A “onda relativista”, como chama Japiassu (2000, p.23), refere-se ao modo de pensamento no qual as teorias científicas são apenas construções que repousam em pressupostos arbitrários, um “modo de conhecimento tributário de paixões sociais ou de convicções religiosas”. Por meio dessa visão relativista, a ciência é apenas um construto particular de uma determinada sociedade.
Enquanto para o racionalismo, visão universalista da ciência, o consenso se explica pelo valor empírico-lógico da prova e o não- consenso por fatores exteriores, para o relativismo não há razão universal. Portanto, sendo toda prova relativa, todo consenso é social (JAPIASSU, 2000).
A ciência como um consenso social tem suas origens em Kuhn. O autor contribui com o relativismo através o conceito de comunidade, para o qual o julgamento de validade das teorias por meio dos paradigmas. No entanto, a racionalidade científica dependia apenas da razão pura. Segundo Japiassu (2000, p.35):
Com a noção de paradigma, os sociólogos começam a perceber que os próprios conteúdos das ciências são estruturados em torno de projetos, preconceitos e condicionamentos sociais. O que se evidencia é o aspecto institucional desses conteúdos. Contudo, num primeiro momento, os sociólogos se interessam pela influência dos fenômenos sociais sobre o paradigma e as práticas científicas. Mas preservando, como uma ideia reguladora, a existência de um núcleo duro das ciências: no cerne mesmo do trabalho científico há elementos que representam uma objetividade absoluta, mesmo que, na periferia, possamos perceber os condicionamentos das disciplinas e sua relatividade histórica.
As abordagens relativistas da ciência incluem o conteúdo da ciência como elemento de suas análises. Os próprios conteúdos
aparecem como atividades humanas e se passa a examinar as práticas que tiveram “razão” e os que erraram (JAPIASSU, 2000). Enquanto para a sociologia do conhecimento clássica, o conteúdo da ideologia poderia estar relacionado a fatores do contexto sociocultural, mas a ciência, positivista, era sacralizada. Mais especificamente, o papel do contexto social era utilizado por Mannheim apenas para explicar teorias falsas, sendo o conteúdo verdadeiro fruto de método, de observação e de experimentação sólidos (JAPIASSU, 2000).
O relativismo crítico da ideologia dominante volta-se para a própria ciência (JAPIASSU, 2000). E a corrente relativista mais influente e, ao mesmo tempo radical, é o Programa Forte enunciado por Bloor em 1976 em Knowledge and social imagery. Enquanto até então a sociologia da ciência era a sociologia do erro, a saber, que tratava dos elementos que distorceriam o conhecimento científico, é a partir do Programa Forte que “a própria ciência e sua objetividade que se tornam objetos de análise social” (MONTEIRO, 2012, p. 141).
É na Escola de Edimburgo, com o relativismo de Bloor e Barnes, que a ciência passa a ser entendida como um consenso compartilhado por um grupo de indivíduos (ZARUR, 1994). Para a abordagem, a tese principal é o conhecimento como fato socialmente determinado (JAPIASSU, 2000). Passam a aplicar teses da sociologia do conhecimento às ciências ditas duras, naturais e formais (GOMES, 2010).
Intitulado Programa Forte por considerar as análises tradicionais em sociologia do conhecimento fraco, na medida em que se recusam a explicar a ciência natural de forma simétrica, da mesma forma que conhecimentos ordinários (PELS, 1996). Os defensores de uma sociologia do conhecimento científico rejeitam a ideia de um ethos científico único e a compreensão da ciência a partir de normas gerais. Apontam também que a análise sociológica da ciência deve centrar-se no ator, nas práticas empiricamente observáveis, não mais em normas e regras globais, como queria a sociologia da ciência de Merton (JAPIASSU, 2000).
Bloor (2009) propõe quatro princípios: i) causalidade – deve procurar as razões, as causas, que subjazem às descobertas científicas; ii) simetria – o conhecimento deve ser explicado socialmente e ideologicamente seja ele verdadeiro ou falso; iii) imparcialidade – não cabe ao sociólogo do conhecimento científico o julgamento do conhecimento em questão; iv) reflexividade – deve poder aplicar a si mesma os argumentos que usa para explicar a ciência (BLOOR, 2009; JAPIASSU, 2000). A partir desses princípios concebem que:
Todo conhecimento é relativo à situação local dos pensadores que o produziram: as ideias e conjecturas que são capazes de conceber; os problemas que os afligem; o jogo entre os pressupostos e as críticas em seu ambiente; seus propósitos e objetivos; as experiências que têm e os padrões e significados que aplicam (BLOOR, 2009, p.238).
De acordo com Latour e Woolgar (1997), o Programa Forte é triplamente forte: fortemente crítico, fortemente criticado e fortemente criticável. Japiassu (2000, p.47) critica a perspectiva de construção social do conhecimento pelo empreendimento relativista: “se nem a natureza nem a lógica podem explicar o consenso, apenas a sociedade, não ficam as produções científicas reduzidas a meras construções sociais? Para explicar as ciências, os relativistas fazem apelo a elementos sociais tratados sem relativismo”.
Mas a principal crítica ao Programa Forte é fruto da sua perspectiva causal, tipicamente dedutivista, em uma teoria que se apresenta indutivista8. A causalidade é o foco da maior parte dos adversários dessa abordagem. Ao propor uma teoria universal, constitui- se uma sociologia que se assemelha ao estudo das ciências naturais, aliando simetria e imparcialidade com o objetivo de generalidade máxima: todos os tipos de conhecimento (GOMES, 2010). Segundo Palácios (1994, p.180), as razões para a crítica por parte de disciplinas que também tem como objeto a cognição humana, é que “adoram o mesmo “idioma causal” que supostamente caracteriza todo empreendimento científico”. E, finalmente, pondera:
O que realmente interessa é sabermos o que a existência da ciência nos ensina sobre a sociedade que a tornou possível. A esta posição, devemos contrapor aos relativistas: afirmamos a existência de verdades de credibilidades potencialmente transcendentes em relação às variabilidades históricas e culturais; e contrariamente aos racionalistas, defendemos a necessidade de historicizarmos e particularizarmos a Razão, em vez de fazermos dela um absoluto ou algo transcendente (PALÁCIOS, 1994, p.66)
8 LAUDAN, Larry. Progress and its problems: Towards a theory of
Outra escola relativista que merece nota é a de Bath, o programa empírico do relativismo de Collins, também conhecido pela sigla EPOR – Empirical Programme of Relativism. O interesse dessa abordagem está nas controvérsias na ciência e como elas se resolvem. Propõe-se uma análise microssociológica centrada sobre a construção contemporânea da ciência. Estudam as controvérsias e as negociações que explicam a produção de conhecimento (VINCK, 2007).
Como princípios básicos da abordagem: i) tratamento simétrico para explicar crenças, uma herança do Programa Forte; ii) identificação de regras tácitas presentes na atividade científica, como herança de Kuhn; iii) mecanismos de encerramento das controvérsias e sua relação ao contexto social (VINCK, 2007). O encerramento pode se dar por diversas formas, entre elas a perda de interesse pela disputa ou a conversão a outra corrente, por exemplo. São elementos importantes para a abordagem empírica: experimentos, replicações, controvérsias, negociações e consenso.
Enquanto para o Programa Forte o objetivo está em advogar a existência de princípios metodológicos gerais, no programa empírico distinguem-se três etapas: i) mostrar que há flexibilidade interpretativa nas produções científicas e que se apenas uma se impõe é intermediada pelo consenso social; ii) descrever os mecanismos socais que limitam tal flexibilidade e a construção do consenso explicando o encerramento das controvérsias; iii) relacionar mecanismos de encerramento ao contexto, ou seja, como o método científico conduz resultados diferentes relacionados às estruturas sociais e políticas (JAPIASSU, 2000; VINCK, 2007). Nesse último ponto, analisam o porquê da escolha de uma interpretação, que passa pela análise dos grupos sociais envolvidos em meio às controvérsias. Os grupos, as redes a que recorrem quando em meio às disputas e a maneira como negociam o consenso são elementos que a abordagem traz à sociologia da ciência.
Na próxima seção, algumas das abordagens etnográficas no estudo sociológico da ciência serão brevemente analisadas.