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Chapter 19 lex Reference
5. Character set
7.6 Ambiguous rules
Inspirada por sua última estada no Japão para trabalhar com Yoshito Ohno em 2019, Carla Normagna recorre ao exemplo dos tremores que se irradiam do chão japonês para elaborar melhor o estado vibratório que atravessa o corpo em sua prática. Ela lembra que, com a recorrência dos terremotos, Tóquio aprendeu que suas construções precisavam ser flexíveis, necessitavam ter certa plasticidade para não ruir. A artista cria uma analogia, então, entre essa plasticidade estrutural dos prédios japoneses e o corpo na vibração: “[...] se você estiver muito fechado em si mesmo não há como trabalhar sobre ela [sobre a vibração], uma vez que ela nos coloca numa borda a partir da qual as coisas possam ressoar. Onde não há espaço não há vibração. E esse espaço é dentrofora.”87 Em sua fala há, ainda, a alusão a outras imagens que se conectam ao modo como esse modo específico de vibração é concebido. Uma delas é a imagen do bambu, que Yoshito compara ao corpo humano nas práticas que orienta em seu estúdio: o bambu é uma estrutura firme, porém flexível porque vazia por dentro. E assim também pode ser nosso corpo.
Normagna fala de um dentrofora, de um ar que habita todos os espaços, de um espaço interno que é externo, assim como na banda de Moebius ou ainda no “anel de toro” ou na “garrafa de Klein”, que são imagens utilizadas na psicanálise lacaniana e que são lembradas pela artista, que prossegue enfatizando que
Desse modo, para a vibração acontecer é necessária a busca por essa espécie de espaçamento que permite esse habitar duplo e paradoxal. Algo que te descentra de uma ideia de eu bem como de interioridade e exterioridade que vem com ela. A vibração tem a ver com a percepção desses pequenos enodamentos que são espaços desdobrados e com a permissão de que uma certa ressonância tenha escuta e que possamos, mais do que controlar esse tremor, acompanhá-lo como uma testemunha silenciosa que se retira enquanto se permite fazer. Entre eu e não-eu talvez…88
Há, portanto, uma qualidade tensional nesse tipo de estado vibracional, que tem mais a
87Carla Normagna, em entrevista concedida a mim (realizada entre maio de 2018 e fevereiro de 2019).Anexo II
desta tese.
88Carla Normagna, em entrevista concedida a mim (realizada entre maio de 2018 e fevereiro de 2019).Anexo II
ver com uma abertura do que com um enrijecimento, seja ele relativo à atitude e ao pensamento ou à própria musculatura. Para começar a vibrar o corpo precisa se abrir. Se me contraio, eu seguro essa abertura e paro de permitir qualquer troca possível com o espaço. Se ao invés de ficar oca como o bambu, fico cheia como bloco de concreto, quase nada passa, quase nada circula. A racionalização excessiva da experiência, a não confiança nas sensações e nas respostas concretas que o corpo vai dando, além do enrijecimento muscular, podem travar completamente a experiência da vibração. Pode ocorrer também um bloqueio de ordem mais energética e sutil, como Carla notou algumas vezes no topo da minha cabeça, ao longo do intensivo mensal que fizemos no primeiro semestre de 2017.
Nesse ponto, também a imagem do corpo-esponja trazida por Laban, que visitamos no item 4.4 da tese, em que “[...] o espaço vazio dentro do corpo participa de todos os atos de resiliência da tensão de energia também no espaço vazio fora do corpo.” (s.d., arquivo L/E/5/15, p. 13)89 parece criar ressonância com a paisagem sensível desse estado vibratório na qual o corpo tanto habita como é habitado pelo espaço. O corpo canaliza as forças do espaço.
No que tange ao aspecto energético, poderíamos lembrar aqui que o próprio prana é descrito como qualidade vibratória. Como no livro Prana and pranayama, em que Saraswati (2009) descreve a vibração, justamente, como uma qualidade do prana, seja quando fala da vibração dos mantras e da descoberta desses sons pelos antigos mestres, quando fala das diferentes vibrações da comida que indicam qualidades e quantidades diferentes de prana, ou quando fala da vibração da própria respiração e de seus exercícios específicos. Sendo o prana pura dinâmica, nosso corpo prânico estaria, portanto, em constante estado vibratório, especialmente nos centros energéticos chamados chakras, os vórtices de energia localizados ao longo de sua linha central, desde o períneo até o topo da cabeça. Saraswati chega a chamar o corpo prânico [pranayama kosha] como “campo vibratório” (2009, p. 68) e essa energia, embora não possa ser objetivamente vista ou medida, pode ser sentida – como eu mesma já pude sentir ao entoar mantras, ao realizar pranayamas ou ao praticar o Sudarshan Kriya Yoga®. Penso que relacionar a sensação da vibração experimentada na prática de vibração-contenção- fluxo à vibração do prana pode ser um modo interessante de começar a compreender a prática não como um saculejar do corpo, mas como conexão com uma energia mais sutil que já está a vibrar em nosso corpo prânico que, por sua vez, está dentro e conectado ao nosso corpo físico.
89 No original: “[...] the empty space within the body participates in all the resiliency acts of the strain of energy also in the empty space outside the body.”
Por isso, intuindo uma relação entre prana e vibração-contenção-fluxo, comecei a realizar a respiração ujjayi antes de começar a vibrar como modo de preparação para a prática de Normagna. Além de me “assentar” no meu próprio corpo e no espaço-tempo da prática, me esvaziando gradativamente de expectativas e me abrindo ao momento presente, a respiração deixa em mim mais explícito um movimento vibratório interno sutil. Esse movimento, em meu caso, começa mais evidentemente na linha central do corpo, coincidentemente onde se localizam os chakras. É com essa primeira sensação vibratória que se inicia o processo de escuta e expansão da vibração que é, antes de tudo, um processo de abertura.