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– Analyse des activités de programme selon le résultat stratégique21

A partir do final da década de 90, os debates antes voltados às opressões enfrentadas por identidades de categorias específicas – de gênero, raça ou classe por exemplo – passaram a voltar-se as opressões enfrentadas pela multiplicidade de diferenciações, ou seja, pelas diversas categorias que construíram identidades pluralmente estigmatizadas (PISCITELLI, 2008).

De acordo com Piscitelli (2008), este debate iniciou-se em função das teorias feministas que formularam conceitos que essencializavam as mulheres em uma única categoria de gênero que suscitava as mesmas problemáticas para todas elas, como se fossem iguais e compartilhassem das mesmas questões. Em função disto, foram criadas as categorias de articulação e as interseccionalidades, cujos debates “ocupavam-se da emergência de categorias que aludem à multiplicidade de diferenciações que, articulando-se a gênero, permeiam o social” (PISCITELLI, p. 263, 2008).

Neste sentido, as autoras que trabalham com esta perspectiva estão ancoradas em aproximações desconstrutivistas: “procedimento de olhar criticamente para os supostos sustentados por diversas disciplinas, examinando e desmontando sua lógica discursiva” (PISCITELLI, p. 264, 2008). As perspectiva interseccional questiona abordagens que mantém o princípio de identidade como unidade cultural e interna, que compreende os sujeitos diferentes como exógenos e externos. Deste modo, esta pesquisa utiliza-se desta perspectiva pois, compreende que as identidades quilombolas são construídas por articulações históricas e culturais entre diferentes

53 categorias, linguagens, discursos e opressões que são produzidos nas relações de diferença entre os sujeitos (PISCITELLI, 2008).

A teoria interseccional, de acordo com Piscitelli (2008), pode ser dividida em duas vertentes que interpretam os conteúdos de formas diferentes, ainda que compartilhem dos mesmos princípios. A abordagem teórica que Piscitelli (2008) chamou de “leituras sistêmicas” é defendida pela advogada Kimberlé Crenshaw. Esta vertente considera a interseccionalidade como “formas de capturar as consequências da interação entre duas ou mais formas de subordinação: sexismo, racismo, patriarcalismo” (PISCITELLI, p. 267, 2008). Para Crenshaw (2002 apud. Piscitelli, 2008) A noção de interação entre as formas de subordinação, admite, por exemplo, que uma mulher quilombola pode ser oprimida por dois eixos – ser mulher e ser quilombola:

A imagem que ela oferece é a de diversas avenidas, em cada uma das quais circula um desses eixos de opressão. Em certos lugares, as avenidas se cruzam, e a mulher que se encontra no entrecruzamento tem que enfrentar simultaneamente os fluxos que confluem, oprimindo-a. (PISCITELLI, p. 267, 2008)

Para Piscitelli (2008) esta abordagem é problemática porque confunde a diferença com a desigualdade, destacando “o impacto do sistema ou da estrutura sobre a formação de identidades” (PISCITELLI, p. 267, 2008). Ou seja, considera as categorias de gênero, raça e classe como sistemas de dominação que determinam quais serão as identidades subordinadas. A autora também aponta o problema de que nesta abordagem o poder é tratado como propriedade exclusiva de alguns, que sempre poderão reprimir e produzir sujeitos; não considerando que as relações de poder passam por conflitos e resistências que as alteram constantemente.

A outra vertente citada por Piscitelli (2008) é a que a autora chama de “construcionista”, que abrange as pesquisadoras Anne McKlintock e Avtar Brah, e que foi utilizada neste estudo. Para Piscitelli, a abordagem construcionista destaca que os sujeitos se constituem em processos dinâmicos de relações que possibilitam experiências de diferenciação e identificação. Estas relações e experiências são fatores que possibilitam que os sujeitos reflitam e ajam de forma a constituírem lutas contínuas em torno da hegemonia, articulando diferentes elementos e transformando suas identidades como resultado da prática articulatória.

De acordo com Piscitelli (2008), esta abordagem traça distinções entre categorias de diferenciação e sistemas de discriminação: “por exemplo, há um

54 questionamento à fusão entre raça e racismo, considerando que nessa fusão há uma visão estática do significado da categoria raça e se trata o racismo como um sistema único”. Na abordagem construcionista, de acordo com Piscitelli (p. 268, 2008)

Os processos mediante os quais os indivíduos se tornam sujeitos não significam apenas que alguém será sujeito a um poder soberano, mas há algo mais, que oferece possibilidades para o sujeito. E os marcadores de identidade, como gênero, classe ou etnicidade não aparecem apenas como formas de categorização exclusivamente limitantes. Eles oferecem, simultaneamente, recursos que possibilitam a ação.

Ou seja, os marcadores de raça, gênero e classe, por exemplo são categorias que diferenciam e identificam os sujeitos, mas não os encerram nestas posições, pois, através de relações de reciprocidades e contradições, os sujeitos podem encontrar estratégias para mudarem os sistemas de poder. De acordo com esta perspectiva, os quilombolas, por exemplo, podem articular suas diferenças em movimentos de resistência e rejeição, mas também podem assumir posições de cumplicidade, negociando seus posicionamentos nos contextos nos quais estão em situação de desigualdade.

Ou seja, as articulações entre quilombolas e não-quilombolas, ainda que possam situar os primeiros em posições inferiorizadas, apresenta ambiguidades e contradições que abrem espaços para negociações entre ambos. Entretanto, “essas negociações só podem ter lugar se consideramos, à maneira de Brah, que as formas de categorização podem limitar, mas também abrem possibilidades para a agência” (PISCITELLI, p. 272, 2008). Ou seja, categorizar os estudantes remanescentes de quilombos como “quilombolas” pode delimitar suas identidades, mas esta categorização é necessária para que possam organizar-se politicamente e terem a possibilidade de agenciarem-se. Portanto, o grupo de estudantes quilombolas ou até mesmo um único sujeito quilombola aporta diversas questões em função de suas identidades, entretanto, podem afirmar-se como uma unidade – estudantes quilombolas – para, por exemplo, lutarem para modificar uma realidade específica no sistema político e social.

A teoria a respeito da diferença elaborada por Brah (2006), foi utilizada como base para a análise de dados desta pesquisa e, portanto, será melhor esclarecida no capítulo a seguir.

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4. RELAÇÕES, DIFERENÇAS E IDENTIDADES: OS ESTUDANTES QUILOMBOLAS

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