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Vers une analyse socio-spatiale de Bogota au prisme des marchés du logement

Partie I - Construction de la recherche

Chapitre 3. Vers une analyse socio-spatiale de Bogota au prisme des marchés du logement

O trabalho representa, na actual sociedade moderna, o pilar da integração social, pois influencia todas as áreas sociais. Mais do que um factor de subsistência, que permite ganhar dinheiro para arcar com as despesas diárias e ter uma vida com conforto e bem-estar, o trabalho é um factor de socialização. É no trabalho e através deste que se estabelecem ligações com outras pessoas, que se constroem redes de socialização que nos realizam e protegem de adversidades que possam surgir.

Este é o principal ponto de referência para o estatuto social e o desenvolvimento de uma identidade. Para além disso o trabalho representa estabilidade, realização, compromisso. Dá-nos um sentimento de utilidade e de pertença e a possibilidade de usufruirmos dos nossos direitos de cidadão, de actualizar as competências profissionais e progredir na carreira. Por fim, apesar de se poderem encontrar muitos outros bons atributos, o trabalho representa um suporte seguro para o futuro, pois estaremos mais abrangidos pelas políticas de protecção social, assegura pensões e outros benefícios sociais. Num século caracterizado pelo emprego, este tem um papel central na coesão das sociedades.

Esta valorização do trabalho, ou consciência da importância do trabalho para a nossa integração social e até para a nossa felicidade, não é partilhada por todos. Especialmente os indivíduos pertencentes às classes sociais mais desfavorecidas, vêem o trabalho como um cargo demasiado pesado, um sacrifício que têm de suportar para poderem receber um ordenado e assim ter uma vida sustentável. São pessoas com trabalhos difíceis, mal remunerados, com horários sobrecarregados e fracas condições de trabalho, que não lhes possibilitam qualquer oportunidade de ascensão na carreira, nem sequer reconhecimento pelo contributo prestado.

Sendo quase todos os alunos entrevistados provenientes de classes sociais baixas, esta foi a ideia de trabalho que lhes foi dada a conhecer, e muitos deles passaram a assumi-la para si próprios. Assim, quase todos apresentaram um discurso desapreciativo sobre o trabalho. Este representa para eles uma forma de ganhar dinheiro, uma condição de vida que vão ser obrigados a aceitar e à qual vão ter que se adaptar, mas que não os realiza.

Percepção sobre uma boa profissão

Obtiveram-se das entrevistas duas percepções distintas sobre o que os alunos entendem por uma boa profissão. Estas diferenças, não por acaso, estão relacionadas com as classes sociais e os meios socioeconómicos a que estes indivíduos pertencem. Por isso, serão aqui debatidas as duas percepções em separado, começando pela percepção dos alunos pertencentes às classes sociais mais desfavorecidas, por serem a maioria e por serem os principais focos deste estudo.

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Percepção dos alunos provenientes das classes sociais mais desfavorecidas:

Quando se fala em exclusão social pensa-se logo em desemprego, na quebra dos laços com o mercado de trabalho, que os impede de ter uma participação activa na vida económica e social. Ainda que este seja um factor extremo de exclusão social, pois quebra os laços com muitas outras redes e pode mesmo levar à pobreza, existem outros que mesmo não tendo uma desafiliação total com o mercado de trabalho, colocam os indivíduos em situação de exclusão, mas que muitas vezes não são interpretados como tal.

Robert Castel (1991) cit in Monteiro, 2002), vê a desafiliação, não como uma ruptura mas como uma fragilização dos laços face ao trabalho e à sociabilidade sócio-familiar, e para além destes, Teixeira Fernandes apresenta também as baixas habilitações e fracas qualificações profissionais, a escassez de rendimentos e a precariedade do emprego como factores de exclusão social.

Os alunos entrevistados, quando questionados sobre o que era para eles uma boa profissão limitavam-se a falar sobre um ordenado que desse para viver de forma normal, sem dificuldades. Muitas eram as respostas deste género:

“Uma boa profissão é aquela que não se recebe mal nem bem, recebe-se normal, dá para sustentar a vida durante um certo tempo, e também aquela onde as pessoas podem se relacionar bem com o patrão e os colegas” (A1).

Entendem uma boa profissão como estar a trabalhar, ter um emprego, e assumem logo como garantido um ordenado baixo, porque os tempos estão difíceis, as empresas não têm condições de contratar funcionários e por isso, desde que tenham uma ocupação remunerada já se sentem satisfeitos.

Apesar de este conformismo ser já por si alarmante, o que mais choca nos seus depoimentos é a percepção que têm sobre o trabalho. A imagem mental que têm sobre uma profissão é já a de um emprego precário. Aquilo que eles entendem como algo bom e satisfatório para as suas vidas é aquilo que autores como Robert Castel, Bruto da Costa, entre outros, entendem como factores de exclusão social.

Um outro dado pertinente sobre estes alunos é a percepção que têm sobre o seu futuro profissional, pois, mais uma vez, este resume-se a ter um emprego:

“Acima de tudo é arranjar um emprego. Pode não ser na minha área, mas que gostasse” (A3).

“Já agora está muito mal e no futuro ainda vai ser pior. Esta zona não tem trabalho, mas o que surgir já vai ser bom, e se tiver que sair para outro sítio qualquer, vou” (A4).

Quer a escola profissional, quer o sistema escolar, em geral, falham na educação e promoção da inclusão social destes alunos ao não os informarem sobre assuntos como a integração social, o funcionamento do mercado de trabalho e as medidas políticas que acabam por reter os indivíduos na mesma situação em que se encontram, em vez de potenciarem a sua independência e mobilidade social. Pior que isso, falham naquilo que é a sua função principal, que é preparar, de forma adequada e proactiva, os indivíduos para o

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funcionamento do mercado de trabalho, para o empreendedorismo e para a capacitação pessoal de delinear estratégias que ajudem a superar os obstáculos que se lhes coloquem.

Percepção dos alunos pertencentes a classes sociais mais favorecidas:

Tal como são diferentes os motivos que levaram os alunos provenientes das classes sociais mais favorecidas a optar por esta via de ensino, também são diferentes as perspectivas que estes têm sobre uma boa profissão. Assim, entendem esta como uma actividade que os realize, que lhes ofereça boas condições, boas perspectivas de futuro, um bom relacionamento com os colegas, um espaço onde possam estabelecer várias relações que até lhes venham a trazer benefícios no futuro.

Relativamente ao ordenado diziam que, no futuro, se já tiverem uma vida bastante estabilizada, não se importam de ganhar menos, desde que estejam a fazer algo que gostem, pois a realização profissional é para eles o mais importante.

Aqui já não se verificam quaisquer indícios de risco de exclusão social, ainda que, como refere Machado Pais (2003), o facto de pertencerem a classes sociais altas e com qualificações mais elevadas, não significa que não possam passar por períodos de desemprego ou empregos precários, no entanto, vão ter estratégias melhores e mais rápidas de os tirar dessa situação. Para além disso, esta forma de pensar mais ambiciosa, também lhes permite ir atrás de estratégias para alcançarem depois esses bons empregos, pelo que as possibilidades de os conseguirem serão muito maiores.

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