TITRE III BIS BIS BIS BIS
Article 38 bis (nouveau) bis bis bis La seconde phrase du
II. – Alinéa sans modification
Referente ao tema relacionamento amoroso, encontrou-se, no contexto em que uma mulher e um homem são vizinhos e se envolvem amorosamente, ela é representada como audaciosa, com se pode verificar a partir do exemplo 53.
53
(1) Não se sabe (2) quem tomou a iniciativa, (2) se foi ela [[que sorriu de um jeito mais insinuante]] (3) ou se [foi] ele [[que acordou de manhã com o ímpeto de sair da rotina]], (4) apenas se sabe (5) que um dia pararam na calçada (6) para ir
além das duas vogais, (7) e ele teve a audácia de convidá-la para um café,
(8) e ela teve o desplante de aceitar. [C#7]
Nesse exemplo, as orações que evidenciam a representação de mulher como audaciosa integram o Fenômeno da oração mental (4) cujo processo é sabe. Na
oração 5, tanto a mulher quanto o homem desempenham função de Ator do processo material pararam, sugerindo a significação de que os dois agem da mesma forma, realizam o mesmo ato, demonstrando atenção um com o outro, culminando num diálogo com convite e aceite, representados nas orações (6), (7) e (8).
Nessas três orações, ambos os participantes do texto executam função de Dizente, pois, por meio de uma conversa, o homem demonstra seu interesse, e a mulher, diferentemente das situações anteriores em que é representada como descrente quando nem inicia um relacionamento e quando não acredita mais no amor, corresponde ao convite dele.
Tendo em vista as orações 7 e 8, ainda que ao homem tenha sido escolhido pela cronista o elemento léxico-gramatical audácia, à mulher há também uma representação de pessoa audaciosa, ousada, pois, na oração 8, tem-se a escolha lexical desplante que, segundo Ferreira (2009), significa, no sentido figurado, ousadia, audácia, atrevimento (p. 659). Sendo assim, de acordo com as escolhas léxico-gramaticais da cronista, tanto a mulher quanto o homem são representados como audaciosos. Ele porque, no primeiro contato, convida-a para um café, e ela porque aceita no primeiro convite.
É fundamental destacar que essa representação foi categorizada assim por três motivos. Primeiro, devido às escolhas lexicais que indicam o campo semântico da audácia e da ousadia, como o elemento linguístico desplante, por exemplo, que foi usado para caracterizar a atitude da mulher.
Segundo, porque foi possível comparar as atitudes da mulher representada como descrente com as atitudes da mulher representada como audaciosa. A partir dessa comparação, percebeu-se que a audácia está no simples fato de a mulher, no contexto em que se envolve com um vizinho, apresenta coragem de tentar um relacionamento amoroso, ao passo que a mulher jovem, que é representada como descrente, é tão insegura que não acredita que possa despertar o interesso do homem e muito menos é capaz de se envolver com ele.
Terceiro, porque são considerados os valores individuais apresentados pela autora, ou seja, a partir das escolhas linguísticas da cronista (as quais manifestam sua visão de mundo) que estabelecemos as categorias de representação. Destacamos isso, pois poderá surgir algum questionamento em relação à audácia, no sentido de que a mulher desse contexto é considerada audaciosa porque aceita sair com o homem no primeiro convite.
Atualmente, século XXI, pode haver algum estranhamento por considerar isso como audácia feminina. Entretanto, de acordo com as escolhas linguísticas e avaliações da cronista, aceitar prontamente a um primeiro convite masculino pode ser uma atitude audaciosa. Dessa forma, pela linguagem não só representamos nossas experiências de mundo, como também manifestamos nossa visão sobre ele.
Embora a temática abordada nas crônicas seja a mesma, o comportamento das mulheres são diferenciados, demonstrando uma característica da época contemporânea, em que as mulheres possuem liberdade de agirem conforme sua subjetividade, o que em épocas anteriores nem sempre acontecia. No período colonial, no Brasil, por exemplo, os valores eram patriarcais, isto é, em se tratando de assuntos familiares, esposa, filhos e parentes eram submissos ao chefe da família, o patriarca. A mulher deveria obedecer ao pai e, posteriormente, ao marido. Ela, inclusive, não possuía o direito de escolher um esposo, pois era totalmente subordinada ao patriarca da família. Nessa época, ―os projetos individuais e as manifestações de desejos e sentimentos particulares tinham pouco ou nenhum espaço quando o que importava era o grupo familiar e, dentro dele, a vontade de seu chefe‖ (SCOTT, 2012, p. 16).
Nesse sentido, pode-se perceber que os diferentes comportamentos dos indivíduos, sobretudo das mulheres, submeteram-se a grandes mudanças e se modificam até hoje. Paralelamente às atitudes e aos comportamentos, estão as consequências disso, as quais são abordadas nas crônicas de Martha Medeiros. Como já visto na crônica C#2, as mulheres descrentes em si, no sentido de que não acreditam na possibilidade de despertar o interesse do pretende, nem ao menos iniciam um envolvimento amoroso. Já as mulheres que sofreram desilusões amorosas, em vez de não acreditarem apenas nos homens que as decepcionaram, tornam-se descrentes no amor e nos demais homens a ponto de ficarem sozinhas, não se permitindo tentar outros relacionamentos.
A mulher audaciosa, por sua vez, age conforme seus desejos, aproveita as oportunidades que surgem desde o primeiro contato estabelecido com o pretendente, como o convite para um café, até o estabelecimento de um relacionamento amoroso, como mostra o exemplo 54 da mesma crônica.
54
(1) No dia seguinte ele telefonou (2) e comentou (3) que ela havia dado a ele a coragem [que faltava]. (4) O recado foi entendido, (5) e ela aceitou prontamente
um convite para jantar, (6) e desde então não pararam mais de se tocar e de se conhecer. [C#7]
Na oração 5, a mulher exerce função de Dizente do processo verbal aceitou, mas é por meio da circunstância de modo qualidade prontamente que se manifesta a representação da mulher como audaciosa, pois ela se mostra ousada, ao aceitar rapidamente o segundo convite para sair. A partir desse comportamento, tanto a mulher quanto o homem, na oração 6, desempenham função de Ator dos processos materiais pararam e tocar e função de Experienciador do processo mental conhecer, continuaram se encontrando e se envolvendo.
Quanto à opinião da cronista acerca dessa representação, pode-se perceber que há concordância à medida que ela considera positiva a atitude da mulher audaciosa, pois essa mulher teve coragem de atender aos seus desejos e tentou um envolvimento amoroso com o homem o qual admirava, conforme o exemplo 55.
55
(1) Não chegaram a viver (2) como vivem todos os casais, (3) mas também
nunca mais ficaram separados por uma janela, por uma rua, por um silêncio interrogativo, por uma possibilidade remota. (4) Havia acontecido. (5) Ela para
ele, nunca mais uma celebridade. (6) Ele para ela, nunca mais um homem comum. [C#7]
A autora dá ênfase ao fato de eles irem além da simples admiração secreta que sentiam um pelo outro. Isso está manifestado na oração 3, pelo uso da polaridade negativa nunca, do recurso de gradação mais e das circunstâncias de causa por uma janela, por uma rua, e por um silêncio interrogativo. A cronista se alinha à representação de mulher audaciosa, porque considera positiva, ainda que o relacionamento amoroso não se consolide, a iniciativa da mulher de aceitar os convites de seu pretendente, de maneira que, ao contrário da mulher descrente, a audaciosa tenta viver um grande amor.
O alinhamento da cronista, diante do comportamento da mulher audaciosa se dá quando, dentre uma gama de escolhas que a linguagem permite, ela escolhe apresentar, de forma ampliada, circunstâncias (por uma janela, por uma rua e por
um silêncio interrogativo) que indicam a quantidade de causas que poderiam ter atrapalhado ou impedido o casal de iniciar um envolvimento. Além disso, podemos considerar que essa apresentação ampliada de circunstâncias serve como recurso de argumentação, já que a autora enfatiza como barreiras as quais poderiam ter impedido o relacionamento amoroso e vê como positiva a iniciativa da mulher que tem ousadia de enfrentá-las, o que não acontece com a mulher descrente de si, pois essas circunstâncias poderiam ser, além da descrença, empecilhos para a experiência amorosa.
Em outras crônicas referentes ao tema relacionamento amoroso, encontrou- se, além das representações para mulher como descrente e audaciosa, a representação da mulher como uma pessoa exigente, apresentada na subseção seguinte.