os doados ao Instituto Histórico e Geográfico não eram textos escritos pelo Conselheiro, e, através dos documentos da Câmara Municipal de São João, pude observar que grande parte de seus livros e todas as “brochuras” com seus escritos se encontravam “arruinados”, adjetivo a eles conferido pelo olhar dos “examinadores” da época.112 Assim, procurando constatar a existência dos grifos e anotações feitos nos livros doados à Biblioteca, passei a procurá-los. Encontrei alguns dos livros doados por Resende Costa e constatei que ele escrevia suas iniciais na folha de rosto de seus livros, mas não grifava quando lia (se é que lia), o que demonstra a historicidade das práticas de leitura: uma relação de respeito com o livro, na qual não é permitido ao leitor preencher, interferir nos espaços em branco.
Desse modo, abandonei as pesquisas sobre o Conselheiro Resende Costa, centrando meus esforços em descobrir mais sobre Baptista Caetano d’Almeida, por ter sido o maior incentivador dos projetos “civilizatórios” ocorridos na Vila de São João no início do século XIX e fundador da Biblioteca113.
111 Conforme conferência do Professor Jorge Llarosa proferida no I Encontro de História da Leitura e do Livro no Brasil, no dia 15 de outubro de 1998, intitulada “Os Paradoxos da Repetição e a Diferença. Notas sobre o comentário de texto a partir de Foucault, Bakhtin e Borges”. Essa conferência se encontra publicada In: ABREU, op. cit, 1999. p. 115-145.
112ACMSJDR: “Atas das Sessões da Câmara” (ATA SES 28 - 1839-1844), folha 216.
113 Entendendo por “projeto civilizatório” iniciativas tomadas pelas elites políticas, econômicas e culturais brasileiras oitocentistas tanto para “educar” os “bárbaros” e assim torná-los obedientes a uma ordem pública (o que permitiria fundar uma nação) quanto para manter-se no poder. As escolas, o exército, o teatro em praça pública ou as bibliotecas podem ser tomados como exemplos de instituições civilizatórias.
Assim, ao longo do meu percurso de investigação sobre a Biblioteca, meus objetivos foram ampliados e revistos, e hoje o eixo central de meu estudo é entender o sentido dado à fundação da Biblioteca pelos agentes sociais envolvidos em seu projeto de abertura e a ligação dessa Biblioteca com uma Sociedade Literária, mostrando como essas instituições difusoras de práticas de letramento podem ser tomada como casos exemplares do processo civilizatório ocorrido no Império do Brasil. Para tanto, o primeiro passo é recuperar a historicidade das práticas de letramento através dos casos elucidativos que são a constituição da Biblioteca e da Sociedade Literária, demonstrando que esses projetos de difusão do letramento tomam a forma de projetos excludentes, no sentido que estabeleciam diferenciações no acesso ao escrito. Procuro mapear e entender as relações entre os diversos agentes sociais envolvidos nos projetos de constituição da Biblioteca e da Sociedade Literária com o mundo da palavra escrita e ainda analisar como o Estado brasileiro se comportava com relação a essas práticas de acesso ao letramento. Assim, deixei de lado as preocupações com a análise da história de vida do fundador da Biblioteca (Baptista Caetano) e passei a me preocupar com os diversos agentes sociais envolvidos no processo de negociação para a abertura desse estabelecimento, que, como será mostrado, não transcorreu de maneira harmoniosa. Ainda me movimentando de maneira a reconstruir o objeto de pesquisa, em vez de descrever a história da Biblioteca ao longo de sua existência, concentrei esforços para entender como a iniciativa de sua inauguração pode ser entendida como inscrita nos diversos processos de civilização naquele momento específico, num local determinado.