PARTIE 2 - INVENTAIRE ET ETAT DE CONSERVATION DES PO-
2. RÉSULTATS
2.2. Alpes vaudoises : lac Nervaux
A dança pode ser considerada uma linguagem cênica produtora de espaços abertos ao inusitado. Não precisa ser compreendida como técnica codificada, mas pode ser vista como processo que permite descobrir e elaborar maneiras diversificadas de desenvolver vocabulário corporal e expressão por meio do movimento.
Esta forma de entender a dança deve-se, em grande parte, às idéias e teorias que permeiam o pensamento sobre sua condição na contemporaneidade. Essa condição não diz respeito unicamente ao sentido temporal, mas refere-se, principalmente, ao sentido estético da dança enquanto linguagem artística.
Desse modo, vale ressaltar os estudos sobre a chamada dança pós-moderna. Antes, porém, faz-se necessário tecer comentários acerca da compreensão que esta tese possui sobre o que significa ser pós-moderno em arte. Reconheço que uma tarefa dessa natureza seja, de fato, bastante árdua, no entanto, a intenção aqui não é fazer um estudo detalhado do movimento pós-moderno, mas sim salientar suas principais características a fim de introduzir as reflexões sobre as mesmas no âmbito da dança.
Silva (2005) realiza um estudo aprofundado sobre a pós-modernidade no contexto da dança, porém sem deixar de percorrer de modo abrangente e, ao mesmo tempo, preciso, o referido movimento. A autora explica:
O movimento pós-moderno nas artes, a começar pelo seu nome, já indica uma série de questionamentos de peso. [...]. Independentemente de tratar-se ou não de uma quebra de conceitos, valores e técnicas como é habitual nas revoluções artísticas, o pós-modernismo estabelece-se não apenas no domínio estético, mas instala suas influências também nas áreas intelectual, acadêmica, cultural e especialmente na esfera do comportamento e práticas cotidianas. Esse painel finda por criar toda uma estrutura de pensamento, como uma orientação geral à qualidade de vida contemporânea (SILVA, 2005, p. 59-60).
Essa estrutura de pensamento a qual Silva se reporta é manifesta por intermédio de características como a multiplicidade, a fragmentação de imagens, a utilização de referências diversas, a experimentação, dentre outras.
Harvey é um dos escritores que estuda a pós-modernidade dentre os quais a autora se vale em suas reflexões.
O pós-moderno privilegia a heterogeneidade e a diferença como forças libertadoras na redefinição do discurso cultural. A fragmentação, a indeterminação e a intensa desconfiança de todos os discursos universais ou (para usar um termo favorito) ‘totalizantes’, são o marco do pensamento pós-moderno (HARVEY apud SILVA, 2005, p. 66).
Há, portanto, na produção de arte pós-moderna, uma tendência ao caráter cultural fragmentário e plural, além da predisposição à interdisciplinaridade e ao diálogo com as diversas linguagens artísticas.
Desta forma, Silva (2005) salienta como conclusão a idéia de que o pensamento vigente no pós-modernismo implica no fazer artístico, provocando um movimento único, porém não uno, mas qualificado pela multiplicidade evidente nas instâncias social, cultural, política e científica da humanidade.
Dentre as qualidades mais significativas do pós-modernismo na vida e, especialmente, nas artes, Silva (2005, p. 76-77) aponta:
A pluralidade de significados, de discursos, de processos e de produtos; a invenção como reestruturação; a referência ao passado; a presença da paródia e da ironia; a não negação de correntes artísticas anteriores; as mudanças nas configurações de tempo e espaço; a velocidade de criação artística e tecnológica de informação; a fragmentação, multiplicação e descontinuidade da imagem; a interdisciplinaridade entre as artes e além das artes; o processo artístico visível no produto; a rejeição da narrativa linear; a abolição entre as fronteiras da vida e da arte; a abolição entre as fronteiras da cultura erudita e cultura popular; a nova estrutura de pensamento, sentimento e comportamento artístico e uma ampla liberdade de criação.
No caso da dança pós-moderna, acredito que ela possua como características todas as qualidades levantadas por Silva em seu estudo, contudo, penso que, dentre essas qualidades, a pluralidade seja, fundamentalmente, a mais evidente. Esta pluralidade, de que fala Silva (2005), remete-se à idéia de multiplicidade, uma vez que, no meu entendimento, os termos possuem como premissa, noções de diversidade e variedade.
Nesse sentido, Calvino (1990), em seu estudo, refere-se a algumas obras literárias para explicar a multiplicidade, desejando que as obras do próximo milênio tenham como vetor um grande número de possibilidades, uma grande variedade de pensamentos e idéias que, ao serem constatadas pelo leitor, propiciem a multiplicação de si mesmas. Para Calvino (1990, p. 131): “hoje em dia não é mais pensável uma totalidade que não seja potencial, conjetural, multíplice”. Não havendo, portanto, unidade na totalidade das coisas, a multiplicidade passa a ser um princípio de vida, assim como o é para a literatura investigada por Calvino. Esse princípio literário, todavia, pode ser utilizado como referência para as diversas linguagens artísticas, tornando a multiplicidade, assim, viva nas diversas produções.
De qualquer maneira, é importante entender que a multiplicidade, ou pluralidade, na dança é o atributo em meio ao qual co-habitam múltiplas idéias e formas de lidar com o movimento e a cena onde são construídas variadas poéticas. Essas poéticas, por sua vez, servem-se de uma gama diversificada de técnicas corporais, ora seguindo seus padrões formais, ora transfigurando-os e configurando outros padrões, entretanto, dedicando-se, primordialmente, à pesquisa do movimento como motivação criadora.
Banes (1992), analisando a trajetória da dança pós-moderna americana, explica que o termo pós-moderno em dança pode ser compreendido de diferentes maneiras, de acordo com os períodos históricos de sua existência. A autora afirma:
O significado do termo ‘pós-moderno’ em dança é parcialmente histórico e descritivo [...]. Começou como um termo coreográfico para chamar atenção para uma nova geração de artistas da dança. Esses artistas [...] não eram necessariamente semelhantes quanto ao estilo. Seus métodos criativos variavam [...]. No final dos anos sessenta e início dos anos setenta, os membros dessa geração de artistas aliaram-se à galeria da arte mundial, criando um estilo mais unificado que eu denomino de ‘dança pós-moderna analítica’. [...]. Na dança pós-moderna, o estilo analítico prevaleceu e simultaneamente um novo grupo de coreógrafos, trabalhando numa veia mais teatral, criou o que denomino de ‘dança pós-moderna metafórica’. [...]. Nos anos oitenta e noventa, uma segunda geração daquilo que poderia realmente ser chamado de coreógrafos pós-modernos – muitos deles alunos e seguidores da primeira geração – assim como várias outras formas de movimentos pós-modernos estrangeiros, finalmente se junta à primeira geração. [...]. Em um certo sentido, o movimento pós-moderno em dança, começou realmente como pós-moderno, passou por um interlúdio modernista, e agora embarca de novo em um segundo projeto pós-moderno (BANES, 1992, p. 20-22).
De um modo geral, a partir das considerações de Banes, observa-se que a dança pós- moderna, independente do período existencial, apresenta, como característica determinante, a diversidade estilística. Tal constatação implica a necessidade de olhar essa dança por um
prisma eminentemente estético, no qual as imagens verificadas são completamente díspares, constituindo múltiplas configurações coexistentes.
Acredito ser esse o predicado da dança no momento histórico atual. Banes (1992) realiza sua análise até os anos noventa e aponta uma sugestão para o futuro, a qual chama de segundo projeto pós-moderno. Enquanto pesquisadora da dança, tomo a liberdade de, a partir do exame histórico da autora, refletir sobre esse novo projeto, isto é, a produção de dança do novo século, admitindo como atributo primordial a convivência de múltiplas proposições, processos e produtos entre si. Dança pós-moderna propriamente dita, dança pós-moderna analítica ou dança pós-moderna metafórica são denominações que, designadas por Banes, refletem etapas da construção de uma estética em dança. Hoje, presentes de maneira simultânea e evidenciadas nas diversas produções coreográficas, essas etapas constituem algumas das poéticas contemporâneas de dança.