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ANALYSES ET COMMENTAIRES

Dans le document Concours du second degré Rapport de jury (Page 15-19)

GAÇÃO

Geison V. Lira Ana Maria F. Catrib Raimunda M. da Silva

INTRODUÇÃO

A ascensão das patologias crônicas não transmissí- veis no perfil de morbi-mortalidade dos coletivos humanos no Brasil constitui-se num fenômeno que tem chamado a atenção dos pesquisadores no campo da epidemiologia. Transformações dessa natureza acarretam alterações consi- deráveis no conteúdo da agenda nacional da saúde pública e recomendam formas de abordagem distintas das que têm frequentado as políticas assistenciais do setor (MONTEI- RO, IUNES e TORRES, 2000; LESSA, 2004; TOSCA- NO, 2004).

Por outro lado, patologias transmissíveis de curso crônico emergentes, como a SIDA/AIDS, e prevalecentes, como a Tuberculose e a Hanseníase, que são consideradas como a expressão biológica das iniquidades sociais (FAR- MER, 1999), têm tido impacto considerável no conteúdo, respectivamente, da nova agenda e na agenda tradicional da saúde pública brasileira, ensejando a operacionalização e a consolidação de políticas assistenciais que visem a sua abordagem como problemas de saúde pública e de aborda-

gens de cuidado consideradas como estratégicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)(BUCHALLA, 2000; MONTEIRO, IUNES e TORRES, 2000; WALDMAN, SILVA e MONTEIRO, 2000).

Com efeito, do ponto de vista epidemiológico, as pa- tologias crônicas grassarão na população brasileira, neste século XXI, como um dos principais problemas inerentes à agenda nacional de saúde pública, seja no que concerne à agenda tradicional, seja no que tange à nova agenda de saúde pública.

Por outro lado, desde o ponto de vista das ciências sociais em saúde, é possível reconhecer o impacto das enfer- midades crônicas na vida das pessoas, a que denominamos

cronicidade. Trabalhos na área da psicologia têm enfocado

o estresse, e os modos como as pessoas se ajustam a even- tos estressantes (PARK e FOLKMAN, 1997; SHARPE e CURRAN, 2006).

Trabalhos sociológicos de filiação etnometodológica, por seu turno, abordam a enfermidade como uma ruptura de um fluxo do cotidiano, uma ameaça súbita a um mun- do tomado como suposto (RABELO, 1999). Contudo, não basta descrever a experiência vivida pelos pacientes e os transtornos existenciais provocados pela enfermidade, mas, também, dedicar-se ao estudo das estratégias que são ado- tadas pelas pessoas enfermas para gerenciar os problemas decorrentes (ADAM e HERZLICH, 2001). Com efeito, nessa linha de investigação proposta, deve-se reconhecer, na conformação das problemáticas de pesquisa concernentes às enfermidades crônicas, que uma das finalidades centrais

para que tendem os atores em torno da enfermidade crônica é a normalização.

Desde a perspectiva da corrente norte-americana da antropologia médica, os problemas trazidos pela en- fermidade crônica são, principalmente, as dificuldades que os sintomas e a incapacidade criam nas vidas das pessoas (KLEINMAN, 1988), problemas esses que ensejam ações individuais que reconduzam a vida à normalidade (ALVES, RABELO e SOUZA, 1999).

Nesse sentido, se adotarmos como foco de análise das enfermidades crônicas, numa linha sociológica-antropoló- gica, a forma como a patologia aflige o doente, tomando por categoria fundante a experiência de sofrimento que ela traz à vida do enfermo, poderemos lançar mão de uma abor- dagem epistemológica centrada no método fenomenológico (VAN MANEN, 1990) do processo saúde-doença-cuidado, orientando uma teoria interpretativa da cultura (GEERTZ, 1989), de onde partem os modelos culturais de interpretação e

ação em saúde-doença utilizados no âmbito da antropologia

da saúde (KLEINMAN, 1980, 1988; UCHÔA e VIDAL, 1994; MERCADO, 1999). Lastreados nesses referenciais epistemológicos e teórico-metodológicos, é possível abor- dar a forma como se constitui a experiência da enfermida- de crônica na realidade da vida cotidiana do enfermo – a

cronicidade –, bem como os modos como se constituem as

estratégias de normalização.

Também esses referenciais são cruciais para a reflexão sobre o significado do fenômeno do adoecimento humano, a partir da qual se pode estruturar um saber enquanto tec-

nologia, que, segundo Gonçalves (1994, p. 127) é “o saber e seus desdobramentos em técnicas materiais e não materiais que, ao darem um sentido técnico ao processo, dão-lhe um sentido so- cial articulado”. Esse tipo de saber, que Merhy et al. (1997)

classificarão, a depender do seu grau de estruturação, como

tecnologia leve (como no caso das tecnologias de relações do

tipo produção de vínculo, autonomização, acolhimento, ges- tão como uma forma de governar processos de trabalho) e

tecnologia leve-dura (como no caso de saberes bem estrutu-

rados que operam no processo de trabalho em saúde, como a clínica médica, a clínica psicanalítica, a epidemiologia, o

taylorismo, o fayolismo) deveriam ser capazes de dar conta

dos desafios trazidos pela cronicidade, principalmente no que tange à eficácia da comunicação entre o profissional de saúde e o paciente, a família e as redes sociais de apoio, cru- cial para a organização de estratégias para o cuidado clínico ampliado (CAMPOS, 2003; CUNHA, 2005).

O enfoque nas pessoas usuárias potenciais dos servi- ços de saúde é uma das importantes demandas no âmbito da pesquisa em saúde, especialmente de corte qualitativo, principalmente pela necessidade de desconstrução desses serviços como espaços de elaboração da patologia como fe- nômeno biológico de base empírica (MERCADO e BOSI, 2004).

Esse processo de desconstrução é ainda mais neces- sário se considerarmos a mudança no marco operativo das práticas de saúde que recentemente se têm difundido no âmbito (1) da reorganização político-administrativa do sis- tema público de saúde brasileiro, onde se observa o devir de um novo paradigma sanitário que se constitui em rupturas

no fazer saúde, que compreenderia caminhar do existente para a inovação no modelo de gestão de atenção à saúde,

(2) da conformação do discurso da Promoção da Saúde, a

partir da Conferência de Otawa, realizada em 1986, e (3) da implementação do Programa de Saúde da Família, que é o modelo estruturante da Atenção Primária à Saúde no Brasil desde 1994, quando foi lançado pelo Ministério da Saúde.

Em vista do quadro contextual e acima exposto, procuramos discutir as bases fenomenológico-culturais de investigação em saúde para uma abordagem heurística às enfermidades crônicas, de tal modo que se possa explorar:

(a) o impacto da enfermidade crônica no mundo da vida co-

tidiana dos pacientes, em termos de ruptura e desordem; (b) como os pacientes problematizam a enfermidade crônica em seu contexto de vida; (c) como os profissionais de saúde estruturam seus saberes e práticas de cuidado a pessoas com enfermidades crônicas; e (d) que medidas normalizadoras eles formulam no sentido de lidar com a enfermidade e nor- malizar a vida.

A FENOMENOLOGIA SOCIOLÓGICA E A PERS-

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