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Analyse des risques

Dans le document Ambiances thermiques (Page 5-8)

A entrevista de Odete foi concretizada no dia 16 de Fevereiro de 2013, durante a tarde, na casa onde vive sozinha em Lisboa. Ao longo de algumas horas foi possível manter com a atleta uma fluída conversa, na qual foi narrando a sua história. Ocupámos a mesa da sua sala, um ambiente confortável e acolhedor, onde desfrutamos de total privacidade.

A atleta tem 40 anos, nasceu em Leiria e vive em Lisboa. É Licenciada em Direito e no momento em que foi entrevistada encontrava-se a exercer a sua atividade como Jurista no Ministério da Saúde. Nasceu com deficiência visual congénita que desde criança lhe provocou grandes limitações visuais. Em ambientes que conhece é capaz de se orientar com alguma facilidade e de quase passar despercebida. Porém, as dificuldades de visão impedem-na de se deslocar sem recorrer a uma bengala quando o faz sozinha e em locais desconhecidos.

Aos 19 anos ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa e foi morar para a capital com a sua irmã e uma amiga. Foi nesta fase que teve conhecimento da existência de desporto para pessoas com deficiência e que iniciou a sua aventura no Atletismo para a deficiência visual.

Nesta modalidade, Odete, como gosta de ser chamada, especializou-se nas provas de meio-fundo e fundo, onde tem vindo a competir pela classe T12. Embora tenha sido classificada como T12, Odete corre sempre com atleta-guia e reconhece que esta não é a classe que mais se adequada às suas limitações visuais. Em seu entender, a classe adequada seria a mais baixa - T11.

Ao longo do seu percurso desportivo representou a ACAPO e, atualmente, é atleta do Maratona Clube de Portugal.

No seu trajeto já esteve presente em 5 edições dos Jogos Paralímpicos, nomeadamente, Atlanta 1996, Sidney 2000, Atenas 2004, Pequim 2008 e Londres 2012. Destaca-se o 4º lugar obtido em Sydney como a melhor classificação da atleta nesta competição. Em Campeonatos da Europa e do

Mundo, Odete soma uma medalha de ouro, seis de prata e 8 de bronze. Foi ainda campeã nacional durante vários anos e participou em inúmeros

Meetings da modalidade, relevando-se os resultados

de excelência.

Através de um discurso “apressado” e característico da atleta, começou por contar-me como foi detetada a deficiência visual e o tipo de limitações que esta lhe provoca.

Os meus pais descobriram quando eu tinha um ano e meio. Casualmente deixei cair umas bolachas ao chão e não fui buscá-las direto. Comecei às apalpadelas às bolachas. A minha mãe levou-me ao oftalmologista e ele disse que, de facto, eu tinha um problema. Mas até ter um ano e meio não se tinha manifestado ainda, porque são problemas de retina que só se manifestam mais tarde. (…) Desde então não sinto grandes evoluções, é sempre igual. Consigo perceber o branco, as cores, os contrastes das cores… Os contornos são muito mal definidos, mas o escuro e o claro, o alto e o baixo são o pouco que consigo perceber ainda hoje.

Nascida e criada numa aldeia da zona de Leiria, Odete cresceu num ambiente rural, local onde passou a sua infância e adolescência.

Eu vivia em Leiria, numa aldeia. A primária era a três quilómetros, em que a catequese e a missa era a mais não sei quantos quilómetros… Depois quando passei para a preparatória, na cidade de Leiria, aí era o autocarro que ia até ao centro e depois era a escola a mais dois quilómetros. E tudo isto era feito a pé… de um lado para o outro. Mas eu ia sempre com alguém. Fui sempre arranjando alguém com quem ir… [risos].

No que concerne às experiências escolares, destaca a etapa do 1º Ciclo do Ensino Básico como uma das mais marcantes na sua infância. As consecutivas barreiras que foi ultrapassando nesta fase, aliadas à instabilidade vivida nos primeiros anos de frequência da escola primária são narradas pela atleta como simbólicas.

A este respeito, exalta o papel desempenhado pelo seu Professor de Educação Física na superação de um percurso inicial deveras atribulado e

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inconstante. As consecutivas transições entre a escola regular e a escola especial representaram uma experiência negativa. Todavia, a sua identidade irreverente e obstinada não lhe permitiu desistir. A luta e a superação sempre se constituíram como elementos basilares da sua personalidade e a conquista do prémio de melhor aluna do 4º ano é expressão máxima do seu carácter.

Quando eu entrei para a primária regular surgiu um problema… eu não me exprimia como as outras crianças. E então mandaram-me para um instituto de cegos em Coimbra. Mas em Coimbra surgiu outro problema… eu também não era como as outras crianças cegas. Então mandaram-me de volta para a primária e andámos ali 3 anos em divergências a ver o que era melhor para mim, se a escola “normal” ou se uma classe especial. (…) Chegaram à conclusão que eu tinha família e apoio em casa e por isso tinha que estar junto deles e ter um apoio especializado na escola primária. E finalmente, depois de anos na primeira classe e de andar para trás e para a frente, surgiu uma Professora de apoio integrado que, por algum motivo, se encantou comigo... e se dedicou a mim [risos]. Essa equipa de apoio também tinha um professor de Educação Física e eu tive a sorte de, enquanto as outras crianças estavam na escola, eu estava a ter Educação Física. Por causa, mais uma vez, da postura e da mobilidade. Também naprimária, para além de andar muito a pé, saltava à corda, jogava ao elástico, essas coisas todas. Esse professor ainda hoje é especial para mim, acho que foi a primeira pessoa que acreditou verdadeiramente em mim e nas minhas capacidades (…) E depois quando fiz a 4ª classe “normal” recebi o prémio de melhor aluna da 4ª classe, aí foi uma grande vitória [sorriso]. A vida para nós, infelizmente, é feita de vitórias em vitórias. Quando se tem algumas dificuldades estão sempre a surgir pequenas vitórias, a luta é sempre inacabada. Acaba por nem ser o orgulho, mas a real necessidade de ir vencendo e superando os obstáculos. (…) Nessa altura sabia Braille complementarmente à leitura de coisas aumentadas, mas havia muito pouco material em Braille e muito menos em Leiria.

Ao longo da infância revelou ter sido sempre uma criança muito dinâmica e irrequieta. Por

aconselhamento médico chegou a praticar Natação, mas apenas na sua vertente mais terapêutica. Praticou Natação dos 11 aos 14 anos, mas era pouco regular. O principal intuito desta prática era melhorar e prevenir a possível adoção de posturas incorretas. Unicamente com uma aula por semana, a aprendizagem das técnicas ficou-se por um domínio rudimentar e a competição nunca chegou a emergir como uma possibilidade no decorrer desta primeira experiência desportiva. Não obstante, o gosto assumido desde cedo pelo desporto e a sua identidade dinâmica revelaram-se fulcrais na autonomia, na mobilidade e consequente independência conquistadas por Odete.

Tive sempre Educação Física até ao 7º ano. Participei nas olimpíadas da escola e tenho uma medalha de bronze até de Atletismo. O Professor de Educação Física, enquanto ele fazia os desportos coletivos, punha alguém a brincar com uma bola comigo, a correr… sempre a fazer alguma coisa. Fazia mais os desportos individuais. Salto em comprimento, aquelas corridas de velocidade. (…) Sempre fui muito ativa, ia à discoteca, dançava e andava sempre a pé de um lado para outro e isso acabou por ter impacto quando comecei a treinar. Acabava por ser magra, o que às vezes não é muito normal nas mulheres. Há muitos vícios e muitos problemas associados às pessoas com deficiência, as questões posturais, as questões de obesidade e assim, coisas naturais e justificadas pela inatividade, mas que eu nunca tive.

Partindo das palavras de Odete, apercebemo-nos que a sua entrada na Universidade e a consequente mudança para Lisboa se assumiu como uma das fases mais complexas da sua vida. O sentimento de perda do seu grupo de pares foi vivido de forma negativa e levou-a a perder o sentido da sua vida durante um período de transição.

Na tentativa de suplantar estas adversidades, a irmã de Odete sobressaiu como elemento fundamental no apoio e incentivo à prática desportiva. Na capital, as primeiras experiências desportivas da atleta materializaram-se em atividades de ginásio, sem qualquer tipo de adaptação. O insucesso sentido nestas experiências fez aumentar a sua frustração.

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Neste contexto, procura a ACAPO para tentar recolher informações e é a partir deste contacto que se inicia no Atletismo adaptado, numa primeira etapa, sem objetivos competitivos.

Depois vim para Lisboa para a Universidade. Aí fiquei um bocado desorientada. Perdi o grupinho das amigas da adolescência. Portanto, tinha aquele grupinho de meninas da adolescência que me levavam para todo o lado e que perdi. Tenho uma amiga desde os 10 anos que eu hoje acho que ela foi uma verdadeira guia para mim. Se se pode falar de guia, a Xana... foi tudo isso e muito maisnesses anos da minha vida. (…) Nessa fase aquilo que eu escrevia já não servia porque eu tirava apontamentos nas aulas, mas já não conseguia perceber aquilo que escrevia. Depois tive que me pôr a gravar aulas, depois sabia Braille mas o que sabia era pouco. Mas foi no 1º ano da Faculdade que entretanto veio o Atletismo. (…) Com a minha irmã fui para aulas de aeróbica, mas quando eu via a mão do professor em cima já ele estava com a mão cá em baixo. Então andava sempre frustradíssima… não conseguia

acompanhar as aulas e desisti. Foi uma

desorientação completa. Depois fui então procurar respostas à ACAPO e a minha irmã viu lá Atletismo. Então disse-me: “Porque é que não vais lá experimentar isto? E eu respondia: “Correr?!” Eu detestava correr. (…) Mas pronto, inscrevi-me e no 1º ano andei lá só por andar.

No princípio, o Atletismo foi encarado por Odete como uma ocupação. Atentando nos elevados níveis de performance revelados pelos atletas paralímpicos que treinavam no estádio universitário consigo, a alta competição sempre se afigurou como uma realidade superior a que apenas os heróis poderiam ambicionar.

No 1º ano da Faculdade ia ao treino de vez em quando, ia quando me apetecia. Depois no 2º ano o treinador disse-me: “Se começares a treinar mais um bocadinho vais connosco ao Campeonato da Europa”. Mas eu tenho que ser honesta, eu cheguei lá… em 91 e 92 foi o ano de preparação para os Jogos Paralímpicos de Barcelona e eu via-os [atletas paralímpicos da competição que treinavam com o seu treinador] no chão a vomitar, esbaforidos, cansados e

achava que aqueles atletas eram seres acima de tudo... E pensava: “Isto não é para mim!” Portanto, aquilo era uma realidade inatingível. Intangível quase. (…) Mas depois no ano seguinte comecei a treinar mais e como tinha uma boa condição física de todo o percurso feito até aos 19 anos, acabei por fazer alguns resultados.

Pese embora o facto de se ter iniciado no Atletismo em 1991, só em 1992 e 1993 começou a dedicar-se de corpo e alma ao treino desta modalidade. Após ser alertada para a possibilidade de poder vir a estar nos mesmos palcos desportivos que os seus “heróis”, Odete elevou o seu comprometimento com a prática desportiva. Este empenho brotou os primeiros frutos visíveis em 1993, aquando da sua primeira competição internacional. Nesta experiência, a conquista de uma medalha assumiu-se como inesperada e foi pouco valorizada pela atleta, como nos conta:

O primeiro Campeonato que fui foi o da Europa de 1993, em Dublin, na Irlanda. Fui a um Campeonato da Europa e ganhei uma medalha. Mas mesmo assim, no 2º ano emque comecei a treinar mais a sério sempre disse: “Isto não é para mim!” Ainda hoje pergunto porque é que eu me habituei a sofrer tanto no treino [risos]. (…) Nessa prova ganhei uma medalha de bronze nos 800m, mas não teve grande significado para mim. Queria era estudar, prosseguir os estudos e pensava sempre que aquilo tinha sido um acidente de percurso e que depois ia continuar a minha vida normal. Só que, no ano seguinte, melhorei largamente os meus mínimos e acabei por ir ao Mundial. E nesse Mundial fiz mínimos para os Jogos Paralímpicos de Atlanta. E ir a uns Jogos Paralímpicos já “pia mais fino” [risos]. O Campeonato da Europa é uma coisa, mas não é suficientemente marcante. A medalha não é suficientemente marcante. Agora, quando se pensa que se poderá ter a possibilidade de ir a uns Jogos Paralímpicos, temos que admitir que depois de já ter passado um Mundial e um Europeu… o acesso aos Jogos faz parecer que afinal isto não é assim uma coisa tão difícil! Afinal se calhar também posso ser como aqueles atletas [risos].

Em 1996, a falta de acompanhamento técnico especializado é atribuída como uma das possíveis

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justificações para uma lesão contraída pela atleta. Porém, após ter conquistado a oportunidade de estar presente no palco paralímpico, a crença nas suas capacidades conduziu-a à superação dos seus próprios limites e à luta incessante por uma rápida recuperação. Nesta senda, Odete evidencia o sofrimento e as dores sentidas como expressão simbólica do esforço transcendente que realizou para chegar a Atlanta.

E a partir do momento em que nós acreditamos que já não há limites, tudo é possível, já não há barreiras! É interessantea mudança de atitude que senti em mim... E depois surgem as lesões e a superação das lesões é sempre uma luta. Eu tive uma lesão em 96, a seis meses dos Jogos e fiquei 4 meses sem saber se ia ou não. Mas a vontade de ir era tanta que eu fiz piscina, andei de canadianas… Eu tinha uma lesão que era uma fratura de esforço numa perna e que acho que foi excesso de carga do treino. Eu queria muito treinar mas, de facto, não conseguia, porque aquilo era uma dor da pontinha da canela até ao cérebro. Parecia uma agulha a espetar. Mas a vontade de ir aos Jogos era mesmo muita e foi isso que me fez andar. Não sei... Não me pergunte o que é que faz lutar, mas lutei para ir aos Jogos de Atlanta e consegui. (…) Nem sempre fui bem orientada, reconheço isso. Ao ter mudado de treinador em 2000 senti que o treino era mais adequado... Aqueles primeiros anos, o treino era um sofrimento completo. Percebi depoisque não é preciso sofrer tanto para ter os mesmos resultados!

Da experiência vivida em Atlanta 1996, Odete ressalva os resultados obtidos nas provas:

Não foi muito interessante porque os Jogos de Atlanta foram mal organizados. Eles aproveitaram as infraestruturas todas que já estavam feitas. Ou seja, ficamos em residências universitárias mas separados, não tínhamos uma aldeia olímpica, não estávamos concentrados. Os locais de competições eram todos muito separados uns dos outros… (…) Em termos de participação foi excelente, porque acabei por bater um recorde pessoal nos 1500m, as coisas correram-me bem e vim embora satisfeita.

Considerando a etapa inicial da carreira da atleta, os seus pais sempre manifestarem interesse em acompanhar as suas façanhas desportivas, mas eram perentórios em reforçar o papel secundário que esta atividade deveria ocupar na vida de Odete. Para eles, o curso universitário deveria constituir-se como prioridade para a atleta. Não obstante, a autonomia de Odete e a sua personalidade independente, desde cedo fizeram com que os pais deixassem a seu cargo todas as tomadas de decisão relativamente à prática desportiva de elite.

Eu tenho uma grande autonomia, sempre tive. Os meus pais acham ótimo eu fazer desporto e valorizavam imenso, mas deixavam aquilo por minha conta. As coisas foram rolando, eles nunca interferiram muito... Também não há aqui vedetismo, não há acima de nada nem de ninguém. Nunca me deslumbrei com grandes euforias. Vivo isto com alguma naturalidade e com simplicidade. Mas os meus pais valorizaram muito! Eles tiveram a possibilidade de acompanhar algumas competições minhas… Foram aMadrid, em 98, e viram-me ganhar uma medalha de ouro. Vibraram muito, mas foi sempre uma coisa paralela ao meu curso. Foi sempre mais uma coisa que fazia parte de mim.

A primeira época do seu percurso desportivo ficou marcada pelos conflitos gerados no seio do grupo de atletas com quem treinava. Aliás, as dificuldades sentidas por Odete em se integrar neste grupo foram uma constante no decorrer de todo o seu trajeto. A este respeito a atleta contou-nos:

A fase de iniciação foi muito difícil. Tive várias complicações em integrar-me no grupo dos atletas mais antigos. (…) O problema, basicamente… é um problema de sectarismo. Eu era a única rapariga e era muito diferente. Ainda hoje sou muito diferente [risos]. Sou irreverente e eles nunca gostaram muito disso! Não fui muito bem recebida. (…) Alguns achavam que o protagonismo tinha de ser todo deles e que as raparigas não tinham direito a isso. Eles tinham os guias, eles é que eram os grandes atletas e as raparigas iam para ali mas não tinham capacidade, não eram verdadeiras atletas. Nessa fase senti-me um bocadinho sozinha no treino e se calhar na própria competição. (…) Ainda hoje não são meus amigos,

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porque quando me viram a ter sucesso parece que ainda me queriam dificultar mais a vida… enfim! Foi um período complexo! Isto entre 93 e 97. (…) Depois o Nuno Alves apareceu e ele é dos poucos atletas que sempre foi próximo de mim. Ele faz parte dos meus amigos. E também foi importante o João Baeta que foi meu guia entre 97 e 2007. Ele teve um papel preponderante na minha carreira. É como se fosse da minha família, é mais do que um irmão... Foi de facto a pessoa que me deu estabilidade e que esteve comigo durante vários anos. É uma pessoa excecional. (…) Houve uma altura em que eu estive muito doente, em que estive com uma anemia gravíssima. Então estávamos a fazer uma prova de estrada e ele ainda não era meu guia regular e estava a fazer a prova com outro atleta. Nessa prova eu ia ficar em último e então o Baeta disse ao atleta que acompanhava para não me passar, só para eu não ficar em último… porque ele sabia que o grupo me ia massacrar. Esse apoio do João Baeta mudou o respeito que os outros tinham por mim. Fez-me ganhar o respeito dos outros atletas. Ele era o meu escudo! (…) E depois o Nuno em 97 passou a ser um bocadinho o meu “compincha”. Mas até 97 eu não tinha guias regulares. Eu ia para as competições e o meu guia era o treinador, mas depois ele era o responsável e eu acabava por ser sempre discriminada. Aí eu não tinha a minha própria identidade, estava sempre ali um bocadinho perdida. A partir de 97 passei a ser eu mesma e a ter a minha própria respeitabilidade graças ao guia.

Perante este excerto percebemos que Odete nunca conseguiu desenvolver um sentido de pertença ao grupo de Atletismo com quem foi treinando ao longo da sua carreira. O facto de ser a única atleta feminina parece ser uma das possíveis justificações para este facto.

Nesta conjuntura, a atleta enaltece o papel preponderante desempenhado por Nuno Alves, atleta com deficiência visual que integra o grupo, e que tem vindo a ser essencial no apoio e partilha de experiências com Odete. Do mesmo modo, realça-se

a importância de João Baeta, atleta-guia que a acompanhou durante 10 anos e que lhe permitiu alcançar a estabilidade desportiva tão ansiada por muitos dos atletas deste grupo de Atletismo. Para além da amizade compartilhada, a sua relação é de cumplicidade e de incondicional apoio à atleta. Partindo das palavras de Odete, entendemos que o facto de ter partilhado 10 anos da sua carreira com o mesmo atleta-guia se revelou crucial nos resultados desportivos alcançados, na sua capacitação como atleta de elite, mas também na construção de uma forte identidade atlética e desportista.

Na sua senda no desporto paralímpico, o ano de 1998 constituiu-se como um dos pontos altos do seu trajeto. A obtenção da primeira medalha de ouro e a partilha deste momento com os seus mais significativos transformou o Campeonato do Mundo de Madrid num momento perene na sua memória.

O que me marcou mesmo foi ter ganho uma medalha de ouro no Campeonato do Mundo, em Madrid. Porque os meus pais estavam presentes e isso foi muito bom! (…) Foi marcante porque ganhei uma medalha de ouro nos 5000 e uma medalha de bronze nos 1500m. Foi espetacular! A medalha de ouro foi

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