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Muito se fala a respeito do fenômeno da globalização e de como ele trouxe consigo a necessidade de se aprender a língua que é considerada “global” por ser falada como primeira língua, segunda língua e língua adicional em boa parte do mundo – a língua inglesa. De fato, sabe-se que faz sentido essa busca de conseguir se comunicar em inglês e, dessa maneira, “abrir portas” para interações com pessoas de outros países, para a possibilidade de ler e ser lido em diversos locais e contextos. Esse processo, conforme descrito na introdução, despertou meu interesse em promover um intercâmbio linguístico e cultural entre os alunos da instituição onde leciono a língua inglesa e os professores de uma instituição americana, como forma de ampliar os horizontes de ambos os grupos de alunos por meio das trocas de informações e opiniões, e do trabalho em conjunto para realizar as atividades de gestão propostas no projeto aqui estudado.

O fenômeno da globalização está inserido de diversas formas no contexto específico do referido projeto, já que, um dos objetivos dele era justamente identificar e desconstruir estereótipos, sendo um deles a exagerada admiração que não apenas os brasileiros, mas também outros povos ao redor do mundo, constroem sobre os Estados Unidos, e que advém justamente da maneira como esse país enxerga a si mesmo e de como “vende” a imagem de ser o “berço” da globalização.

Os professores e alunos brasileiros, quando mencionei a ideia inicial do curso e, posteriormente, o projeto em si, demonstraram exatamente esse olhar de admiração e entusiasmo diante da possibilidade de interagir com falantes nativos americanos, muito provavelmente por essa visão distorcida de que, para estar participando de forma ativa em um mundo globalizado, o ideal seria “imitar” falantes nativos de língua inglesa advindos de países considerados “mais desenvolvidos” – visão esta que, de certa forma, começou a ser desconstruída quando os alunos começaram a perceber, no decorrer das atividades em conjunto, que sua visão estereotipada e essencialmente positiva dos americanos não condiz com a realidade – tema sobre o qual irei me aprofundar na análise dos dados obtidos através da realização do projeto.

Neste momento de reflexão sobre as teorias e sobre como elas auxiliam na compreensão das interações relatadas ao longo do projeto, vejo a necessidade de iniciar pelo tema da

37 globalização, já que ele esteve presente em todas as suas etapas, desde sua concepção, sua aceitação, até as colaborações estabelecidas e todas as interações que ocorreram entre os alunos das duas instituições. Acredito que é por meio da globalização que estamos cada vez mais em contato com “o outro” e precisamos compreender de que maneiras nós o vemos e de que forma isso influencia nossa relação com ele.

Um dos autores que explora o tema da globalização é Gärdenfors (2007, p. 67), e ele destaca que uma das consequências dessa globalização20 é a percepção do outro como “estranho”, uma vez que os padrões da outra cultura “não se encaixam naqueles da nossa cultura21”, fazendo com que lidar com as diferenças seja a regra e não a exceção (SUÁREZ- OROZCO e QIN-HILLIARDI, 2007). Assim como no exemplo acima, ao longo do projeto, as percepções sobre as diferenças nos padrões culturais tiveram que ser confrontadas e discutidas antes de se dar continuidade à realização das tarefas de negociação e criação de soluções para as situações-problema nele envolvidas.

Em conversas informais, já me havia sido possível notar, no papel de pesquisador e professor das disciplinas de língua inglesa do curso de Gestão Empresarial, tanto o desejo quanto o receio que os alunos demonstraram no início ao se comunicar com o grupo americano utilizando a língua estrangeira. E, frequentemente, a insegurança em relação ao resultado da comunicação e à “estranheza” com relação às atitudes dos estrangeiros era apontada como um dos fatores complicadores ao uso do idioma – fatores que possivelmente fazem parte do receio de grande parte dos falantes não-nativos ao utilizarem a língua inglesa em interações com falantes nativos, tema que considero de grande relevância ao se abordar o fenômeno da globalização e as práticas sociais que advém dessa maior comunicabilidade entre nações.

O fenômeno da globalização influencia também nas exigências do mercado de trabalho para que um curso como Gestão Empresarial tenha em sua grade curricular o ensino de língua inglesa como forma de preparação de um profissional apto a se comunicar também nessa língua. A meu ver, isso faz sentido, uma vez que o comércio mundial, facilitado pela globalização e, ao mesmo tempo, “criação” dela, demanda negociações nessa língua.

Segundo Held e McGrew (2003), os processos de globalização atuais e seus fluxos, interconexões e interações característicos são calcados em aspectos materiais, como o trânsito de mercadorias, e em simbólicos, como a utilização de uma lingua franca, leia-se o inglês.

20 O autor utiliza a palavra “globalização”, enquanto eu utilizarei neste trabalho “processos de globalização” com

o intuito de deixar clara a posição de que há uma série de processos em andamento e eles não ocorrem de maneira linear, tampouco impactam da mesma forma.

38 Conjuntamente, alteraram-se as concepções de tempo, distância e as formas como as pessoas se organizam local e mundialmente.

Algo semelhante ocorre com o sistema educacional, de modo que cada instituição, em suas peculiaridades e contextos diferenciados, encontra-se sujeita a processos de globalização que, segundo a Associação Internacional de Universidades (2003), devem ser discutidos por meio de associação a redes internacionais. Como resultado disso, concordo com Miura (2006), (apud MÜCKENBERGER et al., 2013) quando argumenta que a internacionalização das instituições acadêmicas possa ser vista não somente como uma resposta dada pelas instituições aos processos de globalização, mas também como catalisadores destes. Tal processo é definido por Knight (2003) como “um processo de integração de uma dimensão internacional, intercultural ou global aos propósitos, funções ou oferta de educação pós-secundária22”, sendo essa internacionalização parte do planejamento estratégico da unidade do Centro Universitário no qual trabalho e enfocada nesta pesquisa, conforme explicitarei mais adiante

Como sugerido acima, um dos objetivos deste trabalho é propor reflexões a respeito do ensino-aprendizagem de língua inglesa a partir dos subsídios do projeto de IV que descreverei ao longo da tese. O projeto mostrou-se como uma prática situada23 única e muito distante do “vamos fazer de conta que estamos em uma empresa”, típica de algumas aulas de inglês voltadas para a área de negócios. A fim de dar sustentação teórica às análises, faço uso da pedagogia dos multiletramentos, pelo caráter propositivo de letramentos que considera as múltiplas questões sociais e culturais vis-à-vis à utilização que fazemos da linguagem por meio dos diversos canais de comunicação disponíveis (COPE; KALANTIZ, 2017 e ROJO, 2012).

A filosofia que embasa os multiletramentos mostra, a meu ver, uma preocupação com a participação ativa e crítica nos diversos âmbitos sociais e, em nosso caso, na vida profissional, com olhares sempre atentos aos novos textos produzidos pelas mídias digitais (THE NEW LONDON GROUP, 2000) e, portanto, traz a possibilidade de um trabalho cujo foco não é apenas linguístico de maneira descontextualizada, mas sim social, objetivando, simultaneamente, o desenvolvimento de estratégias de comunicação na língua-alvo e também uma abertura no leque de possibilidades interpretativas e de negociação, fazendo da língua um

22 […] the process of integrating an international, intercultural or global dimension into the purpose, functions or

delivery of post-secondary education.

23 O The New London Group (2000, p. 35) define prática situada como “immersion in experience and the

utilisation of Available Designs, including those from the students’ lifeworlds and simulations of the relationships to be found in workplaces and public spaces.” Na tradução de Oliveira e Szundy (2014, p. 196) temos “imersão

na experiência e utilização de designs de significado disponíveis, incluindo aqueles relacionados à experiência de vida dos alunos e simulações dos relacionamentos a serem encontrados em espaços profissionais e públicos.”

39 instrumento para algo maior, que é o processo reflexivo e criativo dentro dos temas abordados no projeto.

Também ligado ao objetivo acima, busquei o amparo teórico da abordagem de ensino chamada ‘inglês para fins específicos’, definido por Dudley-Evans e St John (1997, p. 4-5) como uma abordagem com três características absolutas: a) foco nas necessidades dos alunos, b) a utilização das metodologias comuns à área de conhecimento em que está inserido, por exemplo, Gestão em Negócios, e c) foco na “língua (gramática, léxico, registro), habilidades, discurso e gêneros apropriados a estas atividades24”. O inglês para fins específicos tem, como um de seus alicerces (BELCHER, 2009; BASTURKMEN, 2010), o princípio de análise de necessidades, fundamental para o planejamento de atividades didáticas situadas, uma vez que busca a compreensão dos contextos profissionais em que os alunos estão ou estarão inseridos e sua conexão natural com a prática dos multiletramentos no que tange à investigação dos discursos especializados dos canais multimodais. Senti necessidade de integrar todas essas teorias ao projeto para me assegurar de que estaríamos mantendo o foco na disciplina que ministro, nas abordagens que tornam esse ensino mais significativo para os alunos e também nos temas importantes para o curso de gestão que eles estavam fazendo.

É importante salientar que, anteriormente à parceria internacional que propus, já se evidenciava nas aulas de língua inglesa um sentimento de descompasso25 entre os conteúdos ministrados, as práticas pedagógicas, as realidades profissionais e os desejos reportados pelos alunos. A combinação do sentimento de descompasso com a existência do projeto de IV em uma disciplina da área de Administração propiciou uma oportunidade renovada para refletir mais atentamente sobre uma situação verossímil ao que os alunos encontram/encontrarão no mundo do trabalho em nossa realidade global. Naquele momento, redobrei meu olhar atento e decidi pesquisar mais profundamente um dos projetos de IV do qual já havia participado – tema que abordarei em momento oportuno, mas sobre o qual já mencionei nessa apresentação inicial de forma a compor o pano de fundo de minha tese.

Com base no que apresentei nessa parte inicial do capítulo, convido o leitor a analisar a edição do referido projeto de IV, combinando situações presenciais e à distância. Mais especificamente, a pesquisa concentra-se nas interações que ocorreram neste projeto de IV - retrato contemporâneo dos cenários profissionais globalizados e online – e nas reflexões que

24 [...] language (grammar, lexis, register), skills, discourse and genres appropriate to these activities.

25 Suárez-Orozco e Sattin (2007, p. 2) afirmam que “a escola voltada para os jovens está, em sua maior parte, fora

de sintonia com as realidades de um mundo global”. [the schooling of youth today is largely out of synch with the

40 essas interações podem trazer a respeito de projetos colaborativos entre instituições de diferentes países, considerando-se questões de língua e cultura.

Inicio, portanto, a descrição do projeto de IV e, para tanto, foram definidos os seguintes tópicos:

• o histórico, que retrata com mais detalhes o início da parceria com o Community

College americano;

• a concepção, em que explico o design proposto para o projeto e seus objetivos; • e a visão geral, que relata os detalhes da condução do IV.

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