Rohden inicia sua obra ‘‘O Sermão da Montanha’’ com o título acima, correspondente ao v. 3, cap. 5, do Evangelho de Mateus.
A Bíblia de Jerusalém (2010, p. 1710) inicia o Capítulo 5 com o elencar das chamadas bem-aventuranças:
“Vendo ele as multidões, subiu à montanha. Ao sentar-se, aproximaram-se dele seus discípulos. E pôs-se a falar e os ensinava, dizendo: Felizes os pobres no espírito porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,1-3).
Neste versículo 3, conotamos a diferença: Rohden fala em “pobres pelo espírito” e, na Bíblia de Jerusalém e Konings (2005, p. 31), está “pobres no espírito”.
Na Bíblia Sagrada, o Velho e o Novo Testamento, tradução de João Ferreira de Almeida (1969, p. 8 e p. 9), está: “Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3).
Konings (2005, p. 31) escreve: “Felizes os pobres no espírito porque deles é o reino dos Céus”.
Segundo Rohden (2008, p. 19), o Nazareno não pode ter falado em “pobres de espírito” mas, sim, em “pobres pelo espírito”, pois é incompatível que sendo [...]”o próprio Nazareno, riquíssimo de espírito, não faria parte dos bem-aventurados e possuidores do reino dos céus” (p. 19), portanto ao aceitar a tradução “pobres de espírito”, estar-se-ia aceitando a pobreza da inteligência, da compreensão, da pouca percepção intelectual da pessoa, não teria sido esta a mensagem do Nazareno.
Os pobres e desapegados dos bens materiais são bem-aventurados não por causas externas compulsórias, mas pela livre escolha espiritual (p. 20). Os que assim escolheram, o fizeram por amor aos bens espirituais, e que, para acumular bens espirituais, há de ser por “uma grande iluminação interna” (p. 20). Observamos que Rohden trabalha mais na área da iluminação interior, não referindo-se ao pobre material, como se estivesse esquecido das bênçãos de Deus. Evidente que estes pobres materialmente falando são vistos e amados por Deus, mas, pela ganância e egoísmo humanos, ficam esquecidos pelos homens, mas Jesus os chama para Si.
A leitura de Rohden esclarece o ser humano no sentido de libertar-se da ambição de possuir bens materiais para ser feliz. Segundo Rohden, não há proibição ou pecado em ser rico, nem virtude em ser pobre, mas no mau uso e má aquisição desses bens materiais. A verdadeira liberdade consiste numa “atitude do sujeito e não em simples fatos objetivos” (p. 20).
Seu ensinamento não descura ou desdenha a situação material e, naturalmente, emocional da pessoa desamparada ou deficitária de bens materiais, mas adentra o mais profundo possível da alma humana, como que buscando o seu Eu-divino para superar as condições externas de subjugação interna.
Carter (2002, p. 178) tem uma leitura que se aproxima mais da questão social e econômica da massa popular daquelas regiões (Palestina, Judeia etc).
Segundo Carter, Mateus (5,3) diz: “Bem-aventurados são os pobres em espírito”. Além do uso preposicional diferente de Rohden, Carter refere-se à pobreza material e como “bem-aventurado” expressando “o favor e a bênção de Deus, não sobre a pobreza, mas sobre as pessoas que são pobres” (p. 179).
São pobres na verdadeira expressão da palavra, “vivem na dificuldade social e econômica”, e oprimidos pelos poderosos.
“Encerrados em um sistema econômico explorador [...] são os enfermos, os possuídos por demônios, [...] carregando nos seus próprios corpos, os efeitos terríveis do sistema imperial” (p. 180).
Esta situação parece ser até esquecida por Deus, não têm esperança, e sabem do efeito destrutivo da pobreza material (p. 179), mas “[...] ser pobre em espírito não significa ‘paciência’ ou ‘humildade’ em aceitar piamente a pobreza. [...] Mais útil será ser comparável aos puros de coração (Sl 24,4)” (p. 179).
Storniolo (1990, p. 53), enumera em Mateus oito ”bem-aventuranças” e, refere-se aos “pobres” como vítimas dos ricos e poderosos que não querem repartir seus bens. Mateus não fala apenas em “pobres em espírito”.
Como Rohden, Storniolo (p. 53) também refere: “[...] Não são os de inteligência curta, nem os ricos que fingem ser pobres” os pobres de espírito. Mas, Mateus revela a verdadeira condição destas pessoas diante de Deus que podem ter tudo e conseguir tudo, mas não terão liberdade e vida (p. 53), e para isto terão que deixar as ilusões de riqueza e poder.
Carlos Josaphat (1967, p. 59-60) diz que “o Reino de Deus é dos pobres, das camadas ou das classes mais pobres”. Mas, para introduzir-se no Reino de Deus, a pobreza espiritual, quer dizer, o desapego interior das coisas materiais, “e a confiança em Deus, são os elementos para a realização desta bem-aventurança”.
Rohden, neste propósito, fala das ilusões do “ego”, numa comparação que faríamos em relação à vaidade que é exatamente o contrário ao desapego das coisas materiais e que impede a compreensão do Reino de Deus.
“Deus é rico, mas tudo deve ser repartido entre todos. Repartindo a liberdade e a vida, é que iremos construir o Reino de Deus” (p. 54).
Carl Gustav Jung (apud STORNIOLO, 1990, p. 54) diz que “[...] por trás de cada rico, há um demônio e atrás de cada pobre existem dois “[...] pois este pobre, ao tornar-se rico, fica pior que o rico, que ele combatia”.
“Não deixar-se dominar pelo “ego”, como diria Rohden, abandonando, espiritual e racionalmente, as ilusões da riqueza e da pobreza” revestindo-se de nova criatura em Cristo, o “homem novo” (2008, p. 17).
“Todo o problema está em ultrapassar a fraqueza e insegurança do ego e entrar na força e segurança do Eu...” (p. 21).
Mateos e Camacho (1993, p. 56) comentam que cada uma das bem- aventuranças [...] “é constituída por dois membros: o primeiro enuncia uma opção, estado ou atividade; o segundo uma promessa, e cada uma vem precedida da promessa de felicidade” (“ditosos”).
Estes autores mencionados acima explicam que na bem-aventurança, ora em análise “[...] o texto grego presta-se a duas interpretações”:
1 – pobres quanto ao espírito; 2 – pobres pelo espírito.
A primeira interpretação conota um sentido pejorativo (os de pouca qualidade).
Rohden em seu livro “A mensagem viva do Cristo, Novo Testamento” (1990) – texto do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João – traduzido do original grego, do primeiro século e anotado por Huberto Rohden, usa esta forma “pobres pelo espírito”.
Assim, a tradução de Rohden “Bem aventurados os pobres pelo espírito” presta-se a uma concordância com o texto primitivo grego.