financières à court terme
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V.4. Analyse de l’impact des chocs
2. Analyse impulsionnelle
experimentava um vigoroso processo de urbanização. Maria de Nazaré Sarges, em trabalho que se tornou um clássico da historiografia amazônica, ressalta que aquele era um momento de reorganização do espaço urbano nos moldes da “modernidade”,6 da “civilização”, do “progresso”.7 Este ideário, vindo do além-mar, fincava raízes nos filões da elite belenense e se delineava através do aumento da industrialização, da construção de
5 CMA, Fórum Criminal, 3º Distrito Criminal, Autos crimes de ferimentos leves, 1883.
6 Quando falo em “modernidade” e “modernização”, refiro-me à “tomada de consciência das rupturas com o passado e da vontade coletiva de as assumir”, conforme salienta Jacques Le Goff, considerando ainda que “a afirmação da modernidade, mesmo que ultrapasse o domínio da cultura, refere-se antes de mais nada, a um meio restrito, de intelectuais e tecnocratas”. Cf. LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2003, pp. 201-202. Cabe lembrar, ainda, segundo Marshall Berman, que o que dá origem à sensibilidade moderna é a atmosfera “de agitação e turbulências, aturdimento psíquico e embriaguez, expansão das possibilidades de experiência e destruição das barreiras morais e dos compromissos pessoais, autoexpansão e autodesordem, fantasmas na rua e na alma”; sensibilidade cuja essência estaria no século XIX. Cf. BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 27-28.
7 SARGES, Maria de Nazaré. Belém: Riquezas produzindo a belle-époque (1870-1912). Belém: Paka-Tatu, 2002.
ferrovias, da reestruturação da cidade, da propagação de uma nova moral e uma nova estética na sociedade; transformando a cidade na Belém da Belle-Époque.8
Esta transformação esteve associada ao florescimento da economia gomífera. Objeto à priori de curiosidade, a borracha, após o descobrimento do processo de vulcanização,9 em 1839, passaria a constituir “um produto de largas perspectivas no comércio internacional, cuja demanda cresceria incessantemente no século XIX e com ímpeto ainda maior nas primeiras décadas do século XX”.10 Configurava-se um novo quadro econômico na região. Segundo Bárbara Weinstein, “Belém prosperou com o crescimento do comércio da borracha tanto quanto Recife, com a economia açucareira ao tempo da colônia, e São Paulo, com a disseminação da produção cafeeira”. Tratar-se-ia de um fenômeno comum ao Brasil, visto que cada um dos grandes surtos de exportação deu nascimento a um centro urbano importante, comumente um porto, para prover os serviços comerciais essenciais.11 Para Karol Gillet, “a Belém moderna nada mais foi do que um período específico de transformações urbanas exercidas pelo Poder Público, seguindo um projeto urbanístico de aformoseamento e embelezamento da paisagem urbana financiada pela Belém da borracha (1870-1910)”.12
Sarges destaca, ainda, que, diferentemente do que aconteceu nas cidades americanas e européias, o processo de urbanização de Belém, na segunda metade do século XIX, não se originou apenas do incremento da indústria, pois esteve atrelado, primordialmente, à função comercial, financeira, política e cultural que a cidade desempenhara durante a fase áurea da borracha.13 Neste ponto, a autora se aproxima das considerações de Guido Zucconi. Em livro que busca entender a cidade do século XIX a partir da perspectiva do urbanismo, Zucconi questiona a associação que geralmente se faz
8 Idem, Ibidem.
9 Segundo Roberto Santos, “a vulcanização (...) iria acrescer enormemente os usos confiáveis e duráveis da borracha, impelindo a indústria do setor a uma posição destacada na economia mundial”. Cf. SANTOS, Roberto. História Econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T. A. Queiroz, 1980, pp. 47-49.
10 Idem, Ibidem, p. 42.
11 WEINSTEIN, Bárbara. A borracha na Amazônia: expansão e decadência (1850-1920). São Paulo: Hucitec; Edusp, 1993, p. 73.
12 SOARES, Karol Gillet. As formas de morar na Belém da Belle-Époque (1870-1910). Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia, Universidade Federal do Pará, Belém, 2008, p. 47.
entre a “cidade do XIX” e a “revolução industrial”, dizendo que a indústria é um dos fatores do desenvolvimento urbano, não o único.14
Para os agentes sociais que capitaneavam a produção e comercialização da borracha (organizada através do “sistema de aviamento”)15 e, mormente, para o Estado, aquela economia gerou ampla acumulação de capitais. Ambos os setores, público e privado, passaram a investir na construção da Belém da Belle-Époque. Enquanto os excedentes do capital privado eram direcionados para a construção de habitações, de estaleiros, de um parque industrial incipiente, para o lançamento de novas linhas de navegação fluvial, etc.; o poder público passou a investir com mais vigor no saneamento da cidade, em rodovias e pontes, na iluminação pública, em escolas e institutos de pesquisas e, fundamentalmente, no sistema viário urbano. Roberto Santos informa que os investimentos em construções, entre 1851 e 1920, representaram 89,8% dos “gastos de investimento fixo do governo do Pará e intendência municipal de Belém”.16
Supondo que a mudança de Camilo de Curralinho para a capital tivesse ocorrido quando ainda era criança, o crescimento econômico e a urbanização da cidade não eram novidade para este escravo. Como aponta Bárbara Weinstein, embora a cidade de Belém – em compasso com o sistema de aviamento – tenha atingido o apogeu somente nas décadas de 1880 e 1890, ela já havia amadurecido e se ampliado nas décadas anteriores.17 De qualquer forma, como se verá mais adiante, a escravidão só deixou de compor o cenário urbano Belenense quando abolida, em maio de 1888.
Se o final do século XIX foi um período de mudanças, foi também marcado por continuidades. Escravidão e modernidade coexistiam, ora afastando-se, ora complementando-se. A historiografia sobre o período atinente à “economia da borracha”, contudo, oscila entre diminuir e ignorar a presença do escravo na região. O trabalho de
14 Para o autor, a influência da revolução industrial “varia de lugar a lugar, combinando-se com um entrelaçamento de causas simultâneas, elas também variáveis de contexto a contexto: como já foi demonstrado, principalmente pela historiografia francesa, em tempos recentes, tanto o desenvolvimento industrial como o crescimento demográfico se ‘apoiam’ a uma rede de centros preexistentes (praças de mercado, cruzamentos viários, portos e centros administrativos), ulteriormente reforçados, após 1850, por um sistema integrado de conexões ferroviárias”. Cf. ZUCCONI, Guido. A cidade do século XIX. São Paulo: Perspectiva, 2009, pp. 20-21.
15 Sobre o sistema de aviamento, cf. SANTOS, op. cit. e WEINSTEIN, op. cit. 16 SANTOS, op. cit., pp. 142-149.
17 WEINSTEIN, op. cit., p. 74. Cf. ainda COELHO, Geraldo Mártires. “Anteato da Belle Époque: imagens e imaginação de Paris na Amazônia de 1850”, in Revista de Cultura do Pará. Belém, v.16, n.2, pp.199-215, 2005.
Sarges é um exemplo.18 Roberto Santos chega a abordar a questão da redução da população escrava na região, elencando, de forma bem sumária, possíveis explicações para o fato. Todavia, escreve que os escravos negros não participaram da produção da borracha, pois eram empregados apenas em “trabalhos mais ‘nobres’, domésticos, etc”. Santos compartilha da noção (esboçada, em 1882, por Pimenta Bueno) de que a borracha seria “fruto exclusivo do trabalho livre”.19 Bárbara Weinstein, por sua vez, coloca que, “ao contrário dos donos de engenhos de açúcar do Nordeste, os colonizadores da Amazônia absolutamente não tinham acesso a um grande número de escravos africanos”, em razão, fundamentalmente, de viverem numa região que “não ostentava nem recursos agrícolas excepcionais, nem metais precisos”, afastada das rotas principais do tráfico. Somado a isso, a autora aponta que “a maioria dos colonos da Amazônia era pobre demais para comprar escravos, a não ser a crédito”.20
Trabalhos mais recentes também deixaram de lado a população escrava. Karol Gillet, ao estudar as diferentes formas de moradia na Belém da Belle-Époque, utiliza uma dicotomização para apresentar as mudanças no espaço urbano da cidade durante o século XIX. Antes de 1870, Belém das bananeiras. Depois, ora Belém das mangueiras, ora Belém
moderna, ora Belém da borracha.21 É intrigante que, em nenhum momento do trabalho, a autora faz referência às formas de moradia dos escravos, deixando ao leitor, quando aborda “as formas populares de morar”, uma boa margem especulativa.
Caminho semelhante seguiu Cristina Cancela, em sua tese de doutorado. Delimitando como “recorte historiográfico” a cidade de Belém, entre 1870 e 1920, e almejando entender de que forma as mudanças econômicas impulsionadas pela economia da borracha influenciaram os relacionamentos conjugais e familiares, a autora não inclui a população escrava em sua análise, nem na parte do trabalho em que trata da “família em meio aos populares”. Mais uma vez, o termo “popular” deixa de englobar os escravos da capital. Neste trabalho, eles aparecem em dois momentos distintos: primeiramente, como mão-de-obra, que, a partir da segunda metade do século XIX, torna-se cada vez mais escassa; num segundo momento, aparecem como “bens semoventes”, ocupando lugar de
18 A autora, inclusive, menciona o vínculo indireto existente entre a economia da borracha e a abolição da escravidão na Amazônia. Cf. SARGES, op. cit.
19 SANTOS, op. cit., pp. 60-63. 20 WEINSTEIN, op. cit., p. 24.
destaque nos inventários da década de 1870 (em 54% dos inventários relativos a esta década havia o arrolamento de escravos), saindo da cena patrimonial na década seguinte, quando marcaram presença em apenas 34% dos inventários consultados. Baseando-se em Zélia Cardoso de Mello, Cancela explica esta diminuição dos “bens semoventes” nos inventários como parte das alterações estruturais na organização econômica da sociedade, as quais seriam responsáveis por alterar os signos de riqueza familiar, valorizando-se alguns bens e formas de investimento em detrimento de outros. Parafraseando a própria autora, “o fim da mão-de-obra escrava, o crescimento do número de firmas comerciais com o fortalecimento de uma elite de comerciantes, a diversificação dos bens, serviços e oportunidades de trabalho, o incremento da instituição bancária e das sociedades por ações, refletem-se nos bens que agregam riqueza”.22
Bárbara da Fonseca Palha, em dissertação sobre a escravidão urbana em Belém na primeira metade do século XIX (defendida recentemente), também acaba anulando a importância da população negra escrava na capital paraense das duas últimas décadas da escravidão. Segundo Palha, “quando se adentra a segunda metade do século XIX, percebe- se que a população escrava sofreu gradativo decréscimo, em meio ao aumento dos habitantes livres”. Até aqui tudo bem. Como se verá posteriormente, comparada à população livre, a população escrava realmente sofreu grande diminuição. Mas, a autora exagera ao dizer que esta população cativa, a partir de 1850, não voltou “a se configurar novamente como significativa, em termos demográficos”.23
Contrapondo-se às assertivas explicitadas nos parágrafos anteriores, Bezerra Neto defende que o fim do tráfico de escravos e o aumento do tráfico interprovincial em favor das áreas açucareiras e cafeicultoras do Brasil, a partir de meados do século XIX, não afetaram significativamente a população escrava do Pará. Como se verá mais adiante, em números absolutos, a população escrava só sofrerá uma diminuição acentuada em meados da década de 1880. Foi justamente neste período, mais especificamente a partir de 1883, que houve, na província paraense, “uma verdadeira florada de associações abolicionistas, demonstrando que, se a escravidão ainda tinha forças e fôlego para se manter, o
22 CANCELA, Cristina Donza. Casamento e relações familiares na economia da borracha (Belém, 1870-
1920). Tese de Doutorado – Programa de Pós-Graduação em História Econômica, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2006, pp. 51-53 e 246-255.
23 PALHA, Bárbara da Fonseca. Escravidão negra em Belém: mercado, trabalho e liberdade (1810-1850). Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia, Universidade Federal do Pará, Belém, 2011, pp.66-67.
abolicionismo também ganhava uma força e dimensão ainda maior”, principalmente em razão do “não quero dos escravos”.24 Também concordo com Bezerra Neto quando afirma
que devemos tomar cuidado com a noção de mudança dos “signos de riqueza” apresentada por Cancela, pois muitos senhores de engenho, comerciantes e, inclusive, seringalistas insistiam em manter seu plantel de escravos e até adquirir novos, através do tráfico interprovincial. De acordo com o autor, se, diante do avanço do abolicionismo, “muitos já reconheciam que o fim da escravidão era questão de tempo, tempo cada vez mais abreviado, outros tantos preferiam barrar ou conter ao máximo tal avanço em defesa da perspectiva gradualista de emancipação do elemento servil”.25
O objetivo, aqui, não é apenas demonstrar a importância da escravidão negra e o quão significativa foi a presença do negro, escravizado ou livre, na sociedade local, até porque vários trabalhos já se dedicaram a esta tarefa e a realizaram com grande esmero e acuidade.26 O que se quer é adentrar numa seara pouco explorada pelos pesquisadores que se debruçaram e se debruçam sobre a cidade de Belém nas décadas finais do século XIX: a escravidão negra no espaço urbano.