• Aucun résultat trouvé

CHAPITRE B1. ANALYSE DES PROGRAMMES VIETNAMIEN ET FRANÇAIS

III. ANALYSE COMPAREE DES PROGRAMMES VIETNAMIENS ET FRANÇAIS

627

Embora, e claro está, não deva esperar-se das narrativas medievais o tipo de coerência e linearidade psicológica das personagens que, muito mais tarde (e notoriamente durante o século XIX e o que dele sobreviveu no século XX), seria uma das características mais comuns nas narrativas de largo fôlego. 628

Tanto isto é assim, que mesmo na cena da repreensão do Rei, o cronista omitiu o facto de o prior de Santa Cruz ter ajudado e mantido os moçárabes libertos que decidiram permanecer em Coimbra, bem como a afirmação de que nunca antes tinha Teotónio saído do mosteiro.

178

Denotando especial atenção ao resgate das relíquias de S. Vicente do Algarve para Lisboa, a C1419 dedica alguns trechos a esse assunto baseada, em boa medida, nos

Miracula Vicentii (MV), texto redigido por Mestre Estevão, chantre da Sé de Lisboa,

por volta de 1180629.

Estruturam-se os MV de forma simples: primeiro, um breve relato sobre a ida das relíquias do Santo de Valência para o Algarve e daí para Lisboa por ordem de D. Afonso Henriques; depois, e de forma bem mais extensa, um conjunto de milagres atribuídos ao Santo, incluindo, nos primeiros deles, a forma como as relíquias foram parar à Sé desta cidade (narrativa claramente feita com o propósito de defender a Catedral contra as reivindicações do Mosteiro de S. Vicente).

A C1419 reteve praticamente na íntegra o relato da trasladação das relíquias, mas, e em contrapartida, aproveitou apenas os primeiros dois milagres relatados pelo texto latino. Mantendo-se globalmente fiel à letra dos trechos seleccionados, o redactor quatrocentista procedeu, todavia, a algumas importantes modificações, sobretudo no que concerne à primeira tentativa de resgate das relíquias por parte de D. Afonso Henriques630.

Assim, os MV, após um exórdio dedicado a enaltecer a acção piedosa do Rei e expor os objectivos do texto, começam por contar rapidamente a forma como as relíquias de Vicente vieram parar ao Algarve e foram aí, durante algum tempo, servidas por religiosos que lhes organizavam e garantiam o culto. Esse exórdio foi totalmente rejeitado pelo redactor do século XV, talvez devido à incompatibilidade dele com as regras próprias do discurso cronístico (a mesma razão terá determinado, como vimos, a rejeição das partes iniciais do De Expugnatione Scalabis e do Carmen Gosuini), e o mesmo sucedeu com as informações sobre o percurso das relíquias do Santo de Valência para o Algarve, pois elas coincidem com o que diziam outras fontes da C1419, designadamente as «estorias dos araviguos631» [Crónica do Mouro Rasis, directamente ou via C1344632] e a «crónica de Santo Isydro633».

629

Sobrevivem num manuscrito originário do mosteiro de Alcobaça e actualmente à guarda da BN com a cota Alc. 420. Subsiste ainda uma outra colectânea de milagres de Vicente, parcialmente idêntica à primeira e redigida em data anterior a 1248. Para tudo isto, NASCIMENTO (1993b) e DIAS (2003). 630

DIAS (2001) procedeu já a uma análise comparativa do texto dos MV e da C1419 cujas conclusões me parecem inteiramente de reter, e por isso coincidem com muito do que aqui direi. Apenas a sua ideia de que as especificidades da C1419 são «certamente atribuíveis à ou às fontes intermédias utilizadas pelo seu autor» [DIAS, 2001, p. 242] me suscita reservas, pelas razões expostas no início do capítulo anterior, dedicado às relações entre a C1419 e a Vita Teothonii.

631

CALADO, ed. (1998), p. 26. 632

Veja-se, adiante, o capítulo 2.4.2. É muito interessante a sugestão de DIAS (2001 e 2003, pp. 118- 119), segundo a qual os MV podem ter conhecido o texto árabe original do Rasis.

179

Após isso, contam os MV, sem especificações cronológicas, uma primeira tentativa de D. Afonso Henriques resgatar as relíquias do Santo do Algarve para Braga ou Coimbra, mal sucedida por vontade do próprio Vicente, que, segundo pensava o Rei, queria repousar em Lisboa, então ainda em mãos muçulmanas. É uma acção que nos surge desgarrada de qualquer causa ou motivação:

«[D. Afonso] dirigiu-se ao local antes nomeado, armado com a força tanto da fé como de soldados, com o intuito de trazer consigo de lá o corpo santíssimo. Mas a piedosa devoção do rei foi anulada não tanto pela falta de cuidado ou pelo trabalho menos constante, como pela vontade do próprio mártir. Deve nisto salientar-se o juízo do próprio rei, que disse que o santo mártir não se queria deixar encontrar pelo rei, porque era do seu agrado ser antes venerado pelo povo de Lisboa, quando a intenção do rei, se o descobrisse, era estabelecê-lo em Braga ou Coimbra.634»

Essas só viriam depois. Efectivamente, segundo o texto, pela mesma altura em que se dava esta tentativa falhada, o Rei teria resgatado «da escravidão dos infiéis para terras cristãs635» numerosos moçárabes, entre os quais vinham dois religiosos de crescida idade que tinham servido o culto das relíquias de Vicente e foram prestando informações acerca da sua localização. Foram estas informações que provocaram, «passado algum tempo636» (continua, como se vê, a imprecisão cronológica) uma segunda tentativa de resgate, protagonizada não directamente pelo rei, mas por «alguns, de ânimo corajoso e guiados pelo espírito divino637». Favorecida por umas tréguas entretanto celebradas entre o rei português e os chefes árabes, e certamente ocorrida já depois da conquista de Lisboa, foi, ao contrário da primeira, uma inciciativa coroada de êxito.

A C1419 aceitou estes desenvolvimentos, mas clarificou e racionalizou a narrativa, sendo essa uma preocupação que, conforme temos observado, o seu texto frequentemente patenteia. Como se viu no capítulo anterior, também a Vita Theotonii aludia a um momento em que o Rei trouxera consigo, no rescaldo de operações 633

CALADO, ed. (1998), p. 26. Trata-se de um texto de difícil, senão impossível, caracterização, mas registe-se, em todo o caso, as ponderações de DIAS (2003), pp. 203-204. Quiçá tenham contribuído para as escolhas do redactor quatrocentista a antiguidade (no caso da crónica de S. Isidoro) e a proveniência árabe (no caso das «estórias dos aráviguos») das suas fontes, enquanto elementos potencialmente mais credibilizadores do relato. No que respeita às «estórias dos aráviguos», a origem árabe não seria relevante por si, mas porque os acontecimentos narrados se desenrolaram em território então ainda sob domínio muçulmano.

634

Tradução de Santos Alves in BRANDÃO (1974), p. 183. 635 BRANDÃO (1974), p. 183. 636 BRANDÃO (1974), p. 183. 637 BRANDÃO (1974), p. 183.

180

militares, um conjunto de moçárabes638, embora não fornecesse indicações cronológicas precisas. O redactor quatrocentista aproveitou para identificar esse momento com a batalha de Ourique e, misturando o texto oriundo da Vita com o texto oriundo dos

Miracula, transformou os dois homens de grande idade em dois dos moçárabes que, a

rogo de Teotónio, teriam sido libertados pelo Rei. Conseguiu, assim, situar cronologicamente o episódio, ao mesmo tempo que o enquadrava num conjunto de relações de causalidade639. Com efeito, a primeira tentativa de resgate do Santo, que nos MV resultam de uma decisão algo caprichosa (ou pelo menos mal explicada) do Rei num momento indeterminado, é aqui situada de forma mais precisa no tempo (após Ourique) e tem como motivação explícita a informação prestada pelos dois anciãos:

«[...] mandou.os soltar e livrar do cativeyro. E amtre estes moçaraves vinhom dous que erom homens de grande idade e d.estremada vida, os quaes contarom a el.rey como estiverom no cabo da terra que departe o mar Oçeano donde se começa ho mar Mediteraneo, e que naquele lugar jazia o corpo do marter Sam Viçemte, ao qual eles virom fazer muytos milagres. E, quando el.rey dom Afonso esto ouvyo, foy movido com bõo desejo d.aver aquele corpo santo em sua terra. [C1419, p. 25]»

A lógica temática levou, porém, o redactor a interromper aqui a narração desse feito, introduzindo uma analepse centrada no martírio de Vicente e ida das suas relíquias de Aragão para o Cabo S. Vicente:

«E ora leyxemos aquy de falar desto, qua depois o contaremos no lugar que pertençe à estoria, e tornemos a dizer como Sam Vicente foy marteryzado e deshy como foy gardado dos christãos e os milagres que Deos por ele fez, em soma, e qual hocasyom o fez vir ao cabo de Sam Viçente e per a guisa que foy buscado por el.rey dom Afonso Anriquez [C1419, p. 25]»

Analepse que, embora pareça à primeira vista inusitada, terá boas motivações640 de ordem narrativa (contar a forma como as relíquias foram parar ao Algarve), co-textual (estratégia de enaltecimento da cidade de Lisboa visível ao longo da Crónica) e contextual (especial devoção da dinastia de Avis em particular, e da monarquia

638

Diga-se a propósito que esta coincidência estará indicando a possível historicidade do facto, cujas circunstâncias serão todavia impossíveis de precisar (e veja-se que a Vita tem captura de moçárabes onde os MV falam em resgate de moçárabes).

639

Para além de ser uma constante no trabalho do redactor do século XV, este tipo de operações deverá também, obviamente, relacionar-se com as convenções e exigências do discurso historiográfico. Como diz I. Dias, «a criação de nexos historicamente lógicos é uma exigência do discurso da historiografia, mas não do da hagiografia» [DIAS, 2001, p. 243].

640

Segundo digo no capítulo dedicado a uma das presumíveis fontes para esta analepse, a Crónica do

181

portuguesa em geral, por S. Vicente). Uma vez fechada a analepse, retomou a Crónica o relato da primeira tentativa de resgate das relíquias: «Camdo el.rey ouvira falar daqueles homens e como deziam que estiverom aly com ho corpo de mártir Sam Viçente, teve conselho com os seus em que guysa o poderião aver, [etc.] [C1419, p. 27]». A única diferença merecedora de reparo é que a razão para o malogro da empresa é aqui identificada não apenas com a vontade de Vicente, mas também – e sobretudo – com a vontade de Deus, que é, aliás, um verdadeiro leit-motiv do texto641:

«nunca pôde ser achado porque Deos tinha ordenado que o jaziguo do mártir Sam

Viçente fose em Lixboa ali onde oje jaz. E ela entom era de mouros e por aquelo prougue a Deos e ao marter de não ser achado por el.rey. E, quando el.rey vio que

não podia achar o corpo do marter, por muyto que lhe pesase confortou.se tendo

que Deos o gardava pêra algũa outra milhor cousa. [C1419, p. 27]»

A segunda, e bem-sucedida, tentativa de resgate das relíquias foi integral e fielmente transposta para a Crónica, embora o seu redactor não tenha optado por contá- la na sequência da primeira, como o dos MV, mas sim com muitos capítulos de permeio642. Tratar-se-á de uma divergênca facilmente entendível no quadro das diferentes convenções discursivas por que se regem ambos os textos (hagiográficos num caso, historiográficos noutro), pois a opção do redactor do século XV explica-se pelo recurso à ordenação cronológica das matérias. Contudo, e uma vez que os MV se limitavam a dizer que essa segunda tentativa decorrera passado algum tempo da primeira, o cronista teve de se socorrer de outros meios para situar o episódio no tempo. Ora, reparando no final do capítulo 37, lemos aí que «mandou el.rey esprever ho tempo e a era em que o corpo do martere Sam Viçente foy trazido a Lixboa e acharom que fora aos xb dias de Setembro da sobredita era de mil iic xi anos [C1419, p. 66]», expressão que lembra uma outra, surgida após a narração do breve episódio em que o Cardeal Romano se justifica perante o Papa643: «E a carta que lhe.enviou ho seu escudeiro mandou [o Rei] a seu esprivão que a pusese no livro das estorias [C1419, p. 32]». Parece, assim, ter existido uma espécie de recolha documental ou livro de apontamentos ficcionalmente atribuído à iniciativa do próprio Rei e porventura destinado a credibilizar

641

Segundo vimos, por exemplo, no tratamento do Carmen Gosuini ou do Relato da Fundação do

Mosteiro de S. Vicente. 642

A primeira tentativa de resgate das relíquias localiza-se no capítulo 16, e a segunda só vem no capítulo 36.

643

182

uma série de acontecimentos relacionados com a época de Afonso I644. A ele terá recorrido o autor da C1419 para inserir a trasladação de Vicente no seu texto, localizando-a, de acordo com a cronologia, após a menagem prestada pelos concelhos ao Infante herdeiro D. Sancho («era de mill e duzentos e oyto anos, em dia da Assumção de Samta Maria645») e antes do fossado dirigido às profundezas da Andaluzia sob comando do mesmo Infante («na era de mil iic xi anos646»).

A narração do episódio propriamente dita baseou-se, contudo, exclusivamente nos MV647. O cronista copiou/traduziu daí, com efeito, a viagem marítima de que resultaria a recolha do corpo de S. Vicente (incluindo a cegueira de um dos seus participantes, por ter furtado um osso do Santo), bem como a razão pela qual elas foram depositadas na Sé de Lisboa (iniciativa do Deão Roberto, posteriormente caucionada pelo Rei) e uma nova viagem, sugerida por D. Afonso Henriques e destinada a verificar «se ficara hy [Algarve] algũa cousa dele [de S. Vicente]648», ocupando com tudo isto os capítulos 36 e 37. A cegueira do tripulante e as circunstâncias da deposição das relíquias na Catedral são os primeiros milagres narrados por MV, mas nenhuns dos restantes, geralmente relacionados com o culto organizado pela Sé, foram aproveitados. Verifica-se, pois, que o redactor quatrocentista estaria especialmente interessado nas acções do Rei e na trasladção do Santo para Lisboa, e não propriamente na propaganda desta ou daquela instituição religiosa649. Assim se compreenderá que aquilo que nos MV funciona como uma espécie de preâmbulo histórico destinado a contextualizar o culto das relíquias adquira na C1419 uma personalidade própria, enquanto episódio do reinado de D. Afonso I.