Durante muitos anos, o processo de expansão urbana de Paracatu sofreu entraves oriundos da posse da terra por grandes proprietários. A mineradora RPM/Kinross gradualmente tornou-se a maior proprietária de terras na região, bloqueando o avanço do perímetro urbano. Além disso, muitos proprietários não detêm título seguro dos seus imóveis, como registro em cartório, mas apenas documentos de compra e venda, o que dificulta a instalação de loteamentos. Desta maneira, surgiram invasões em áreas onde diferentes proprietários disputam a terra, e também nas margens do Córrego Rico, que, a princípio, não são áreas edificáveis.
O bairro Lavrado formou-se numa dessas áreas “de ninguém”, situado entre a rodovia BR-040 e a área de lavra da Kinross, conforme se pode ver na Figura 8.
Figura 8 – Localização do extinto bairro Lavrado.
Fonte: Google Earth, 2010. Legendas do autor.
A família de Dona Ermelinda da Silva Pereira, conhecida como Dona Nega, estava entre os primeiros moradores do bairro Lavrado. Ela residia em uma pequena chácara, da qual
cedeu um lote para a construção da Escola Municipal Cândido Silva Neiva. O bairro contava com energia elétrica nas casas e iluminação pública, mas não tinha rede de esgoto doméstico e nem asfaltamento nas ruas. Era, portanto, um bairro de pessoas pobres, a maioria analfabeta e de baixa qualificação profissional, muitas delas vivendo do trabalho informal na construção civil e ocasionalmente praticando o garimpo.
A primeira presidente da Associação dos Moradores do Lavrado foi Rônia Magda Mariano de Almeida proprietária de uma chácara naquele local. As vozes, neste relato da destruição do bairro Lavrado são de Rônia e Dona Nega; seus diferentes pontos de vista, se complementam e permitem entender melhor o processo.
O bairro se localizava numa posição importantíssima para os interesses da RPM/Kinross, porque ali a cava da mineração deverá ter sua maior profundidade, alcançando cerca de 240 m abaixo da superfície, local que a mineradora denomina “Lagoa da Cava”, conforme a Figura 9.
Figura 9: Projeção da Mina Morro do Ouro e localização do Bairro Lavrado.
Tratando-se de um local em que o corpo de minério mergulha em profundidade, os trabalhos de pesquisa e de desenvolvimento da mina envolveram várias linhas de perfuração da rocha por maquinário pesado, dia e noite, ao lado das residências. A entrevistada Rônia, assim se expressa:
Aí, fui no Promotor, conversei, contei a história do povo que estava ali, povo pobre, que vai vender tudo por um preço de banana para a RPM, barulho, máquina ta-ta-ta-ta-ta, estavam fazendo umas perfurações pra saber se tem ouro ou se não tem, qual a profundidade do ouro, aquelas perfurações com a perfuratriz, aquilo batia na cabeça da gente dia e noite. Pra convencer o Promotor a ir lá nós contratamos uma empresa que mede decibéis, passou a noite inteira medindo, escondido deles – porque quando eles descobrem o barulho diminui.
Aí, um dia a RPM descobre que o presidente do Lavrado [Associação] não era eu mais, eu já tinha saído, era aquele pastor que morreu [...]. Eles contornaram a situação, correram atrás do presidente, fizeram a reunião deles, convenceram o presidente de que ficar do lado deles era melhor do que ficar do lado do povo. [...] Aí, quando chegou o promotor, o trem tava tão montado, Márcio, tão montado contra a gente (risos)... você pensava “agora ta na hora de fechar a RPM, fechar esse barulho aqui”, o pastor me proibiu de falar, que ali era pra manifestar ele, como presidente da Associação, que ele ia dirigir as perguntas, as pessoas que não fossem moradores dali não tinham o direito de interferir – isso era pra mim, claro, não sou boba. Ai eles começaram, os promotores não dirigiam a palavra pra mim, de jeito nenhum, sendo que eu era moradora dali, porque eu morava mais embaixo, mas eu era; então, eu não podia falar nada. Colocou na cabeça deles, o povo, de que se eles ficassem contra eles poderiam levar um processo. Então, estavam ali os homens da lei, os homens da lei que eram pra defender o povo, já estavam defendendo a RPM. Então, a coisa inverteu-se. Então perguntaram: “E aí, gente, o que vocês querem? A RPM está incomodando, ela incomoda muito? Vocês querem fazer um acordo com a RPM?”. “Vocês querem fazer um acordo com a RPM pra acabar o barulho, pra não incomodar vocês mais?” Ai, a maioria: “Queremos! É melhor, não é? ter um bom vizinho do que caçar uma briga.” Evaldo deu um pulo dessa altura lá atrás e disse: “Viu, Dona Ronia? Eu não acredito que o povo daqui é tão besta a esse ponto!” [...] o Promotor disse na reunião: “Eu me permito arquivar esse processo”.
(Entrevista realizada em 25/04/2012)
Dona Nega confirma em parte a versão de Rônia e não concorda em relação ao papel do pastor, já falecido, que se chamava José Moreira. Segundo ela, o pastor era uma pessoa muito amiga e a decisão da venda foi das pessoas, porque
[...] na situação que nós estava vivendo lá, todo mundo desejava sair de lá, porque não tinha nem como dormir de tanto barulho, porque eles trabalhavam na baixada. Então, o pessoal ficou reclamando, reclamando... quando foi um dia – já não era mais o pastor, já era o meu irmão que era presidente do bairro [Evaldo Monteiro da Silva]. [...] Aí, meu irmão, que era presidente do bairro, ele entrou com essa ação: “ou vocês param com o barulho” – eles estavam fazendo aqueles ruídos lá no Moisés, dia e noite beirando a gente – aí, parar eles não iam parar, quem somos nós pra mandar a RPM parar! Aí, eles mediram e combinaram com todo mundo. Mas, eles combinaram assim: mediram, eles mesmos já fez o cálculo de quanto que valia, o preço. Aí, eles ia de três a três, quando foi numa sexta-feira eles marcou a reunião, teve lá e falou “quando for na segunda-feira vocês já podem ir, ta tudo combinado”.
A combinação a que Dona Nega se refere, portanto, foi a aceitação, pura e simples, do preço fixado pela mineradora. Com relação aos valores pagos, ela acrescenta:
Ah, foi vários preços. A casa mais pequenininha, mais ruinzinha, os barraquinho foi mais bem vendido. Por causa que a minha era grandona, grande, o quintal era grande; agora, a casa dessa que é minha filha, a casa de nove cômodos, forrada de laje, só não tinha o embuço ainda, que nem morando nela ainda não tava, vendeu por 20 mil. O quintal dela era pequenininho, mas a casa dela terminada ia ficar um estouro, a casa dela. A minha não era forrada, mas era grande, era uma chacrinha. A nossa foi por 70, era bem maior. Os outros lá, tinha gente que tinha um cômodo e vendeu por 20; quem é que tinha quatro, cinco cômodos, era 20.
(Entrevista realizada em 25/05/2012)
Para Rônia,
[...] A RPM precisava das terras, pagava 20 mil, chegava nas pessoas de lá, que era todo mundo humilde, chegava com 20 mil, pagava por essas casas, tirava as famílias. Quem ficou nessa história? Ficou Pelé e Evaldo, que não quiseram vender. Olha, pra você ver o que eles fizeram. Eram trinta e poucas famílias que moravam ali, eles compraram de todo mundo, fizeram pressão neles, compraram a 20, 30 mil, 40 mil o lote, fizeram eles sair. Pelé e Evaldo ficaram. [...] Destruiu tudo, arrancou as casas com os troços tudo. [...] eles queriam pagar 19 mil pra Evaldo e acho que 25 pro Pelé, eles falavam “Não, não, não”. Eles me procuravam e eu falava “Isso é sacanagem, não faz isso não, as coisas não são assim”, e eles falavam “Eu acredito em você e vou continuar”.
(Entrevista realizada em 25/04/2012)
Está claro, pelas narrativas coincidentes, que os preços determinados pela empresa à revelia dos proprietários, levaram em conta o tamanho do lote, desprezando-se o valor das benfeitorias, particulares e públicas, que, de todo modo seriam destruídas após a transação.
As últimas duas famílias que continuaram resistindo às pressões da mineradora foram a de Pelé (pessoa conhecida apenas por este codinome) e a de Evaldo Monteiro da Silva, presidente da Associação, que ali residia com sua mãe. De acordo com Dona Nega,
Aí, eles ficou lá naquela tristeza, naquele matagal, porque todo mundo vendeu, desmanchou as casa e ficou as tapera. Aí, ele ficou lá, minha mãe já velhinha, ela hoje está com 90 anos, ficou lá e aí subia gente de toda espécie, sabe? Gente boa, gente ruim. Aí, ele foi obrigado a procurar eles pra combinar. A dele era 20 mil; no final ele vendeu por 130. Aí, deu pra ele comprar uma casa aqui na rua.
(Entrevista realizada em 25/05/2012)
A família de Dona Nega, como tantas outras famílias de Paracatu atingidas pelos impactos socioambientais da RPM/Kinross, que antes conviviam nos bairros e nas comunidades de remanescentes quilombolas vizinhas ao Morro do Ouro, separou-se. Enquanto seu irmão Evaldo mudou-se com a mãe para o bairro Bela Vista, Dona Nega passou a residir no Bairro Amoreiras II. Como os imóveis dos bairros adjacentes à mina ficaram desvalorizados, enquanto valorizaram-se aqueles dos bairros mais distantes, é ali mesmo na periferia da mina que foram se alojar as famílias expulsas do Lavrado.
Da porta da atual residência de Dona Nega tem-se uma vista privilegiada da área de lavra da mineradora, com seus taludes de material estéril, a atividade de possantes máquinas de desmonte e transporte do minério e a poeira que teima em subir para depois despejar-se sobre a cidade. A mineradora teve seu problema resolvido: livrar-se das pessoas que obstruíam o avanço da lavra; enquanto essas pessoas continuam carregando os mesmos problemas: o barulho e a trepidação interminável das máquinas, a poeira tóxica e as explosões que balançam suas casas.