Axe 3. Jeux de pouvoir locaux autour de l’approvisionnement en eau et de
3.3 Espace public, appartenances communes & intérêts personnels
3.3.2 Analyse anthropologique des normes de l’espace public
Após a análise dos aspectos formais da narrativa e antes de levar a cabo o exame da função representativa do protago- nista e dos demais personagens de Nome de guerra, na pers-
pectiva teórica seguida desde o início neste trabalho, cabe te- cer algumas considerações a respeito do paratexto inscrito no romance único de Almada Negreiros.
Trata-se de examinar, brevemente, a função do título e da epígrafe inicial da obra, e também da moralidade posta ao im das páginas escritas. Do mesmo modo serão analisados os títulos dos capítulos merecedores de especial atenção. Esses aspectos paratextuais parecem lançar luzes ao até aqui já dito.
A partir de 1982, com Gérard Genette, o conjunto dos enunciados que dizem respeito a um texto, por exemplo, títu- lo, subtítulo, prefácio, posfácio, introdução, índice etc., passa a ser designado paratexto, indicando os acessórios textuais demarcatórios da intenção encerrada na obra. O paratexto serve de deixa, de indicativo, de abertura posta à disposição do leitor pelo autor. O paratexto é, pois, um balizamento através do qual o texto ganha presença, se torna obra e assu- me seu status na instituição literária. Interessa-nos em Nome de guerra o paratexto autógrafo ou autoral, de cunho tanto pragmático quanto programático.
É portanto sintomático o antelóquio posto nas páginas de Nome de guerra consistente no seguinte texto de Almada: “O leitor há-de ver já a seguir que o autor não é forte em ciên- cia, de modo que tudo quanto icar escrito não terá absoluta- mente nada de cientíico. Será exatamente nem cientíico nem falso, ao mesmo tempo. O AUTOR” (OC, 252).
Estamos diante de um paratexto pragmático e progra- mático, sem dúvida, pois enquanto dirige a leitura do destina- tário explicita o programa norteador da obra a ser lida.
Essas palavras liminares de Almada Negreiros, epí- grafe diretiva, afastam de logo a possibilidade de ser Nome de guerra uma obra científica. Suas páginas não contêm
nada “nem científico nem falso”, escreve Almada, conferin- do ao texto, por antífrase, a indispensável verossimilhança, sendo esta, como se sabe, não regida pelos conceitos de “científico nem falso”.
Tem-se, a partir desse jogo metalinguístico, que Nome de guerra “está para além do meramente cientíico ou ideo- lógico”. E podemos concluir, com Eduardo Prado Coelho, “que o não-cientíico pode ser verdadeiro, que há verdades que excedem a ciência, e que desse excesso se ocupa a pala- vra literária”.182
Há, portanto, de admitir o propósito autoral frisado ao leitor de, mesmo não sendo Nome de guerra dotado de rigor cientíico, não ser de nenhum modo falso, havendo, no texto em questão, dose de verdade que a verossimilhança e a litera- riedade admitem.
Assim, já quase ao im do romance, o narrador relete a pro- pósito da experiência, a partir de duas sentenças contraditórias, uma de Pascal e outra de Poincaré, concluindo: “A sorte da ciência é haver por cima dela verdades que não são cientíicas” (OC, 356).
Quanto ao sintagma-título do romance, durante a nar- rativa é referido explicitamente apenas uma vez.
O capítulo III, intitulado “Uma Judite que não se chama assim”, apresenta e identiica essa personagem feminina suge- rindo, mas deixando de nomear a expressão que dá título ao livro, consignada nos meios militares e no bas-fond:
ERA UMA VEZ uma rapariga chamada Judite. Mas o seu nome verdadeiro não era Judite. Só às vezes, em ocasiões muito íntimas, é que ela esteve quase para dizer tudo:
– Eu não me chamo Judite. Mas não digas nada a nin- guém. O meu nome verdadeiro é...
E calou-se.
(OC, 255)
Há, por conseguinte, consciência artística na elaboração textual de Almada, embora este preira sugerir a mostrar, des- de o início, a força do sugestivo sintagma.
No capítulo XX o narrador põe o leitor a par das dii- culdades e da vida adversa de Judite em seu cotidiano, em- pregando por duas vezes a palavra guerra, com maiúscula a destacá-la, e exclamações, fazendo contrastar sua condição humana com a paz a que tanto ela aspirava. Almada, note-se, faz a primeira sugestão no início do romance, a segunda qua- se no meio deste, para, somente no capítulo LVI, pouco antes do epílogo, permitir ao narrador onisciente e senhor do desti- no dos personagens revelar: “Ficara escrito também, naquela hora, que ele conheceria em Lisboa uma rapariga que o leitor já sabe, vulgarmente conhecida pelo seu nome de guerra: Ju- dite” (OC, 348).
Ora, se Judite escondia sua real identidade atrás des- se apelativo, o nome Antunes também deve ser considerado nome de guerra, pois a identidade do protagonista com outro anteposto, Luís, está expressa na felicidade de ouvir pela pri- meira vez Judite pronunciá-lo.
Há, portanto, a questão da identidade e da identiicação não apenas do protagonista e da personagem que com ele contracena, mas da própria razão de batismo do livro, que muito ganha com a lenta revelação proporcionada ao longo de muitas páginas.
Os títulos dos capítulos também desempenham uma função importante em Nome de guerra. Estão articulados di-
retamente com o texto, e quase sempre cumprem a função de síntese daquilo a ser lido. Não obstante esse caráter prevalente nos referidos títulos, há dois meramente indicativos: “Desgra- çador” e “O Tio”. Outros são preceituais, a exemplo de: “A so- ciedade só tem que ver com todos, não tem nada que cheirar com cada um”, “Quando as ajudas desistem, pega a conspira- ção” e “Cada qual vê Eva pela primeira vez”. Os mais longos se põem no rastro da tradição clássica e barroca de titular, lem- brando muito a narrativa picaresca do anônimo Lazarillo de Tormes. Alguns desses títulos têm a função de marcar partes importantes da narrativa: “Onde se começa a ver que numa mesma vida mal cabe um quanto mais dois”, “Um dia antes de nascer pela terceira vez”. Outros são poéticos: “As estrelas são pescadoras e andam à pesca de gente”, “A terra é até onde vem tudo que se vê das estrelas”. Mesmo os últimos, é de subli- nhar, não deixam de cumprir a função de síntese dos capítulos, modo pelo qual o autor direciona a compreensão de seu texto.
A narrativa se encerra curiosa e originalmente com um recurso a fazer contraponto à voz do narrador ensaístico. Fe- chando o derradeiro capítulo lê-se: “MORALIDADE DESTE ROMANCE: Não te metas na vida alheia se não queres lá icar”.
Ora, essa solução inal é um lagrante recurso buscado às histórias de proveito e bom exemplo, na melhor tradição portuguesa de Gonçalo Trancoso. Tanto esse procedimento quanto o dos títulos, buscados na tradição ibérica, conirmam o caráter residual pulsante na obra de Almada Negreiros.
Em suma, o paratexto, conscientemente empregado em Nome de guerra, tem a finalidade de prender o leitor ao roteiro de gnose e aprendizagem didaticamente deixado impresso nesse romance por Almada.