M. El Houssine SAHIB : Directeur Général Adjoint - Pôle Banque des Marchés et d’Investissement (36 ans)
II.2. Compte de Produits et Charges Avertissement :
II.3.2. Analyse des principaux postes du bilan Crédits
Os textos do grafite de muro apresentam uma estrutura que difere das demais tipologias textuais. Compõem-se, prioritariamente de palavras ou frases que, apesar de curtas, marcam a materialidade da língua com elementos sócio-históricos do contexto com que interage seu produtor, os quais orientam as escolhas do léxico, dos processos, tempos, vozes e pessoas verbais, como explicitamos nas análises das demais categorias do nível textual do discurso. O suporte sobre o qual se inscrevem as manifestações do grafite também se caracteriza por uma peculiaridade, atribuindo ao grafite uma efemeridade que pode ser reforçada pelas próprias condições climáticas da região, como pela tinta colocada sobre tais produções para eliminá-las.
Assim sendo, o processo interativo locutor/interlocutor, desse gênero textual, apresenta também particularidades. Existe uma preocupação do grafiteiro em insistir em determinadas temáticas, já que ele parece ter consciência de que sua produção pode perecer rapidamente. Assim sendo, em espaços distintos, são abordadas temáticas semelhantes, sempre relacionadas ao contexto social pertinente ao produtor de tais textos. Esse processo não se realiza face a face. O grafite surge como uma nova mídia que, no convívio com tantas outras formas de comunicação urbana, busca seu espaço de diálogo, expondo-se em murais espalhados pela cidade.
Nele, o controle interacional é sempre exercido pelo produtor do grafite que assume a agência social, sinalizando para a hegemonia, como foi comentado na análise dos processos verbais, na categoria “gramática”, não havendo condições de avaliar as reações de todos os interlocutores, a não ser pela repressão sofrida, muitas vezes, pelas manifestações do grafite.
Um ponto importante a salientar é o processo de interação que ocorre entre os grupos rivais de grafiteiros envolvidos com essas produções. Na análise desses casos, é perceptível a luta pelo domínio de um “território” na urbanidade, havendo para tanto diferentes motivações: protestar/contestar, ter ibope/visibilidade/criar polêmica, dar sinal de vida a outros grafiteiros, fazer parte da identidade do grupo/ enturmar-se.
Por se tratar de um texto curto e visível em espaços urbanos de grande circulação de transeuntes, sua leitura torna-se bem mais fácil que a dos textos impressos, pois, como os out
doors, tais excertos lingüísticos não exigem condições especiais para a leitura. Pudemos
observar, durante a pesquisa, o planejamento estratégico dos grafiteiros para expor seu pensamento, escolhendo tipos de alfabeto, cores, palavras que melhor resumam suas concepções, espaços privilegiados da cidade, preferencialmente os de maior visibilidade,
confirmando a idéia de que como nos textos impressos, o grafite é planejado também em sua estrutura textual. Essas escolhas, possivelmente, são direcionadas por propósitos subjetivos, políticos e ideológicos de cada produtor de tais textos, de acordo com o objetivo que o grafiteiro quer atingir.
Da mesma forma que as propagandas se expõem no espaço urbano, os textos do grafite, mesmo se contrapondo ao que determina a lei, são inscritos nos mais diversos locais, tendo conseguido, pela repetição dessa prática, encontrar alguns espaços que, através da negociação, já o incluem e até mesmo cooptam sua estrutura e alguns de seus valores.
Verificamos, pois, que se evidenciam opções planejadas da estrutura e do modelo textual, uma vez que essas se relacionam às escolhas de sentidos e à construção de identidades sociais, de relações sociais e de conhecimento e crença, não se tratando, portanto, de escolhas aleatórias.
No processo analítico da construção discursiva do grafite de muro, no nível textual, detectamos várias estratégias lingüísticas: predominância no vocabulário de itens lexicais que se referem às condições sociais assimétricas, ao preconceito contra o grafite e à possibilidade de mudança dessa situação; a criação de um neologismo que fortalece a identidade do grupo dos grafiteiros; a utilização de enunciados metafóricos que traduzem a visão de mundo dos produtores do grafite; a predominância, na gramática, do processo acional dos verbos, da voz ativa e do imperativo, sugerindo a agência desses atores sociais; o escolha prioritária da primeira pessoa do plural, revelando a força identitária do grafite; e o planejamento do modelo e da estrutura textual pelos grafiteiros sobre um novo suporte midiático – o muro.
Tais estratégias podem ser um indicativo das posições políticas e ideológicas dos produtores desses textos, que se caracterizaram, predominantemente, pela contestação e pela resistência. Embora assim sendo, não podemos esquecer que o texto do grafite carrega, também, marcas da ideologia dominante, uma vez que muitas das estratégias escolhidas pelos grafiteiros reproduzem o discurso da dominação.
Nessas análises foram perceptíveis, ainda, a presença da função ideacional da linguagem, através da qual, o discurso oral e escrito do grafite ajudou a construir os sistemas de conhecimento e crença (ideologias), por meio da representação do mundo para o grafiteiro; a presença da função identitária, em que o discurso sinalizou para a constituição ativa da auto- identidade do grafiteiro e da identidade grupal do grafite de muro; e a presença da função relacional, através da qual, o discurso contribuiu para a constituição de relações entre grafite e sociedade. Ainda ressaltamos a presença da função textual que se refere ao modo como se estruturam e interagem as informações no texto, revelando que os grafiteiros fazem escolhas
sobre o modelo e a estrutura de seus textos, e tais escolhas interferem nos seus sentidos e colaboram para a construção e a manutenção da identidade do grafite e dos grafiteiros, para a realização do diálogo entre grupos de grafiteiros rivais ou não, e/ou para a subversão de relações assimétricas e dos valores legitimados pela ideologia dominante.