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1.3 Syst` emes de planification de traitement

1.3.1 Algorithmes de Type ’a’

Conforme referimos ao longo da componente de fundamentação teórica, a compreensão da criança escolar acerca da doença acompanha a evolução do desenvolvimento cognitivo proposto por Piaget, pelo que, ao longo do período escolar, à medida que a idade avança (e com ela a maturidade), a criança irá tornar-se progressivamente mais capaz de controlar a sua ansiedade, o seu medo, e o seu comportamento em questões de saúde versus doença, admitindo- se que se torna também mais capaz de compreender informação complexa, sendo permeável a metodologias de distração, autoinstrução, esclarecimento, modelagem, reforço e contrato comportamental, condições fundamentais para o sucesso de qualquer programa infantil de preparação para a cirurgia.

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Sentimos necessidade de aprofundar o trabalho de Spielberger no âmbito da investigação da ansiedade e recorrer aos conceitos de Ansiedade-Estado e Ansiedade-Traço, essenciais neste estudo e subjacentes à avaliação do PIPCirurgia. Concluímos que as crianças são mais suscetíveis de efetuarem más adaptações e obterem resultados negativos em face das más-experiências hospitalares e cirúrgicas, especialmente devido à sua capacidade limitada em lidar com pensamentos abstratos, em gerir a ansiedade e o comportamento peri-operatória, e em mobilizar competências cognitivas e de confronto para enfrentar o medo e a ansiedade. Tendo em conta que criámos o PIPCirurgia com o objetivo geral de reduzir a ansiedade peri- operatória, formulámos as questões de investigação norteadoras desta investigação.

Inicialmente questionámo-nos sobre se a Ansiedade Infantil seria influenciada por variáveis sociodemográficas e por antecedentes prévios de saúde, razão pela qual definimos três questões de investigação:

i) Será que a ansiedade pré e pós-operatória da criança submetida a cirurgia eletiva com internamento programado depende de variáveis sociodemográficas da criança (sexo, idade, escolaridade e coabitação com irmãos)?

ii) Dependerá a ansiedade pré e pós-operatória da criança submetida a cirurgia eletiva com internamento programado da presença de antecedentes familiares de cirurgia e doença?

iii) Existirão modificações na ansiedade pré e pós-operatória da criança submetida a cirurgia eletiva com internamento programado relacionadas com variáveis parentais (idade, escolaridade e situação de emprego/desemprego)?

Estas três primeiras questões de investigação constituem o mote para o Estudo I: Ansiedade infantil e Caraterísticas Sociodemográficas, que será objeto de análise no capítulo V.

Posteriormente questionámo-nos sobre se o PIPCirurgia seria eficaz para reduzir a ansiedade da criança em contextos cirúrgicos, condição que a verificar-se, comprovaria a validade do programa por nós desenhado. Assim sendo, definimos a quarta questão de investigação: Será que o PIPCirurgia reduz os níveis de ansiedade peri-operatória da criança submetida a cirurgia eletiva com internamento programado?

Adicionalmente, queríamos também saber se o PIPCirurgia seria eficaz na redução das alterações comportamentais infantis após o regresso a casa, razão por que delineámos uma quinta questão: Será que o PIPCirurgia contribui para reduzir as alterações comportamentais

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negativas pós-hospitalares da criança submetida a cirurgia eletiva com internamento programado?

Estas duas últimas questões de investigação (Questão IV e Questão V) constituem o ponto de partida para o Estudo II: Efeitos do PIPCirurgia na redução da Ansiedade infantil e nas Alterações Comportamentais pós-hospitalização, conforme abordado no capítulo VI.

Ao longo dos capítulos V e VI explicitaremos, respetivamente, os objetivos e hipóteses dos estudos I e II, conforme veremos adiante.

Tendo em conta a pretensão em testar o PIPCirurgia enquanto programa de intervenção na ansiedade infantil em contexto cirúrgico, a nossa opção metodológica foi por uma investigação do tipo experimental, com desenho do tipo antes-após com grupo de testemunho (pré-teste e pós-teste) (cf. Bell, 1997; Fortin, 2000).

Os estudos experimentais adequam-se em domínios de investigação em que existem numerosos escritos disponíveis. Assentes num quadro teórico consistente, têm o objetivo de predizer, explicar e controlar relações causais, pelo que, e a exemplo do presente estudo empírico, o investigador introduz uma condição externa ao sistema e mede os efeitos dessa ação. A opção por um desenho experimental de investigação permitiu-nos estudar os efeitos da aplicação do PIPCirurgia, comparando as avaliações de Ansiedade Infantil efetuadas a quatro níveis: a) pré e pós-intervenção cirúrgica, e b) entre o grupo de crianças intervencionadas e o grupo não intervencionado, tal como alicerçado na bibliografia consultada (Bell, 1997; Fortin, 2000). Desta forma, a partir da Amostra Total (N=60) de participantes, foi necessário selecionar dois subgrupos/amostras, mais especificamente, o grupo experimental (N=30) e o grupo de controlo (N=30), sendo que apenas o grupo experimental foi submetido ao PIPCirurgia.

Fortin (2000) reforça que os estudos experimentais são ideais para avaliar a eficácia de uma intervenção ou de um programa educativo, como sucede na circunstância da nossa investigação empírica, onde em dois grupos de crianças – experimental e controlo – se estudou: a) a Ansiedade-Estado e Ansiedade-Traço, pré e pós-operatórias, e b) a presença de alterações comportamentais ao 15º dia pós-hospitalização.

A avaliação da ansiedade pré e pós-operatória permitiu-nos comparar os scores de Ansiedade-Estado e Ansiedade-Traço obtidos antes e após a aplicação do PIPCirurgia, tanto no grupo de controlo, como no grupo experimental.

Por sua vez, a avaliação das alterações comportamentais ao 15º dia após a alta hospitalar parece beneficiar da cessação de sintomatologia pós-operatória secundária à anestesia e cirurgia, nomeadamente, a presença de dor, de náuseas e vómitos (e.g. Gedaly-Duff & Ziebarth,

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1994; Reid et al., 1995; Amanor-Boadu & Soyannwo, 1997; Kotiniemi et al., 1997; Tuomilehto et al., 2002; Wilson & Hedgadottir, 2006), as quais contribuem para a recusa da criança em comer e beber, e para a presença de alterações do sono, cansaço e choro (Gedaly- Duff & Ziebarth, 1994; Reid et al., 1995). Tendo em conta que esta sintomatologia diminui significativamente a partir do 3º dia após a alta clínica (Gedaly-Duff & Ziebarth, 1994; Reid et al., 1995; Tuomilehto et al., 2002), e se apresenta praticamente inexistente ao fim de duas semanas, optou-se por efetuar a avaliação ao 15º dia após a alta clínica, e desta forma medir com maior precisão as alterações comportamentais decorrentes da experiência cirúrgica, e não secundárias a outros fatores estranhos.

Para atingir o nosso propósito, foram utilizados métodos de recolha de dados quantitativos, conforme preconizado na bibliografia consultada (Bell, 1997; Fortin, 2000). Por forma a recolher as informações que respondem às nossas questões de investigação recorremos a três instrumentos de medida, a saber: i) o Questionário de Caracterização Sociodemográfica, construído especificamente para este estudo com vista à caracterização das amostras; ii) o Inventário de Ansiedade Estado-Traço para Crianças, versão traduzida e validada do State- Trait Anxiety Inventory for Children, para medir a ansiedade infantil; e iii) o Post- Hospitalization Behavior Questionnaire, versão traduzida para a língua portuguesa e testada no âmbito deste estudo para medir as alterações comportamentais infantis pós-hospitalização.

A investigação foi realizada no HDESPDL e a recolha de dados decorreu durante cerca de seis meses. Conforme referimos anteriormente, da amostra total (N=60) distinguem-se duas subamostras/grupos, equitativamente distribuídas entre um grupo de controlo (N=30) e um grupo experimental (N=30).

A investigação operacionalizou-se através de 5 etapas, conforme se apresenta na Tabela 1. A primeira etapa (de preparação do estudo) serviu para explicitar os objetivos do estudo, solicitar a colaboração dos participantes, verificar os critérios de elegibilidade da amostra, e atribuir o grupo – experimental ou controlo – a cada caso. A segunda etapa permitiu a avaliação da Ansiedade-Estado pré-operatória (AEPréOp) e Ansiedade-Traço pré-operatória (ATPréOp) de todas as crianças da amostra geral. Na terceira etapa aplicou-se o PIPCirurgia às crianças e pais do grupo experimental. A quarta etapa serviu para avaliar a Ansiedade-Estado pós- operatória (AEPósOp) e a Ansiedade-Traço pós-operatória (ATPósOp) a todas as crianças da amostra geral. Na quinta, e última etapa, avaliou-se a presença de alterações comportamentais pós-hospitalização, adiante referenciadas como ACPósHosp.

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Tabela 1-As etapas de operacionalização do estudo empírico

Etapa 1 Etapa 2 Etapa 3 Etapa 4 Etapa 5

Designação Convocatória Pré-Operatória AEPréOp e Avaliação ATPréOp Preparação para a cirurgia Avaliação AEPósOp e ATPósOp Avaliação ACPósHosp Quando 2-3 Dias antes da cirurgia 2-3 Dias antes da

cirurgia 2-3 Dias antes da cirurgia 24-72 Horas após a cirurgia e antes da alta clínica 15º Dia após alta clínica Local Consulta Externa Pediatria Consulta Externa

Pediatria Consulta Externa Pediatria Serviço de Internamento Domicilio Procedimento Explicar objetivos, Solicitar participação, Verificar critérios de elegibilidade, Atribuir grupo Avaliação da AEPréOp e ATPréOp Aplicação do PIPCirurgia Avaliação da AEPósOp e ATPósOp Avaliação de ACPósHosp Instrumento Consentimento Informado, Questionário de caraterização SD da amostra, Critérios de elegibilidade da amostra

STAIC PIPCirurgia STAIC QCPH

Grupo Crianças do HDESPDL (6 a 11 anos) com cirurgia agendada Amostra (n=60) Grupo Experimental (n=30) Amostra (n=60) Amostra (n=60) Formato Entrevista presencial Entrevista presencial Entrevista presencial Entrevista presencial Telefonema de follow-up

Segundo Bell (1997), os estudos experimentais devem ser realizados em situações controladas, o que nem sempre é fácil em contextos clínicos, razão pela qual o autor recomenda o controlo sobre o maior número possível de variáveis. Por sua vez, Fortin (2000) refere que as variáveis são qualidades, propriedades ou caraterísticas de objetos, pessoas ou situações, que podem ser estudadas e manipuladas numa investigação, e que variam de tipologia entre independentes, dependentes, de atributo e estranhas, consoante a sua utilização. A variável independente corresponde ao fator manipulado durante um estudo experimental; a variável dependente corresponde ao objeto que sofre o efeito da variável independente; e as variáveis estranhas caraterizam-se por provocar efeitos inesperados e, potencialmente, enviesar resultados, no entanto, podem ser reconhecidas e controladas antecipadamente.

No contexto desta investigação, o PIPCirurgia constituiu a variável independente, enquanto a variável dependente correspondeu à Ansiedade-Estado pré e pós-operatória, à Ansiedade-Traço pré e pós-operatória, e ao comportamento infantil pós-hospitalar ao 15º dia após a alta clínica. Com o objetivo de controlar potenciais variáveis estranhas foram definidos

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critérios de elegibilidade do estudo, ou seja, critérios de inclusão/exclusão para selecionar, entre a população em causa, os 60 casos a incluir na amostra total.

Uma condição essencial para a prossecução desta investigação foi a verificação da equiparação, entre os dois grupos (controlo e experimental), dos scores de Ansiedade-Estado e Ansiedade-Traço pré operatórios. O mesmo é dizer que, no período pré-operatório, a ansiedade das crianças dos dois grupos, do ponto de vista do traço e estado de ansiedade, são estatisticamente equivalentes. Essa condição foi testada e confirmada no contexto da nossa investigação (cf. Ponto 4.2.2.3. – Verificação da equiparação de Ansiedade Infantil pré- operatória entre os grupos experimental e de controlo).