Etape 2. La phase de consolidation du projet
6. Analyse comparative
A observação das condições de produção para a análise discursiva é proposta por M. Pêcheux desde o início dos trabalhos em Análise de Discurso, em 1969 (PECHÊUX, 1997a). Por condições de produção compreende-se, nesta perspectiva teórica, os sujeitos, a memória discursiva, enquanto interdiscurso, e o contexto (imediato e amplo) relacionados à prática discursiva analisada. Como afirma Orlandi (2001, p. 30):
Os dizeres não são, como dissemos, apenas mensagens a serem decodificadas. São efeitos de sentidos que são produzidos em condições determinadas e que estão de alguma forma presentes no modo como se diz, deixando vestígios que o analista de discurso tem de apreender. São pistas que ele aprende a seguir para compreender os sentidos aí produzidos, pondo em relação o dizer com sua exterioridade, suas condições de produção. Esses sentidos têm a ver com o que é dito ali mas também em outros lugares, assim como com o que não é dito, e com o que poderia ser dito e não foi.
Ao tratar do contexto nas condições de produção do discurso, Orlandi (2001) promove a distinção entre a situação imediata e a situação ampla em que se produzem os discursos, com a diferenciação entre as circunstâncias de enunciação e o contexto sócio- histórico e ideológico. As circunstâncias de enunciação colocam as relações entre os
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Os conceitos teóricos que compõem o dispositivo analítico deste trabalho serão apresentados mais detalhadamente nas seções dedicadas às análises do corpus discursivo, de forma a trabalhar cada conceito a partir de seu funcionamento no material de análise e de sua contribuição para a compreensão do processo discursivo em questão.
sujeitos e o momento do dizer, o local e o tempo em que ocorre o dizer, enquanto o contexto sócio-histórico e ideológico contempla o momento histórico do dizer, as questões sociais e as posições sustentadas pelos sujeitos.
No processo discursivo, no entanto, circunstâncias de enunciação e contexto sócio-história e ideológico funcionam conjuntamente, ao lado da memória enquanto interdiscurso. Segundo Orlandi (2006, p. 21), a memória como interdiscurso consiste no saber discursivo, e o sujeito, por sua vez, é considerado enquanto uma posição sujeito discursiva, a posição social no discurso e não o seu lugar de dizer.
Para a compreensão do acontecimento discursivo da televisão no Brasil, desta forma, faz-se necessário lançar um olhar sobre as condições de produção do discurso da imprensa, no final de década de 1940 e começo da década de 1950, o que leva necessariamente a pensar o Brasil em 1950. Como um acontecimento histórico, a televisão é conseqüência de decisões políticas e econômicas, um produto da organização sócio- histórica brasileira no período pós-guerra.
Os primeiros anúncios de instalação da TV no país, que constituem o acontecimento discursivo marcado pela expressão “televisão no Brasil” (abordado mais detalhadamente na próxima seção), datam de 1948, época que se caracteriza pela reconstrução dos países europeus após o final da Segunda Guerra Mundial e pelo surgimento dos Estados Unidos como potência econômica. Em análise sobre o cenário econômico norte-americano neste período, Pedro (1985) relata que, após o conflito mundial, os Estados Unidos destinam os recursos antes direcionados à fabricação de material bélico para a produção de bens de consumo, o que resulta em alterações expressivas nas práticas políticas, sociais e culturais dos norte-americanos.
Politicamente, o final do conflito consolida a divisão entre mundo capitalista e mundo socialista, liderados pelas novas potências Estados Unidos e União Soviética, respectivamente. A divisão, que resultaria nas denominações “primeiro mundo” e “segundo mundo”, marcando ideologicamente a suposta primazia das nações capitalistas sobre as socialistas, resulta na Guerra Fria e em discursos de aversão às práticas vigentes no sistema socialista. Ao acumular capital e apresentar-se como o país mais rico do momento,
superando economicamente as nações européias, os Estados Unidos são tomados como modelo de desenvolvimento pelas nações de tradição agrícola, como o Brasil.
O discurso desenvolvimentista ressoa em toda a América Latina, bem como nos demais países que compunham o chamado “terceiro mundo”, cujas estratégias político- econômicas tinham como parâmetro o sucesso econômico norte-americano. O acesso à televisão no Brasil, bem como aos demais bens de consumo proporcionados pelo desenvolvimento industrial, sustenta-se pelo discurso do desenvolvimento e do progresso, que era uma realidade dos Estados Unidos. Com a televisão, o Brasil poderia, imaginariamente, igualar-se aos Estados Unidos, bem como os brasileiros, aos norte- americanos.
De acordo com os estudos realizados por Singer (1986), historicamente o Brasil vivia, durante a instalação de suas primeiras emissoras de TV, a segunda etapa de seu processo de industrialização, que tem início em 1933 e perdura até 1955. O economista Paul Singer define este período como uma etapa de “transição da industrialização extensiva à constituição da indústria de base” (p. 216), uma medida que visava a priorizar o desenvolvimento do mercado interno, de forma a tornar o país o “menos dependente possível do mercado mundial” (p. 218).
A postura de priorização do mercado interno é uma conseqüência da crise de 1930 e da segunda guerra, que afetaram sobremaneira o mercado brasileiro. Como o país, até aquele momento, tinha uma economia essencialmente agrária e dependia de mercados externos, principalmente o norte-americano e o europeu, para o acesso aos bens manufaturados, o desabastecimento destes mercados em decorrência da recessão e da guerra produziram reflexos no sistema econômico brasileiro. Em conseqüência, o país vivera, de 1928 a 1932, um período de baixa na produção industrial, situação que começa a se reverter.
A partir de 1933, os investimentos brasileiros são centrados nas indústrias de bens de consumo não-duráveis, como o setor têxtil que, segundo Singer (1986), teve um acréscimo em sua produção de 13% ao ano, de 1932 a 1939. Também a ampliação do transporte rodoviário acontece nesta época, impulsionando o acesso aos bens industriais disponíveis nas grandes cidades, sobretudo em São Paulo. O desenvolvimento industrial
brasileiro, no entanto, depende da importação das técnicas e tecnologias disponíveis nos países industrializados. Como afirma Singer (1986, p. 222): “Revela-se desta maneira um aspecto essencial do processo de industrialização de um país retardatário como o Brasil. Este se dá mediante importação de tecnologia, tanto sob a forma de novos produtos como de mudanças de processos”.
Junto aos novos produtos e às mudanças de processos necessários ao desenvolvimento industrial brasileiro, chegam ao país novos hábitos e padrões de comportamento que, a longo prazo, produziriam alterações no modo de vida da população brasileira. O discurso desenvolvimentista se constitui a partir da formação imaginária de país desenvolvido, que tem os Estados Unidos como modelo a ser seguido, ainda que houvesse resistências. A industrialização e o modo de vida urbano, em oposição a um passado rural, ainda vigente na maioria dos países chamados “subdesenvolvidos”, são as características almejadas para alcançar o desenvolvimento. Nos termos de Singer (1986, p. 223):
O estilo de vida urbano é um produto do capitalismo industrial, que se transforma cada vez que novos produtos são lançados no mercado. O automóvel, a televisão, o telefone, a geladeira e centenas de outros produtos caracterizam um padrão de vida que constitui a razão de ser do “desenvolvimento” para a maioria da população. É claro que a importação destes novos produtos tende a crescer na medida em que parcelas crescentes da população são incorporadas à economia capitalista.
Com isso, é necessário importar cada vez mais. Para evitar as perdas de divisas com a importação intensa, investe-se no processo de industrialização, primeiro com recursos estatais e depois com os recursos das multinacionais, sobretudo a partir de 1956, quando tem início o período denominado por Singer (1986) de “a expansão do capital monopolista (multinacional e estatal)”, que vai de 1956 a 1967. “Este período se caracteriza, no plano mundial, pelo término da reconstrução das economias participantes da Segunda Guerra Mundial, pela constituição do Mercado Comum Europeu e pela grande expansão das multinacionais americanas no novo espaço econômico assim criado” (SINGER, 1986, p. 225).
Em suas análises sobre as transformações econômicas no Brasil e as mudanças na sociabilidade, Mello e Novais (1998) afirmam que o período que se inicia em 1945 e segue até 1964, início da ditadura militar no Brasil, caracteriza-se pela “instalação de setores tecnologicamente mais avançados” no país e pelas “migrações internas e a urbanização” em ritmo acelerado. Em conseqüência, a imagem do país é associada a de uma “nação moderna”, que em alguns anos seria alçada à condição de país de “primeiro mundo”. Nos termos dos autores: “... entre 1950 e 1979, a sensação dos brasileiros, ou de grande parte dos brasileiros, era a de que faltava dar uns poucos passos para finalmente nos tornarmos uma nação moderna.” E prosseguem: “De 1967 em diante, a visão de progresso vai assumindo a nova forma de uma crença na modernização, isto é, de nosso acesso iminente ao ‘Primeiro Mundo’” (MELLO; NOVAIS, 1998, p. 560).
Na política interna, a segunda metade da década de 1940 assiste ao final do Estado Novo e ao início de um período democrático, com a presidência do general Dutra (1946-1951) e, posteriormente, com o retorno de Getúlio Vargas ao poder, desta vez eleito pelo voto popular. A abertura política, com o fim da ditadura de Vargas, aliada ao fim da guerra, favorecem a retomada das importações e, logo em seguida, o desenvolvimento industrial brasileiro. O ponto máximo deste projeto desenvolvimentista do país dar-se-ia com a eleição de Juscelino Kubitschek, e o seu lema “Cinquenta anos de progresso em cinco de governo”.
O otimismo na economia, desta forma, estende-se ao plano político, de valorização da democracia. Na década de 1940, são realizadas as primeiras eleições presidenciais após a ditadura Vargas e o país assiste à promulgação de uma Constituição, em 1946, que, segundo Saretta (2002, p. 100), buscava “criar e recriar as instituições políticas adequadas à vida democrática”. Apesar disso, politicamente o Estado brasileiro permanecia centralizador, buscando combinar os interesses públicos aos interesses privados da sociedade urbana em expansão.
Com a abertura ao capital estrangeiro e a permissão para a instalação de multinacionais no país, o governo JK promove alterações expressivas na organização social brasileira, ao possibilitar a formação de uma elite consumidora e priorizar a constituição de uma imagem de integração do país, impulsionada pela construção de Brasília e a mudança
da capital para a região Centro-oeste (Cf.: COSTA; MELLO, 1992). De fato, a aquisição de aparelhos receptores de TV no Brasil, bem como o acesso a diversos outros bens industrializados são viabilizados a partir da segunda metade da década de 1950, com o programa de aceleração de crescimento implantado no país. No entanto, o discurso do aparecimento da televisão no Brasil já apresenta a TV como símbolo do desenvolvimento e do progresso do país, desde antes da sua efetiva instalação nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
O discurso sobre a televisão no período de sua inauguração no Brasil funciona atrelado ao discurso do desenvolvimento capitalista e da transformação brasileira em um país moderno, discurso este que é assumido pela imprensa de então e, de forma especial, pelas publicações de propriedade dos Diários e Emissoras Associados, em sua campanha pró-TV. A televisão combina, assim, os interesses do Estado brasileiro, de promover o desenvolvimento industrial e a modernização do país, a exemplo dos Estados Unidos, e as perspectivas empresariais do grupo em particular, primeira cadeia de comunicação em funcionamento no país. O possibilitar a existência da televisão no Brasil promove o fortalecimento do discurso sobre a modernização e o desenvolvimento brasileiros, e a aproximação do país aos padrões de produção e consumo dos países desenvolvidos.
Além das questões históricas e sociais que possibilitam a análise das situações amplas das condições de produção do discurso da imprensa sobre a televisão, as questões imediatas relativas à formulação discursiva e os sujeitos do discurso devem ser considerados para as análises aqui desenvolvidas. Tais questões são contempladas na próxima seção, que trata da constituição do corpus discursivo, e apresenta as características das publicações analisadas.