Chapitre 2 Caractérisation des matériaux constituants une diode électroluminescente
2.1 Analyse au Microscope à Balayage Electronique de la puce
O trabalho de José Oiticica na formação de professores na Escola Normal do Distrito Federal iniciou-se a partir de 1917, um ano após seu ingresso no Colégio Pedro II. Porém, suas experiências pedagógicas são anteriores ao seu trabalho nessa instituição, dando-lhe a dimensão sobre o que consistia o trabalho docente. Assim, pode-se dizer que, além da sua erudição sobre questões da língua portuguesa, as suas experiências com as atividades relativas ao ensino lhe ofereciam clareza acerca dos problemas que os professores novos enfrentavam em sala de aula.
Oiticica compreendia a necessidade e a urgência em lidar com o problema da formação dos professores. Para isso, entendia contribuir para essa questão com as suas aulas e compartilhando, sempre que possível, suas idéias por meio da publicação de seus manuais, que eram apresentados como guias práticos para as escolas. Além da autoria dos manuais, preparar professores à luz do método racionalista para trabalhar nas escolas fundadas pelas correntes libertárias em 1913 e 1914 também foi uma iniciativa registrada do autor. Esses cursos aconteciam na sede da Federação Operária, e foram amplamente divulgados pela imprensa libertária do Rio de Janeiro. Além dessas considerações, cabe mencionar o seu apoio às Escolas Modernas, como mostram seus artigos jornalísticos em A Voz do Trabalhador, em
A Lanterna.
Essas são evidências percebidas no exame de seus artigos jornalísticos, e que, de certa
141 O estudo de Márcia de Paula Gregório Razzini (2000), intitulado O espelho da nação: a Antologia Nacional e
o ensino de Português e de Literatura (1838-1971), ao acompanhar a trajetória da literatura brasileira no currículo secundário e focalizar a Antologia Nacional, de Fausto Barreto e Carlos de Laet, reuniu um conjunto de informações relevantes para situar a produção de José Oiticica. Os Programas de Ensino de Português e de Literatura e a cronologia do Ensino de Português e de Literatura, apresentados no referido estudo serviram como atalho importante no processo inicial de coleta de fontes na reconstituição da trajetória de José Oiticica, especificamente sobre a docência desse intelectual no Colégio Pedro II. Esse estudo foi desdobramento de sua dissertação de 1992, Antologia Nacional (1895-1964): museu literário ou doutrina?
184 forma, são preocupações manifestas em suas cartas de advertência que abriam as suas publicações. Não raro, na escrita do professor Oiticica, encontram-se comentários a propósito da necessidade de um “método de ensino”, de uma “sistematização” para o ensino de português, sobre a urgência de oferecer aos professores “guias seguros” e práticos para as suas aulas. Todos esses termos são recorrentes em seus ensaios, artigos jornalísticos e livros, aparecendo desde 1905, quando esta pesquisa observou seu engajamento no debate sobre a escola nova, mais especificamente em relação à pedagogia da École des Roches.
Na sua experiência em seu Colégio Latino-Americano, em 1905, Oiticica aplicava os “processos pedagógicos” de Edmond Demolins, de sua Écoles des Roches. As adesões posteriores de Oiticica, ao longo dos anos de 1910, estavam vinculados à experiência das Escolas Modernas, inspiradas no ensino racionalista proposto pelo espanhol Francisco Ferrer y Guardía.
Observamos a recorrência, no discurso de Oiticica, dos termos “sistematização” e “método de ensino”, sobretudo em escritos do final da década de 1940, no opúsculo Um
programa heterodoxo para o ensino de português nas escolas. Nesse seu opúsculo, de 1948, “sistematizar o ensino” parecia ser a solução pensada por Oiticica para resolver os problemas do ensino em geral, e, particularmente, os do ensino de português nas escolas. Oiticica procurava explicar aos ouvintes de sua conferência proferida na Rádio Cruzeiro do Sul a necessidade de metodizar os conhecimentos:
Para que sistematizar o ensino? Porque assim tem procedido os maiores sábios e pesquisadores do mundo. E porque sistematizaram eles todas as ciências? Porque só assim podem tomar pé no mare magnum dos fenômenos e realidades do mundo. Calculem os zoólogos sem rígida sistematização, os químicos, os geógrafos, os próprios comerciantes. Tudo, com a multiplicação atordoante dos conhecimentos há de ser classificado, metodizado, distribuído em gradativa complexidade a fim de que, por tais florestas, possa guiar-se o itinerante. Até para os turistas há de estar tudo indicado segundo tabelas fixas, numeradas, dispostas em sistema de reconhecimento fácil. (OITICICA,1948, p.3-4):
A exemplo dos procedimentos adotados pelos sábios zoólogos, químicos, geógrafos e até mesmo os comerciantes na vida cotidiana, os conhecimentos deveriam passar por uma classificação metodizada, e sua distribuição deveria ser realizada, segundo Oiticica, de acordo com seu grau de complexidade. As orientações dadas pelo professor aos alunos deveriam ser disponibilizadas, por meio de “tabelas fixas, numeradas, dispostas em sistemas de reconhecimento fácil” (p.4), procedimentos metodológicos apropriados, segundo o que ele afirmava, da pedagogia da escola nova de Edmond Demolins.
185 Nesse opúsculo encontramos registradas as críticas de Oiticica à ausência de sistematização do ensino, como resultado das malsucedidas tentativas realizadas por parte dos reformadores da instrução pública que, em lugar de melhorar as condições do ensino, por incapacidade de ações, criaram o “caos educacional”. Contra esse “caos educacional”, Oiticica apresentava aos ouvintes, professores e interessados nas questões da língua e do ensino, as propostas que conformavam a sua sistematização. O termo “sistematização” é empregado no discurso de Oiticica como sinônimo de método de ensino, à sua maneira, de acordo com as suas idéias e embasado em sua experiência educacional. O método era o meio para atingir essa sistematização.
Oiticica (1926, p. 8) defende a idéia de que o ensino de qualquer conhecimento deve ocorrer de forma gradativa. Esse argumento está presente nas orientações disponibilizadas em seu Manual de análise e no Manual de estilo, ou seja, o mais simples deve ser explicado antecedendo o que é considerado como mais complexo, com o objetivo de no aluno “[...] formar-lhe o gosto, criar nele o sentimento de responsabilidade e o esforço de pesquisa, caminho de toda arte”.
Para Oiticica (1948, p. 5), o aluno deve aprender primeiro os ritmos mais simples, as noções básicas de cada tema para depois lidar com questões mais complexas. Os “programas “adotados nas escolas primárias e secundárias do Brasil” deveriam serrigorosamente sistematizados e curtos, encadeados logicamente, seguindo uma sistematização sensata e com fins verdadeiramente educativos”.
Em sua “sistematização” há procedimentos metodológicos que, segundo suas idéias, são adequados a qualquer conhecimento, a todas as disciplinas escolares, servindo como base para a elaboração de qualquer programa de ensino, pois segundo ele (1948, p.4):
Aprender a estudar é muito mais importante para a vida do que propriamente estudar. O que mais ajuda na vida é poder, em dada ocasião, saber como enfronhar-se rapidamente num estudo qualquer e isso, nas escolas, só se adquire se os mestres o ensinarem. Que professor, por exemplo, habitua os seus alunos a ficharem suas notas em vez de as tomarem a trouxemouxe, em cadernos ou papéis avulsos? Que professor propõe aos alunos um tema de estudo indicando-lhes a bibliografia para que se acostumem aos processos de pesquisa e a lidar com várias opiniões contrapondo-as e escolhendo a melhor? Porém, não nos precipitemos. O que vou dizer para o português é perfeitamente aplicável a qualquer estudo desde que, na sistematização, seja incluída a coordenação.
Para atingir este objetivo, sugere condutas a serem seguidas pelo professor, como indicar bibliografia e orientar fichamentos, ou seja, criar condições intelectuais para escolher temáticas a serem estudadas, aprendendo a lidar com a diversidade temática. Se
186 considerarmos as filiações ácratas de Oiticica, poderíamos inferir que, se essas atitudes do professor fossem internalizadas pelos alunos, estes estariam, ao fim do processo de ensino sistematizado, em condições de exercer o “livre pensamento”.
Para demonstrar as bases de sua experiência pedagógica na construção de sua sistematização, Oiticica lembra os ouvintes de sua conferência que as suas proposições resultam de uma experiência de longos anos no magistério. Sua referência especial foi a sua experiência com o trabalho pedagógico desenvolvido em seu Colégio Latino-Americano, entre os anos de 1905 e 1908, cuja experiência foi mencionada no primeiro capítulo.
Oiticica (1948, p.3) lançou críticas aos reformadores da Instrução Pública que “produziram o que haviam de fatalmente produzir: uma calamidade”, “o mal precípuo” dos programas de todas as escolas.
Da pedagogia, das ciências sociais, o professor Oiticica forjava, a seu modo, as suas ferramentas de compreensão da questão social, da questão educacional numa interlocução que tanto se dava com intelectuais, como, por exemplo, Afrânio Peixoto, diretor da Escola Normal e depois diretor da Instrução Pública, como também com outros intelectuais: Adelino Pinho, Fábio Luz, João Penteado142, posicionados na educação ácrata.
José Oiticica, de maneira recorrente, defendia que a pedagogia e as ciências sociais, em geral, deveriam ser ferramentas para todos lidarem com as questões da família e da
propaganda social. Cabe lembrar, também, a sua defesa de que todas as mulheres deveriam ser pedagogas, receber uma educação “iluminada” pelas ciências. Essa consideração aparece em seu ensaio sociológico, O desperdício da energia feminina, e também no documento
Princípios e fins do comunismo, discutidos no capítulo anterior.
4.1.2 O anarquismo como método de educação
No espólio do professor José Oiticica, uma das fontes desta pesquisa, há um fragmento manuscrito com anotações de uma aula para professores em formação, ou de uma aula/conferência para livres pensadores, ou, ainda, a escrita inicial de um artigo ou livro, não sendo possível saber ao certo. Essas anotações iniciam-se com o título “Anarchismo como método de educação”. Apesar de não ser um documento datado, as grafias de algumas palavras indiciam que a sua escrita pode ter se dado na segunda década do século XX.
Essa suposição é procedente de uma pista: no número 41 do jornal Voz do
trabalhador, de 15 de outubro de 1913, por ocasião da rememoração do assassinato de
187 Francisco Ferrer y Guardía, em de 13 de outubro de 1909, o professor Oiticica, articulista desse jornal, argumentava que a melhor forma de homenagear o educador espanhol seria dar seqüência à sua obra e se prontificava a preparar professores para iniciar cursos no salão da Confederação Operária, e em outros salões “facílimos de se conseguir”. Nesse artigo, o professor Oiticica informava ter em vista três professoras que poderiam iniciar a obra, e ainda informava que as professoras tinham o curso normal.
Neste fragmento de sua suposta aula, transcrito a seguir, podemos ter a idéia da abordagem dos conteúdos usada pelo professor Oiticica para explicar em que consistia o método de ensino anarquista:
Anarchismo como método de educação
Na realidade não é cousa nova se consultarmos qualquer manual de história, de pedagogia com um certo senso crítico.
De Sócrates ao ativismo, ao personalismo, podemos salientar motivos libertários, mas onde esses motivos se impõem pela sua clareza e função é nos pensadores que vimos analizando.
O Comenio rebelava-se contra o formalismo oco da escolástica e contra a parolagem dos jesuítas, indicando ao contrário o método de observação direta dos quais surgem as idéias da coisa e não vice-versa.
“Educamos homens e desejamos que sejam utilmente educados o que acontecerá se todos procederem de comum acordo com as palavras com as cousas e as cousas com as palavras” (1). Com este proceder das cousas às idéias, ao concreto, ao abstrato, o Comenio antecipou muitos pedagogistas modernos. Outro princípio básico para melhor compreender o pensamento pedagógico é a auto-didática. Na verdade quando se sustem o método da observação direta na qual a criança colocando-se em frente ao objeto descobre-lhe as propriedades e as qualidades essenciais, a função do mestre limita-se somente a guiar e estimular a atividade do menino, o qual se formará idéias e noções próprias. “Os exemplos dos auto-didáticos mostram evidentemente que o homem por natureza pode por si próprio conquistar qualquer espécie de condição. De fato alguns adiantaram-se mais dos seus próprios mestres, ou tendo por mestre aguerridos, progrediram mais dos outros que receberam a instituição operosa dos predecessores.”
Para pensar o anarquismo como método de educação, o professor Oiticica transitava entre os textos clássicos, como pudemos observar no capítulo II quando esta pesquisa discorreu sobre suas atividades na Escola Dramática Municipal e com o teatro social, na qual destacamos, a partir da análise de Prado (2004), as preferências de Oiticica pelas peças de Aristófanes, considerado por ele, como um dos primeiros teatrólogos anarquistas.
Além dessas aulas em que fez uso dos excertos de Aristófanes, chama a atenção a forma usual de Oiticica na construção de seus artigos que, de maneira recorrente, valia-se do uso do diálogo explicativo, provavelmente de inspiração no método socrático, ou seja, na maiêutica.
188 Da leitura do manuscrito “Anarquismo como método de educação”, concluímos que a sua suposta aula partiu da leitura de Jan Amós Comenius, autor da obra Didática magna. Essa evidência nos obriga a abrir um parêntese com o objetivo de destacar quais os procedimentos do método de Comenius podem ter interessado ao professor Oiticica quando destacou as passagens desse pensador.
Para Comenius, a educação escolar deveria ser universal e a aprendizagem se iniciaria pelos sentidos. Defendia o princípio de que a formação do homem deveria se dar na primeira infância, desde que o ensino ocorresse por meio da experiência direta, para que pudesse ser interpretada racionalmente pela criança após sua interiorização. Dessa forma, o seu método didático estruturou-se em princípios que tinham como objetivos desenvolver qualidades relacionadas à erudição, à virtude e à formação religiosa (aspecto presente em toda sua metodologia), seguindo nos processos de ensino, as condições dadas pela própria natureza. Em sua obra, a questão do método se concretiza no estado da arte de se ensinar tudo a todos, de forma fácil, alegre e ao mesmo tempo sólida, proporcionando o acesso à cultura, aos bons costumes e “a uma piedade mais profunda” (p.13).
A natureza se coloca na Didática Magna de Comenius, como a fonte, a raiz, a estrutura da educação que tem como missão a formação do homem e pode ser desenvolvida seguindo os seguintes passos:
I. [...] Examinando-se os exemplos da natureza, está claro que a educação dos jovens se desenvolverá facilmente:
II. Se iniciada cedo, antes que as mentes se corrompam. III. Se ocorrer com a devida preparação dos espíritos. IV. Se proceder das coisas mais gerais para as particulares. V. E das mais fáceis para as mais difíceis.
VI. Se nenhum aluno for sobrecarregado com coisas supérfluas. VII. Se em tudo se proceder lentamente.
VIII. Se as mentes só forem compelidas para as coisas que naturalmente desejarem por razões de idade e de método.
IX. Se tudo for ensinado por meio da experiência direta. X. E para a utilidade imediata.
XI. E com um método imutável, único e assíduo.
Assim , digo que todas as coisas fluirão de modo suave e agradável. Mas convém seguir novamente as pegadas da natureza. (COMENIUS, 1997, p.165-166).
Com esses destaques sobre o método de Comenius, encerramos o parêntese e voltamos a dialogar com o manuscrito de Oiticica em observação aos seus destaques a propósito da