6.5 Comparaison qualitative des r` egles extraites
6.5.2 Analyse qualitative
Neste cenário, a agricultura, com 24.940 ha (54%) e a floresta, 20.509 ha (45%) disputam a ocupação do solo. O vinho, como sector protegido, pesem embora as limitações do plantio, alimenta a motivação para a plantação de videiras; o arroz, bastante lucrativo, invade os vastos pauis e a importância económica da madeira e da cortiça estimula a manutenção e a instalação de grandes manchas de pinhal e montado de sobro. Mas, se a floresta e o arroz ganham espaço na grande propriedade, é a vinha que está presente nas pequenas courelas e na vida de quem as trabalha, sempre dependente também das condições do espaço.
A instabilidade do sector e as flutuações do preço do vinho, lesam, em primeiro lugar, o pequeno viticultor que não tem outra opção que não seja aceitar o preço que o comprador entende ser o certo e o possível.
Todos os anos, após a vindima, a uva é vendida directamente ao fabricante do vinho, que vinifica de sua conta. Segundo o Inquérito Agrícola e Florestalao Concelho (1951) “este pode ser armazenista, oportunista, ou mesmo outro viticultor”. Os pequenos viticultores sem capacidade de vinificar, sujeitam-se aos preços que os comerciantes entendem ser o mais justo. A vinha cumpre um significativo papel social de dar emprego, mas o pequeno vinicultores vende o fruto do seu trabalho, ano, após ano, quase sem lucro, perpetuando a sua antiga condição de carência e fragilidade.
Como recorda Jaime Caldeira, adegueiro:
“davam pouco dinheiro pelas uvas (…). Outras vezes nem ofereciam, a gente
vendia as uvas, depois eles mandavam apanhar todos os anos e depois eles é que marcavam o preço (…). Diziam: - Este ano correu X e a gente tinha de se sujeitar.”147
Vinificar evitaria tal vulnerabilidade e prejuízo, mas construir e equipar uma adega é projecto a que apenas 555 dos 2.620 viticultores puderam aspirar. A escassez de lucro do pequeno viticultor não lhe permite tal investimento ou risco.
O vinho é produzido, principalmente, por pequenos e médios produtores (87%) que dependem igualmente de intermediários para escoar as suas produções privando-os do lucro que poderiam ter. Os desequilíbrios do mercado vão causando os seus danos e fazendo aumentar o coro dos que acreditam na solução do cooperativismos. Nas memórias de Duarte Matos Carvalho, comissionista de vinhos: “Fez-se a adega
cooperativa para salvar os agricultores (…). Os armazenistas de vinhos, ninguém queria que se fizesse a adega cooperativa, porque iria roubar o lucro (…). Houve uma meia dúzia de lavradores (…) que se puseram à cabeça e faz-se e faz-se… e fez-se mesmo. ” 148
Em 1958 é inaugurada a Adega Cooperativa da Região do Moscatel de Setúbal, já com 50 associados.
147
Jaime da Silva Caldeira, 77 anos, Trabalhador Rural, Cabanas; Entrevista a Cristina Prata/Museu Municipal de Palmela, 2010.
148
Duarte Matos Carvalho, 81 anos, Comissionista de Vinhos, Quinta do Anjo; Entrevista a Cristina Prata/Museu Municipal de Palmela, 2010.
Ultimas considerações
Neste contexto, para os grandes proprietários, a condição da posse da terra é a continuidade de uma herança e a possibilidade de viver com o desafogo, que vai sendo permitido, quer pela política de baixos salários e estabilização dos preços dos produtos agrícolas, quer pela manutenção da antiga estrutura fundiária. Refiro-me, sobretudo, aos proprietários das grandes herdades.
Para os pequenos proprietários, ter terra significa por um lado uma bênção, porque uma conquista de algo que há muito lhe foi negado, mas também um castigo e uma escravatura, que mesmo em momento de maior precariedade o aprisiona à sua condição. Se têm agora um solo a que podem chamar seu, e onde esgotam todas as horas livres do trabalho do patrão, este não o sustenta. Constituem os “pequeníssimos”e os “pequenos” viticultores e vinicultores a quem os apoios da Junta Nacional do Vinho não chegam, nem socorrem as esperanças da cooperação. São estes trabalhadores que perpetuam o rosto do território e de quem falam tantos estudos que classificam de “atrasada” a agricultura no Estado Novo. Mas que outras alternativas existem?
A terra é escassa, não pode retribuir em fruto e abundância, o que tanto o viticultor lhe ofereceu em esforço, votando-o à dependência das jornas dos proprietários das terras vizinhas. Mas há muita gente, demasiada, e escassez de trabalho tanto na terra, como fora dela.
A uva, tão exigente em tratamentos e mão-de-obra, é vendida quase sem lucro. Mas será opção arrancar uma vinha à qual se dedicou dezenas de anos, quem sabe diferentes gerações, de muitos e zelosos cuidados? E se no ano seguinte a situação melhora? Arrancar, para voltar plantar o quê? Mesmo quando a vinha dá escasso lucro, é sempre mais vantajosa que deixar improdutiva uma terra na qual tanto se investiu, e que pouca capacidade tem para o desenvolvimento de outra cultura. Além disso, face à protecção estatal, o vinho encontra sempre comprador, logo as uvas, mesmo sem grande lucro, encontram o mesmo destino, garantindo o numerário de que as explorações agrícolas e o agregado doméstico carecem.
A tecnologia é escassa, mas é também a adequado à dimensão da terra e ao nível de investimento que o seu proprietário pode fazer.
Os salários são baixos e incertos. A sazonalidade dos trabalhos impõe a sua lei e nos meses de Dezembro e Janeiro não há sequer o que fazer. Mas existe alternativa? A estrutura fundiária assentou sempre na abundância de mão-de-obra, paga com salários
baixíssimos e livres de concorrência. Perante esta situação os grandes proprietários usufruem das vantagens trazidas pelo acesso a uma mão-de-obra abundante e silenciosa.
O campesinato, sem recursos ou alternativas para esperar outra condição, entrega-se ao que conhece e precisa: terra para viver e trabalhar. Aos olhos do regime, encontra-se no lugar certo. Está agarrado à sua terra, logo mais distante das “tentações” da emigração ou da oposição frontal ao regime e mais próximo das grandes herdades, onde constitui a mão-de-obra barata, necessária aos baixos preços dos produtos agrícolas. É suposto permanecer assim.
É a realidade aqui analisada, que mantém o país num “compasso de espera” entre a “ruralidade” que agora esmorece e a “industrialização” que se apressa em chegar. Este cenário irá mudar, mas neste período, ainda é a terra, a agricultura e a vinha que, como vimos, coloniza amplamente o solo e acolhe ou “aprisiona” grande parte da população. Nos relatos de todos os agricultores, que connosco partilharam as suas memórias, igual lamento no esforço de recordar a vida aqui descrita. Em todos os discursos, variações da mesma exclamação “Deus nos livres a todos, de um dia esse
tempo regressar!”.
Fontes e Bibliografia Fontes Impressas
A Voz de Palmela, 27.01.1955.
Inquérito Agrícola e Florestal, Concelho de Palmela (1951), Lisboa: Plano de Fomento
Agrário.
O Distrito de Setúbal, Breve resenha Histórica, 1966.
Fontes Orais
Duarte Matos Carvalho, 81 anos, Comissionista de Vinhos, Quinta do Anjo; Entrevista a Cristina Prata/Museu Municipal de Palmela, 2010.
Jaime da Silva Caldeira, 77 anos, Trabalhador Rural, Cabanas; Entrevista a Cristina Prata/Museu Municipal de Palmela, 2010.
Bibliografia
BAPTISTA, F. Oliveira. (1993), A Politica Agrária do Estado Novo, Porto: Edições Afrontamento.
BAPTISTA, F. Oliveira. (1996), “Declínio de um Tempo Longo”, in O Voo do Arado, Lisboa: Museu Nacional de Etnologia/Instituto Português de Museus/Ministério da Cultura.
CALDAS, E. de Castro. (1991), A Agricultura Portuguesa Através dos Tempos, Lisboa: INIC.
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1939), dissertação para obtenção do grau de Mestre em História dos Séculos XIX-XX
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PEREIRA, Maria Conceição. (2007), Acção e Património da Junta Nacional do Vinho
(1937 – 1986), Dissertação apresentada à Universidade Aberta para a obtenção do grau
de Mestre em Estudos do Património, Lisboa.
O património industrial da moagem portuguesa do século XX
Rui Maneira Cunha
Instituto de História Contemporânea – FCSH-UNL
IAP – Instituto de Arqueologia e Paleociências da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade do Algarve
Introdução
O percurso histórico da Empreza de Moagem do Fundão, Ld.ª – que tivemos oportunidade de estabelecer nas tarefas de registo e salvaguarda, que executámos antes das obras de remodelação que a adaptaram a equipamento cultural – levou-nos a procurar conhecer a atual condição das congéneres que laboraram em Portugal Continental, assim como a esboçar a situação deste património industrial.
Para isso, efetuámos o reconhecimento das fábricas de maior dimensão e capacidade produtiva existentes em meados do século XX, percorrendo o país, entre Setembro de 2009 e Maio de 2010.
A situação atual das fábricas de moagem portuguesa do século XX
O modo mais direto de fazer o ponto de situação do património industrial das fábricas de moagem portuguesas, consistirá em acrescentar uma fotografia atual, a cada uma das fábricas que ilustram, no Boletim que assinalou o XXV aniversário da Federação Nacional dos Industriais de Moagem (FNIM), a evolução deste sector, em dois momentos: 1934 e 1959.
A exceção, ao duplo registo fotográfico constante no Boletim, foi a fábrica das Moagens Associadas, SARL, que se encontrava em construção, no ano de 1959, e, por isso, surge representada por um desenho perspéctico do projeto e uma imagem da obra. Esta unidade está hoje abandonada e sem qualquer futuro previsível.
As figuras, patentes na publicação comemorativa do quarto de século da FNIM, permitem fazer uma caracterização geral da evolução exterior das fábricas. Se em duas delas a única divergência, entre 1934 e 1959, é a posição em que a fotografia foi captada, na maioria dos casos, a principal diferença é o evidente aumento da capacidade de ensilagem, destacando-se, das construções pré-existentes, os novos volumes dos silos.
A recolha do cereal foi uma questão premente no princípio da década de 1950, pois a FNIM, no ano de 1952, teve de armazenar 68.563 de toneladas de trigo importado em celeiros e silos arrendados. Com apoios financeiros que estimularam o aumento da ensilagem, em 1957, estavam terminadas, em construção ou projetadas, 35 baterias de silos com capacidade superior a 118.166 toneladas, correspondente a um investimento de 107.116 contos (Machado, 1957: 16-17).
Mas, além da construção de novos silos em betão armado, o aperfeiçoamento técnico e modernização da indústria de moagem passou pelo reapetrechamento das fábricas de farinha, pelo menos nas de maior dimensão. No final da década de 1950 e início da seguinte, estas unidades trocaram as máquinas, em grande parte construídas em madeira, instaladas até aos anos 20, por equipamentos de nova geração, onde predominava o metal e o vidro, mais resistentes ao desgaste e ao fogo, ao mesmo tempo que cumpriam melhor as regras fitossanitárias e higiénicas, adotando o sistema pneumático, para a movimentação do cereal e dos produtos da moagem (Rezende, 1959: 56).
A avaliação da situação deste património industrial, foi feita pelo reconhecimento
in situ das moagens constantes em duas listagens: uma de 1957, e outra efetuada doze
anos depois. No quadro de síntese que elaborámos para caracterizar a atual condição deste conjunto, considerámos as setenta e seis fábricas e a divisão por Grémios, referindo as dez unidades, entretanto, suprimidas e adicionando, à lista, as duas que surgiram até 1969.
Situação actual das fábricas descritas por Joaquim de Sousa Machado, em 1957, e por Carlos Henrique M. R. Gomes Ferreira, em 1969.
Grémio do Porto
Activa Encerrada (com ou sem Máquinas.)
Devoluta ou em Ruína
Demolida Novo Uso
A Industrial da Trofa, Ld.ª
Amorim Lage - Cerealis Carneiro, Campos & C.ª C.ª Moagem Harmonia (Grupo Cerealis) Hoteleiro – Pousada do Porto (edifício oitocentista da Moagem Harmonia) Electro-Moagem do Marco, Ld.ª C/Maq. Empresa Industrial União
Fabricas Moagens do Marco/NATAN (Rações animais) Demolido o edifício inicial Manuel da Costa e Silva & Filhos, Ld.ª, Vilar do Pinheiro, Vila do Conde. C/Maq. Moagem Céres de A.
Figueiredo & Irmão
Moagem de Gaia. S/Maq.
Moagem da Granja, Campanhã, Porto. (não consta em 1969) Moagem do Minho –
Ponte de Parada, Maia / Amorim Lage (Grupo Cerealis)
Moagem e Panificação do Norte – (Moanor) Moagem da Restauração, Porto. Novo edifício Serviços e armazém (não consta em 1969)
Soc. Fomento Industrial / Germen
Soc. Industrial Victória, Porto. (Novo edifício habitacional) Soc. Industrial do Vouga, Barcelos. (Mantém o edifício dos silos) Grémio de Coimbra
Activa Encerrada (com ou sem Máquinas)
Devoluta ou em Ruína
Demolida Novo Uso
Basílio & Carvalho, Ld.ª, Lamego / Novo edifício habitacional. C.ª Aveirense de Moagens / Equipam. Cultural Fábrica Triunfo, de Massas e Bolachas, Pedrulha, Coimbra Fábrica Triunfo na baixa de Coimbra Fábrica Triunfo, de Rações, Pedrulha
Coimbra. Não consta em qualquer lista (acrescentada). Sociedade Industrial Atlântica, Ovar Soc. Industrial do Vouga / VougaPark (Remodelação, com muita demolição) Moagem de Coimbra, Ld.ª- Moacir - Grupo Cerealis, Adémia, Coimbra (introduzida no rol de 1969) Grémio de Lisboa
Activa Encerrada (com ou sem Máquinas)
Devoluta ou em Ruína
Demolida Novo Uso
A Ribatejana, Lumiar, Lisboa
Branco, Silva & Simões, Coruche. Armazém
Nacional / CIPC / CITC (Grupo Cerealis)
C.ª Leiriense de Moagem. (Ant. Conv. S. Francisco). Comércio (em parte) e Devoluta C.ª Moagem de Abrantes C.ª Moagem Lisbonense (Olivais - Lisboa) CUF, Barreiro / Estabelecimento de diversão nocturna (não consta em 1969). EMEL – Empresa de Moagem da Estremadura, Cartaxo / armazém e actividades sociais da igreja. Joaquim Rebelo, Gaeiras
- Óbidos
Eduardo Artur Grilo Pereira, Alenquer
Manuel Mendes Godinho, Tomar - Museu da Moagem
(Projecto) Manuel Nascimento Clemente, Torres Vedras. Ensino / Comércio Moagens Associadas, Alhandra Moinhos de St.ª Iria, Póvoa de St,ª Iria, V. F. de Xira Sociedade Industrial Aliança, Caramujo, Almada. Sociedade Industrial de Vila Franca de Xira (a demolir) Sociedade Industrial de Carcavelos Sociedade do Ribatejo, Ponte do Reguengo, Cartaxo. Sociedade Industrial Ceres – Caldas da Rainha (introduzida no rol de 1969) / ateliês de artistas e designers Grémio de Portalegre
Activa Encerrada (com ou sem Máquinas)
Devoluta ou em Ruína Demolida Novo Uso
C.ª Elvense de Moagens a Vapor
C.ª Vilaboinense de Moagens (não consta em 1969) Empresa Industrial Bastos Ribeiro / Solimenta, Sousel Empreza de Moagem do Fundão - Equipamento Cultural José Mendes Callado,
Filhos, Alter do Chão (não consta em 1969) Luís José Frade Caldeira, Cabeço de Vide (não consta em 1969)
Moagem de Crato, Ld.ª
Moagem de Portalegre Nova Empresa de
Moagens de Castelo Branco
Soc. Industrial, Ld.ª, Ponte de Sor - Equip. Cultural (não consta em 1969)
União Industrial Campomaiorense (não consta em 1969) Grémio de Évora
Activa Encerrada (com ou sem Máquinas)
Devoluta ou em Ruína
Demolida Novo Uso
Abranches, Filhos, Silva & Guimarães, Vendas Novas
C.ª de Moagem Lisbonense, Setúbal. (Novo edifício habitacional) José Martins da Silva,
Redondo. C/maq. Moagem e Electricidade / Raprosul, Arraiolos. (Rações animais) Soc. Alentejana de Moagem / Universidade de Évora SOFAL - Soc. Fabril
Alentejana, Vila Viçosa. (Antigo Convento de S. Paulo) Soc. Ind. «Ceres», Ld.ª, Montemor-o- Novo (não consta em 1969)
Soc. de Lavradores José Godinho Jacob, Alcácer do Sal Vasques Fadista, Viana do Alentejo Grémio de Beja
Activa Encerrada (com ou sem Máquinas)
Devoluta ou em Ruína
Demolida Novo Uso
A Electro Fabril, V. R. de St.º António. (Novo edifício habitacional) Companhia Industrial do Algarve, Faro (identificada, em 1969,
por Moagens Associadas, SARL)
Emygdio Lima, Mértola. Armazém Camarário (em parte) J. A. Pacheco, Tavira. (não consta em 1969) Antigo convento Bernardas - Adap. Habitação, proj. Souto Moura
J. J. Palma Borralho, Cuba. C/Maq.
José Mendes Carvalho & Sobrinhos, Vidigueira. (Novo edifício habitacional) Moagem Louletana.
S/Maq. (não consta do rol de 1969).
Moinhos de Santa Iria, Beja
Soc. Ind. Alentejo e Sado (SIAS)
Prazeres & Irmão, Suc, Castro Verde. (Equip. Cultural e Habitação)
15 6 23 16 16
Activas Encerradas (com ou sem maq.)
Arruinadas Demolidas Novo Uso
Fonte: MACHADO, Joaquim de Sousa, Relatório da Indústria de Moagem, do II Congresso da Indústria Portuguesa, 1957, quadro intercalado entre pp. 16-17, e FERREIRA, Carlos Henrique M. R. Gomes, no relatório identificado como n.º 11/1969, Determinação da localização e dimensão das Indústrias de
Moagem Espoada, Instituto Nacional do Pão [policopiado]. Mapa 1 – Localização das Fábricas de “Moagem de Trigo Espoado”, p. 36.
Das que registámos, quinze prosseguem a atividade industrial. As de pequena dimensão – como a Industrial da Trofa, a de Joaquim Rebelo, de Gaeiras, Óbidos, a de Eduardo Artur Grilo Pereira e a Solimenta – Empresa Industrial «Bastos Ribeiro», terão dificuldades em se manter. A Moagem e Electricidade de Arraiolos adaptou-se à alimentação animal e alberga a Raprosul – Fábrica de Rações, SA. As de média e maior dimensão foram-se reestruturando e modernizando, principalmente na década de 1990. É o caso da SIAS – Sociedade Industrial Alentejo e Sado, Ld.ª; a Abranches, Filhos, Silva & Guimarães; a Moagem Ceres, A. de Figueiredo & Irmão, SARL; a Carneiro
Campos & C.ª, Ld.ª; a Germen, Moagem de Cereias, SA; bem como as agrupadas na Cerealis, que constituem a principal força produtiva e hegemonizam o sector, desde o final do século XX.
Na origem da Cerealis esteve a empresa Amorim, Lage, Ld.ª, fundada, a 8 de Fevereiro de 1919, por José Alves Amorim e Manuel Gonçalves Lage, em Águas Santas, Maia, Porto (<http://www.cerealis.pt/sgps/historia.php>). Face às profundas alterações que se anteviam para o sector das farinhas, decorrentes da adesão de Portugal à União Europeia, a Amorim Lage, Ld.ª, no princípio da década de 1980, empenhou-se na renovação, ampliação e actualização tecnológica nas suas unidades industriais. Sob a designação de Amorim Lage, SA e após a liberalização do mercado dos cereais, em 1991, esta empresa teve um percurso de crescimento e aquisição que, culminou, em 1997, com o controlo maioritário da Harmonia e, já como Amorim Lage, Sociedade Gestora de Participações Sociais (SGPS), com a aquisição, em 1999, da Nacional. Assim, juntou à Milaneza e Concordia, que detinha, as duas principais marcas e moagens oitocentistas do Porto e de Lisboa.
Em 2005, o grupo Amorim Lage reestruturou-se, originando a Cerealis, SGPS, SA, que factura 165 milhões de euros por ano e mantém 611 colaboradores nos centros de produção na Maia, Trofa, Coimbra e Lisboa. Estes têm sido sujeitos a sucessivas
remodelações e aumentos de capacidade de produção
(<http://aeiou.expresso.pt/cerealis-cozinha-mega-aletria-de-natal=f618318>). A Cerealis chegou ao topo do seu sector de actividade e é um dos maiores grupos económicos portugueses, adivinhando-se que assim permanecerá quando for assinalado o centésimo aniversário da pequena moagem que a originou.
No grupo das fábricas que se encontram encerradas e em melhor estado de conservação, contendo ou não máquinas, contam-se seis unidades.
O maior grupo, com vinte e três casos, é o das fábricas devolutas e, consequentemente, sem máquinas, encontrando-se os seus edifícios arruinados ou devassados, há várias décadas. Nesta situação, distinguem-se, ainda, as fábricas que se encontram em pior estado estrutural, que são as edificadas em alvenaria, com estrutura interior de ferro e madeira, e que coincide com a generalidade das unidades que cessaram a sua atividade na década de 1960. As construídas em betão armado, apesar do grande abandono e degradação geral, encontram-se em condições estruturais que, ainda, permitem a reutilização do edifício. Entre elas, a Sociedade Industrial Aliança, no Caramujo, Almada, merece a nossa maior atenção.
Manuel José Gomes (1802-1881) mandou construir, no lugar do Caramujo, uma fábrica que evoluiu até se tornar numa das mais modernas e prósperas instalações destinadas à produção de farinha. Até ao incêndio que a destruiu, em 1897, e à reconstrução, concluída no ano seguinte, a história desta moagem ficou marcada por três momentos: a fundação do primeiro moinho, edificado entre 1864 e 1865; a construção da fábrica de 1872; e a implementação da terceira ampliação fabril, a mais importante, já realizada pelos herdeiros, em 1889. Esta unidade beneficiava do transporte fluvial pois tinha cais próprio – a «doca da farinha» (Flores, 1992:19-23). Já implementada sobre a liderança de António José Gomes (1847-1909), filho do fundador, a fábrica de 1889, será uma das duas únicas moagens referidas, mas não explicitadas pela comissão presidida por Elvino de Brito, que em Portugal e até 1889, tinha adoptado o sistema austro-húngaro (Relatorio…, 1898: 5). Possuía, então, dezoito moinhos, compressores e trituradores, de rolos de aço, para realizar a moagem progressiva. Pouco depois, terá recebido os recém-inventados planchisters.