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Outils au service de l’optimisation d’assemblages

2.3 Algorithmes d’optimisation

O jornalismo está a perder a identidade. Esse processo, cujas raízes datam dos anos 80 do século passado, sofre, como veremos no próximo capítulo, uma profunda

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Essas zonas de resistência podem ser observadas, igualmente, na televisão portuguesa, com a audiência crescente dos produtos habitualmente classificados como jornalismo de referência: grandes reportagens de investigação e documentários.

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O texto de Peter Golding e Philip Elliot foi publicado pela primeira vez em 1979. A análise dos autores reflete, portanto, o período em que a televisão ainda não se transformara no principal agente do jornalismo de mercado, como haveria de acontecer na década seguinte. Essa análise coincide, aliás, com o momento em que as televisões começaram a assumir o entretenimento como valor notícia. Até então só a imprensa popular o adotara.

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acentuação quando as novas tecnologias se associam ao jornalismo, ou este aquelas. Se o jornalismo assentasse em bases sólidas, que não tivessem sido dinamitadas pelo mercado, os efeitos da Internet teriam contribuído para reforçar essas bases; aquilo a que ainda estamos a assistir é, ao invés, à caminhada em direção à volatilização do jornalismo.

O mercado abanou as bases sólidas do jornalismo. O edifício está a meio caminho do colapso. Mas a dimensão desse abalo, jamais teria assumido as proporções a que hoje assistimos, se esse outro elemento exterior, a tecnologia, não se tivesse associado ao campo da produção e emissão de notícias.

O satélite, o cabo, a televisão com informação 24 horas, a Internet, vieram ampliar a dimensão do problema de identidade do jornalismo. O jornalismo de mercado teve de adaptar-se, rapidamente, e sem bases sólidas, à formatação dos novos suportes.

Ou como refere Mark Deuze, “os novos meios aceleram, amplificam e, às vezes mutilam processos que já existiam no contexto mediático tradicional” (2006: 16 e 17).

A Era Desindustrial da Economia Global

O jornalismo, ao longo das épocas, sempre teve de se adaptar aos novos suportes tecnológicos que, fruto do processo criativo do homem, se iam destacando e impondo.

A capacidade criativa do homem está, contudo, associada às necessidades e às exigências da própria sociedade. Uma sociedade moldada pelos valores do mercado determina que os dispositivos tecnológicos ampliem esses valores. E os reflexos dessas criações na sociedade acabam por deixar marcas profundas.

Manuel Castells analisa o impacto do avanço do capitalismo na década de 80 do século passado, observando um processo de desindustrialização nos países da OCDE, sobretudo nos Estados Unidos da América e no Reino Unido; contudo, o resto do mundo assistiu ao movimento inverso: entre 1970 e 1989, os postos de trabalho na indústria cresceram 72 % (1996, 2009: 155). Dois universos distintos atravessados a meio pelo capitalismo, associado à evolução tecnológica. O capitalismo de base tecnológica promoveu a precariedade laboral:

“O desenvolvimento das empresas em rede da economia global (uma possibilidade da tecnologia) traduziu-se em reduções, subcontratações (onde o trabalhador perde regalias sociais e laborais), trabalho em rede, flexibilidade (...) individualização do trabalho (...)

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Cinquenta a 90 por cento dos novos postos de trabalho, alguns deles muito bem pagos, refletem esta matriz, assente nas relações laborais despadronizadas (idem, ibidem: 156).

O Lugar da Tecnologia no Jornalismo

A análise de Castells auxilia-nos a atribuir à tecnologia um peso social muito dependente do quadro de valores que molda cada época.

Ao analisar o papel do taylorismo (o mundo do trabalho – pessoas e máquinas – deve organizar-se de acordo com uma lógica científica, promotora da eficiência e do aumento da produção) no desenvolvimento das tecnologias da informação, João Pissarra Esteves discorre sobre o poder manipulador que estas permitem alcançar:

"O taylorismo (...) gigantesca operação de engenharia social (...) impôs sobre a totalidade do processo produtivo um controlo minucioso do saber e da informação, que está na génese do desenvolvimento das chamadas tecnologias da informação” (2003: 175).

O que corresponde à lógica desses suportes não é a essência científico- tecnológica, que lhes está intrinsecamente associada, mas sim a forma como esses dispositivos contribuem para, manipulando a informação que alimenta as relações de trabalho, aumentarem a eficácia produtiva.

A aplicação desse “entrelaçamento da informação e da tecnologia”, proposto pelo taylorismo, ao mercado do consumo, e já não apenas à produção, criou um potencial de regulação e de padronização de comportamentos. Os dispositivos tecnológicos, entretanto criados, contribuíram para o desenvolvimento do campo da manipulação comunicacional que, assente nas estratégias de marketing e de publicidade, permitiram “o estrito controlo instrumental sobre o consumo”, condicionando “os seus agentes, os consumidores” (idem, ibidem: 176).

Já na década de 80 do século passado, essa matriz de ação é conduzida ao extremo. Sobrepõe-se um amplo quadro de diretrizes, impostas pelo mercado, que a tecnologia amplia. Levy sintetiza de forma clara o verdadeiro papel social da tecnologia:

“Sendo portadora de cultura e valores, a tecnologia não determina uma praxis social, até porque não é uma entidade que age sobre o homem de forma autónoma. Uma vez inserida no quotidiano, a tecnologia condiciona e potencia mudanças” (apud Bianco, 2004: 2).

Betty Medgser avalia esse impacto amplificador da dimensão tecnológica no jornalismo, realçando, exatamente, que o jornalista deve controlar a tecnologia e utilizá- la, exclusivamente, na medida em que ela seja assumida como um elemento auxiliar,

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que contribua para melhorar a “substância da pesquisa, da apresentação e da distribuição dos conteúdos”:

"Observando as suas diversas formas, novas e poderosas ferramentas podem ser usadas para melhorar o jornalismo e não devem ser vistas como um elemento exterior incontrolável que determine o conteúdo do jornalismo, e que, apesar da distribuição

instantânea que possibilita, diminua ou erradique os valores que o moldam – justiça,

honestidade, precisão e integridade” (2000: 202).

A tecnologia atua mais sobre a forma do que sobre o conteúdo do jornalismo, mesmo quando a primeira tem naturais reflexos no segundo. Como já aqui assinalámos, o papel que o jornalismo cumpre na sociedade (suprir a necessidade de informação das pessoas com vista à sua formação individual e consequente participação na democracia) constitui-se como o cerne inegociável da sua missão; haverá jornalismo enquanto for possível preservar – envolto numa cápsula protetora – esse valor inalienável, que resiste às influências exteriores, incluindo as associadas à tecnologia, que afetam o campo jornalístico. A dimensão que está a deformar a essência do jornalismo, pondo em perigo o quadro de valores que o protegem, é, como aqui assinalámos, a dimensão económica.

A tecnologia (sempre assim foi, sempre assim será) terá, pois, inevitáveis efeitos indiretos no jornalismo. Afinal, o jornalismo só cumprirá o seu papel na sociedade se chegar às pessoas. E precisa de um suporte para tal. Mark Deuze destaca essa interdependência entre o jornalismo e a tecnologia, quando sublinha a “premissa básica” do jornalismo: “a transmissão básica e percetível de informação” (2006: 17).

As origens do jornalismo estão, aliás, associadas ao suporte tecnológico que permitiu a difusão da informação. Esse suporte tecnológico permitiu a criação de laços simbólicos entre públicos fisicamente afastados. Como assinala João Pissarra Esteves, associados à imprensa, o telégrafo e o comboio possibilitaram a criação de “fluxos de comunicação na sociedade” que proporcionaram “uma troca de informações muito mais sistemática e fluida” que rompeu as barreiras físicas, permitindo essa união simbólica de públicos de discussão com interesses semelhantes (2003: 27 e 28).

Ao longo das épocas, diversas plataformas tecnológicas, desde a máquina de impressão ao telégrafo, passando pela rádio, pela televisão, pelo satélite, pelo cabo, pelas plataformas multimedia digitais, têm permitido o cumprimento dessa premissa da distribuição de informação que sacia a fome que todos temos de notícias.

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Novas Tecnologias Apressam Diluição das Fronteiras Protetoras do Jornalismo

Érick Neveu considera que a interdependência entre o jornalismo e as novas tecnologias, sobretudo a chegada do multimedia, “redefiniu as competências profissionais”, ameaçando produzir efeitos decisivos no devir do jornalismo. Sem bases sólidas, mais preocupado com as receitas do que com a missão original, o jornalismo corre o risco de se “banalizar (...) num continuum das profissões da comunicação” (2001: 115).

José Luís Garcia e Pedro Alcântara da Silva entendem que os efeitos da tecnologia na diluição das fronteiras do jornalismo é de âmbito mais geral, anterior, portanto, à inter-relação do jornalismo com as novas tecnologias digitais:

"A eletrónica, a informática, a fibra ótica, as redes, o cabo, os satélites, entre outro fatores, contribuem para alterar os (...) parâmetros da identidade profissional. Nas redações, os jornalistas passam a trabalhar com outros profissionais (publicitários, designers, tecnólogos e peritos do sistema de informação em rede), sem que as fronteiras que antes os separavam, físicas e simbólicas, se estejam a conseguir impor" (2009: 134).

O processo de diluição das fronteiras do jornalismo deve ser buscado no momento em que o jornalismo de mercado se impõe como bastião. Um recuo ao século XIX, quando a yellow press promove a ampliação dos factos dramáticos em nome, já nessa época, da maximização de audiências, ajudar-nos-á a encontrar o ponto de impacto. Eleger o sensacionalismo valor notícia é, desde logo, um desvirtuamento da própria ação profissional e dos princípios que lhe estão associados. Desde a sua génese, a ação quotidiana exige profissionais divididos entre o público e o lucro, entre o jornalismo e o marketing que torna as notícias atrativas.

Bill Kovach e Tom Rosenstiel entendem que o jornalismo só conseguirá escapar dessa “ameaça de poder ser submergido pelo mundo da retórica comercial" se os jornalistas “manifestarem um cada vez maior entendimento e compreensão” relativamente aos elementos (valores) que enquadram o jornalismo, a única marca distintiva da profissão (2007: 254). Essa tarefa, contudo, depende, como vimos, cada vez menos dos jornalistas.

O Potencial Tecnológico

A terceira geração do jornalismo, de que nos falavam Jean Charron e Jean Bonville, ou o novo paradigma, como aqui o classificámos, é fruto da contaminação do

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jornalismo pela lógica do mercado, mas as proporções que o fenómeno atingiu ficam, de facto, a dever-se às novas tecnologias.

Cada novo dispositivo tecnológico associado ao jornalismo tem efeitos significativos na receção: aumenta a rapidez, a clareza, baixa os custos da produção e distribuição de conteúdos, sobretudo a partir do momento em que a utilização desses novos meios se generaliza. A tecnologia cria novos meios e promove alterações na operatividade dos tradicionais:

“É hoje muito mais barato ser jornalista do que era há cinco ou dez anos. Com um telefone móvel, uma câmara portátil e um computador com Internet, os jornalistas tornaram-se muito mais produtivos (...) A ITN britânica reduziu os custos fixos em 40 por cento, cortando no número de profissionais (...) Os media tradicionais são hoje tecnologicamente mais sofisticados, mas os custos diminuíram graças à tecnologia” (Beckett, 2008: 12 e 13).

Avaliaremos, no próximo capítulo, os efeitos que os cortes, e a acumulação de funções potenciados pela tecnologia, tiveram na qualidade do jornalismo.

A mobilidade tecnológica, associada à ação jornalística, altera os ritmos de produção da informação e esbate as fronteiras temporais entre a recolha/seleção e a emissão. Os meios audiovisuais tradicionais passaram a apostar nos diretos:

“A possibilidade técnica de uma informação em tempo real contribui para uma forma de redefinição de notícia, doravante associada ao direto, aferida pelo seu poder de colocar o público a partilhar uma ação, se possível emocional (...) enquanto ela se desenrola” (Neveu, 2001: 122).

A informação 24 horas, com diretos do mundo inteiro, e a chegar por cabo a casa de cada um, impõe, pois, uma nova cultura informativa, a cultura da velocidade informativa, com reflexos negativos assinaláveis na qualidade do jornalismo. A CNN assume-se como a estação televisiva promotora dessa nova cultura. A explosão da marca CNN ficou a dever-se, exatamente, à adaptação da tecnologia à informação televisiva67.

Ignacio Ramonet chama a essa velocidade tecnológica da informação televisiva a televisiofonia (a televisão adquire capacidades tecnológicas que anteriormente eram marca distintiva exclusiva da rádio) que, apostando “no fascínio pelo direto”,está a aprisionar o jornalista e o jornalismo, limitando a ação profissional no terreno: os correspondentes são obrigados a permanecer perto das antenas móveis, e impedidos de procurar informações (1999: 32 e 33).

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A CNN, no ar, em direto, 1440 minutos por dia, precisa de preencher esse espaço, “o que significa que há menos

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Bonnie Anderson considera que esta tendência adquire contornos relevantes na cobertura de acontecimentos, a que a agenda dos media aplica o rótulo de acontecimentos de interesse global:

"O correspondente é literalmente arrastado para um microfone e uma câmara, permanentemente em direto, para satisfazer o apetite de programas de informação que se sucedem uns atrás dos outros. Como resultado, o repórter fica sem possibilidade de cumprir a sua função, fazer reportagem, entrevistar os protagonistas do acontecimento, fazer telefonemas, recolher informação ou, até, de se aproximar fisicamente do local onde a ação decorre (...) Os repórteres ficam obrigados a repetir a mesma informação, ainda que de forma diferente” (2004: 31).

A nova cultura informativa força a adoção de uma lógica que abala, ainda mais, o edifício do jornalismo: publicar, emitir primeiro, verificar depois. A concorrência força o surgimento constante de factos novos, e as preocupações jornalísticas de verificação começam a passar para segundo plano. A mediação jornalística, entre o acesso/recolha/seleção da informação e a respetiva publicação vai- se perdendo.

As fontes com interesses determinados, conscientes desses efeitos da associação entre a tecnologia e o jornalismo, começam a aperceber-se que basta afirmarem, serem assertivas, para que a informação que querem veicular seja difundida. A possibilidade de não existirem os filtros da verificação passou a ser muito elevada. A informação é contaminada: “O boato, o rumor, as alegações, as acusações, as suposições, as hipóteses passam para a audiência diretamente” (Kovach e Rosenstiel, 2010:38-40).

A tecnologia tem o poder de aproximar, muito mais rapidamente, os cidadãos das notícias que alimentam a fome informativa de cada um de nós. Esse alimento contribui, decisivamente, para a formação individual e constitui-se pilar na defesa e consolidação de uma sociedade democrática. A associação da tecnologia ao jornalismo, num ambiente social moldado pela lógica do mercado, proporcionou, como assinalámos, a ampliação dos efeitos negativos registados pela contaminação desse ambiente. Ao longo das épocas, a tecnologia tornou a informação mais acessível, mas não necessariamente mais fiável.

Philip Meyer atribui às novas tecnologias a responsabilidade pelas sucessivas ruturas nos modelos de negócio associados às notícias. De facto, o que torna imperscrutável o futuro é esse peso que as novas tecnologias têm na “forma inesperada” com que impõem alterações nas fórmulas de sucesso. E “o passado nem sempre serve

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de prólogo” (2004: 1 e 2), tornando invisíveis, ou pelo menos, inalcançáveis com a rapidez que seria desejável, novas receitas de sucesso. A associação da Internet ao jornalismo veio complexificar essa dificuldade de planear:

“O negócio das notícias, com a ênfase colocada na tecnologia mais recente, torna o planeamento a longo prazo muito difícil (...) O potencial da Internet é imenso e através dele podemos ter desempenhos maravilhosos. Perceber como tornar esse potencial lucrativo exige uma longa série de experiências, de erros, mas exige, igualmente, empresas com capacidade de resistência ao fracasso” (idem, ibidem: 78, 218).

O contexto económico acentua a fragilidade desses processos: receitas insuficientemente testadas, determinam longos processos de adaptação, que abrem espaço a um loop negativo: quanto maior a fragilidade económica, mais difíceis se tornam os processos de adaptação dos meios tradicionais.

A interligação entre a tecnologia e o jornalismo deve motivar uma área académica de ensino e de estudo nos cursos de comunicação/jornalismo. Cabe à academia esse papel determinante na descodificação dos efeitos das variáveis que influenciam o jornalismo, antecipando-os, se possível, de forma a limitar o seu impacto quando, por fim, esses efeitos se impuserem; mas, também, refletindo sobre os modelos de entrecruzamento do jornalismo com as mutações que essas variáveis suscitam, com o propósito claro de preservar a missão e os valores do jornalismo.

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CAPÍTULO 3

OS EFEITOS DA INTERNET NO JORNALISMO