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La chambre de recherche commune

2.2 Alimentation en fluides

Como exposto, acreditamos que as propriedades do jornalismo digital, especialmente a hipertextualidade e a multimidialidade, associadas a aspectos como a hierarquização de informações, constituem elementos capazes de apontar semelhanças e diferenças na estrutura da notícia digital na web e em dispositivos móveis. Aqui faremos uma breve discussão acerca dessas características, relacionando-as ao conceito de notícia e aos elementos considerados estruturais neste tipo de composição.

A falta de um objeto determinado, ou seja, algo que indique o que pode se tornar notícia ou não, faz com que não se consiga chegar a um conceito concreto, o que tem gerado diferentes abordagens entre os pesquisadores. De acordo com Jorge (2006), as notícias podem ser classificadas pela sua forma de apresentação, pelo conteúdo ou pela estrutura; podem ainda assumir papéis de produto, unidade discursiva, comunicação e informação ou simplesmente relato publicado. Segundo a autora, “os conceitos correntes costumam definir a notícia sob três pontos de vista: interesse, atualidade e verdade” (p.2), o primeiro enfatizando a recepção, o segundo a novidade e o terceiro a ausência de opiniões. Neste artigo adotaremos o conceito de notícia enquanto estrutura (Lage, 2005a, 2005b; Van Dijk, 2004), a partir do uso de hiperligações, da hierarquização de informações e da presença de conteúdo multimídia na mídia digital. Estas características estão relacionadas, respectivamente, aos conceitos de hipertextualidade enquanto recurso que possibilita a interconexão de textos ou blocos de informação e que, portanto, organiza a notícia através de links ou hiperligações (Palacios, 2003); à possibilidade de uma leitura multilinear possibilitada pelo hipertexto, que confere ao leitor certa liberdade no percurso de leitura e de onde provém o conceito de pirâmide deitada como reconfiguração (ou novo paradigma) para mídia digital do clássico modelo de pirâmide invertida de organização e hierarquização da informação no texto jornalístico; e da multimidialidade enquanto concentração e integração de diferentes formatos na notícia digital. No webjornal, as notícias estão disponíveis numa proposição multilinear por meio de células informativas, textos, sons ou imagens11,

conectadas por links (Salaverría, 1999).

O termo hipertexto foi criado por Ted Nelson em 1965 (Nielsen, 1995) e caracterizado como uma escritura não sequencial com blocos de textos conectados por nexos que podem dar origem a diferentes caminhos de leitura sendo, portanto, composto por lexias ou fragmentos de textos e de nexos eletrônicos que se conectam entre si. No entanto, segundo Masip, Micó & Teixeira (2010), “el paso al estudio sobre el hipertexto y la información periodística se produce al filo del cambio de siglo” (p.596), quando diversos autores buscaram explicar

as características da informação jornalística na internet. Bardoel e Deuze (2001) apontam a hipertextualidade como específica da natureza do jornalismo online, por meio da qual é possível oferecer informação para além da informação. Na definição de Landow (1995)

El hipertexto (…) implica un texto compuesto de fragmentos de texto-lo que Barthes denomina lexías- y los nexos electrónicos que los conectan entre sí. La expresión hipermedia simplemente extiende la noción de texto hipertextual al incluir información visual, sonora, animación y otras formas de información (…) si bien los hábitos de lectura convencionales siguen válidos dentro de cada lexía, una vez que se dejan atrás los oscuros límites de cualquier unidad de texto, entran en vigor nuevas reglas y experiencias (pp. 14-15).

Para Landow (1997), o conceito de hipertexto inclui essencialmente as variadas possibilidades de leitura por ele permitidas, ou seja, os nexos eletrônicos unem lexias externas e internas a uma obra (exploração do uso da hipertextualidade e da narrativa multisequencial do fato jornalístico), possibilitando ao leitor experimentar um texto multilinear ou multisequencial a partir de suas próprias escolhas, o que também está relacionado ao conceito de personalização (Palacios, 1999). Tratamos desta associação mais à frente quando abordamos os conceitos de pirâmide invertida e deitada, a hierarquização de informações e possibilidade de autonomia do leitor da notícia digital para definir seus próprios percursos de leitura.

As características fundamentais do hipertexto, segundo Díaz Noci (2001) são a organização modular e reticular do conteúdo, a presença de diversas tipologias de vínculos que conectam os módulos, a ausência de uma direção de leitura única e obrigatória e a interatividade, explicitada numa modalidade dupla de navegação e dialogismo.

Conforme ressalta Mielniczuk (2003), os caminhos oferecidos pelo hipertexto permitem que diferentes leitores, ainda que diante do mesmo hipertexto, tenham ao final lido textos distintos, o que contribui para o processo de personalização da notícia. A personalização neste aspecto refere-se, portanto, à configuração do

produto jornalístico de acordo com os interesses particulares do usuário, ou seja, a interação do leitor com a publicação onde este elege o seu próprio percurso de leitura, o que se dá por meio do hipertexto. Foge ao objetivo deste trabalho discutir os caminhos da leitura através do hipertexto. No entanto, baseado no exposto, Canavilhas (2001) afirma que a capacidade de conduzir a própria leitura leva o leitor a assumir um papel proativo na notícia ao estabelecer a sua própria pirâmide invertida e propõe o modelo de pirâmide deitada, interessante ao nosso estudo.

A pirâmide invertida, técnica clássica de redação jornalística, consiste na organização dos fatos principais no primeiro parágrafo, o lead, a partir do ponto mais relevante da informação. Aspectos da realidade são priorizados de acordo com critérios de noticiabilidade (ou valores-notícia), ou seja, critérios considerados relevantes para que uma ocorrência seja transformada em notícia e, inclusive, para organizar informações dentro da própria notícia12.

Dentro do vasto universo de ocorrências e fenômenos possíveis (com aspectos também variáveis), o jornalista não poderia em tão pouco tempo decidir particularmente sobre o que e como informar. A noticiabilidade é, portanto, segundo Wolf (2008), “constituída pelo complexo de requisitos que se exigem para os eventos – do ponto de vista da estrutura do trabalho nos aparatos informativos e do ponto de vista do profissionalismo dos jornalistas –, para adquirir a existência pública de notícia” (p.195), sendo os valores-notícia uma componente da noticiabilidade.

Para Wolf (2008), os valores-notícia principais seriam o interesse e a importância da notícia e a importância de um fato estaria ligada a quatro valores: grau e nível hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento noticiável, impacto sobre a nação e sobre o interesse nacional, quantidade de pessoas que o acontecimento (de fato ou potencialmente) envolve e a relevância do acontecimento em relação à provocação de novos acontecimentos. A imagem que o jornalista faz do público também figura para o autor como fator de relevância. Silva (2005) agrupa os critérios de noticiabilidade em três núcleos: na origem dos fatos (que corresponde aos valores-notícia propriamente ditos),

12) Erbolato (2002) afirma que o lead pode ser redigido a partir da valorização de cada um dos elementos da notícia: o que, o quando, o onde, o por que e o como.

na seleção hierárquica dos fatos (ou tratamento dos fatos) e na visão dos fatos (que envolve valores de objetividade e verdade, fundamentos éticos e interesse público). Assim, os critérios de noticiabilidade atuam durante todo o processo de produção da notícia, dentro e fora da redação, e pelo processo de hierarquização contribuem para a estruturação do texto jornalístico. Acredita-se que tais critérios perpassem o conceito de mídia por serem valores intrínsecos ao jornalismo.

Nesta pesquisa, tomaremos por base as definições e esquematizações acerca da estrutura da notícia propostas por Lage (2005a) e Van Dijk (2004), considerando as divergências e semelhanças entre ambos. Lage (2005a) elenca como itens básicos da estrutura da notícia o título (cuja função principal é chamar a atenção do leitor), o lead, o sublead, o corpo da matéria e os intertítulos. Para Van Dijk (2004), o título expressa a informação mais importante, pertinente ou surpreendente do relato da notícia; resume o sumário oferecido no lead13. O

jornalismo seria, portanto, caracterizado pela sumarização, tendo a manchete e o lead como elementos para expressão do tema exposto, principalmente nas chamadas hard news ou notícias de última hora.

O lead e o sublead correspondem, respectivamente, às respostas das questões quem (sujeito, personagem), o que (ocorrência), quando (tempo), por que (causa, motivo, finalidade), como (modo) e onde (lugar); e ao aprofundamento do próprio lead com um ordenamento da notícia. Os intertítulos facilitam a leitura e auxiliam na manutenção do interesse do leitor ao longo do texto através de palavras-chave (Lage, 2005).

Van Dijk (2004) define os seguintes elementos para a notícia: 1) a manchete, que abre o discurso, e o lead, que são os principais e expressam diretamente as macro proposições de nível mais alto do discurso noticioso e funcionam como um sumário do discurso da notícia; 2) as “reações verbais”, que dizem respeito às citações e declarações dos entrevistados ou fontes, nesta pesquisa entendidos também como indicador do nível de apuração da informação jornalística; 3) o “evento principal”, que apresenta a descrição das ocorrências que constituem

13) Lage (2005a) discorda que o lead é sempre o resumo de uma notícia como expõe van Dijk. Para ele, o lead-sumário, por exemplo, é utilizado no jornalismo impresso diário quando se acompanha um vento em um período de tempo definido, não havendo nenhum acontecimento mais importante que o outro. Ou seja, nem sempre a informação principal exposta no lead resume a matéria.

propriamente a notícia; 4) “as consequências”, que organizam as ocorrências descritas como causadas pelo evento principal; 5) “o comentário”, com conclusões, especulações e informações adicionais sobre os eventos14; 6) e o

“background”, que deve fornecer os contextos social, político e histórico ou a condição geral dos eventos. Pode ser do tipo histórico, quando organiza eventos do passado e do presente; tratar de eventos prévios, ou seja, que precedem o evento principal e é tomado como causa ou condição deste; e o contexto, que organiza a informação sobre a ocorrência noticiada, sendo o evento principal o elemento significativo.

As esquematizações para a estrutura noticiosa expostas partem da observação do texto no jornal impresso, no entanto, as categorias muitas vezes também estão presentes no jornalismo digital e podem ser associadas a conceitos como hipertextualidade, sendo o texto jornalístico organizado a partir de links no novo suporte, no qual o hipertexto permite diferentes caminhos de leitura e o espaço disponível na web é potencialmente infinito. Com base nessas premissas, Canavilhas (2007) sugere o conceito de pirâmide deitada na qual “é oferecida a possibilidade de seguir apenas um dos eixos de leitura ou navegar livremente dentro da notícia” (p.38) podendo o leitor abandonar a leitura a qualquer momento sem perder a informação essencial.

No modelo da pirâmide deitada a notícia evolui em níveis de leitura desde um primeiro nível com informações essenciais até um quarto nível com informações mais detalhadas, assemelhando-se ao perfil de uma pirâmide horizontal onde a base representa um volume maior de informação. Na acepção de Canavilhas (2007), “a quantidade (e variedade) de informação disponibilizada é variável de referência, com a notícia a desenvolver-se de um nível com menos informação para sucessivos níveis de informação mais aprofundados e variados sobre o tema em análise” (p.36). Estes níveis estariam assim definidos: a unidade base (lead, que deve responder o essencial: o que, quando, quem e onde), o nível de explicação (que complementa a informação essencial do lead e deve responder ao por que e ao como, complementando a informação essencial), o

14) Segundo Lage (2005a), esta categoria é rara no Brasil, ao contrário do que se observa na Europa.

nível de contextualização (mais informação em diferentes formatos) e o nível de exploração (com ligação ao arquivo da publicação e/ou arquivos externos15).

Em recente pesquisa Canavilhas e Santana (2011) discorrem sobre a evolução do jornalismo para plataformas móveis durante período de 2008 a 201116. Segundo os autores, o jornalismo para dispositivos móveis encontra-se

na “fase de emancipação” 17 caracterizada pelo desenvolvimento de aplicativos

específicos com “conteúdos informativos multimidiáticos, georeferenciados e abertos à colaboração dos usuários por meio de comentários ou envio de conteúdos” (p. 56).

Os resultados apontaram crescimento na oferta de sites e aplicativos mobile, mas com sutil inovação tecnológica, sendo a integração das mídias sociais e a consequente participação ativa dos usuários a novidade mais representativa. De acordo com os autores, os tablets são a segunda maior plataforma móvel da atualidade os quais, segundo Ahonen (2011) representam uma das tecnologias mais promissoras com investimentos advindos dos mais diversos setores, inclusive a comunicação.

Conceituando a plataforma como mídia móvel, Canavilhas e Santana (2011) reafirmam as mudanças nas rotinas jornalísticas e nas relações com o público ocasionadas pelo advento da nova tecnologia e apresentam seis características principais dos conteúdos jornalísticos produzidos para plataformas móveis a partir das características do webjornalismo: acessibilidade, instantaneidade, multimidialidade, hipertextualidade, interatividade e globalidade. Trataremos daqui pra frente da acessibilidade, hipertextualidade e globalidade, visto que as outras características remetem ao que foi exposto sobre as propriedades do jornalismo na web.

15) Palacios (2003) aponta como memória “a possibilidade de disponibilização online de toda informação anteriormente produzida e armazenada, através de arquivos digitais, com sistemas sofisticados de indexação e recuperação de informação” (p.25), possibilitada pela potencial ausência de limites físicos na web.

16) Os autores desenvolvem uma pesquisa que consiste no monitoramento de dez veículos de comunicação em diferentes países durante o período de 2008 a 2011, na qual eles buscaram analisar a evolução do jornalismo para dispositivos móveis.

17) Esta sucede à “fase de autonomia” (Canavilhas, 2009) caraterizada pela primeira oferta de notícias especificamente para telefones móveis, com conteúdos limitados a apenas uma coluna de texto com uma fotografia na parte superior.

A acessibilidade diz respeito à capacidade de informar todos os públicos ou, pelo menos, tornar acessível a informação ao maior número de pessoas possível a qualquer hora, de qualquer lugar a partir da exploração das potencialidades das novas tecnologias pelo veículo de comunicação. Este conceito tem a ver com o que se espera quanto à multimidialidade nos dispositivos móveis de acordo com Canavilhas e Santana (2011): enquanto no webjornalismo se aspira a “uma multimidialidade por integração, com conteúdos em funções complementares, no conteúdo móvel o ideal é um modelo acumulativo, com o mesmo conteúdo em diferentes formatos, adaptáveis a cada momento da recepção” (p. 65). Ou seja, aspira-se oferecer ao público diferenciadas formas de obter a informação (através de diferentes formatos) atendendo ao momento de recepção.

Por fim, a globalidade, que pode ser definida como propriedade de uma produção plural onde o público, as receitas e a inovação podem surgir em qualquer parte (Canavilhas e Santana, 2011, p.55). O conceito, difundido por Sirkin, Hemerling e Bhattacharya (2009), autores do Boston Consulting Group, parte da constatação de que a globalização entrou em uma nova fase, onde há uma remodelação na forma de fazer negócios. Como o subtítulo do livro “Como vencer num mundo em que se concorre com todos, por tudo e em toda parte” sugere, na era da globalidade as empresas desafiadoras18 estarão em constante

competição por tudo, por todos os recursos do planeta. A análise em relação aos dispositivos móveis levou em consideração se os veículos de comunicação estão criando conteúdos pensando num mundo onde a globalidade instaura uma nova realidade global dinâmica em que as fronteiras se diluem, e o público, as receitas e a inovação podem estar em toda parte.

A pesquisa de Canavilhas e Santana (2011) traz algumas constatações interessantes sobre a difusão jornalística nos dispositivos móveis, tais como a impopularidade dos blogs, a presença quase total da possibilidade de redistribuição de conteúdos para redes sociais, a também não popularização dos códigos QR (leitores automáticos de notícias) e o uso das bases de dados

18) De acordo com os autores (Sirkin, Hemerling e Bhattacharya, 2009), as empresas desafiadoras são as que crescem rápido, vorazmente, e que têm acesso a todos os mercados e recursos do mundo. Aos poucos elas começam a marcar presença por toda parte até atingir os mercados mais desenvolvidos do Japão, Europa ocidental e Estados Unidos, em um fluxo multidirecional.

facilitado pelo tamanho maior da tela e pelas melhores condições de navegação. Ao traçar este panorama e apontar resultados capazes de gerar novas aplicações e discussões quando tratamos de jornalismo para plataformas ou dispositivos móveis, a pesquisa contribui para o embasamento teórico e para a formulação de parâmetros metodológicos para a análise da estrutura da notícia proposta neste artigo.