Minéralisation des litières
3. Synthèse des résultats
3.2. Approche isotopique
3.2.1. Les isotopes du Sr comme traceur de source et comme proxy du calcium
3.2.1.2. L’altération des minéraux du sol
Em matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo no dia 12 de novembro de 1996, e intitulada “Guinada no social”26, é apresentada a organização geral do Programa bem como
seus objetivos no tocante ao combate ao analfabetismo. Quanto à organização geral, ela é baseada no que Barreyro (2010) denomina publicização. Segundo a autora, nesse contexto em que o país passava por uma Reforma de Estado que incluía diversas privatizações, a
publicização é a seleção de alguns serviços, como os serviços sociais, culturais, de proteção
ambiental, de pesquisa científica e tecnológica que passam a ser considerados atividades públicas não-estatais e “as subvenções sociais e as dotações orçamentárias seriam transferidas do poder público, porque as organizações sociais seriam reconhecidas como de interesse e utilidade pública e, por isso, habilitadas a receber recursos financeiros e a gerenciar recursos materiais e humanos cedidos pelo Estado” (BARREYRO, 2010, p. 178), Nesse sentido, na matéria do Folha de São Paulo, a organização das funções do Programa Alfabetização Solidária fica assim definida: “A implementação, coordenação e fiscalização do programa deverá ser da sociedade, por intermédio de três agentes básicos: prefeituras, universidade e
empresas”, cabendo ao Ministério da Educação o pagamento das bolsas dos professores, o
material didático e a supervisão pedagógica do curso. Além das questões levantadas acerca de uma terceirização da responsabilidade do Estado com a educação de jovens e adultos prevista desde a Constituição de 1988 (BARREYRO, 2010), o Programa também foi criticado por suas escolhas de práticas consideradas ultrapassadas (SOARES; GALVÃO, 2005). Voltado a
jovens de 12 a 18 anos, e mais especificamente a municípios cujo IDH fosse inferior a 0.5, concentrando-se, inicialmente, nas regiões Norte e Nordeste, havia nele uma grande rotatividade das pessoas envolvidas com o processo de alfabetização, haja vista que cada alfabetizador era trocado após 6 meses bem como não era necessário que os mesmos tivessem uma formação específica na área, o que, segundo Soares e Galvão (2005) reforçava e ideia de que qualquer um sabe ensinar. Ademais, de acordo com os autores, o fato de as coordenadas do Programa partirem das regiões Sul e Sudeste para serem aplicadas nas regiões Norte e Nordeste pressupunha uma certa submissão destas àquelas.
Com relação aos discursos de promoção da leitura que embasam suas atividades, na referida matéria afirma-se que “O programa não se resumirá a ensinar analfabetos a assinar o próprio nome. Mas pretende prepará-los para alguma atividade básica voltada para a economia”. Vê-se aí que a representação da leitura norteadora das ações do Programa, de modo geral, tem um viés mais pragmático, cuja função estaria relacionada ao desenvolvimento econômico do país. Isso porque, segundo Fávero e Freitas (2011, p. 379), “no período, foi importante ainda a discussão posta por algumas entidades e por alguns educadores sobre a categoria trabalho como fundamental, tanto para a educação em geral, em especial para o ensino médio e à educação de jovens e adultos em particular”. Se, citando como exemplo o Mobral, o foco era a promoção humana, em que estavam incluídas melhores colocações profissionais, para o Programa, a alfabetização tem como finalidade tornar os sujeitos produtivos. Para Traversini (2003, p. 15) “o cruzamento do discurso da produtividade econômica com o da alfabetização foi uma das formas encontradas para instituir o analfabetismo como um problema, criando, assim, a necessidade de agir sobre ele”. Ainda estabelecendo comparações entre os dois movimentos supracitados, parece-nos que a referência à necessidade de fazer com que a alfabetização seja mais que a possibilidade de assinar o próprio nome é uma crítica velada ao movimento dos anos 1970, uma vez que, como vimos em algumas publicidades da época, o convite para colaborar com o Mobral se devia à urgência de que ninguém mais assinasse usando as digitais (vide figura nº 12).
Uma das campanhas desenvolvidas no interior do Programa Alfabetização Solidária, em 1999, foi a “Adote um analfabeto”, que visava amealhar recursos para o desenvolvimento de suas atividades. Em matéria também publicada pelo jornal Folha de São Paulo em 05 de julho do referido ano, cujo título é “Programa cria ‘adoção’ de analfabeto”27, as intenções da
campanha foram assim definidas:
‘Queremos envolver as pessoas no programa e captar recursos para ampliar o atendimento’, diz Regina Esteves, coordenadora-executiva nacional do Programa Alfabetização Solidária.
A idéia é que as pessoas ‘adotem’ um analfabeto por um prazo de seis
meses – tempo de duração de um módulo do programa. Quem
resolver ‘adotar’ um analfabeto vai pagar R$ 17 por mês, debitados no cartão de crédito. O valor corresponde a metade do custo mensal total de um aluno. A diferença será bancada pelo MEC (Ministério da Educação).
Pelo excerto supracitado, é possível verificar o funcionamento do Programa baseado na publicização a que se refere Barreyro (2010), uma vez que se propõe o reparte das despesas de alfabetização dos alunos entre Estado e sociedade. Mais do que isso, por meio da matéria em questão pode-se depreender algumas representações dos sujeitos a que se destinam as atividades do Programa bem como daqueles que a promovem, possibilitando-nos, em certa medida, compreender como a leitura era concebida e quais razões levam a promovê- la. Tratando especificamente da campanha “Adote um Analfabeto”, Soares e Galvão (2005, p. 272) afirmam que “o PAS contribuiu para reforçar a imagem que se faz de quem não sabe ler e escrever como uma pessoa incapaz, passível de adoção, de ajuda, de uma ação assistencialista”. Tal caráter assistencialista pode ser constatado já pela escolha do adjetivo “solidária” utilizado para qualificar o programa de alfabetização. Nesse sentido, a questão da alfabetização é, em certa medida, desprendida da obrigação governamental e vista sob o viés da solidariedade, do auxílio dos providos aos desprovidos, remontando aos gestos de caridade preconizados pela igreja, como forma de expiação de culpas mundanas dos privilegiados. Essa é também a tônica da campanha em questão, expressa pela possibilidade de “adotar um analfabeto”, mas cuja proposição não foi bem recebida, posto que:
Um adulto adotado implica em uma visão construída não a partir da igualdade, mas da superioridade do adotante. Parece significar que a igualdade legal é inferior à desigualdade de renda. Considerar um sujeito adulto como sendo passível de adoção não é considerá-lo como um sujeito de direitos que precisa ser diferenciado apenas em estratégias pedagógicas específicas e adequadas que lhe permitam apreender [sic] como adulto, e não ser adotado. (BARREYRO, 2010, p. 186)
Observamos assim a recorrência, de modo geral, de um imaginário, atualizado de distintas formas, do analfabeto como incapaz e da consequente necessidade de uma ação assistencialista por parte daqueles que sabem ler com vistas a combater o “terrível mal” do analfabetismo que assola grande parte da população. Tal imaginário, como discutimos, já norteava as ações de erradicação do analfabetismo desde o início do século XX, como, por
exemplo, a atuação da Liga Brasileira Contra o Analfabetismo, em 1915, que, pautada também por uma crença na incapacidade dos sujeitos que não sabiam ler, colocava o seu combate como dever de honra de todo brasileiro, evidenciando seu caráter filantrópico, religioso. O Programa Alfabetização Solidária ainda existe, agora sob uma distinta denominação (AlfaSol) e formato, definindo-se, em seu site, como “uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos e de utilidade pública que desenvolve ações que visam contribuir para a redução dos altos índices de analfabetismo e ampliar a oferta de Educação
Profissional e de Jovens e Adultos”. Quanto à campanha de ‘adoção’, ela também prossegue,
sofrendo, no entanto, uma modificação importante: indica-se não mais a “adoção” de analfabetos, mas de alunos, como é possível verificar pela imagem que figura na página inicial do site da instituição. Trata-se de uma foto da atriz Regina Duarte, que veste uma camiseta na qual se pode ler: Apenas R$ 30 por mês por 12 meses. Apoiado em sua mão esquerda também há um símbolo gráfico com uma conta matemática segundo a qual 30X12 =
LER. Em primeiro plano há um símbolo amarelo, onde se lê: Adote um aluno.
Essa mudança de termos, acreditamos, ao mesmo tempo em que foge desse imaginário do analfabeto como incapaz, coloca a alfabetização (sinônimo, nesse caso, de educação) como ‘direito de todos’, apesar de esse direito depender da solidariedade popular a quem são solicitadas as doações. No tocante aos discursos sobre a leitura que embasam a referida campanha e justificam sua promoção, eles representam-na como prática propiciadora de independência e liberdade:
Toda a pessoa, independente de idade, tem direito ao conhecimento. A leitura, mais do que um conhecimento é a oportunidade de ver o
Figura 13 – Campanha Adote um aluno
mundo, de ter liberdade de ir e vir sem a ajuda dos outros, é a possibilidade de buscar informações sem precisar da ajuda de ninguém, o que possibilita não só a independência, mas também a
elevação da auto-estima. A educação é direito de todos!