CHAPITRE 2 : RÉSULTATS
2 Analyse du déroulement des séances
BTVS é uma série que tem no distanciamento e na incompreensão geracional uma
de suas principais temáticas, abordando-as sob diferentes ângulos. O isolamento dos jovens em relação ao mundo adulto é ainda mais visível quando se trata daqueles adultos mais próximos aos adolescentes, os seus pais. Em BTVS, a única presença parental real é Joyce Summers, mãe da protagonista Buffy.
No começo da série, Joyce é recém divorciada e resolve mudar-se de Los Angeles para Sunnydale devido às confusões em que a filha se envolvia. Durante a 1ª e 2ª temporadas, ela não sabe sobre o status de caçadora de Buffy236 e frequentemente vê a
filha como uma adolescente problemática. A mãe se esforça para racionalizar e, de certo modo, ignorar diversos acontecimentos que envolvem a vida da filha. Buffy justifica a ilusão da mãe dizendo que ela se especializou em desenvolver uma memória seletiva sobre os acontecimentos ao seu redor. Embora a narrativa deixe clara a afeição, a ligação e mesmo a semelhança entre as duas, o impedimento de contar a verdade a Joyce forma
236 Buffy não pode contar sobre sua identidade secreta aos outros, supostamente para não os colocar em
perigo, embora não fique exatamente claro o porquê de tal regra, uma vez que os amigos de Buffy sabem de suas habilidades. O público é convidado a aceitar tal norma como um fato consumado, como na vida de qualquer outro super-herói.
uma barreira intransponível entre mãe e filha (BOLTE, 2008; WEE, 2008). Por mais que Joyce pergunte e tente entender as causas da angústia de Buffy, o que lhe resta é teorizar sobre problemas "normais da adolescência". Ela cobra da menina mais disciplina e responsabilidade, questiona se ela não pensa em mais nada além de "roupas e garotos" ou, em outra ocasião, diz a Buffy que o mundo não vai acabar se ela não for a uma festa. Enquanto isso, tanto Buffy quanto a audiência sabem que há um perigo real de o mundo acabar caso ela seja impedida de agir – e também sabem que seus problemas e preocupações, assim como responsabilidades, vão muito além de roupas e rapazes.
A situação torna-se insustentável entre ambas e culmina com a revelação da verdade à Joyce e o consequente confronto entre mãe e filha, deixando clara a incompreensão mútua. No último episódio da 2ª temporada, Buffy é procurada pela polícia por um assassinato que não cometeu. Ao ver a filha cravar uma estaca no coração de um vampiro que se transforma em pó, e sem mais possibilidades de se enganar, Joyce afinal pergunta o que está acontecendo. Buffy tem pouco tempo para explicações: ela conta à mãe que é uma caçadora de vampiros e fica aborrecida quando Joyce dá a entender que acredita que a filha havia mesmo cometido tal assassinato. Joyce, por sua vez, tem dificuldades de compreender o que ouve e se recusa a aceitar o que a filha está dizendo a ela. A discussão entre as duas intensifica-se e Joyce quer chamar a polícia.
BUFFY: A polícia não pode lutar contra demônios. Eu tenho que fazer isso. JOYCE: Fazer o quê? Buffy, o que está acontecendo?
BUFFY: [Não querendo lidar com a mãe, e dando as costas para ela] Tome outro drink.
JOYCE: [Joga seu copo no chão e levanta a voz] Não fale assim comigo! Você não pode jogar essa informação em mim e fingir que não é nada.
BUFFY: Sinto muito, mãe, mas não tenho tempo para isso.
JOYCE: Não! Estou cansada de 'não tenho tempo', ou...ou 'você não entenderia'. Eu sou sua mãe, e você vai fazer tempo para se explicar.
BUFFY: Eu já disse. Sou uma caça-vampiros. JOYCE: Bem, eu não aceito isso!
BUFFY: Abra os olhos, mãe. O que você acha que tem acontecido nos últimos dois anos? As brigas, as ocorrências estranhas. Quantas vezes você limpou sangue das minhas roupas, e ainda não entendeu?
JOYCE: Bem, isso acaba agora!
BUFFY: Não, não acaba! Nunca acaba! Você acha que eu escolhi ser assim? Você faz ideia de como é solitário, perigoso? Eu adoraria estar lá em cima, assistindo TV ou fofocando sobre garotos ou... meu Deus, até estudando! Mas eu tenho que salvar o mundo. De novo.
JOYCE: [Segurando Buffy pelos ombros] Não. Isso é loucura, Buffy, você precisa de ajuda.
BUFFY: [Afastando os braços da mãe] Eu não sou louca! O que eu preciso é que você se acalme. Eu tenho que ir!
JOYCE: Não. Não vou deixar você sair desta casa. BUFFY: Você não pode me impedir.
JOYCE: Posso sim [segurando Buffy].
JOYCE: [Com raiva] Se sair desta casa, nem pense em voltar! [Buffy apenas encara a mãe e vai embora]237.
A cena mostra o grau de incompreensão que a relação entre as duas tomou – obviamente marcado pela situação excepcional que envolve a vida das personagens – mas exemplifica também este distanciamento entre pais e filhos, mostrando a frustração de ambas pela falha de comunicação. Joyce irrita-se pela condescendência de Buffy e busca impor sua autoridade materna, mas é lembrada pela filha o quão frágil é tal autoridade, afinal, incontáveis vezes Joyce preferiu acreditar na ficção que havia construído sobre a vida adolescente da filha, apesar dos claros sinais que ela, como mãe, poderia ter percebido. Como Buffy fala, havia pistas inconfundíveis de alguma situação extraordinária.
Esta mesma problemática de distanciamento aparece com força em PLL, com os pais cronicamente alienados dos perigos reais nas vidas das filhas238, o que contrasta com
o quanto a unidade familiar é explorada nesta série. Chega a ser risível a dificuldade desses pais e mães em perceber a constante intimidação e o assédio a que suas filhas são submetidas, mesmo com os vários sinais presentes: cartas anônimas chegam aos pais expondo a vida das garotas, o constante envolvimento e assédio policial, o aumento do número de mortos ao redor, entre outros problemas de gravidade crescente. Ainda assim, apenas no final da 5ª temporada, após as quatro meninas terem sido raptadas, Alison finalmente revela a existência de um novo –A aos pais de Spencer e eles aceitam (relutantemente) a realidade. A mãe da menina culpa-se por novamente não ter percebido o que acontecia, mas é rapidamente desculpada por Toby. Ele faz os pais de Alison lembrarem que “Fazê-las manter segredos de vocês é o que –A faz melhor” 239.
Veronica, mãe de Spencer, nega que o cotidiano da filha possa apresentar perigos, tratando a ameaça como uma exceção. Ela diz: “Por que iria começar tudo de novo? Não faz o menor sentido. Mona estava doente, por isso ela queria machucar as meninas”. Em realidade, durante as cinco temporadas, pressão, assédio e risco fazem parte do dia a dia da garota, o que também mostra a dificuldade dos pais em reconhecer os perigos na vida dos filhos (OWEN, 1999). Os problemas dos adolescentes são frequentemente tratados como desimportantes ou menores frente aos problemas do mundo adulto, revelando outra
237 Becoming - part 2, 2x22.
238 Embora nos teen dramas os perigos enfrentados pelos jovens tomem diversas formas, PLL e BTVS são
os dois únicos em nossa análise cujos jovens passam por constantes perigos de vida.
faceta da incompreensão entre gerações e efetivando o distanciamento entre pais e filhos/as.
Em PLL e BTVS a separação entre adolescentes e adultos é bem delimitada, eles pertencem a mundos diferentes. Em BTVS tal cisão é mostrada claramente: o mundo de Buffy e seus amigos, o mundo dos jovens, é coabitado por monstros e demônios – na rua, na noite, no escuro. Adultos podem tentar monitorá-la, porém eles não podem jamais compreender ou ajudar, pois isto está fora de sua alçada (RICHARDS, 2004). Ainda que as situações em PLL e BTVS sejam extremadas, elas são representativas do afastamento social dos adolescentes em relação especialmente ao universo adulto, o que está presente em todas as outras séries. Não é somente a ignorância de certos assuntos que separa filhos e pais, mas uma concreta incapacidade ou inutilidade dos pais frente aos problemas dos filhos, o que agrava tal distância (WEE, 2008).
A falha das famílias em orientar, proteger e apoiar seus filhos reforça nos seriados a unidade de grupo e a identificação os jovens. Eles podem, portanto, contar apenas uns com os outros para enfrentar seus problemas. Em DC, Joey e sua irmã são bastante próximas, e Bessie frequentemente dá conselhos amorosos à garota, no entanto, quanto às questões mais complicadas, Joey nunca recorre à irmã (que é sua guardiã legal), mas sim a Dawson ou a Pacey240. Em BH90210, quando Donna é barrada da formatura por ter
sido pega alcoolizada no baile da escola, sua mãe se recusa a ajudá-la, mas seus amigos organizam um protesto contra as regras injustas da diretoria e conseguem reverter a sentença.
Conforme mencionamos, Glee não tem grande foco no cotidiano familiar, porém isto não significa que as unidades familiares sejam irrelevantes na série, ou que os jovens não sejam regulados também por elas, mas ajuda na caracterização da adolescência como uma fase desconectada do mundo dos adultos. Mesmo que as dinâmicas familiares não sejam mostradas com frequência, na fala dos jovens percebe-se o desconhecimento que os pais têm sobre a vida dos filhos. Os problemas vividos pelos adolescentes em Glee são primeiramente resolvidos entre o grupo nuclear e posteriormente levados à família, tanto para resultar no apoio quanto no repúdio por parte desta. Quando as circunstâncias obrigam Santana a “sair do armário”, é a aceitação e a ajuda do grupo de amigos que lhe dá coragem para contar a verdade a seus pais. Ao final eles mostram não ter problema
240 Quando o pai de Joey recebe liberdade condicional, mas volta a traficar drogas, o que resulta num
incêndio criminoso na lanchonete da família, é com a ajuda de Dawson que Joey toma a decisão de denunciá-lo para polícia.
com a identidade da filha, muito embora a garota seja condenada veementemente pela avó.
Observando as séries como representativas de um gênero, percebe-se que não há uma conexão específica entre o isolamento dos adolescentes de suas famílias com a desintegração familiar da pós-modernidade. Tal isolamento é frequentemente um estado, senão inerente, tratado como comum a essa fase da vida, e que não se dá apenas entre pais e filhos, mas sim entre o mundo jovem e o mundo adulto. A exceção acontece em programas que apresentam uma política de representação social mais conservadora, como
BH90210, em que não há um afastamento entre os jovens e adultos, mas sim um
desconhecimento da vida dos adolescentes pelos pais, fruto da derrocada da unidade familiar tradicional. Os Walsh241, a família modelo deste seriado, não são os únicos que
mantêm uma unidade familiar clássica, porém eles representam valores tradicionais da classe média americana e contrastam com aqueles representados como pertencentes à classe alta (ROCKIER, 1999). Assim, os problemas com os quais os gêmeos Walsh se envolvem são, em geral, resultado do confronto entre o mundo moralmente superior da classe média tradicional com a permissividade e a falta de regras da classe alta californiana. Assim, servem como uma advertência aos perigos da corrupção de valores. Em resumo, o distanciamento do adolescente do resto da família, em especial de seus pais, é uma característica de absoluto destaque nos teen dramas. Em alguns dos seriados analisados, a separação é tão saliente que pais e filhos pertencem (metaforicamente) a sociedades diferentes. Esta distância, porém, não é unilateral, mas fruto de uma incompreensão geracional de ambos os lados e apresentada como inerente ao estágio da adolescência. Tal questão é menos desenvolvida (embora não totalmente ausente) em BH90210, cujas problemáticas familiares giram em torno da próxima característica que analisaremos nas séries teen: a desestruturação familiar.