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Lançado em 2003, o DVD Sete Minutos acompanha um tendência de mercado ainda tímida no país, mas já popular nos EUA, Japão e França. Trata-se de subprodutos de espetáculos, vendáveis ao público, que, geralmente, registram peças de teatro, espetáculos de dança ou óperas.

No Brasil, o primeiro DVD-RT lançado comercialmente foi Da Arte de

Subir em Telhados (2002), do Grupo Companhia Armazém de Teatro, coordenado pelo diretor de vídeo Paulo Moraes e dirigido por Pedro Asbeg. Patrocinado pela Petrobrás e outras leis de incentivo, o projeto ainda contou com a editoração de

Pessoas Invisíveis (2003) e Alice Através do Espelho (2004), ambos da mesma companhia teatral.

Observando esse cenário favorável, o produtor Antonio Carlos Rebesco243 viu na obra de Antonio Fagundes a chance de colocar em prática um antigo desejo: promover a gravação de um espetáculo teatral que possibilitasse, dentre outras coisas, formar novas plateias ao mesmo tempo em que proporciona lazer e educação. Segundo Rebesco,244 esse projeto começa a tomar forma a partir de 1963, quando então parte para a França, onde é convidado a estagiar na emissora ORTF (Office Radio Televisão Francesa). É nesse contexto que ele tem contato com uma maneira diferenciada de gravar teatro para televisão, completamente original de tudo aquilo que ele já havia visto.

[...] era uma equipe de televisão que gravava a última performance da companhia, a última performance na temporada. Eles ficavam analisando, planejando, então, na última semana a equipe de TV ia

243 Antonio Carlos Rebesco, ou simplesmente Pipoca, trabalha em televisão desde meados da década

de 1960. Essa vasta experiência na produção de programas, shows e espetáculos propiciou que em 2000 ele criasse sua produtora “Pipoca Cinema e Vídeo”, especializada na gravação de Shows para DVD e na criação de programas televisivos. (Cf. FIGURAS – Especializado em Cultura (Antonio Carlos Rebesco). Tela Viva, n. 152, ago. 2005. Disponível em: <<http://www.telaviva.com.br/revista/152/figuras.htm>>. Acesso em: 05 nov. 2009.

244 As informações foram recolhidas da entrevista de Antonio Carlos Rebesco concedida à Tamara

Katzenstein em 23 de setembro de 2005, disponibilizada na integra nos anexos do trabalho dissertativo: KATZENSTEIN, Tamara Vivian. Anexo B – Entrevista com os quatro diretores. In: ______. DVD Registro de Teatro. 2007. 133 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura Midiática) – Programa de Pós-graduação em Comunicação, Universidade Paulista, São Paulo, 2007. f. 108-113.

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para o teatro, instalava os equipamentos e começava a planejar sem mudar a encenação como [seria] a melhor maneira de captar, onde por as câmeras, onde por os microfones, como adaptar a luz sem atrapalhar a intenção original, então realmente, pra mim, deu um estralo na minha cabeça: “isso é o que eu gostaria de fazer”.245

Sua metodologia de trabalho passa por essa prerrogativa de tentar captar uma encenação que seja feita para o público, e não para as câmeras posicionadas no palco. Essa mudança de perspectiva influência no resultado final, pois, segundo a historiadora Sandra Rodart Araújo,

[...] no teatro filmado, o ator se posiciona de forma diferente, por exemplo: [...] como sabe que está sendo filmado, o ator fala e olha para a câmera. Aqui, a filmadora tem papel do púbico, mas perde- se o contato mais próximo estabelecido no teatro.246

A escolha por produzir o DVD-RT de Sete Minutos surgiu ao acaso, quando Antonio Carlos Rebesco foi assistir à sua estreia. Segundo ele, neste mesmo dia, foi feita a proposta de gravação e editoração a Antonio Fagundes, que prontamente se interessou pelo projeto.

Quando eu acabei de ver, como eu acompanhei a carreira toda do Fagundes, eu não aguentei, eu fui no camarim e disse Fagundes isso aqui é um DVD. Ele olhou para mim e era a estreia do espetáculo... ele olhou para mim e falou “você acha?”, eu disse “eu tenho certeza”. “Por quê?” Eu disse “Porque isso aqui tem que ser levado para escola”. Como naquela ideia que eu tinha dito antes, do teatro educativo, sem ser aula, ele está retratando no “Sete Minutos” o amor na construçao de uma peça, e a questao do intervalo comercial da televisao, são sete minutos, o tempo que dura. Ele falou “você acha?”, eu disse “eu acho”. Entao vamos falar. Aí eu deixei, um mês, dois meses, três meses, aí eu voltei. E falei “e aquele DVD?”, ele falou “Vamos fazer com a Globo?” eu falei “vamos fazer com a Globo”.247

Trata-se, assim, da conciliação entre diferentes interesses. Por um lado, Rebesco com a perspectiva de realizar um trabalho com um ator renomado, podendo

245 KATZENSTEIN, Tamara Vivian. Anexo B – Entrevista com os quatro diretores. In: ______.

DVD Registro de Teatro. 2007. 133 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura

Midiática) – Programa de Pós-graduação em Comunicação, Universidade Paulista, São Paulo, 2007, f. 108-109.

246 ARAÚJO, Sandra Rodart. A encenação de Corpo a corpo pelo grupo Tapa de São Paulo (1995).

In: ______. Corpo a corpo (1970) de Oduvaldo Vianna Filho: do texto dramático à encençao do grupo Tapa de São Paulo (1995). 2006. 140 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-graduação, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006, f. 71.

128 por em prática o projeto que há mais de 30 anos ele nutriu; de outro, os interesses de Fagundes que perpassam a formação e renovação do público de teatro, bem como a efetivação de uma vontade sua de ver seus espetáculos filmados, preservando-os assim. Há ainda a sociedade com a Globo Marcas e com a distribuidora Europa Filmes, que viram nessa proposta uma oportunidade de acompanhar uma tendência mundial que é o aumento do número de DVDs vendidos anualmente.

Segundo Wilson Feitosa, diretor da Europa Filmes, “O DVD revelou-se um poderoso meio de divulgação, que deverá auxiliar o teatro”.248 Ao mesmo tempo, no que tange o quesito comercial, no ano de 2002 foram vendidos mais de 4,2 milhões de produtos em mídia DVD, em um país onde o número de aparelhos ultrapassa os 4,3 milhões.249 Vale destacar que a tiragem inicial de Sete Minutos foi de 10.000 cópias, um sucesso comparado à outros produtos similares.250

A filmagem do espetáculo foi feita utilizando-se de cinco câmeras e dois cortes simultâneos, o que equivale a dez imagens ao mesmo tempo, com mais de 30 canais de áudio. Todo o equipamento utilizado foi fornecido pela Rede Globo de televisão, inclusive a ilha de editoração. Segundo o site Diário do Vale “O equipamento foi colocado no teatro a fim de não atrapalhar a movimentação dos atores e, se forneceram detalhes como closes e diferentes perspectivas de imagem, teve o agravante de pouco focalizar a plateia, que só é perceptível pelas risadas”,251 detalhe esse que Fagundes também sentiu falta, conforme relata na versão comentada da peça, disponível nos extras do DVD.

A preocupação nesse processo de edição foi dinamizar os cortes, de maneira que destoasse com a ideia de teatro filmado feito a partir de um único ponto. Privilegiaram-se os closes e os planos médios, onde um número reduzido de duas ou três personagens integra um mesmo enquadramento. Os planos gerais serviram para dar continuidade às cenas (entrada e saída de personagens), bem como para delinear os diversos elementos que compõem o espetáculo (iluminação, cenografia, etc.). Sob esse ponto de vista, buscou-se criar uma edição sedutora aos olhos daqueles que não

248 PEÇAS DE teatro agora em DVD. Diário do Vale, seções Entretenimento. Disponível em:

<<www.diarioon.com.br>>. Acesso em: 29 out. 2008

249 Cf. Ibid.

250 Os DVDs Da Arte de Subir em Telhados (2002), Pessoas Invisíveis (2003) e Alice Através do

Espelho (2004) tiveram tiragem de 1.000 cópias cada.

129 estão habituados ao teatro, mas mantendo-se a essência do que foi o espetáculo em si. De acordo com Tamara Katzenstein,

Num DVD-Registro deve haver planos gerais e planos de ligação que explicam a mecânica da apresentação, não se esquecendo de fazer planos fechados que ficam melhores num monitor de TV. É importante sabermos de onde o artista veio, se ele saiu da coxia (no caso do espaço cênico ter coxia), se veio da frente, se veio de cima, enfim, para criar esse elo entre o que foi o espetáculo e o público. Esse tipo de plano é uma especificidade do registro de uma apresentação cênica, constituindo a narratividade do trabalho, que será articulada na sequência temporal da edição.252

A cerca desse processo, Rebesco afirma que sua busca por uma linguagem para a editoração passa muito pelo viés do olhar do público, em um processo onde o corte é feito tendo em vista a intencionalidade geral da cena. Segundo ele,

Às vezes a imagem de quem está ouvindo é mais importante do que a imagem de quem está falando. Isso, a reação, às vezes quando você opta arbitrariamente, você está no palco, você está vendo para um lado, de repente você olha o outro ator do outro lado, é uma arbitrariedade sua de um sentimento seu, na hora, seja pela voz, ou seja pela reação, de você buscar.253

Entretanto, para além dessa subjetividade, houve também um trabalho de pesquisa junto à direção do espetáculo, a fim de que se criar um plano com as cenas e momentos que deveriam ser evidenciados, para a compreensão das intencionalidades e da estrutura narrativa da obra. O tempo de duração da peça também foi uma preocupação, mantendo-se ininterruptas as passagens tal como elas se apresentaram no palco.

Assim sendo, Sete Minutos é o resultado de um árduo trabalho de elaboração de uma peça em cartaz a mais de um ano (o DVD foi lançado em 2003), vista por um público superior a 100 mil espectadores. Não se trata apenas de um registro, como Rebesco afirma, mas de um “casamento” entre câmera, iluminador, editor de VT, direção do espetáculo e direção de vídeos, dentre tantos outros profissionais envolvidos no processo.

252 KATZENSTEIN, Tamara Vivian. O DVD-Registro de Teatro: instrumento de migração e

reciclagem. In: ______. DVD Registro de Teatro. 2007. 133 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura Midiática) – Programa de Pós-graduação em Comunicação, Universidade Paulista, São Paulo, 2007, f. 67.

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CENA E AÇÃO

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ANÁLISE DA COMPOSIÇÃO DO ESPETÁCULO

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