Partie II – Objectifs de la thèse et exposé des travaux
II.1 Analyse en cluster de la cohorte européenne EUSTAR
. Apresentação do problema .
A escola, em vez de eliminar as desigualdades, é capaz de perpetuá-las, conservando as estruturas sociais, o que expressa um conflito entre um discurso que promete a igualdade e uma concepção de sociedade que hierarquiza as competências (DUBET, 2003). No acesso à escola, nos diferentes níveis, há uma seleção direta ou indireta. Caberia à escola tratar todos os estudantes de maneira igual no que se refere aos direitos e deveres. No entanto, o espaço escolar se dirige, por meio do discurso da igualdade, somente àqueles que detêm uma herança cultural nos moldes que a escola exige (BOURDIEU; PASSERON, 2010).
Essa discussão fundamenta a interpretação das motivações que fazem com que os estudantes jovens não consigam se adaptar à escola em decorrência dos seus atributos e da forma como eles são dispostos na relação com esta instituição. Entretanto, esse estudo não se limita a compreender os motivos que tiram os jovens da escola, mas àquelas tramas que
66 Doutora em Sociologia (UFRGS), Professora (IFRS). A pesquisa que deu origem a este artigo contou com o apoio financeiro da CAPES.
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permitem o seu reingresso e, nesse sentido, a política pública que aponta essa possibilidade de retorno à escola é a Educação de Jovens e Adultos (EJA). O olhar a partir das redes de relações sociais tem um papel importante para a leitura dessa realidade, pois a inserção em determinadas redes sociais, por meio dos laços sociais constituídos, pode auxiliar o indivíduo a reconstruir sua relação com a escola, conseguindo retomar os estudos.
O objetivo deste estudo é compreender como as redes sociais operam sobre a trajetória dos jovens de modo a influenciar a continuidade dos estudos na modalidade EJA. Nesse sentido, esta pesquisa acrescenta um aspecto central para a compreensão da questão proposta: a inserção dos jovens em redes de relações sociais. Esse é um fator fundamental na decisão de continuar o processo de escolarização. Estudos e pesquisas nas Ciências Sociais vêm destacando aspectos relacionados às redes sociais e à importância dos laços desenvolvidos pelas pessoas no acesso aos bens (MARQUES, 2010). Entende-se por rede social as relações que conectam diferentes indivíduos, criando vínculos de diferentes naturezas (MARQUES, 2010).
A Educação de Jovens e Adultos “é uma oferta de educação regular, destinada àqueles que não tiveram acesso à escolarização na idade própria ou cujos estudos não tiveram continuidade nos níveis fundamental e médio, com características adequadas às suas necessidades e disponibilidades67” (RIO GRANDE DO SUL, 1999). A idade mínima para
frequentar a EJA passou a ser 15 anos para o Ensino Fundamental e 18 anos para o Ensino Médio.
No que se refere aos sujeitos desse estudo – jovens estudantes da EJA – cabe destacar que até uma ou duas décadas atrás era possível identificar a presença majoritária de adultos e idosos nessa modalidade de ensino. Entretanto, atualmente os jovens se fazem mais presentes, sobretudo no nível médio, constituindo o chamado processo de juvenilização da EJA (CARRANO, 2007). Construiu-se um cenário na realidade educacional brasileira no qual há um grupo significativo de jovens que não consegue concluir a escolaridade básica “no tempo certo” e ingressa na EJA, mesmo após o conjunto de políticas públicas que possibilitou a universalização do acesso à escola, o que, obviamente, não significa a permanência na escola.
Este estudo na medida em que aborda a significativa presença de jovens na EJA reflete um processo que aponta para os mecanismos que distanciaram os jovens da escola. Esses fatores estão relacionados a questões específicas da sua relação com a escola, com questões relacionadas ao mundo do trabalho e suas relações familiares e pessoais.
No que se refere à escola, características específicas dos jovens e seus comportamentos foram apontando para a ideia de “alunos inadaptados” e eles introjetando essas perspectivas e tomando para si que a escola não era o seu lugar. Assim, a permanência na escola estende-se até o momento em que algo os “segurou” nesse espaço, por exemplo,
67 Não serão discutidas nesse momento diferentes perspectivas sobre a EJA, por exemplo, conforme as apresentadas por Finger e Asún (2003) e Gadotti (2007).
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algum membro da família que mesmo com baixo capital escolar fazia com os filhos permanecessem na escola, mas que a partir de um determinado momento, a reorganização dos arranjos familiares acabou permitindo o rompimento do vínculo tênue do jovem com a escola.
O mundo do trabalho apresentou-se na trajetória de vida dos jovens estudados como um espaço bastante significativo para a escolarização, tanto no que se refere à interrupção dos estudos, quanto em relação à reaproximação com a escola. As marcas do trabalho no distanciamento do jovem da escola podem ser identificadas na necessidade que eles tinham em trabalhar ou no interesse por autonomizar-se da família. Conciliar o trabalho com a escola não se mostrou tarefa fácil e a opção escolhida foi interromper os estudos.
Ao longo desde artigo serão explorados os aspectos que possibilitaram aos jovens, com uma trajetória escolar descontínua, superar as questões que lhes afastaram da escola, por meio dos vínculos estabelecidos, isto é, das redes de relações sociais das quais passaram a participar.
. Procedimentos de pesquisa .
A pesquisa de caráter qualitativo realizada teve como foco de investigação os jovens que cursavam o Ensino Médio na modalidade EJA, em Porto Alegre, no ano de 2012, considerando todas as redes de ensino presencial que possuíam turmas de nível médio (federal, estadual e particular). Foram realizadas quinze entrevistas com enfoque nas trajetórias escolares dos jovens estudantes da EJA de nível médio, buscando identificar as redes sociais nas quais os jovens estavam inseridos.
Em quatro escolas diferentes foram entrevistados sete homens e oito mulheres, entre 17 e 29 anos de idade. Seis dos jovens possuíam filhos, sendo apenas um do sexo masculino. Todos eram trabalhadores, mas seis deles estavam desempregados no momento da pesquisa. Entre os desempregados havia um homem. As profissões variaram entre mecânico, auxiliar de creche, manicure, auxiliar administrativo, motorista, faxineira, auxiliar de depósito e jogador de futebol.
Para a análise das redes sociais dos jovens partiu-se da abordagem metodológica descrita por Marques (2010), realizando-se a análise das conexões sociais presentes nas redes nas quais se situavam os jovens analisados. Foram enfocados ainda os aspectos qualitativos da análise de redes de relações sociais, a partir de redes egocentradas, enfatizando os contextos sociais e o conteúdo que estava presente em cada laço constituído. Os jovens foram instigados a identificar os vínculos estabelecidos ao longo da vida e que tinham alguma relação com a sua escolarização.
A análise da trajetória de vida do jovem, articulada ao procedimento da análise das redes sociais, visou à contextualização desse jovem no seu grupo social e naquelas redes às
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quais atribuía valor. Por meio disso, foi possível lançar um olhar em direção à compreensão da forma como as redes operam em relação à escolarização.