2 PROGRAMMES DE SENSIBILISATION DE RÉFÉRENCE
2.8 Analyse de cas
Nas histórias de letramento (ver tópico Instrumentos de geração de dados da
pesquisa), geramos dados relativos às práticas de leitura e escrita da equipe escolar e
das famílias colaboradoras. Em relação ao primeiro grupo, toda a equipe afirmou ter a prática de leitura entre os passatempos favoritos e realizar leituras com os alunos diariamente (no caso dos professores atuantes em sala de aula), segundo os colaboradores, com o objetivo de “contribuir para desenvolver o hábito de leitura dos
alunos e capacitar o processo de letramento e alfabetização” (Rita de Cascia),
“aprimorar o processo de leitura e escrita e o prazer de ler” (Liane Fernandes), “instruir para as atividades pedagógicas desenvolvidas no Laboratório de Informática” (Ilana Soares) e “motivar os alunos para a leitura” (Sandra Maciel).
Com relação à escrita, questionados sobre as próprias práticas e vivências durante suas histórias de letramento, os parceiros comentaram:
Quadro 21 – Histórias de letramento (escrita para a equipe escolar)
“minha função como professora me possibilita a escrever com frequência, pois tudo que faço nos meus planos de
trabalho a leitura e a escrita fazem parte para a melhoria dos resultados desejados” (Rita de Cascia, professora do
1º ano A)
“sou graduada em Pedagogia (licenciatura). Fiz o magistério e em seguida já iniciei meu trabalho em sala de aula.
Fui alfabetizadora 10 anos e depois segui com as turmas de 2º ao 5º ano. Trabalho em escola pública e privada. Tenho 31 anos de sala de aula. Espero continuar com meu trabalho, mesmo sabendo das dificuldades que enfrentamos na educação atualmente. Gosto muito do que faço. Diariamente realizo com a turma diversos gêneros textuais envolvendo todas as áreas de conhecimento.” (Liane Fernandes, professora do 3º ano)
“escrevo com frequência em relação aos planejamentos pedagógicos para o Laboratório de Informática, mas tenho
um bom hábito de leitura, com média mensal de dois livros.” (Ilana Soares, professora do Ensino Fundamental I)
“sempre fui de desenvolver ideias a partir de algum tema, e assim, com essa prática, muito me facilitou em outros
aspectos ligados à escrita e leitura. Não adianta uma leitura mecânica, mas sim, uma leitura que dê significado, que haja compreensão.” (Jance Leite, vice diretor da escola)
Sendo as práticas de leitura e escrita um eixo essencial para nosso trabalho, ter a parceria de um grupo envolvido com estas preocupações auxiliou na aceitação do projeto e no efeito das ações, visto que a valorização destas práticas deveria ser feita na escola, para que pudesse haver incentivo aos alunos e familiares nas suas produções escritas e leituras.
Com relação às famílias, o grau de escolaridade foi um fator evidenciado em entrevistas, memórias, relatos e nas histórias de letramento. Acreditamos que este influencie nas concepções e práticas de leitura e escrita dos familiares e, por conseguinte, dos alunos. Por isso, trazemos abaixo a Figura 32 com estas informações:
Figura 32 – Grau de escolaridade dos familiares
Fonte: Mapeamento de práticas de leitura e escrita (Dados do Programa “Engajando famílias na escola”)
O cenário demonstrado nas histórias de letramento sugeriu o que foi enfatizado em várias outras práticas de memórias das famílias: a maioria dos colaboradores teria deixado os estudos para trabalhar. A seguir, ilustramos essa ideia com as memórias escolares (transcritas do formato em vídeo) de uma mãe colaboradora do nosso programa:
Sem escolaridade Ensino fundamental incompleto/completo Ensino médio incompleto Ensino médio completo
Quadro 22 – Memórias escolares de uma mãe
“(...) Gostava de estudar e sempre estava indo pra o colégio, quando faltava... sempre tinha alguma coisa pra faltar, eu não queria faltar. Gosto de ler, gosto de escrever, e gosto sempre de estar ensinando a (Alex), eu sempre falo pra ele assim, “(Alex) sua mãe sempre gostou de estudar, então vamos estudar também pra ser uma pessoa na vida”. Eu não fui médica, não fui alguma coisa assim, mas pelo menos eu quero que ele seja o que um dia eu nunca fui. Então é isso que eu sempre falo com ele em casa, porque eu sempre gostei de estudar. Eu não terminei o estudo por causa que eu ia trabalhar. Então como eu ia trabalhar aí eu ficava pensando, “meu Deus, eu estou trabalhando e estou estudando, não tenho tempo de estudar”. Então eu decidi trabalhar, mas (inint) [00:04:19] porque eu sei ler e sei escrever, e quero que ele seja uma pessoa na vida.”
Fonte: Transcrição da História de vida familiar de Adri de Lima (Dados do Programa “Engajando famílias na escola”)
É importante destacar que, apesar dessa história de vida recorrente, nossos colaboradores, em sua maioria, não se mostraram contrários à participação na escola ou nas práticas de leitura e escrita. Assim, a grande maioria dos colaboradores já iniciou sua participação reconhecendo o valor das práticas letradas para si e para os alunos, conforme relatos em relação à leitura e à escrita no dia a dia:
Quadro 23 – Histórias de letramento (leitura para as famílias) “Não leio com minhas crianças porque não sei ler.”(Rosa Silva)
“Leio quando tenho tempo porque trabalho e os motivos são deveres de casa.” (Lucy dos Santos) “Leio porque gosto de ler.” (Eli Rameiro)
“Leio para que ela se interesse mais pela leitura.” (Mari Silva) “Leio porque quero que ela aprenda mais.” (Gi Barbosa) “Leio quando tenho tempo porque trabalho.” (Fran da Silva) “Leio porque gosto de ler e incentivo.” (Adri de Lima) “Leio para o desenvolvimento.” (Line Rolim)
“Leio quando tenho tempo.” (Lau Oliveira)
Quadro 24 – Histórias de letramento (escrita para as famílias) “Não escrevo.”(Rosa Silva e Lucy dos Santos)
“Sim, escrevo bastante e gosto muito. A minha vida foi maravilhosa, eu estudava, não terminei o meu estudo porque eu precisava trabalhar, mas eu agradeço a todos professores que sempre estavam comigo me ensinando e o pouco que eu sei é muito para mim, porque Deus estava sempre me ajudando com a minha família e agradeço pela educação que eu tenho e passo para os meus filhos.” (Eli Rameiro) “Eu queria ter estudado mais, trabalhado menos. Tive que deixar os estudos para poder trabalhar, mas eu tenho uma boa educação apesar de tudo. Hoje eu só quero o melhor para minha filha. A escola é uma porta aberta para o conhecimento do mundo, só quem estuda sabe. Estudar é muito bom, pena que eu estudei pouco...” (Adri de Lima)
“Sim, eu sou uma pessoa simples, tive uma boa educação, queria ter estudado mais, como não tive esta oportunidade hoje luto para que meus filhos possam ser aquilo que eu não fui na vida, que eles estudem muito e possam ter uma boa profissão e se realizem na vida em todas as partes.”
“Sim, eu não tive todos esses privilégios que são oferecidos hoje. No meu tempo de escola nem tudo era existente, faltava compreensão de professores. A minha educação e a do meu irmão foi a nossa força de vontade, tirávamos livros velhos do lixo e na curiosidade dos desenhos nos aprofundamos no mundo da leitura de onde tiramos a nossa sabedoria e o nosso desenvolvimento para sobreviver nesse mundo onde é cada um por si: essa é a minha história.” (Gih Barbosa
“Não, mas pretendo e vou tentar.” (Lau Oliveira)
“Sim, eu tenho trinta e oito anos, sou casada há vinte e um anos, tenho dois filhos maravilhosos, um de vinte anos e uma de seis anos. Sou muito feliz, tenho uma família maravilhosa. Sobre minha educação, quando criança gostava muito de estudar, nunca repeti de ano. Não terminei os estudos, tenho até o segundo ano do Ensino Médio. Gosto muito de ler e escrever.” (Mari Silva)
“Não sei escrever, faltam letras, mas leio tudo. Queria saber mais, para ajudar meus filhos. Não tive chance de estudar porque eu trabalhei muito cedo, se pudesse voltaria a estudar.” (Fran da Silva) “Sim. Terminei o segundo grau completo e trabalho de doméstica pela manhã e de tarde saio para vender Avon. De vez em quando faço outras coisas, vivo muito feliz com minha filha e minha família.” (Line Rolim)
Nesse sentido, percebemos que é importante conhecer e valorizar as histórias de vida dos nossos colaboradores para melhor compreender as práticas que eram realizadas em casa e que seriam possibilitadas no trabalho do programa. Os dados nos mostram que a figura feminina é o centro das práticas letradas em casa (e também na escola, dada a maioria de participações de mulheres nas ações do programa). Essa figura, porém, muitas vezes não completou o ensino médio (atualmente a última etapa obrigatória do ensino, no Brasil), além de possuir extensa carga horária de trabalho dentro e fora de casa. Esse cenário será abordado na categoria Resistências, negociações
e pactos, mas já sinaliza que a participação dessas colaboradoras no programa se dá pela
relevância e importância que as mesmas percebem nas ações, a partir de suas concepções sobre leitura, escrita e escola tidas como transformadoras da realidade dos alunos (e, até, de si próprias), possibilitando a emancipação e ascensão social.