O início de tudo está na Procissão do Fogaréu. Realizada à meia-noite de quarta-feira da Semana Santa, é uma encenação para-litúrgica da perseguição dos soldados romanos a Cristo. É a Procissão mais importante, tendo se tornando um símbolo da Cidade de Goiás. O motivo é sua estética impactante, seu ritmo intenso, o seu movimento célere pela cidade, o seu mote: prender Cristo. Fora do calendário litúrgico, como muitas das atrações desse período, a existência dessa procissão se dá pela ação da Organização Vilaboense de Artes e Tradições. Para Britto:
O Fogaréu é o espetáculo resultante do encontro das chamas da festa e da lembrança na foz ardente da comemoração, rememoração. Festeja-se a lembrança de um acontecimento e promove-se a celebração de uma lembrança. Através da evocação são reforçados valores e traços culturais considerados significativos e o rito mantém acesa a memória. (BRITTO, 2008, p. 9).
A origem da procissão do Fogaréu é europeia. “Repositório de memórias da Península Ibérica que se espraiaram pelas cidades coloniais brasileiras e que encontraram porto seguro no sertão de Goiás” (BRITTO, 2008 p. 129). A procissão acontece uma vez por ano, sua efemeridade e seus elementos: o farricoco, as luzes, o itinerário.
O farricoco é uma personagem autônoma do Fogaréu. Se a fé vilaboense desloca seu eixo da ressurreição para a dor e o sacrifício e não volta para ela na
Páscoa, o eixo da Semana Santa desloca-se para a imagem do farricoco, portando o archote, saindo de Cristo Padecente. A prisão de Cristo é um ponto importante da narrativa de sua paixão e morte. O sofrimento começa nesse momento, em Goiás é um tempo sagrado que começa com a imagem do penitente vestido de capuz portando o fogo, símbolo da luz, da purificação (BRITTO, 2008, p. 22-23). O aspecto extremamente impactante de suas vestes e a tarefa abjeta a que se propõe: representar aqueles que prendem Cristo, por isso cobertos, penitentes (p. 28), escondendo as suas faces. Essas figuras não eram incomuns no mundo ibérico do século XVIII, mas ajudavam a compor um cenário já conhecido do elemento português que veio para cá, sejam paulistas, sejam lusitanos de nascimento.
O farricoco, assim, é uma narrativa que media o saber ibério e o sertanejo, é uma “história” cujo significado extrapola as determinações que orientam o senso-comum e a reflexividade cotidiana. Desse modo, o compreendemos como narrativa não apenas porque consegue atrair a atenção dos espectadores, por sua rememoração ou por transmitir parte significativa da história do cristianismo. Mas também porque esse personagem tece os fios da memória a partir de uma perspectiva peculiar, de uma moldura própria que como mito, entre o sagrado e o profano, tem o condão de moldar nosso olhar sobre nós mesmos (BRITTO, 2008, p. 24).
O farricoco é ibérico e passa a ser brasileiro também, personagem-síntese de uma memória que boiava no século XX, vinda da profundeza de tempos anteriores.
Imagem 60: Nazarenos de Sevilla, Espanha, penitentes ibéricos de gorros cônicos da Semana Santa. Imagem de livreto da Semana Santa. Acervo particular de Rafael Lino Rosa.
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Imagem 61: Nazarenos de Sevilla. Livreto do acervo particular de Rafael Lino Rosa.
Imagem 62: Os Nazarenos cuidam de passos específicos das dores de Cristo e cada grupo tem um dia de ação na Semana Santa. Acervo particular de Rafael Lino Rosa.
Imagem 63: Gitanos de Granada. Acervo Particular de Rafael Lino Rosa.
O fogaréu é luso-espanhol e brasileiro, ibérico na sua origem, brasileiro na sua atual forma de execução:
Diferente de outras manifestações religiosas/populares, como as festividades do Divino que são apontadas por Eduardo Etzel (1995) como luso-brasileiras, a Procissão do Fogaréu e seu personagem-símbolo, o farricoco, comparecem tanto em Portugal, quanto na Espanha, e em algumas de suas colônias da América, contribuindo para que possamos designá-los como de origem ibérica (BRITTO, 2008, p. 24).
A procissão e seu itinerário pela cidade fala sobre os trajetos da fé, as significações das coisas realizadas em percurso. As procissões são o deslocamento do ser sagrado em itinerários específicos, um ritual que se faz em movimento, em performance: “Uma procissão consiste em espraiar o sagrado pelas veredas da vida cotidiana” (BRITTO, 2011a, p. 130). O caráter peculiar do cristianismo e seus
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deslocamentos físicos como forma de fé remonta à história sagrada. O ministério evangélico de Jesus era cheio de viagens, a última feita à cruz. O tipo de deslocamento em que o Fogaréu se encaixa é o da procissão, onde o sagrado caminha por espaços profanos (p. 131). Por isso a procissão anda pela cidade, em percurso que justifique a necessidade de se marcar o caminho do sagrado pelos espaços significativos do mundo material, no trajeto de uma procissão, por exemplo, não é incomum passar-se em pontos estratégicos, simbólicos e significativos de um local.
As procissões são, principalmente, circulares, seu trajeto não inclui “cruzamentos”, ou seja, as rotas de procissão não passam duas vezes pelo mesmo local, cruzando-os duas vezes, e geralmente simbolizam um ciclo de ida e volta, um movimento de retorno ao estado anterior, simbólico do ciclo religioso da vida: “do pó veio, ao pó tornarás” (Gn. 3, 19), são dramas ambulantes. O caráter eminentemente penitencial e dramático do farricoco é reforçado por Britto (2014), ao ligá-lo às penas
impostas pelo Tribunal da Inquisição, uma delas o sambenito, “hábito penitencial humilhador que identificava a condição de penitente e que deveria ser usdo por tempo arbitrado pelo Tribunal” (p. 260). Farricoco e sambenito eram associados à ideia de purificação e ordem, por isso formam corpo de um arsenal de recursos para esse fim. Essas figuras penitenciais acompanhavam as procissões do ciclo da Quaresma e da Semana Santa na Península Ibérica, como atestam as imagens desse texto e passam à atualidade como memória de símbolos seculares:
A forma cônica dos capuzes dos Nazarenos da Semana Santa espanhola (e por analogia poderíamos dizer dos farricocos de Goiás) evocaria uma aproximação do penitente ao céu, interpretado por muitos cristãos como lugar de salvação. Esse valor simbólico se aproximaria do que tem os ciprestes, árvores de copa pontiaguda, presentes nos cemitérios cristãos que teriam o condão de aproximar os mortos aos céus (BRITTO, 2014, p. 263).
Com o passar dos séculos, a ideia da penitência onde ela acontecia (procissões quaresmais e da Semana Santa) fundiram-se numa só ação. O Fogaréu passou a ser uma encenação do ciclo passionário, transformando a figura do farricoco em um de seus agentes, o perseguidor de Cristo, uma metáfora importante do papel do pecador em suas relações com o próprio Salvador, ao infligir-lhe sua pena, vinda direta do imaginário cristão e católico romano (BRITTO, 2014. p. 263).
A Procissão do Fogaréu mostra outras instâncias importantes, na Cidade de Goiás: a atuação feminina de Goiandira do Couto, artista plástica vilaboense, no resgate de uma memória masculina e vetada às mulheres (BRITTO, 2014, p. 264- 266). O desaparecimento da Procissão do Fogaréu, assim como outras manifestações, irmandades e rituais ante a romanização do final do século XIX, e o seu reaparecimento em 1966, como atração turística, baseada em memórias, documentos, atas de reunião de
irmandades e nas lembranças de mulheres idosas (p. 265). A procissão é uma ação cultural, dramática e religiosa, sob os auspícios de grupos voltados à cultura. Sua
Imagem 64: Farricocos portando archotes em procissão. Cidade de Goiás.
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realização é uma das atribuições da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (BRITTO, 2014, p. 265).
Imagem 65: Concentração de voluntários para vestir os farricocos no Quartel dos 20. Cidade de Goiás.
Imagem 66: Farricoco vestido na companhia de Rafael Lino Rosa.
É importante se ater a outros detalhes: o trajeto da procissão e seus acontecimentos. A Procissão do Fogaréu embasa-se na narrativa evangélica para compor seu cenário e seu trajeto. Os farricocos perseguem Jesus e o buscam no local onde ceavam ele e seus apóstolos. Quando a turba chega, Cristo já houvera deixado o local. O Cristo que é preso, na Igreja de São Francisco de Paula, é representado
pelo Estandarte, em que se representa um corpo que já foi martirizado, morto, encontra-se portando chagas. Isso faz um salto na narrativa, porque mostra um Cristo que já foi preso, torturado, julgado, crucificado e aguarda a ressurreição e não aquele que se buscava prender. Daí, retornam com a flâmula para o Museu de Arte Sacra da Boa Morte, onde a procissão se iniciara.
O número de farricocos remonta à
quaresma: 40 indivíduos encapuzados. O significado da procissão é a busca do Cristo Padecente, não aquele que estava por padecer. A presença da Diocese é marcada pela homilia do bispo ou de outro padre ao final, no adro da Igreja de São Francisco de Paula. A ideia da procissão, no imaginário coletivo, é sintetizar a busca por Cristo, o seu sacrifício. De qualquer forma, os estandartes de Cristo eram comuns nas procissões ibéricas dos Fogaréus (BRITTO, 2008, p. 53), e esse costume aportou no sertão goiano.
Imagem 68: Estandarte pintado com a imagem de Cristo. O verso também é pintado, para ser visto de costas.
Imagem 67: Farricoco portando archote. Ao fundo, o estandarte de Cristo
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Durante a Semana Santa, várias linhas narrativas do sacrifício de Cristo são soltas, entrecruzando-se umas com as outras: Cristo Padecente carrega a cruz na Festa de Passos, Maria refaz seu caminho na Semana das Dores, o Fogaréu anda nos passos de Cristo, a procurá-lo e achá-lo, a procissão do Senhor Morto mostra a sua ida ao sepulcro. A presença da devoção ao Senhor dos Passos está no canto de seus motetos ou na figura dos irmãos vestidos de murças e balandraus, fato que parece cerzir as semanas anteriores aos espetáculos da quarta-feira em diante. Assim como nos três Evangelhos sinóticos e no Evangelho segundo João, a mesma história é contada de diversas formas, focando pontos diferentes da Paixão e morte.
A Semana Santa propriamente dita é espetacular e parece ser mesmo feita para mostrar o espetáculo da Paixão de Cristo aos visitantes. O rito tem características que o torna um drama de fé. A ideia do ritual é produzir uma “continuação do evento do mundo como eco recebido e reproposto pelo homem através do seu corpo.” (TERRIN, 2004b, p.166). O rito é todo marcado de regras, como um roteiro fixo, como uma dramatização:
Quem realiza um rito não o vê em perspectiva, mas o vive em plenitude, assim como quem joga um jogo identifica-se como jogo, com suas regras, e se deixa simplesmente transportar para um outro mundo.
[…]
Realizar um rito significa por em ação uma modalidade primária do próprio ser do mundo. Não se é capaz de perceber adequadamente o próprio modo de ser ou o próprio modo de comportar-se. O rito é um comportamento entendido como prolongamento da própria atividade da pessoa e do grupo (TERRIN, 2004b, p. 179).
De regras rígidas, o rito não é como o jogo e algumas vezes as dramatizações teatrais que possibilitam a flexibilização das regras ou a criação de novas. No entanto, o seu efeito de criação de um novo universo, de suspender momentaneamente a realidade é presente. A espetacularização do rito é, certamente, um dos motivos para que ele seja uma atração pública cultural, que chama a atenção e a presença das pessoas para si (TERRIN, 2004b). O rito tem regras próprias e aciona o sagrado através da recriação de uma nova realidade transitória, isso aproxima o rito do espetáculo dramático porque “na performance existe uma qualidade do conhecimento como algo que se constitui no nível simbólico e que, por isso, comporta alguma coisa criativa, realizada, e também transcendente em relação ao curso ordinário dos eventos” (p. 352).
A identidade multifacetada da religiosidade vilaboense tem na Semana Santa e no Fogaréu a sua face mais pública. O Fogaréu, no entanto, adquire, para os
moradores, um caráter interno, produzido para fins específicos, pois eles tendem a ver no Senhor dos Passos e na sua festa aquilo em que realmente acreditam e aquilo que os representa como cristãos, enquanto o Fogaréu é um espetáculo complementar:
Terminadas as comemorações que prenunciavam a “Paixão”, anualmente renovadas na memória coletiva dos moradores de Goiás (Cf. HALBWACHS, 2006), que as relataram em suas reminiscências assemelhando-as às visões atípicas de préstitos, que como imensas “línguas de fogo” enfeixadas pelas ruas da cidade e alimentadas pela queima de velas produtoras de uma luminosidade incomum ao cotidiano pacato da urbe seguiam-se as cerimônias do Lava-Pés às Quartas-feiras Santas, e “bem mais tarde, à meia noite, realizava-se a Procissão do Fogaréu” (MONTEIRO, 1974, p. 38), na qual um “grupo de homens, archote aceso na mão, percorria, em passos acelerados, certa parte da cidade (Cf. BRITTO, 2008).
Após a teatral “entrega do Mestre à sanha dos inimigos” (LACERDA, 1977, p. 79), ficava cada vez mais próximo o desfecho das comemorações litúrgicas e para-litúrgicas de preparativos do Círio Pascal, em cujo interior o povo vilaboense desvelava mais uma trajetória devocional marcada como silêncio e a aproximação piedosa de cada expectador aos “martírios de Cristo” […] (PRADO, 2014, p. 20).
O Fogaréu é parte do acionamento do sagrado vilaboense, num ciclo imaginário delimitado pela tradição e pelos fazeres da Semana Santa. Seu potencial turístico vem da sua impressionante plástica dramática e dos detalhes apresentados. Uma discussão vem à tona, por ter sido uma tradição reinventada. Recriada no século XX, durante a época em que o centro histórico da cidade passava por um intenso movimento de tombamento e restauração, a ideia de se restaurar uma tradição como essa surgiu. O importante é se entender que essa plasticidade e dramaticidade não é nova, ao contrário, é fiel ao imaginário barroco do qual a ressuscitaram na década de 1960. O potencial turístico foi levado em consideração, uma vez que a patrimonialização da cidade também visava torná-la atrativa aos visitantes. Por causa disso, muitos agentes da cultura local, assim como moradores, de certa forma
admitem ser o Fogaréu uma espécie de espetáculo para os visitantes, parecendo que
foi inserido no contexto da religiosidade local como uma forma de complementar o espetáculo da Semana Santa emoldurado o patrimônio. Essa visão, no entanto, não corresponde ao que se tem descoberto: a Procissão do Fogaréu era realizada no passado, mesmo que com diferenças, tinha os mesmos elementos e objetivo. O que se pode notar é que o ethos da procissão difere daquele em que tinha quando ela desapareceu nas sombras do século XIX, hoje seu caráter espetacular e artístico parece predominar ao caráter espiritual sem, no entanto, se desvincular dele, sem sair
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dele, na verdade, mantendo na espiritualidade a raison d’être de tudo. Não se pode ter Fogaréu sem Semana Santa, aquela que não existiria sem a fé cristã. O Fogaréu não é mero espetáculo, mas uma reinvenção de memórias antigas e por isso tem o seu valor intrínseco, relacionado ao imaginário religioso vilaboense, não se caracteriza exatamente por ser invenção turística, e nem para turistas. Seu potencial turístico é explorado sim, mas foi feito por vilaboenses, a partir de sua história e é um memorial de suas tradições religiosas importantes.