DEMARCHE METHODOLOGIE
4.9 Analyse des données :
São cinco os livros que, escritos num período de uma década, onde sua mente se abriu para o sentido do outro como ser humano, através da Revolução cubana, a princípio, revelam um aglomerado temático que os funde numa nova dimensão literária baseada na realidade dos possíveis e nos possíveis da realidade. Assim, como veremos em seguida, detalhado, livro após livro encerra em seu conteúdo uma gama de temas que envolve a existência do ser e toda a sua complexidade paradoxal: angústia e vontade de viver, busca e perda, a vida mergulhada no caos instaurado pela política
ditatorial em um jogo que está sempre preste a recomeçar. Vejamos o que nos revelam os livros:
Octaedro, obra publicada em 1974, compõe-se de oito contos curtos, retratando, em cada um, uma realidade diferente. Segundo a crítica19, esta é, das obras de Julio Cortázar, a que mais expressa a sua maturidade como escritor, cuja criatividade, na década de setenta, parece ter se aguçado rumo a uma inovação permanente que acompanha a sua obra contística. Em Octaedro, estamos diante de um tempo e de um espaço que se bifurcam para no final atingirem a realidade e a imaginação, envoltas numa atmosfera propícia para que a cotidianidade entre em suspensão ante as situações criadas pelo autor. Dentro das oito histórias, Cortázar cria uma nova dimensão do real, aquela que, sentimos, não sobreviveria sem o elemento fantástico. O autor utiliza-se do menor número de elementos formais para compor situações inusitadas, criando uma dimensão colateral, é, sobretudo, a junção das várias realidades, de diferentes formas de enxergar o mundo e senti-lo. São oito histórias que extrapolam oito realidades, que transgridem as estruturas e as formas do narrar, povoando as suas próprias formas de dizer com incertezas e ambigüidades. São oito histórias que formam um octograma ou estrela de oito pontas. Formam a Hod cabalística a representar o trabalho da mente individual, a lógica, a razão que só se concretiza colocando em confronto as realidades possíveis e imaginárias criadas pelo autor. O amor, o sonho, a enfermidade, a morte, a infância, a fronteira entre o cotidiano e o fantástico, tudo con- formando-se numa geometria perfeita: a de intercalar matizes finitos e infinitos do mundo que o cerca e passam para os mundos que cria, chegando até nós, leitores. E representa também o Ouroboros, imagem constante na escrita cortazariana, a ligar-se tanto ao sentido de sabedoria como ao sentido alquímico de transformação da própria literatura.
Alguien que anda por ahí surge em 1977. Estamos diante da reunião de onze contos nos quais Cortázar transita pela melancolia, pela violência, por situações que jamais se repetirão, seguindo a linha narrativa traçada nos outros livros: pensamento fragmentário, repercutindo direto no enredo dos
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contos que não obedecem a uma esquematização regular de começo, meio e fim. Embora apresentem um tema comum – o fantástico – as conexões que deles se desprendem são variadas e intensas. Tal como um labirinto, os sub- temas vão se incorporando num crescente valorativo de experiências humanas, de desejos e frustrações, de ânsia por viver, de desilusões amorosas e música a embalar todos os dramas e, em especial, os dramas decorrentes da perseguição imposta pela Ditadura.
Un Tal Lucas, publicado em 1979, não se enquadra nos moldes narrativos do conto, da novela. Também não se trata de um compósito dos dois. É um livro de registros cotidianos do autor, um livro almanaque ao estilo de Último Round, de Historias de Cronopios y famas . Um jogo de leitura assistemático e hilário, cujas chaves o leitor pode usar em qualquer porta. Um jogo textual sem princípio, meio e fim. Não oferece cartas marcadas, a não ser o livre trânsito entre autor-narrador que se funde e se confunde em cada aspecto, fato espirituoso ou espiritualizado, exposto por ele. Neste livro, Cortázar retorna ao mundo livre das histórias de cronópios e famas e segue a cotidianidade de pianistas, de artistas excêntricos, os costumes de certas famílias argentinas, o amor, o jogo com a palavra e com o sentido de patriota e os amigos. Transgride a narrativa, escreve sonetos, profere conferências. Inúmeras são as dúvidas que se abatem sobre esse Tal Lucas, como também são inúmeras as suas explicações. De uma certa forma, somos todos Lucas a nos interrogarmos e nos tentarmos explicar o mundo todo e suas coisas, sem necessariamente encontrarmos o nexo exato do que buscamos. Um livro- hidra, com muitas cabeças onde o Tal Lucas é a principal.
Nos dez relatos que compõem o livro Queremos tanto a Glenda, de 1980, o autor se vale de protocolos ora públicos, ora privados, de cruzamentos de realidade e imaginação, de humor e violência. De melancolia. Apresenta temas recorrentes da narrativa cortazariana, sobretudo, conserva a forma característica de suas construções que vão da aparente imprecisão à surpresa, ao assombro, nunca ao engano. Captura o trivial, o sentimental, e o transforma em mistério. Faz da realidade uma extensão da fantasia e do imaginário, atualizando, pela linguagem, a fragmentação das idéias, do enredo que
compõe cada conto. Ele converte em literatura os sonhos, os gatos, os quadros, o tempo, a música, as infinitas armadilhas da linguagem e dá esse sabor persistente e indefinível que, como em toda grande obra, está mais além de toda fórmula.
Oito contos constituem o livro Deshoras, de 1982. Trata-se de uma obra que se abre com uma narração de um fato trivial, simples, casual, mas que demonstra quão profundamente estão interseccionadas realidade e imaginação e se encerra com um conto, aparentemente literatura sobre literatura, que nos faz transitar entre reflexão crítica sobre o gênero e tema, em seu jogo inteligente e suas piscadas ao leitor esperto. E no meio, outros seis contos prodigiosos, que vão da escuta lírica à complexidade onírica da prodigiosa metáfora que faz da ditadura militar, cartografiando um território misto de cotidianidade e assombro. Este livro oferece, de forma renovada, o leque completo do mundo cortazariano. Nele, a violência política emerge de um pesadelo ao jogo de palavras. Uma realidade apaixonante, um modelo para armar uma realidade humanamente fantástica.
3.4 DE CAVALO, GATO, RATOS