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[...] as decisões que a língua é levada a tomar no decurso de sua história são explicadas pela situação existente em um dado momento, e que, inversamente, o momento que precede essa crise já preparou os meios para resolvê-la, ou, pelo menos, pode ter preparado tais meios (WARTBURG e ULMANN, 1975, p.135).

Segundo Said Ali (1964, p.72), do Latim iste, ista, istud provieram, em Português, as variações pronominais este, esta, esto, mudando-se, com o decorrer do tempo, a última forma para isto. Reforçadas com a anteposição de eccu-, as mesmas formas latinas produziram em nossa língua aqueste, aquesta, aquesto, que deixaram de ser usadas no falar moderno.

Ainda segundo o autor, de ille, illa, illud procederam elle, ella, ello e, com o reforço de eccu-, formaram-se aquelle, aquella, aquello, convertendo-se este último, posteriormente, para aquillo. Já as formas latinas ipse, ipsa, ipsum, originou esse,

essa, esso, passando este último para isso, no Português moderno.

É interessante notar que, segundo Said Ali (1964, p.73, grifo do autor), “o emprego de aquillo, em lugar de aquello, remonta ao século XVI. Mais antiga é a admissão de isto, isso; em Fernão Lopes occorrem já com frequencia estas formas a par de esto, esso”.

Para Wartburg e Ulmann (1975, p.135), aparentemente, o Latim Clássico possuía um sistema harmoniosamente equilibrado de pronomes, em que hic representava o pronome demonstrativo relativo à 1ª. pessoa do discurso, iste, o de 2ª. e ille, o de 3ª. No entanto, ainda segundo Wartburb e Ulmann (1975), para marcar o uso do pronome demonstrativo relativo à 2ª. pessoa na função de determinante, ou seja, em função adjetiva, usava-se o pronome is que, desde o Latim Clássico, passa a ser substituído por hic.

Com o deslocamento de hic, restaram apenas as formas iste e ille, como representantes dos pronomes demonstrativos, configurando-se, assim, um sistema pronominal binário. Diante dessa situação de "transição", a língua passa a ter duas opções: tentar manter, de alguma maneira, a distinção triádica dos demonstrativos ou

"comprar sua tranqüilidade ao preço da renúncia a qualquer diferenciação" (WARTBURG e ULMANN, 1975, p.136).

Devido à tendência que a língua tem a conservar as categorizações (distinções), procurou repor o sistema tripartido entre os demonstrativos e, para isso, recorreu ao “pronome de identidade” ipse, que passou a ocupar o lugar de iste, como podia ser observado no Latim Vulgar. Tal fenômeno acabou comprovando a afirmação de Wartburg e Ulmann (1975, p.135) de que uma situação de “transição” lingüística pode perturbar o equilíbrio do sistema e promover, por si mesmo, uma outra forma que, por sua vez, atrai uma terceira.

É interessante notar, porém, que a forma ipse que surgiu no Latim Vulgar não tinha o mesmo valor que possuía na língua clássica7, posto que, na verdade, constituía um equivalente do antigo iste, às vezes hic.

Dessa forma, de um modo geral, o Latim Vulgar tendeu a desenvolver uma tríplice oposição entre os pronomes demonstrativos, em que iste marcava proximidade da pessoa que fala, ipse, proximidade da pessoa a quem se fala - embora com um sentido menos definido e menos rigorosamente ligado à 2ª pessoa - e ille - fazia referência a uma posição remota.

A esse respeito, Coutinho (2005) afirmava que no Latim Vulgar havia uma confusão no uso dos demonstrativos, sendo freqüente encontrarmos um empregado em lugar do outro. "Desde os tempos de César, o pronome da segunda pessoa iste substitui o da primeira hic, que nos últimos tempos desaparece inteiramente" (COUTINHO, 2005, p. 256).

Câmara Júnior (1975) afirma que, provavelmente, o deslocamento de iste foi determinado pelo abandono do demonstrativo de 1ª pessoa (hic), fazendo com que

iste, demonstrativo de 2ª pessoa, passasse a indicar o de 1ª. O autor defende que

esse deslocamento tenha sido, a princípio, uma extensão de sua área, para opor o eixo falante-ouvinte a tudo que lhe era exterior (ille). Se foi isso o que aconteceu, o antigo sistema ternário acabou sendo restabelecido por meio da restrição de iste para o campo do falante e pela transferência de “ipse para o campo do ouvinte, propiciada pela presença enfática de ipse junto às três pessoas pronominais, especialmente a 2ª." (CÂMARA JÚNIOR, 1975, p. 103).

7

Ipse torna-se um demonstrativo de sentido menos enfático do que na língua clássica, tendendo a

Enquanto grande parte da România Antiga apresenta vestígios desse sistema, desde cedo é possível notar uma tendência no sentido de se conservar um sistema binário entre os demonstrativos, marcando-se apenas a posição de objeto próximo e objeto remoto, em relação ao falante. Portanto, no Latim Vulgar existiam dois demonstrativos de sentido mais definido e persistente - iste e ille – e, um terceiro, que ocupava uma posição intermediária entre os dois, de "vitalidade mais limitada e, talvez, de sentido um pouco mais vago: ipse" (MAURER, 1959, p.110).

Assim, de acordo com Marine (2004, p.76), podemos descrever as variações sofridas pelo sistema dos pronomes demonstrativos do Latim Clássico (LC)8 ao Vulgar (LV) por meio do seguinte esquema:

Ille (3ª p.) Ille (3ª p.)

Hic (1ª p.) Iste (2ª p.) 1ª p. ... Iste... 2ª p.

Ille (3ª p.) Iste (1ª p.) Ipse9 (2ª p.) Ille (3ªp.) 1ª p. ... Iste ... 2ª p.

Esquema 2. Evolução dos pronomes demonstrativos do Latim Clássico ao Vulgar

8 Considerando-o a partir do seu comportamento triádico.

9 Marcando um sentido menos definido em comparação à relação iste vs. ille.

LC LC

LV

Esta quarta etapa, apresentada por Marine (2004, p.76), representa a hipótese da autora segundo a qual, se o ipse marca um sentido menos definido em comparação à relação iste vs. ille presente no Latim Clássico, na verdade, a real oposição entre os demonstrativos no Latim Vulgar era, provavelmente, iste vs. ille.

Assim, a forma iste no Latim Clássico provavelmente já estava perdendo seu valor referencial relativo à segunda pessoa, o que a teria levado a assumir o lugar de 1ª. pessoa no Latim Vulgar, ficando ipse para as referenciações de 2ª. pessoa. Essa possível tentativa de resgatar o sistema ternário não teria se consolidado, de acordo com a hipótese de Marine (2004), pelo fato de ipse marcar um sentido menos definido em comparação a iste vs. ille. Logo, o verdadeiro uso dos pronomes demonstrativos em Latim Vulgar era iste vs. ille, originado de uma variação do sistema pronominal terciário do Latim Clássico que, no uso, mostrava-se binário.

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