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Analyse quantitative multiéléments à 3 sorties par ANN

Chapitre 1. Application de la chimiométrie à la spectroscopie

3.6.3 Analyse quantitative multiéléments à 3 sorties par ANN

A razão mais profunda da impossibilidade de uma determinação unívoca da experiência temporal como um todo (a necessidade da sua descomposição em agregado de perspectivas tão incontornáveis quão incompatíveis) está no seu carácter aporético.25

Ao longo da nossa leitura de poemas de Dickinson, seremos sempre de novo confrontados com esta evidência, com o facto de a experiência temporal expor diferenças druídicas inconciliáveis e irredutíveis, contradições cognitivamente inultrapassáveis entre as suas dimensões, o que torna impossível elaborar uma descrição objectiva, logicamente consistente, dos seus conteúdos (daquilo que o tempo é): o tempo é inconhecível porque ininteligível, e o reconhecimento da impotência gerada por esta barreira cognitiva é tão intrínseco ao nosso dia-a-dia que o seu significado resulta ‘desarmado’ em trivialidade de lugar comum. Que o tempo seja um enigma é tão óbvio que não parece nem preocupante nem relevante: podemos conviver bem com a nossa ignorância dele - Come what come may. Time and the hour runs through the day -, deixando o assunto para filósofos e cientistas, pois interrogar-nos sobre ele não faz qualquer diferença.

25Toda a discussão sobre o tempo se abre – e se fecha – com a evidência deste estatuto aporético, tão ‘aparente’

que faz parte do sentido comum, não sendo preciso recorrer a “technicalities” para o descrever, como afirma Aristóteles, que introduz assim a sua reflexão sobre o tempo no IV Livro da Física: “Em primeiro lugar seria bom expor as aporias em relação a ele (diaporēsai), também por meio de argumentos comuns (exoterikoi logoi), a fim de estabelecer se está entre as coisas que existem ou entre aquelas que não existem, e também para determinar a sua natureza.” (ARISTOTELES, FÍSICA: IV.10, 217b; minha tradução).

Será, todavia, assim?

Acordar-nos do sono da razão que esta indiferença representa, desvendar o peso da ignorância esquecida nas mais indisputadas certezas quotidianas, é o que a escrita de Dickinson se propõe, e consegue, fazer, reactivando, no seu poder italicizador, a carga formidável do enigma, as suas razões e implicações, as suas manifestações e consequências. Celebrante das coisas menores, Dickinson identifica o mistério não no céu das abstrações e dos cumes místicos, mas na terra da experiência comum. No seu horizonte de tópicos frequentemente banais (insectos, flores, aves, fases do calendário astronómico, fenómenos meteorológicos, situações de intimidade feminina), o poder atribuído à palavra poética é iluminar o Aparato da Escuridão que se aninha na luz, desvendar o inquietante no familiar (das Unheimliche no Heimlichen), o inconhecível no óbvio (never quite disclosed/ And never quite concealed: nunca completamente manifesto/E nunca completamente escondido).

Para Dickinson o mistério não é o sobrenatural, mas o natural (a Natureza é uma Casa Assombrada), e nada é mais natural e misterioso que o tempo: poema após poema, a nossa experiência do tempo diz-se nas diferenças druídicas que se manifestam como contradição entre permanência e transitoriedade, duração e sucessão, presente e presença; que se produzem na vertiginosa ambiguidade do instante como ponto de coincidência entre finito e infinito, assim como na indiscernibilidade de tempo e eternidade. Os poemas não nos levam a explorar o ultraterreno da metafísica, mas o chão de todos-os-dias, proporcionando-nos a (re)descoberta de que o Finito é mobilado com o Infinito, que o infinito não é um pensamento-limite (uma ideia racional) que ultrapassa toda a experiência perceptiva, mas é sua dimensão constitutiva, tornando o conhecimento uma ilusão necessária, um processo de aproximação inconclusivo, simbolicamente mediado, esforço tão necessário quão frustrante na sua ‘impossibilidade’. Afinal, o que nos acontece com a natureza é que quanto mais nos aproximamos dela, menos a conhecemos (those who know her, know her less/ The nearer her they get).

É fácil liquidar este paradoxo enunciado pela autora como ‘boutade retórica’, um daqueles artifícios brilhantes mas inconsequentes que creditamos aos artistas: com implacável ‘exatidão’,26 a poesia de Dickinson explora as causas deste paradoxo, mostrando como ele se

sustenta em todos os paradoxos que qualificam a experiência temporal, rede de contradições que a autora mapeia e ilumina numa inesgotável taxinomia poética de figuras líricas e

26A “precisão” que é reclamada por Nicolau de Cusa como critério epistemológico de validação normativa do

retóricas. Face à magnitude do objecto, este trabalho teve que tomar opções radicais, excluindo uma ampla porção da teia tecida pela aranha-autora para iluminar a noite da experiência temporal. Ficaram de fora os poemas focados na comparação (às vezes exasperada em contraposição, às vezes pacificada em harmoniosa conciliação) entre experiência temporal subjectiva, emocional e evenemencial, e percepção da exterioridade cosmológica com a sua refinada análise de situações kairóticas de eufórica ou disfórica disrupção da indiferença chrónica (situações que, em Dickinson, se produzem em relação à morte, ao amor e à criação artística). Ficaram igualmente de fora os poemas sobre os três estados da linha sucessória: o passado, como Éden perdido de que o presente-Adão incessantemente é expulso, guardando contudo a sua marca como identidade mítica que projecta o sujeito num horizonte simbólico de relevante força poética;27 o presente, como condição única de moldagem kairótica da existência como presença;28 o futuro, como a sombra da ausência que promete e ameaça, expondo a insuficiência do presente na sua abertura à alteridade.29

27Paradise is that old mansion

Many owned before - Occupied by each an instant Then reversed the Door - Bliss is frugal of her Leases Adam taught her Thrift

Bankrupt once through his excesses - F1144/J1119 (1868)

Afinal: It is the Past’s supreme italic/ Makes the Present mean – (F1518 /J1498 [1880])

28Oh Sumptuous moment

Slower go

That I* may* gloat on thee - *Till I *can ‘Twill never be the same to starve

Now* I abundance see - *since Which was to famish, then or now -

The difference of Day

Ask* him unto the Gallows led* - * to *called With* morning in the sky *By

Numa ênfase que encontramos, com acentos um pouco diferentes, também em F1226 (1871)/J1231 (1872):

Somewhere opon the general Earth Itself exist Today -

The Magic passive but extant That consecrated me -

29“Tomorrow” - whose location

The Wise deceives Though it’s hallucination Is last that leaves -

Privilegiando uma vertente gnoseológica sobre uma perspectiva existencial, esta análise concentrou-se nas figuras que na poesia dickinsoniana exprimem ‘os paradoxos na base do paradoxo’ da distância cognitiva acrescida pela aproximação ao objecto (tanto mais misterioso quanto mais explorado), as diferenças druídicas que atravessam a experiência temporal e lhe retiram coerência, fracturando-a em dimensões tão necessárias quanto incompatíveis.

III. DIFERENÇAS DRUÍDICAS (1):

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