Em relação à cidade do Porto, apesar de não ser de uma variedade muito acentuada, existem alguns exemplares desde o século XIX de guias turísticos produzidos e editados quer no Porto, quer para o Porto.
Na elaboração da análise dos mesmos, é pertinente verificar quais são os guias encontrados e a sua edição, efectuando um estudo mais genérico no sentido de os caracterizar. Com este intuito, procuramos posteriormente verificar a sua forma externa, através do título facilmente identificável e o seu formato manuseável e transportável, e as suas condições de produção (se tem por base o estado ou o
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mercado turístico), porque consoante o ambiente de que é oriundo pode ser conotado com interesses mais ou menos comerciais ou ideológicos.
Os exemplares do século XIX que recolhemos como fonte de análise situam-se entre 1864 e 1877, e podem ser encarados como guias próprios do seu tempo, com uma explicitação longa, demorada e detalhada dos locais/monumentos a visitar, com recurso a pouquíssimas litografias. Os dois primeiros guias foram editados no mesmo ano de 1864.7 O primeiro, Elucidário do viajante no Porto, da autoria de Francisco Ferreira Barbosa, não utiliza o termo guia, mas sim elucidário (livro explicativo de coisas pouco conhecidas) que demonstra o estado de desconhecimento que os turistas/visitantes tinham do Porto. De seguida, o Guia histórico do viajante no Porto e arrabaldes, escrito por F.G. da Fonseca, já consegue inserir no espaço do texto algumas gravuras. Por último, o Guia do viajante na cidade do Porto e seus arrabaldes de 1877 por Alberto Pimentel, um autor portuense que no seu discurso descritivo das atracções para os viajantes consegue em algumas páginas aliar a descrição do Porto oitocentista, a comentários de cariz crítico e pessoal, a título de exemplo - “O Porto, que come a tripa e o biscoito não pode pensar exactamente do mesmo modo que Lisboa, que dá uma preferência habitual á fava, á ervilha, á alface e ao peixe.” (Pimentel, 1877, p. 14) -, com transcrições de passagens de escritores portugueses como por exemplo, Camilo Castelo Branco (Faro, 2005).
Durante o século XX e os primeiros anos do século XXI, a edição de guias conheceu um grande aumento, pelo que de 1902 a 2011 muitas são as possibilidades de escolha. Em 1902, Eduardo Sequeira escreve o Guia illustrado do Porto. Em 1910, surge o Guia do Porto Illustrado de domínio privado da empresa dos guias “Touriste”. Cerca de 1916, a Sociedade de Propaganda de Portugal lança O Porto e seus arredores – indicações geraes para uso dos viajantes. Alguns dos acontecimentos importantes na história da cidade surgem como meios para a criação de outros guias, como o de 1934, Guia oficial do visitante da exposição colonial portuguesa – Porto, editado por Antunes Leitão e Vitorino Coimbra, que surge como auxílio dos visitantes, aquando da exposição sobre as colónias portuguesas de Macau, África ou Índia a
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Dado que ambos os guias são editados no mesmo ano, tomaremos o Elucidário do viajante como o primeiro guia, apenas para uma questão de melhor entendimento.
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decorrer no Palácio de Cristal. Em 1956, no seguimento de um conjunto de guias turísticos, aparece o Guia Panorama – Porto, que em apenas vinte páginas faz uma apresentação dos principais pontos. Por seu turno a própria câmara municipal da cidade começa a editar os seus próprios guias, culminando com o Guia turístico do Porto de 1996, ano em que ocorre a classificação do centro histórico como Património da Humanidade.
Já depois do ano em que o Porto foi Capital Europeia da Cultura em 2001, novos guias têm surgido (alguns como actualizações) como o Guia American Express – Porto de 2008. Em 2010, surge o Guia Touaqui – Porto, um guia
“da cidade, feito por quem conhece o Porto, quem gosta do Porto, mas sobretudo, por quem vive o Porto na primeira pessoa, fazendo dele o seu palco do dia a dia. Segundo uma perspectiva inovadora, com uma diferente organização, uma nova abordagem à cidade e aos seus pontos de interesse e com uma imagem, grafismo e fotografias que o reflectem, este novo guia dá ao seu leitor, uma nova forma de ler o Porto.” (Objecto Anónimo,
2010).
No ano seguinte, a câmara municipal envereda por outro caminho, criando o guia Porto Percursos (2011), que cria percursos inspirados no barroco ou até mesmo nos azulejos. Porém quanto à análise dos mesmos, deteremos mais atenção na parte prática e crítica deste estudo.
Em termos gerais, tal como Gonçalves (2008) refere no seu estudo sobre Lisboa, os títulos utilizados não se desviam do padrão, exceptuando como já foi dito anteriormente o Elucidário do viajante de 1864, e o Porto Percursos de 2011 que não faz qualquer referência ao termo guia. De salientar é que na sua totalidade, todos eles têm no seu título, a denominação Porto, o que permite a não existência de qualquer factor de confusão aquando da sua procura. Também é importante referir que os primeiros guias editados fazem menção directa ao alvo para o qual foi criado, o viajante (guias do século XIX e inícios do século XX). Em termos de utilização prática, estes são todos de pequeno porte conferindo-lhes um fácil manuseio e portabilidade. Importante é também a autoria e o contexto histórico no entendimento destes mesmos guias. Grosso modo, os títulos publicados são de origem comercial, havendo
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a presença de alguns guias de edição pública e mais recentemente da própria aposta das entidades públicas. Os primeiros títulos são os únicos que aparecem como edição ou autoria privada, apoiados não só no que a cidade tem à disposição como também numa espécie de memória experienciada como é o caso de Alberto Pimentel. Em suma, isto permite dizer que existem guias com um contexto mais pessoal (de edição individual), guias de contexto político/promocional e os guias comerciais, cada vez mais prolíferos já que são escritos/editados por profissionais da área.
3.6. Conclusão
Os guias turísticos, tal como os conhecemos actualmente, são fruto de anos de evolução, quer no seu conteúdo, quer nas forças sociais e políticas que se cruzam na edição dos mesmos. São como que a imagem mais rapidamente projectada da cidade, para que o turista a conheça. São então formatados para os olhos daqueles que a desconhecem senão totalmente, pelo menos parcialmente.
Estes livros podem então ser entendidos de duas formas. Uma, mais pragmática auxilia o turista na visita a uma cidade, região ou país. Isto porque oferece informação básica sobre os monumentos, os locais de acomodação ou restauração. A outra forma, mais académica e menos requerida, é a de usarmos os guias turísticos como fontes documentais para analisar o espaço que neles é referido. Pois estes podem ser o espelho da situação política ou social que se vive no tempo da escrita.
Não podemos também deixar de referir a importância que a própria constituição e progressão da cidade tem para a existência dos guias. Estes só servem o seu objectivo se de facto existirem turistas para visitarem a cidade. E é através de toda a oferta presente no espaço territorial urbano que os guias ganham fulgor para se tornarem a representação imaginária de um espaço real. Assim aproximamos o estudo dos guias, relacionando-os com a cidade, a qual mais adiante terá a atenção devida.
Em relação aos guias do Porto, estes têm vindo a ser cada vez mais (apesar de os primeiros apontamentos dos monumentos da cidade aparecerem em almanaques, o primeiro guia turístico mais próximo do modelo padrão surgiu em 1864) e mais eclécticos, passando de edições privadas e pessoais para edições mais comerciais, isto
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porque as entidades que os visualizam procuram novas formas de dar a entender a cidade e o seu património, mantendo o interesse activo do turista.