• Aucun résultat trouvé

Alice Mattoni (2013), ao trabalhar a ideia de repertório – que é muito próxima à de cultura de Kavada (2013) – defende que são as práticas comunicacionais que sustentam as interações dos movimentos sociais internamente e com outros atores. Esse pensamento dá base para que essas práticas funcionem como ferramenta analítica não somente de processos de mediação, mas também de processos dos movimentos sociais em geral (MATTONI, 2013, p. 52). Como as práticas

organizações e coletivos. Esse contato se deu em dois momentos. Em setembro e outubro de 2013, na fase de aprimoramento do projeto de pesquisa, tive a valiosa ajuda de Prof. Amilcar Araujo Pereira, Profa. Juliana Santos Botelho, Prof. Petrônio Domingues, Prof. Marcus Vinícius P. Gomes, Flávio Jorge, Angélica Basthi e Edson Lopes Cardoso. As conversas presenciais ou via Skype e os e-mails trocados nesse período foram fundamentais para que eu entendesse melhor os movimentos sociais negros e sua comunicação. Ao compartilharem importantes documentos, experiências, contatos e referências bibliográficas, essas pessoas foram essenciais para a escolha do corpus e para a construção dessa tese. Também foram de fundamental importância as trocas de e-mails, em outubro de 2014, com os pesquisadores citados acima e com os seguintes pesquisadores, jornalistas e ativistas: Antonio Costa Neto, Carlos Medeiros, Dojival Vieira, Humberto Adami, Marcos Cardoso, Victor Tamm e Zilda Martins. Essas trocas de e-mails em outubro de 2014 proporcionaram dicas valiosas sobre os movimentos sociais negros e sobre documentos, listas de e- mails e outros espaços de discussão usados pelos MSNs nos últimos anos. Faço um agradecimento especial ao jornalista Flávio Carrança, que, em inúmeros momentos dos quatro anos de pesquisa, compartilhou experiências e respondeu dúvidas por e-mail, Skype ou pessoalmente na cidade de São Paulo.

16

Não há pesquisa específica sobre o número e a natureza dessas experiências. O surgimento desses blogs e sites foi observado no breve levantado explicado acima.

comunicacionais estão relacionadas às escolhas e às práticas políticas, acredito que elas podem ser utilizadas para compreender o processo de representação que os movimentos sociais desenvolvem.

Essa proposta se justifica em dois pontos. Primeiro, a representação é um processo contínuo de construção, recebimento, aceitação e rejeição de demandas (SAWARD, 2009, 2010) e isso só se dá prioritariamente de maneira discursiva, onde a comunicação mediada ou não mediada tem papel fundamental. Segundo, considera-se o arcabouço teórico deliberativo deste trabalho. Movimentos sociais e suas culturas de comunicação ajudam a tornar a comunicação pública mais diversa, ao ampliarem o leque de temas, argumentos e experiências e, assim, contribuírem com a diversidade de perspectivas, cara à democracia deliberativa (BOHMAN, 2007, p. 348-51).

Por isso, defendo que abordagens como a desenvolvida por Kavada (2013) são indicadas para analisar a comunicação de um movimento social como representante político não eleitoral. Ao trabalhar de forma ampliada e comparativamente vários tipos de culturas, a abordagem não encara a comunicação como algo isolado e arbitrariamente construído, além de respeitar a diversidade de movimentos heterogêneos, incluindo a pluralidade de atores. Além do mais, essa é uma forma de seguir uma direção apontada pelos trabalhos já desenvolvidos sobre a comunicação dos movimentos negros: a necessidade de alternativas que “possibilitem a produção de conhecimentos críticos específicos sobre os usos das tecnologias da comunicação” por parte dessa parcela da população (COGO; MACHADO, 2010, p. 14).

No caso da representação política, essa análise de culturas serve de base para a caracterização de atores. Mas não é suficiente. São preciso abordagens que também analisem diretamente e com detalhes as características discursivas do processo representativo, especificamente a parte que acontece nas experiências online dos movimentos sociais. Unir as características dos movimentos sociais e a forma como eles exercem a representação discursiva (DRYZEK; NIEMEYER, 2008) é o próximo desafio.

***

O segundo capítulo abordou o papel da comunicação nos movimentos sociais e trouxe como exemplo a história do objeto da tese: os movimentos sociais negros brasileiros em sua fase contemporânea. A partir de uma perspectiva discursiva e deliberacionista, foram defendidas a capacidade e a necessidade de os movimentos ampliarem estruturas comunicativas para a construção de debates internos e externos. O capítulo destacou então a pluralidade de atores e de dinâmicas comunicacionais dos movimentos e relacionou-as à pluralidade de concepções democráticas que compõem os movimentos contemporâneos. Nessa perspectiva, a comunicação online foi apresentada como parte de um conjunto de ambientes comunicacionais, que também

estão relacionados a escolhas de modelos democráticos.

A ideia de “culturas” dos movimentos sociais – culturas de estratégia, organização, tomada de decisão, comunicação online (KAVADA, 2013) – foi o caminho apontado para compreender como os distintos modelos de comunicação e de democracia afetam as experiências de comunicação online de diferentes atores. O capítulo trouxe a trajetória comunicacional dos MSNs, relacionando-a, mesmo que brevemente, aos modelos de organização e interação política desenvolvidos nas últimas décadas. Destacou-se então como as estratégias comunicacionais foram sempre caminhos para organização política, construção de demandas e defesa de direitos. O segundo capítulo da tese terminou com apontamentos sobre como a noção de culturas de movimentos sociais pode servir como um pano de fundo para se entender o processo de representação política não eleitoral. Isso porque reconhece a existência e a importância de distintos atores, inclusive ativistas individuais e grupos informais, e é útil para categorizá-los.

O capítulo seguinte abordará a metodologia da tese, que propõe não apenas categorizar os diferentes atores dos movimentos negros, mas também analisar diretamente as características discursivas do processo representativo, especificamente aquelas que se dão nas experiências online dos movimentos sociais.

3 METODOLOGIA. PARA OPERACIONALIZAR O DIÁLOGO ENTRE O

PRAGMATISMO E A ÉTICA DISCURSIVA

É a partir da comunicação online desenvolvida pelos movimentos sociais negros no Brasil que este trabalho pretende caracterizar como um movimento social se apresenta como representante político não eleitoral e vocaliza demandas de representação. Para isso, apresento neste capítulo uma tentativa de atender ao desafio colocado por Urbinati e Warren (2008, p. 399) acerca das formas de representação: desenvolver novas ferramentas e análises críticas sensíveis para as novas formas de influência política e de poder. O capítulo também é uma tentativa de seguir uma direção apontada pelos trabalhos já desenvolvidos sobre a comunicação dos movimentos negros: a necessidade de alternativas que “possibilitem a produção de conhecimentos críticos específicos sobre os usos das tecnologias da comunicação” (COGO; MACHADO, 2010, p. 14). Assim, dialogando com os capítulos 1 e 2, a metodologia proposta (1) parte do caráter processual e discursivo da representação política e que por isso tem forte interface com a democracia deliberativa, e (2) reconhece a pluralidade de um movimento social, no tocante a seus atores e suas culturas democráticas e de comunicação. Ademais, a metodologia desenhada se aproxima de uma base conceitual sistêmica em suas premissas já que procura dar conta da pluralidade do processo da representação e do movimento social em si.

Na primeira seção do capítulo, apresento os critérios para a escolha do material – experiências de comunicação online de atores dos MSNs – e os procedimentos de coleta. Em seguida, explico a primeira etapa da análise, a caracterização dos atores e de suas experiências de comunicação. Seguindo o exposto no Capítulo 2, essa etapa tem como premissa que a comunicação – online ou não – de um movimento não é unificada, assim como os atores que o compõem e as suas culturas também não são iguais (DELLA PORTA; MOSCA, 2009; DELLA PORTA, 2011; MATTONI, 2013; KAVADA, 2013). Na terceira e quarta seções, mostro uma tentativa de operacionalizar o diálogo feito no Capítulo 1 entre o pragmatismo de Michael Saward e a ética discursiva de Habermas (URBINATI; WARREN, 2008; DRYZEK; NIEMEYER, 2008; BOHMAN, 2012; MAIA, 2012b; ALMEIDA, 2013, 2014). Para isso, dialogo com duas propostas metodológicas – uma que dialoga diretamente com teoria da representação discursiva (KOOPMANS; STATHAM, 1999, 2009) e outra de bagagem deliberacionista, o Discourse Quality Index (DQI) (STEINER et al, 2004; STEINER, 2012; STEENBERGEN et al, 2013). Ressalto que não busco deliberação, mas sim aferir a qualidade discursiva das experiências de comunicação online dos movimentos negros. Até porque as dinâmicas comunicacionais, inclusive aquelas online, não necessariamente atingem todos os ideais do processo deliberativo, ficando esses ideais principalmente em um horizonte normativo (MAIA, 2007; MAIA ET AL, 2015). Por fim, na quinta seção, apresento como se dará a análise comparativa da tese. Ao considerar a existência de diversas atividades, esferas, momentos

e oportunidades (BOHMAN, 2012; ALMEIDA, 2013), uma abordagem conceitual sistêmica é útil também para entender como funcionam e se relacionam as várias formas de representação e demandas representativas.

Documents relatifs