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Numa sociedade em constante mudança e inovação o processo de reflexão por parte do professor evidencia-se nuclear para um acompanhamento da realidade social.

Anteriormente a uma reflexão crítica sobre a importância da reflexividade na pedagogia, parece-me de extrema importância definir dois conceitos, que apesar de similares têm algumas diferenças: reflexão e reflexividade. Assim, reflexão traduz um pensamento inflexível sujeito a meditação e introspeção mental de determinadas ações do passado. Por sua vez, reflexividade significa que há um controlo reflexivo sobre a ação, estando presente em todas as ações humanas, na medida em que o procedimento tem um fundamento que o sustenta.

Transferindo a importância da reflexão para o ato de educar e ensinar, torna-se importante associar este procedimento de prática reflexiva ao bom professor. Durante muito tempo, procuraram-se os atributos ou as características que definiam o “bom professor”. Na metade do século XX, surgiu a consolidação de uma trilogia que teve grande sucesso: saber (conhecimentos), saber-fazer (capacidades) e saber-ser (atitudes). Com base nas nossas conceções, perspetivas e fundamentos teóricos que nos foram transmitidos, considerámos que estas três variáveis estão sujeitas a evolução, se existir prática reflexiva.

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“O professor faz parte integrante da cadeia da produção e difusão do conhecimento. Sabe, pois, por experiência própria e quotidiana, que o conhecimento constituído tem hoje uma vida de duração crescentemente curta e que é fundamental para si estar permanentemente em contacto com as fontes de conhecimento constituinte, que são as de investigação científica e tecnológica e da própria realidade social” (Patrício, 1992). Partindo da ideia do autor, considerámos que este é um aspeto que revela a importância da reflexão por parte do professor. O poder da reflexão sobre a prática como catalisador das melhores práticas tem vindo a ser defendido por diversos autores (Dewey, 1933; Kemmis, 1985; Schon, 1983; Zeichner, 1993). É ao refletir sobre a ação que surge a consciencialização do conhecimento tácito, procura-se crenças erróneas e se reformula o pensamento.

Se nos centrarmos na escola, como instituição com grande responsabilidade no crescimento dos jovens, podemos utilizar uma referência que nos diz o seguinte: “conhecida por de mais é a escola em que o mestre detentor de autoridade e possuidor dos conhecimentos tudo orienta e dirige, como se a criança ou o jovem fossem uma tábua rasa, completamente desprovidos de experiência, fracos e incapazes de caminhar sozinhos sobre os quais o adulto paternalmente se debruça para os modelar de acordo com aquilo que sabe constituir o bem e satisfazer as necessidades presentes e futuras das gerações ascendentes” (Medeiros, 1968). Quero com estas palavras partilhar as minhas linhas orientadoras, na medida em que julgo que a reflexividade por parte do professor é fundamental para um devido acompanhamento, com base em características únicas e que caracterizam cada jovem. Somente através de um processo reflexivo é que o professor consegue delinear estratégias que promovam melhorias nos alunos, permitindo-lhes atingir os objetivos e metas que eles próprios conjeturaram.

Antes de me referir à importância da reflexividade para a profissão Professor propriamente dita, importa ainda explicar em que se baseia a noção de professor reflexivo e através de uma revisão da literatura tentar realizar uma breve contextualização do tema. Desta forma, é necessário explicar que pedagogos de vários países têm sido atraídos por esta nova conceptualização

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de professor como professor reflexivo. Porém, nem sempre esta proposta é completamente entendida, fácil de colocar em prática no contexto de cada escola e muitas vezes é criticada. Logo, “a noção de professor reflexivo baseia- se na consciência da capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano como criativo e não como mero reprodutor de ideias e de práticas que lhe são exteriores” (Alarcão, 2003). É então fundamental, que o professor, nas situações profissionais, tantas vezes casuais e imprevistas, atue de forma inteligente, flexível, contextualizada e reativa.

Considero que apesar desta nova conceptualização não resolver todos os problemas da formação dos professores, ela pode ser importantíssima para ajudar a resolver determinados problemas de confiança de competência de alguns professores, desenvolver o papel dos professores nas reformas curriculares, no reconhecimento das dificuldades e complexidades dos problemas da nossa sociedade educativa e na consciência de como é difícil formar bons profissionais. Defendo que em qualquer altura da carreira do professor a reflexividade é muito importante, mas durante a formação e na fase inicial da carreira ela pode ser verdadeiramente decisiva na evolução de todos os aspetos do profissional.

Previamente a me centrar especificamente no processo de reflexividade, interessa acrescentar que ação do professor é sempre influenciada pela escola em que está inserido. Tal como refere Alarcão (2003) “É neste local, o seu local de trabalho, que ele, com os outros, seus colegas, constrói a profissionalidade docente. Mas se a vida dos professores tem o seu contexto próprio, a escola tem de ser organizada de modo a criar condições de reflexividade individuais e coletivas.”. A autora referida alerta para o aspeto relevante de apesar da capacidade reflexiva ser inata do ser humano é necessário condições que permitam desenvolver livre e responsavelmente essa aptidão. Para que os professores expandam esta capacidade intelectual que permite gerir com eficácia a sua ação profissional é indispensável que a escola consiga ser um motor de desenvolvimento institucional.

Gostaria de deixar uma breve nota relativamente à criação de portefólios reflexivos por parte de professores, que inicialmente pertencia à área das

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Artes, e recentemente se tem utilizado nas áreas da Educação e Formação. Esta nova ferramenta, bem conhecida da nossa formação enquanto estudantes-estagiários, poderá ter um papel preponderante na reflexividade dos professores, pois permite por um lado ser uma construção pessoal que permite organizar o trabalho e as ideias, explicando-as, e dar sentido, e por outro é o meio extremamente simples de se darem a conhecer de demonstrar competência.

Um professor reflexivo deve prestar atenção ao seu aluno, ouvi-lo, surpreender-se, e atuar como um espécie de detetive que procura descobrir as razões das ações e pensamentos dos seus alunos.

O professor reflexivo empenha-se para ir de encontro aos alunos e entender o seu próprio processo de conhecimento, ajudando-o a articular o seu conhecimento na ação com o saber escolar. Este tipo de ensino é uma forma de reflexão na ação que exige do professor uma capacidade de individualizar, ou seja, de dedicar atenção a um aluno, mesmo numa turma numerosa, tendo noção do seu grau de compreensão e das suas dificuldades.

Ser reflexivo é ter a capacidade de individualizar o ensino. No fundo, «“O melhor professor será o que tiver uma resposta pronta para a questão que preocupa o aluno. Estas explicações dão ao professor o conhecimento do maior número possível de métodos, a capacidade de inventar novos métodos e, acima de tudo, não provocam uma adesão cega a um método, mas a convicção que todos os métodos são unilaterais e que o melhor método será o que der a melhor resposta a todas as dificuldades possíveis que o aluno tiver, quer dizer, não um método, mas uma arte e um talento” (Tolstoi)» (Nóvoa A. , 1992).

Um professor reflexivo permite-se ser surpreendido pelo que o aluno faz, mas reflete sobre esse facto, ou seja, procura compreender a razão por que foi surpreendido. Depois reformula o problema suscitado pela situação e efetua a experiência para testar a nova hipótese. É esta reflexão sobre a reflexão na ação “… que ajuda o profissional a progredir no seu desenvolvimento e a construir a sua forma pessoal de conhecer.” (Oliveira & Serrazina, s.d.).

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Á medida que os professores tentam criar condições para uma prática reflexiva, é muito possível que se venham confrontar com a burocracia escolar. A burocracia de uma escola está organizada à volta do modelo de saber escolar. Isto significa que quando “um professor tenta ouvir os seus alunos e refletir na ação sobre o que aprende, entra inevitavelmente em conflito com a burocracia da escola...O desenvolvimento de uma prática reflexiva eficaz tem de integrar o contexto institucional.” (Nóvoa A. , 1992).

Suportado na ideia de Nóvoa considero que os responsáveis por uma escola que pretendam docentes reflexivos devem tentar desenvolver espaços de autonomia em que a reflexão seja possível. Por outro lado, aprender a ouvir os alunos e fazer da escola um local no qual seja possível ouvir os alunos devem ser duas intenções inseparáveis que movem um pedagogo reflexivo.

Segundo Nóvoa (1992) no “desenvolvimento de um practicum reflexivo é importante juntar 3 dimensões: - compreensão das matérias pelos alunos; - interação interpessoal entre professor e aluno; - a dimensão burocrática da prática.”

Concluindo, importa referir que a questão da reflexividade na profissão docente estará sempre em aberto e em constante evolução.

A reflexividade não segue um padrão lógico mas a tomada de decisões conscientes é um dos atributos que, de um modo geral, se considera nos professores reflexivos.

No fundo, uma abordagem reflexiva enaltece a estruturação individual do saber e legitima o valor epistemológico da prática profissional.

“Na sociedade plural em que se vive, caraterizada pela conflitualidade, incerteza e complexidade, os professores precisam desenvolver uma prática reflexiva no sentido de transformar a sala de aula. As práticas reflexivas…podem constituir um modo de lidar com a incerteza, encorajando a trabalhar de modo competente e ético.” (Oliveira & Serrazina, s.d.).

No fundo ser professor na atualidade é ser possuidor de vários saberes, alicerçado num saber específico que deve refletir sobre os objetivos da escola, objetivos esses que a própria sociedade não os define com coerência nem clareza. Isto só é possível pela reflexão constante, pela capacidade de assumir

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um caminho, de tomar decisões conscientes e autónomas sem nunca desprezar a responsabilidade que isso acarreta.

Considero que as práticas reflexivas devem ser entendidas como inerentes à profissão docente não no sentido de serem naturais, mas porque são essenciais à mesma. Mas para que esta luta faça sentido é necessário que se criem um conjunto de condições, de lógicas de trabalho, fundamentalmente lógicas de trabalho coletivo onde através da reflexão, da troca de ideias, da troca de experiências, através da partilha seja possível implementar uma atitude reflexiva nas escolas. Não desvalorizando a experiência defendemos que esta apenas se transforma em conhecimento se existir uma análise sistemática das práticas e uma constante postura crítica e reflexiva.