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CHAPITRE 3 : MÉTHODOLOGIE DE LA RECHERCHE

3.6 Analyse critique : forces et limites de l’étude

3.6.1 Analyse des difficultés de recrutement

O modo de tratar a questão servil foi ainda um divisor de águas entre o partido liberal imperial e o novo liberalismo nascido da crise política de 1868. Os liberais históricos - como eram conhecidos os integrantes do partido liberal por terem participado das lutas políticas as quais, além de marcarem a independência, marcaram também o período regencial bem como a consolidação do segundo reinado - construíram para si um conteúdo próprio de liberalismo, condizente não apenas com seu status quo mas também com o contexto político e econômico.

Para eles, o sentido da palavra liberal era conservador das liberdades (BOSI, 1992, p. 199-200) de produzir, vender e comprar, as quais foram conquistadas em

1808; a liberdade de, como iguais cidadãos-proprietários, representar-se politicamente - direito alcançado com a independência - e, ainda impor uma ordem interna ameaçada por rebeliões provinciais, ordem esta capaz de garantir seus interesses econômicos através de uma política de centralização e de um Estado estabelecido sobre o latifúndio e a escravidão, tal como se configurou o fim da regência e a instauração do segundo reinado. Mas, o sentido mais acentuadamente diferenciado deste liberalismo era a liberdade que se davam seus adeptos de submeter o trabalhador à situação de escravo mediante a coação jurídica e a violência. Inevitavelmente, produzir-se-ia um profundo corte delimitador de sua posição de classe.

O liberalismo dos fundadores do Segundo Reinado era, assim, uma ideologia de classe dominante que legitimava o cativeiro e permita a reprodução das condições de sua dominação política e econômica, ou seja, um liberalismo oligárquico.

A classe fundadora do Império do Brasil consolidava, (...), as suas prerrogativas econômicas e políticas. Econômicas: comércio, produção escravista, compra de terra. Políticas: eleições indiretas e censitárias. Umas e outras davam um conteúdo concreto ao seu liberalismo. Que se tornou, por extensão e diferenciação grupal, o fundo mesmo do ideário corrente nos anos 40 e 50. (BOSI, 1992, p. 200).

A dissidência liberal investiria contra esse conteúdo do liberalismo imperial, atacando por dentro o próprio partido. Representante desse grupo, Joaquim Nabuco exprimiu, em seu livro O Abolicionismo, o ponto de vista político dos novos liberais. Dessa forma, a crítica nasce, a exemplo dos republicanos, da construção de um quadro de decadência.

Para os novos liberais - em breves considerações - o legado colonial também se configurava em uma herança deletéria à organização da sociedade brasileira. Segundo Nabuco, a colonização havia organizado o país em unidades semi-autônomas em que prevaleciam o latifúndio monocultor e o sistema

escravista. Como resultado, através da escravidão, promoveu-se a precária ocupação econômica do território que, dividido entre uma minoria de grandes proprietários, deu origem a uma camada aristocrática. Além disso, a maioria de escravos negros teria definido os contornos do povo brasileiro. Cultural e economicamente, aí estavam contidos os germes da decadência nacional.

A escravidão teria produzido o aviltamento do trabalho, ao afastar a população livre e pobre do centro dinâmico da economia e mantê-la sob domínio dos donos da terra, onde moravam “de favor” em uma relação de dependência permanente. A mentalidade escravocrata limitou a desenvolvimento de atividades econômicas independentes como a indústria. A camada aristocrática se fazia senhor de homens e da economia, formando em torno de si uma clientela economicamente dependente para garantir seu poder político. A sociedade, por sua vez, resultante que era do sistema escravista, traria também os efeitos do cruzamento entre brancos e raças de períodos mais atrasados de desenvolvimento o que provocava a mistura entre catolicismo e “feitiçaria africana”, a corrupção da língua, das maneiras sociais, da educação. Sendo assim, a instituição escravidão, legitimada e base da elite política, cerceou o desenvolvimento econômico do país e provocou a ausência de uma população que pudesse ser chamada de “povo brasileiro”.

Nas palavras de Nabuco (2000, p113);

Para resumir, num campo de observação que exige um livro à parte, a influencia da escravidão, sobre o território e a população que vive dele, foi em todos os sentidos desastrosa. Como exploração do país, os seus resultados são visíveis na carta geográfica do Brasil, na qual os pontos negros do seus domínio são uma área insignificante comparada à área desconhecida ou despovoada; como posse do solo explorado, nós vimos o que ela foi e é. O caráter de sua cultura é a improvidência, a rotina, a indiferença pela máquina, o mais completo desprezo pelos interesses do futuro, a ambição de tirar o maior lucro imediato com menor trabalho próprio possível, qualquer que seja o prejuízo das gerações seguintes. O parcelamento feudal do solo que ela instituiu, junto ao monopólio do trabalho que possui, impede a

formação de núcleo de população industrial, e a extensão do comércio no interior. Em todos os sentidos foi ela, e é um obstáculo ao desenvolvimento material dos municípios: explorou a terra sem a atenção à localidade, sem reconhecer deveres para com o povo de fora das suas porteiras; queimou, plantou e abandonou; consumiu os lucros na compra de escravos e no luxo da cidade; não edificou escolas, nem igrejas, não construiu pontes, nem melhorou rios, não canalizou a água, nem fundou asilos, não fez estradas, não construiu casas, sequer para seus escravos, não fomentou nenhuma indústria, não deu valor venal a terra, não fez benfeitorias, não granjeou o solo, não empregou máquinas, não concorreu para o progresso algum da zona circunvizinha. O que fez foi esterilizar o solo pela sua cultura extenuativa, embrutecer os escravos impedir o desenvolvimento dos municípios e espalhar em torno dos feudos senhoriais o aspecto das regiões miasmáticas, ou devastadas pelas instituições que suportou, aspecto que o homem livre instintivamente reconhece. Sobre a população toda do nosso interior, ou às orlas das capitais ou nos páramos do sertão, os seus efeitos foram: dependência, miséria, ignorância, sujeição ao arbítrio dos potentados (...).

A herança negativa da fase colonial era, assim, sobretudo econômica e cultural, diferente da argumentação dos liberais republicanos que identificavam os motivos da decadência nas instituições políticas herdadas. A Independência embora tivesse significado uma ruptura política não sobrepujou a inércia desse legado econômico que precedia a forma de organização do Estado e, portanto os motivos da decadência não estavam contidos na forma de governo. De acordo com os novos liberais, a forma monárquica era entendida como o legado positivo de Portugal, a única garantia de ordem e civilidade que impedia a transformação do país em “republiquetas”.

A fonte da crise se localizava, então, no sistema econômico - social que, por essa análise, se separava da organização política. A monarquia constitucional, que havia garantido ao país sua unidade, deveria ser também o caminho da reforma capaz de expurgar o país da escravidão, estendendo ao negro

a cidadania negada. Tratava-se, pois, de uma reforma que completaria a ruptura iniciada com a Independência reorganizando a economia e a própria sociedade.

No horizonte, viam um regime escorado na indústria, no trabalho assalariado, na pequena e média propriedade, no ensino primário gratuito, no sufrágio universal. Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José do Patrocínio, André Rebouças, Luís Gama, Antonio Bento e seus seguidores concebiam a abolição como medida mais urgente de um programa que se cumpriria com a reforma agrária, A democracia rural (a expressão é de Rebouças) e a entrada dos trabalhadores em um sistema de concorrência e oportunidade. (BOSI, 1992, p. 234).

Tratava-se assim de um liberalismo reformista que ao fazer a crítica rompia e desvendava as incongruências do liberalismo imperial, enxergando na abolição o caminho para a refundação das bases econômicas da sociedade brasileira e para manutenção da ordem política.