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6 PARTIE EMPIRIQUE

6.4 Impact de la maladie

6.5.5 Analyse des besoins

As verdadeiras fortificações do país estão no peito de seus filhos.

Deputado Lopes Neto429 A paz a todo transe seria um aviltamento; a paz que é a fonte mais fecunda do

engrandecimento dos países, quando mantida a todo custo, amolece e humilha as nações.

Deputado Dantas430

A experiência de guerra nos Estados Unidos e no Brasil também foi elemento fundamental no processo de consolidação nacional. Quando o Brasil entrou na Guerra do Paraguai, o maior conflito intercontinental do século XIX, a experiência de guerra norte- americana, onde a Secessão ainda estava em curso, havia se tornado uma espécie de exemplo, principalmente, em dois sentidos: seu impacto sobre a emancipação dos escravos e sobre a construção efetiva de um exército nacional.

Assim, apesar das enormes diferenças entre os conflitos, é importante salientar que ambas as guerras provocaram mudanças fundamentais na estrutura militar dos dois Estados nacionais e suscitaram mudanças sociais fundamentais, na medida em que, mesmo de maneiras distintas, mas incisivas, fizeram com que ambos os países tivessem que enfrentar a questão da escravidão como um problema nacional.

Compreende-se assim, que subjacentes à guerra estavam o problema da centralização do Estado nacional a partir da sua estrutura militar e a questão da escravidão, na medida em que, diante das necessidades bélicas, fez-se necessário

429 Felippe Lopes Neto, deputado pela província de Sergipe, advogado, ministro, diplomata, sócio do

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Um dos líderes da Praieira, foi preso e retornou ao parlamento após ser anistiado.

ACD, Sessão em 04/08/1864.

430 Manoel Pinto de Souza Dantas, deputado liberal pela província da Bahia, magistrado. Manoel Pinto de

Souza Dantas, Conselheiro de Estado, Senador do Império, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Justiça; Conhecido como Conselheiro Dantas, Manuel Pinto de Sousa Dantas nasceu em Salvador, Bahia, em 1831 e morreu no Rio de Janeiro, em 1894. Bacharel em ciências jurídicas e sociais, comandou a pasta da Secretaria Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas de 3 de agosto de 1866 a 16 de julho de 1868. Governou Alagoas e Bahia, elegeu-se deputado em 1857 e tornou-se senador dez anos depois. Foi ministro da Justiça (1880-1882), organizou e presidiu o 32º Gabinete, que governou o país em 1884 e 1885 e neste primeiro ano, apresentou projeto redigido por Rui Barbosa propondo a emancipação dos escravos com mais de 60 anos. Foi ministro da Fazenda e, interinamente, dos Negócios Estrangeiros. Defendeu ampla reforma social, incluindo temas como a reforma agrária e a democratização no ensino, fez parte da “sociedade libertadora 7 de setembro”. Disponível em: http://www.agricultura.gov.br/acesso-a-informacao/institucional/galeria-de-ministros/manoel-pinto-de-

souza-dantas. Acesso em: 09/09/2016. Disponível em:

179 incorporar às fileiras militares ex-escravos e homens pretos livres, alterando a composição deste elemento estatal tão importante. Para Jorge Prata de Souza, o legado do recrutamento de escravos para a guerra foi amplamente debatido e, para alguns, contribuiu de fato para o sentimento abolicionista nas Forças Armadas, desestabilizando o instituto da escravidão431.

A guerra demandou nos dois países que se construísse uma burocracia de Estado mais eficiente e que abarcasse o território nacional de forma mais ampla, ao mesmo tempo em que esses mesmos Estados precisaram admitir que não contavam com números suficientes para ganhar a batalha. O Estado Imperial e o Estado da União foram forçados, em circunstâncias de guerra e de consolidação da nação (a União para manter a nação unificada, o Brasil para garantir seu posicionamento dentro da América do Sul e assegurar não apenas a sua soberania nacional, mas também regional), a recrutar homens “de cor”, livres, libertos ou escravos. Dessa forma, a guerra provocou alguns resultados semelhantes tanto no Rio, quanto em Washington: as estruturas limitadas do recrutamento e abastecimento das tropas afetou a distribuição de poder e a construção da identidade racial432.

Apesar das grandes dificuldades conceituais em relação ao temo “guerra”, partiu- se aqui da compreensão do conflito como tendo como referência a noção de “violência expressa na Guerra por meio da ‘força armada’”, e que se “configura, ao mesmo tempo, como uma espécie de conflito, uma espécie de violência, um fenômeno de psicologia social, uma situação jurídica excepcional e, finalmente, um processo de coesão interna”433. A força, que se constitui também como um “monopólio da violência” dentro da sociedade, tornou-se assim “elemento constitutivo da própria definição de Estado”434. No entanto, como bem afirma e demonstra a historiadora Wilma Peres da Costa, apesar de definidor do Estado, este monopólio da violência é construído, isto é, é o resultado de um processo que demanda o “desarmamento (...) das forças rivais do Estado, ou seja, das formações armadas sob controle dos agentes privados”, em um processo que pode ser violento, conflituoso, e da construção de uma legitimidade dos agentes deste

431 SOUZA, Jorge Prata de. Escravidão ou morte: os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio

de Janeiro: Mauad; ADESA, 1996.

432 IZECKSOHN, Vitor. Slavery and war in the Americas (…).

433 GORI, Umberto. Guerra. In: BOBBIO, Norberto, Dicionário de Política. 11a ed., Brasília: Editora

UNB, 1998, 2 Vol, pp. 571-572.

180 monopólio435.

Nesse sentido, a guerra como elemento constitutivo para a formação nacional é algo notório nos processos de formação dos Estados nacionais modernos. Ela exige de um Estado a existência efetiva de um corpo burocrático, de forças armadas consolidadas e da afirmação da soberania. Mais do que isso, um Estado precisa de um corpo de cidadãos que esteja disposto a dar a sua vida por ele, precisa de uma coesão social que faça com que os seus integrantes se sintam pertencentes o suficiente a uma pátria para incorporarem as fileiras. Ao entrar em guerra e ganhar, um Estado afirma-se como tal de forma definitiva.

A Guerra do Paraguai foi o maior e mais longo conflito na América do Sul. Entre os anos de 1864 e 1870, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai se viram envoltos em uma guerra inter-regional, regida por disputas que vinham se construindo desde o início do século XIX na região platina. A também denominada Guerra da Tríplice Aliança teria sido impulsionada a partir de mudanças na estrutura regional de poder, dentro da qual o Paraguai teria se sentido ameaçado pelas reconfigurações políticas que ocorriam no Rio da Prata.

Carlos Guilherme Mota compara o impacto da Guerra do Paraguai e os seus números assustadores, justamente à Guerra Civil dos Estados Unidos, comparando, inclusive, a importância que se teria dado aos mortos “do hemisfério Sul” em relação aos mortos do “hemisfério Norte”, afirmando a importância daquela que foi a maior guerra da história da América do Sul436, um marco, “um acontecimento histórico de pesadas consequências, que daria nova dimensão à história desta parte do planeta”437.

Para o acirramento das tensões na região teria contribuído o fato de que no Uruguai e na Argentina elementos agrários mais conservadores estavam perdendo espaço para elementos mais liberais e urbanos, no sentido de uma influência centralizadora. Uma situação que, junto às mudanças na política externa paraguaia, teria levado à “decisão catastrófica” do presidente Lopez de entrar em uma guerra que ele não podia vencer438. Para Vitor Izecksohn, a situação de isolamento do Paraguai não teria sido uma “escolha”

435 COSTA, Wilma Peres. Op. Cit., p.28.

436 Outra questão importante para o contexto é o fato de terem sido utilizados na Guerra do Paraguai

elementos modernos de guerra, como o recrutamento compulsório, uso de tecnologias como o telégrafo e barcos a vapor, bem como o uso deliberado da propaganda na imprensa, para influenciar a opinião pública. Cf.IZECKSOHN, Vitor. Slavery and war in the Americas (…), p.12.

437 MOTA, Carlos Guilherme. Op. Cit., p. 244. 438 IZECKSOHN, Vitor. Ibidem., p.13.

181 de Francia, mas sim resultado da própria instabilidade política regional da região do Prata, que tornou os conflitos pós independência constantes e dos quais o Paraguai teria tido que se defender:

Esses conflitos incluíram a defesa paraguaia da sua independência contra o governo provisório de Buenos Aires, em 1811; a invasão luso- brasileira do Uruguai, cinco anos depois; a guerra entre a Argentina e o Brasil, entre 1825-1828; a Revolução Farroupilha (1835-1845); e a aliança entre as províncias argentinas de Entre-Rios e Corrientes com o Brasil e o Uruguai contra o governo de Juan Manuel de Rosas (1852). Como consequência dessa cadeia de eventos, o Estado paraguaio cresceu sob tensão permanente, em proporção direta ao crescente poder de Francia439.

Em 1862, Francisco López teria herdado um país de relações internacionais estabelecidas com os Estados Unidos e outras nações europeias, sua independência havia sido reconhecida pelos seus vizinhos e o país experimentava um alto grau de coesão social. Apesar disso, López teria favorecido uma política militarista nas relações internacionais, visando a aumentar sua influência regional. A política na região do Rio da Prata também estava relacionada, para Izecksohn, à importância da constituição de estados nacionais centralizados na América do Sul, transformações estruturais, “relacionadas aos avanços na centralização e nas mudanças das capacidades de cada um dos Estados levaram a grandes transformações nas relações entre os diferentes governos da região” 440.

Esta realidade comporia assim, um contexto de conflito que, apesar de seu caráter internacional, teria sido parte também de uma Guerra Civil prolongada, especialmente nos casos da Argentina e do Uruguai. Citando o historiador Leslie Bethell, Vitor Izecksohn a descreve como uma guerra civil regional, mas de dimensões internacionais. Ou seja, novamente, a formação e a consolidação nacional, não apenas como um processo interno, mas de alcance regional, continental e mesmo atlântico aparece como base para se compreender as relações entre os países de modo mais amplo. Para Guilherme Mota, a guerra criou a necessidade de uma “reconsideração do tempo e do espaço” diante dos grandes deslocamentos, dos ataques e retiradas, da guerra fluvial,

439 IZECKSOHN, Vitor. O Processo de Formação dos Estados (...), p. 97. 440 Idem., Ibidem., p. 100.

182 reforçando a ideia de Estado-Nação que “abre caminho para uma nova concepção das forças armadas na vida nacional”441.

É claro que os conflitos aqui referidos tiveram motivações completamente distintos entre si. Os antecedentes da Guerra Civil norte-americana estavam ligados às históricas disputas seccionais internas ao país, em torno de diferentes projetos de organização nacional, interesses políticos e econômicos entre elites do Norte e do Sul. Por sua vez, a Guerra do Paraguai foi um conflito entre diferentes Estados nacionais, que se relacionavam muito intensamente como países fronteiriços formados a partir de uma mesma unidade colonial. As questões que levaram à guerra foram resultado de conflitos relativos a composição de poderes dentro da qual se disputava territórios, fronteiras e rios no período pós independências. O Brasil se inseria neste contexto como maior país no continente sul, que influenciava e interferia e dependia desde contexto regional.

Além disso, Izecksohn afirma, é importante compreender a diferença em relação à centralidade da questão da escravidão em ambos os conflitos. Para os Estados Unidos se tratava de um problema essencial e constitutivo dos diferentes projetos de nação, e, como se viu em capítulo anterior, foi a razão mais profunda subjacente à secessão. Por outro lado, na Guerra do Paraguai a questão escrava não estava em jogo como elemento de dissensão entre os países envolvido, ainda que o Brasil fosse a segunda maior nação escravista no mundo. Não obstante, ambas as guerras tiveram consequências para a escravidão, imediatas ou não.

Não é escopo deste trabalho debater a Guerra do Paraguai e sua extensa historiografia, que é composta não apenas pela produção brasileira, mas também paraguaia, argentina e uruguaia. No entanto, é importante mencionar que desde o fim da Guerra, forjou-se uma historiografia própria e bastante densa do conflito. No Brasil, até meados do século XX prevaleceu uma visão particularmente ligada a uma história militar e nacionalista, na qual a vitória brasileira era narrada como uma demonstração do poderio nacional. Particularmente nos princípios da República, o Exército e seus heróis tinham papel fundamental nessa história que, ao fundo, demonstrava a importância da instituição militar para a constituição nacional. A partir de meados do século, análises fortemente influenciadas por uma visão marxista e econômica sobre o conflito se impuseram, tendo

183 por base o argumento de que o conflito interamericano teria sido forjado a partir de interesses imperialistas britânicos sobre a região.

A partir da década de 1980 começaram a surgir análises que inicialmente buscavam construir uma narrativa sem fundo ideológico, pautadas em extensa documentação oficial e diplomática. Recentemente, novas imagens sobre a Guerra do Paraguai têm sido fundamentais para a construção de uma visão mais ampla de seus atores sociais partícipes, como mulheres, indígenas, e também da “formação do exército brasileiro” e de seu papel “como elemento desestruturador da monarquia e estruturador da república”442.

No continente americano a guerra também foi fundamental para a definição de fronteiras e o estabelecimento efetivo dos Estados criados após as independências443. Em uma resenha sobre diferentes livros publicados sobre a Guerra do Paraguai, João Fábio Bertonha e Renato Moscateli analisam algumas mudanças em seus estudos, afirmando que a década de 1860 teria sido fundamental para a região platina e para o Brasil em termos de configuração nacional e regional.

Os autores afirmam que, ainda que a concepção de que a guerra teria em suas causas elementos nacionais fundamentais, estes “interesses nacionais” não podem ser considerados fora de uma órbita mais ampla e que, nesse sentido, apesar de a teoria sobre o imperialismo britânico ter “caído por terra” nas análises atuais sobre o conflito, é importante considerar o predomínio britânico sobre a região, a “crescente influência dos Estados Unidos (...)” e que, à época, os países latino-americanos estavam se reconfigurando administrativa e politicamente, integrando-se à dinâmica do capitalismo central. Neste sentido, “(...) a consolidação dos espaços territoriais – decidida, por vezes, através da guerra – serviria aos próprios Estados em formação, e também às potências estrangeiras (...)”444.

442 SQUINELO, Ana Paula. Debates historiográficos contemporâneos: a Guerra do Paraguai e suas vias

discursivas. In: Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo & Flávia Florentino Varella (org.).

Caderno de resumos & Anais do 2o. Seminário Nacional de História da Historiografia. A dinâmica do historicismo: tradições historiográficas modernas. Ouro Preto: EdUFOP, 2008. (ISBN: 978-85-288-

0057-9).

443 Para Vitor Izecksoh, a guerra foi elemento fundamental no período pós-independência na região: “por

cerca de sessenta anos após as independências, guerras entre Estados em formação foram um aspecto recorrente da história da bacia do Prata, dando continuidade à belicosidade do período colonial. Esses conflitos alteraram fronteiras, fortalecendo ou enfraquecendo alguns Estados em relação a outros”. IZECKSOHN, Vitor. O Processo de Formação dos Estados (...), p. 90.

444 BERTONHA, João Fábio; MOSCATELI, Renato. Imperialismo ou realpolitik? Uma análise da

184 Francisco Doratioto também ressalta que o que estava em jogo no conflito não eram apenas questões conjunturais específicas do conflito civil no Uruguai, mas que estes representavam forças e interesses “que buscavam impor seu projeto de organização dos Estados Nacionais na Argentina e no Uruguai, com repercussões no Brasil e no Paraguai”445. No mesmo sentido, de compreender a Guerra a partir de uma gama de problemas nacionais, regionais e internacionais, afirma Carlos Guilherme Mota:

Em face de uma somatória de interesses novos, nascidos após o período de consolidação das independências com relação às metrópoles ibéricas dos anos 1820. Inúmeras questões de fronteira, problemas de navegação nos dois grandes rios da região (Paraná e Paraguai), abertura ao comércio exterior, migrações, caudilhismo e coronelismo, regimes escravistas (...) confrontos étnicos e culturais, tudo se misturava nesse meado de século, naquela região446.

Assim, uma das facetas mais importantes na análise das implicações da guerra para o Brasil e para os Estados Unidos no contexto da segunda metade do século XIX é a estreita associação entre a formação de um exército nacional efetivo e o poderio e alcance do Estado nacional. Em seu estudo comparado dos efeitos da Guerra Civil norte- americana e da Guerra do Paraguai, Izecksohn levanta alguns pontos fundamentais para que se compreenda o contexto militar nos dois países. Primeiramente, o autor afirmou o caráter descentralizado, ou uma tradição de descentralização, em relação à composição das forças nos países em análise, que estaria relacionada à organização de milícias, tropas localmente levantadas e um comando militar ligado aos poderios locais447:

(...) problems with mobilizing troops in countries like these, with large territories, scattered populations, and weak central governments, made it difficult to supplant decentralized alternative systems for internal

208, Dec. 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034- 73292000000200011&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 09/09/2017.

445 DORATIOTO, Francisco. O Império do Brasil e a Argentina (1822-1889). Textos de Historia (UnB), v.

16, n. 2, p. 217-247, 2008. Disponível em: http://periodicos.unb.br/index.php/textos/article/view/951/618. Acesso em: 30/08/2016.

446 MOTA, Carlos Guilherme. Op. Cit., p. 249.

447 De acordo com o autor, desde o período das independências, Brasil e Estados Unidos haviam

desenvolvido uma certa desconfiança em relação ao Exército profissional. Em ambos os países o poder central não detinha o poderio de guerra, que estavam então, menos sujeitos à acumulação de poderes coercitivos do que, por exemplo, na Europa. Wilma Peres assinala também neste sentido que ao longo da história do Brasil são encontrados impulsos “centrípetos e centrífugos na construção do Estado nacional”, mas que no Brasil, uma elite homogênea teria facilitado a “criação de um aparelho burocrático (...) capaz de neutralizar os impulsos centrífugos da base econômica-social”.

185 defense and national security, which were already in place and strengthened by tradition448.

Para manter controle sobre os amplos territórios, foi necessário se apoiar nesses poderes, através de alianças com líderes locais, empreendedores, líderes de partidos e elites locais. Estas estruturas sociais e administrativas que haviam limitado a expansão dos Exércitos nacionais no século XIX, ficariam ainda mais claras diante das dificuldades que ambos países encontraram em seus esforços de guerra na década de 1860. Para Izecksohn, a noção de que a formação de grandes organizações militares não era do interesse das elites nem no Brasil nem nos EUA, é algo consensual na historiografia, reafirmando a importância da constituição das instituições militares ao longo das guerras enfrentadas pelas duas nações449.

No caso brasileiro, Wilma Peres associa a relação da formação de tropas irregulares e localizadas a diversos momentos e processos políticos da constituição nacional brasileira desde a Independência. Para a autora a questão da formação do Exército esteve intimamente associada à sua compreensão de que, ao longo do século XIX, não havia um processo inexorável em direção à centralização do Estado, e que este, ao contrário da narrativa construída em torno do processo de centralização, teria sido marcado por uma configuração federalista das elites regionais.

Assim, a autora retoma, por exemplo, a importância do período regencial na conformação de uma estrutura “militar” descentralizada, uma vez que teria sido um período marcado por uma política de “dissolver o exército, fechando o recrutamento, reformando dezenas de oficiais e criando uma força não profissional, a Guarda Nacional”, momento em que as elites expressam “hostilidade ao exército”. O período regencial, marcado por revoltas, conflitos e tendências “até mesmo secessionista”, seria assim, fundamental para se compreender o movimento das décadas posteriores “em direção à construção do Estado e à organização do exército profissional, que se adensam nos anos 40 e 50”450.

448 IZECKSOHN, Vitor. Slavery and war in the Americas (…), p. 10. “(...) problemas com a mobilização

de tropas em países como estes, com amplos territórios, população dispersa, e governos centrais fracos, dificultavam a substituição de sistemas alternativos descentralizados para a defesa interna e segurança nacional, as quais já estavam em voga e eram fortalecidos pela tradição”.

449 IZECKSOHN, Vitor. Resistência ao recrutamento para o exército durante as guerras Civil e do Paraguai:

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