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Analyse sur les trois expériences

b) Les conclusions

D) Analyse sur les trois expériences

“O homem teme tudo, por ser mortal; e deseja tudo, como se fosse imortal.” Pierre Nicole

“O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem, uma corda por cima de um abismo.” Friedrich Nietzsche

1.1 – Introdução

Aprisionado na sua condição mortal, similar a outros animais, o ser humano sempre recusou curvar-se às leis do mundo natural. Desde o dealbar da humanidade, superar as barreiras humanas e alcançar o patamar divino sempre foi uma quimera. Induzido pelas façanhas de Pelaio, Aquiles, Heracles ou Títono, na mitologia grega, Markandeia ou Paraxurama na mitologia hindu, Noé, o único sobrevivente do dilúvio universal relatado na Bíblia, ou Sir Galahad, das lendas arturianas, a imortalidade sempre fascinou o ser humano, constituindo um sonho universal.

Já na Idade Média e no Renascimento, os alquimistas retomaram a missão de obter a eternidade, mediante a incessante procura da mítica Pedra Filosofal, o símbolo não tangível da saúde, longevidade, pureza e salvação (Riffard 1994: 278). Além de possuir o poder de transmutação, a conversão de um qualquer metal em ouro, também ele sinal de perfeição, poderia igualmente ajudar o alquimista a metamorfosear seres vivos de qualquer espécie. A Pedra Filosofal seria a panaceia universal, por outras palavras, “o remédio universal capaz de curar todas as doenças (...), concebida, no esoterismo, como (...) regeneração corporal, psíquica ou espiritual” (Riffard 1994: 273). Para muitos, esta substância seria consubstancializada no Santo Graal. Wolfram von Eschenbach (1170–1220) identifica-a com uma pedra preciosa (Riffard 1994: 165). Já anteriormente, no decurso do século XII, Robert de Boron identificara o Graal com a vida de Jesus Cristo. Chrétien de Troyes (1135–1191) vai ao encontro desta conceção, ao relacioná-lo com uma sagrada joia preciosa que continha a sagrada hóstia de Cristo. Todavia, todos aqueles místicos que se debruçaram, ao longo da

Idade Média, partilham a noção do Graal como “símbolo do ideal espiritual e iniciático cristão” (Riffard 1994: 165) e precursor dos mistérios de Deus e da sua missão salvífica para a humanidade (Riffard 1994: 166).

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O Homem na sua perseverante demanda de superação não pretende unicamente beber o elixir da eterna juventude. A eternidade tem custos, não vá suceder àquele que almeja a perenidade o mesmo que ocorreu ao mortal Títono, obter a imortalidade, mas sem lhe ser concedida a juventude eterna. Na era moderna, a humanidade oberva com curiosidade e esperança os avanços da ciência, da tecnologia e da inovação. Os homens e as mulheres da ciência traçam com minúcia as constelações astrais, descrevem com precisão os constituintes do átomo sugerido dois mil e quinhentos anos anteriormente por asiáticos e gregos. No campo da anatomia, os segredos do corpo humano vão-se desvanecendo. Por outro lado, a descoberta dos raios x pelo físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen (1845–1923), os desenvolvimentos relacionados com a Mecânica Clássica, as leis estabelecidas por Newton, antecipando a elaboração da Teoria da Relatividade por Albert Einstein (1879–1955), ou a Mecânica Quântica, alteram radicalmente a mundividência humana.

A época moderna abriu novos horizontes à humanidade; o progresso técnico e científico permitiram grandes logros a partir dos inícios do século XIX, estendendo-se ao longo dos séculos subsequentes, permitindo às grandes sociedades ocidentais usufruir de um grande desenvolvimento, vendo melhorada a qualidade de vida das suas populações. Paralelamente, as novas conceções sociológicas e filosóficas enquadraram-se com a nova e pujante afirmação tecnocientífica, augurando o nascimento de um novo Homem, liberto dos grilhões da cosmovisão religiosa, enaltecendo o Homem secular e a matriz racionalista e científica. Estava parcialmente desbravado o caminho para o nascimento de um novo ser humano, munido com poderes análogos aos deuses, aspirando à semelhança dos deuses superiores da mitologia e das grandes religiões monoteístas, a um patamar extraterreno.

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Na obra publicada em 1885 Assim Falou Zaratustra (Also Sprach Zarathustra), o filósofo e ensaísta alemão Friedrich Nietzsche (1844–1900) teoriza

sobre a criação do super-homem ou do além-homem, expressões que derivam do termo original alemão “Übermensch”. Nietzsche apenas materializou em palavras a ambição ancestral da humanidade em superar as suas limitações terrenas sem a ingerência divina no seu destino. O autor de Assim Falou Zaratustra acreditava na incomensurável vontade de poder próprio de cada ser humano como forma para se libertar das restrições impostas pelo jugo da moral cristã e das noções castradoras do bem e do mal. Em seu entender, uma atitude amoral perante a vida e uma crença inabalável em si mesmo e nas suas capacidades inatas permitiriam ao ser humano alcançar um outro patamar de desenvolvimento espiritual e intelectual. O filósofo germânico assemelha replicar a orientação empreendida pela serpente do livro do Genésis, ao reinvindicar prosaicamente que o ser humano deve moldar o seu próprio caminho, devendo para tal, provar do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A ciência e a razão seriam as respostas para o Homem abraçar uma nova condição superior em relação a tudo que o rodeia. Recordemos que no Génesis, o ser humano ao provar o fruto proibido, ambiciona ser como Deus, alcançar uma condição divina, a qual não é determinada por Deus. Ele mesmo reage com vigor perante a transgressão da sua criação. O Senhor Deus disse: «Eis que o homem, quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da árvore da vida e, comendo dele, viva para sempre»11. Desta forma, Deus expulsa Adão e Eva do Éden e amaldiçoa por toda a eternidade a serpente como instigadora da insurreição e do mal no coração do Homem.

Nietzsche supunha que a decadência da velha Europa seria fruto da repressão e opressão impostas à hierarquia nobiliárquica europeia pela tessitura piedosa e tolerante do Cristianismo (Schilling 2001: 31). O pensador alemão, além de desprezar o Cristianismo, criticava os valores consagrados pela Revolução Francesa e reinvidicados pela democracia, abrindo lugar à sublevação da plebe e de um sindicalismo abominável que comanda a seu bel-prazer as nações outrora fortes; além disso abominava o Liberalismo, o Socialismo e o Feminismo, repudiando a crescente ascensão das mulheres (Schilling 2001: 31). Todos estes grupos e/ou ideologias eram percecionados como manifestações de enfraquecimento, como resenha de uma vontade maioritária cega de um rebanho de fracos e de covardes (Schilling 2001: 31),

11 Alves, Herculano (Coordenador Geral) (2001), “Génesis 3, 22”, in Bíblia Sagrada: Para o Terceiro Milénio da Encarnação.

que ele configurava como expressão de um homem banal e inferior – “Üntermensch”. Para eliminar este homem inferior, ele proclama a assunção do “Novo Homem”, do Übermensch, possuidor de um caráter forte (do génio), determinado e egocêntrico, servindo-se dos mais fracos como trampolim para governar de forma implacável e tirânica (Schilling 2001: 33); um verdadeiro “animal político” destituído da ética cristã. “Nietzsche defendia a elevação moral do indíviduo, que acredita nos seus próprios valores, de nobre caráter e aceita a vontade do poder e nunca renuncia do poder. Este indivíduo seria, na opinião de Nietzsche, um super-homem capaz de mudar o mundo” (Teresinho 2008: 41).

Para a teorização do Übermensch e de outras conceções filosóficas defendidas por Nietzsche foram determinantes a obra On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life Hereditary (1859), do biólogo e naturalista inglês Charles Darwin, que nos remete para a noção que apenas os indíviduos mais bem preparados, dotados das corretas ferramentas biológicas, poderiam prevalecer num ambiente desfavorável e assim sobreviver, sugerindo, deste modo, que a seleção natural seria uma questão socio- biológica e não divina12 e ainda Hereditary Genius (1869), do biólogo britânico Francis Galton (1822–1911), primo de Darwin, que emerge com o conceito de Eugenismo13 e destaca a premência do controlo da reprodução ao serviço de uma representação normativa do Homem moderno e que analisaremos em seguida.

Darwin analisara a evolução dos seres vivos no planeta. As suas observações no decurso das investigações levadas a cabo na ilha de Galápagos, ao largo da costa ocidental da América do Sul, alteraram profundamente a cosmovisão vitoriana, alterando a nossa relação com o meio ambiente circundante. Segundo o naturalista, o desígnio da humanidade não seria predestinado por Deus, mas antes, determinado pela selecção natural. As suas teorias foram imortalizadas na obra supra citada. Darwin verificou semelhanças entre todos os seres vivos, avançando a hipótese da existência de um antepassado comum a todos eles. As diferenças entre as espécies, decorreria da própria evolução de cada uma, mediante um processo de selecção

12 Sobre esta conceção social-darwinista ver capítulo 4.

13 Eugenismo: movimento que preconiza a aplicação de técnicas de seleção artificial, de controlo reprodutivo ou da eliminação

de determinados grupos humanos, conducentes a melhorar o património genético de um grupo étnico com o objetivo derradeiro do seu aperfeiçoamento genético. Em 1883, Galton cunhou o termo “eugenia” oriundo do grego, significando "bom nascimento" ou "boa geração". Galton estudou as classes altas do Reino Unido e concluiu que a sua posição social era explicada pela sua configuração genética superior. Muitos pesquisadores declaram que existe um severo problema ético na eugenia, como por exemplo, o abuso da discriminação, pois ela resulta em uma categorização de quem é apto e quem não é apto para a reprodução.

natural. A seleção natural dotaria cada espécie de determinados instrumentos de defesa natural, variações genéticas, de modo a sobreviver num meio ambiente hostil. As variações que ocorreriam no interior dos indivíduos passariam, de seguida, de geração em geração. Este processo estaria na origem da evolução das espécies, posteriormente reapelidada de Teoria Evolucionista. Segundo Darwin, unicamente os indivíduos mais hábeis e mais bem adaptados ao meio envolvente sobreviveriam, face a todos os demais, por estes não possuírem mecanismos aperfeiçoados provistos pela seleção natural, sendo por consequência progressivamente eliminados. Assim sendo, os mais aptos apresentariam uma maior taxa de reprodução, pois viveriam em melhores condições para serem mais bem sucedidos na perpetuação da sua espécie.

Quer Darwin, quer Galton, destacam um caráter amoral do mundo. A matriz socio-darwinista de Darwin e a depuração étnica subentendida por Galton foram essenciais para a escrita do manifesto Assim Falou Zaratustra e encontrando, a posteriori, eco em vários movimentos sociais e políticos durante o século XX. Muitos dos seus ideais foram abusivamente corrompidos e levados à letra com vista a legitimar ações menos escrupulosas, como o caso do Partido Nacional-Socialista alemão que, servindo-se da enunciação teórica formulada por Nietzsche, preconizou as aspirações do novo Homem e da nova Alemanha com a incidência na demanda da raça perfeita ariana 14, cujos povos germânicos seriam os mais fieis exemplos. Adolf Hitler (1889–1945) e a linha mais dura do aparelho partidário alinharam com esta teoria, rapidamente tornada dogma.

Servindo-se da teoria eugénica, a Alemanha Nazi impede a reprodução de pessoas que possuam doenças consideradas hereditárias e igualmente visa eliminar portadores de problemas físicos, mentais ou inclusive homossexuais, também eles referenciados como severamente enfermos. Todavia, o regime não se fica por aqui, uma vez que, ao acalentar o sonho da criação de uma nação ariana, capaz de subjugar

14 O regime nazi subverteu o termo Eugenismo, servindo de pretexto para levar a cabo um apuramento racial na demanda da

suposta raça ariana. As concecões de Galton, Darwin e essencialmente Nietzsche foram determinantes para a idealização do homem germânico como o "Übermensch", o protótipo humano perfeito. No decorrer do século XIX, vários sociólogos, antropólogos e naturalistas alemães, franceses e britânicos reinvidicaram que a suposta raça ariana seria a linhagem mais pura da humanidade, somente constituída por indivíduos de pele e olhos claros, altos, fortes e com um nível de inteligência superior, representando, deste modo, uma raça superior às demais. Entre os vários científicos e ideólogos que defenderam esta teoria, destacou-se o irreverente pensador francês Joseph Arthur de Gobineau (1816–1882). A seu ver, o homem branco era dotado de uma superioridade física e intelectual em comparação a todas as demais raças. Todavia, considerava, com algum pendor amargo, que a miscigenação seria um processo inevitável e seria responsável pela degenerescência física e intelectual do ser humano. Originalmente as populações originárias das estepes da Ásia Central, que no período do Neolítico povoaram grande parte da Europa e Ásia, eram designados os povos arianos. Refira-se que o nome ariano provém do sânscrito “arya”, que significa nobre. Com a emergência da ideologia nazi que, baseando-se em teorias de índole evolucionista do século XIX e aos estudos de Galton e de Gobineau, usou o termo ariano para classificar uma suposta raça comum aos indo-europeus e aos seus descendentes, cujas estirpes presentes nos povos germânicos e nórdicos seriam os proto representantes.

todas as demais, consideradas inferiores e impuras, giza um plano de extermínio de judeus, ciganos, eslavos entre outras minorias étnicas.

Não obstante, os planos de criar uma raça perfeita não esmoreceram com o fim da II Guerra Mundial. Dezenas de médicos e cientistas geneticistas alemães que, em segredo, durante a guerra levaram a cabo experiências em laboratório para conseguir recriar o sonho de Hitler de criar uma Alemanha pura formada unicamente por homens e mulheres caucasianos com capacidades físicas e intelectuais acima da média, foram levados para os Estados Unidos da América, onde tiveram oportunidade de continuar os seus trabalhos e experiências com o aval do governo norte-americano.

Os Estados Unidos do pós-guerra torna-se uma superpotência apenas vendo a sua hegemonia ameaçada pelo outro grande vencedor da II Guerra Mundial, a União Soviética. A corrida ao armamento e o clima de insegurança ameaçaram novamente o mundo, envolvendo-o numa espessa camada de terror por quatro décadas (entre as décadas de 40 e 80), perspetivando-se uma guerra total sem precedentes, a qualquer instante. Este período conhecido por Guerra Fria foi conquanto uma época de grandes desenvolvimentos a nível da ciência e da tecnologia. Assim sendo, nascem as primeiras crianças in vitro, é descoberta a molécula de ADN15 (que abriu caminho ao deslindar da sequência genética humana, no decurso da década de 60, e à possibilidade de algumas doenças genéticas serem tratadas com terapêuticas personalizadas em função de cada genoma16). Em 2003, o consórcio internacional Projeto do Genoma Humano, constituído por organizações nacionais de saúde e laboratórios farmacêuticos de várias nações, revelou que tinha concluído o mapeamento do genoma humano, uma sequência de entre vinte e trinta mil genes, muitos menos do que era expectável. Este marco tem-se revelado fundamental, nos nossos dias, para que a biogenética consiga manipular o ADN de modo a transferir, remover e inserir genes nas suas determinadas extensões.

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A evolução da tecnologia e da inovação vieram apadrinhar o surgimento da

15 O ADN: o ácido desoxirribonucleico é uma complexa mólecula que contém a informação genética, que se transmite entre pais

para filhos, por isso também é apelidada de molécula de hereditariedade. A mólecula do ADN tem uma estrutura em forma de hélice dupla constituída por pares de bases ligadas a uma espinha dorsal feita de fosfato. O ADN é composto por cadeias de quatroblocos de construção diferentes apelidados de nucleotídeos, cuja sequência age como um código que insere em cada célula as instruções genéticas dentro de cada organismo. A sequência de ADN humano contém cerca de 3 mil milhões de nucleotídeos. No interior deste emaranhado filão encontram-se segmentos mais diminutos chamados de genes.

16 O genoma humano é constituído por toda a informação hereditária codificada no ADN de uma célula, formada por 46

televisão, dos primeiros relógios digitais, dos primeiros computadores modernos, do sistema de rede de informação global (a Internet), dos primeiros mecanismos artificiais e dos primeiros autómatos controlados à distância, do surgimento da bomba de hidrogénio e das primeiras viagens espaciais. A colaboração estreita entre a ciência e a técnica delineou avanços do âmbito da medicina e da biogenética, ao permitir as primeiras experiências com a clonagem e o desenvolvimento da engenharia genética, enquanto a criogenia dava os primeiros passos e surgiam os primeiros casos bem- sucedidos de transplantes de órgãos.

É neste contexto de emancipação tecnocientífica e de um auspicioso futuro para a história humana, não obstante, por vezes, envolto em nuvens de incertezas, que emergem algumas das obras seminais do género da FC, quer no discurso literário, quer no discurso cinematográfico. Enquanto género especulativo, a FC vai desempenhar uma função de fiscalização das promessas tecnocientíficas. Escritores e realizadores assumem-se como os porta-vozes de uma geração que simultaneamente receia e ambiciona pelas inovações nos campos da ciência e da tecnologia. As suas questões e/ou dúvidas afloram nos documentos literários e fílmicos que em seguida analisaremos detalhadamente.

As obras dissecadas abrirão caminho a algumas questões sobre o perfil ou os perfis do novo ou dos novos seres humanos que assomam ao virar da esquina. Terá a ética uma palavra a dizer na assunção desta nova identidade humana? Será ético substituir a natureza e, num último plano, o papel de Deus na criação e na ordem do mundo? Será a engenharia genética o novo deus? Será moralmente admissível conceber uma indústria que promova a remoção de partes desgastadas do nosso corpo ou, em última instância, substituir o nosso corpo quando se encontra velho por um corpo totalmente novo ou melhorar o nosso desempenho físico e/ou mental partindo de bases artificiais e não pela intervenção da evolução natural? Quem controlará ou dominará este processo? Caso esta indústria seja ativada, tomando por exemplo as desigualdades latentes no nosso tempo, não poderá ocorrer um fosso entre os que possuem capital para se regenerarem e evoluírem e os que desprovidos de condições para o fazerem, serão discriminados e irremediavelmente obrigados a viver segundo as condições proporcionadas pela sua condição natural, criando-se um inevitável conflito entre as partes? A este propósito George J. Annas refere que:

The new ideal human, the genetically engineered “superior” human, will almost certainly come to represent “the other”. If history is a guide, either the normal humans will view the “better” humans as the other and seek to control or destroy them, or vice- versa. The better human will become, at least in the absence of a universal concept of human dignity, either the oppressor or the oppressed17.

Como pressupomos através das palavras de Annas, a criação de super- humanos poderá desencadear uma guerra entre os humanos convencionais e as aberrações criadas pela manipulação genética, os “Outros”. Poderão estes super- homens artificiais substistuir e ameaçar a existência do ser humano comum?

A manipulação genética está na ordem do dia. A engenharia biogenética tem vindo a ganhar espaço no campo das ciências. Já somos capazes de copiar a informação presente numa célula para outra célula, inclusivamente, a ciência já conseguiu clonar alguns animais, como o célebre caso da ovelha Dolly, em 1996. Sublinhe-se que o vocábulo clone, provém do grego “klón”, que designa “um rebento”.

Relativamente a este processo, a clonagem consiste na produção de um novo organismo, geneticamente idêntico ao original. Existem três tipos de clonagem, a saber: a clonagem de ADN ou de genes, a terapêutica ou embrionária e a reprodutora. No que ao primeiro tipo diz respeito, é uma técnica utilizada para replicar um fragmento de ADN de um organismo e produzir várias cópias do gene para investigação meramente científica. Quanto à clonagem terapêutica, ela designa a produção artificial de embriões humanos para estudo. O objetivo último deste processo prende-se com a colheita de células estaminais 18 para analisar o desenvolvimento humano, adequar terapias para determinadas doenças e produzir cópias saudáveis de tecidos ou órgãos de uma pessoa doente que necessita de um transplante.

Il s’agit de produire en culture, après transfert nucléaire, des lignées de cellules embryonnaires immunocompatibles potentiellement utiles pour la recherche diagnostique et thérapeutique. Mais leur production, qui implique la création d’embryons humains à des seules fins de recherche, ne peut ignorer la délicate et

17 Annas, George J., “The Man on The Moon”, in Susan Schneider (ed) (2009), Science Fiction and Philosophy: from time travel

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